Quando Jeremy Rifkin publicou The End of Work em 1995, o mundo vivia a euforia da globalização e a infância da internet. A sua tese foi recebida com o cepticismo paternalista reservado aos profetas da desgraça: a promessa da tecnologia, diziam as elites, seria sempre a de libertar o homem do esforço mecânico para o elevar a funções mais nobres. Três décadas depois, a poeira do optimismo assentou, e o que encontramos não é a alvorada de uma era de emancipação, mas sim a confirmação fria do diagnóstico de Rifkin. A automação galopante, a inteligência artificial e a eficiência algorítmica corporativa inauguraram a era da destruição líquida de postos de trabalho, onde a tecnologia já não substitui apenas a força muscular, mas também a própria capacidade cognitiva humana.
O grande drama que Rifkin antecipou, e que hoje se tornou a realidade incontornável da economia global, é que o capitalismo moderno atingiu um ponto de viragem histórico: já não precisa de pleno emprego para produzir riqueza. Pela primeira vez na história da humanidade, caminhamos para uma sociedade altamente produtiva que dispensa quase por completo o factor trabalho. A questão que assombra os corredores do poder político e financeiro já não é como integrar os seres humanos no tecido produtivo, ma sim como gerir uma massa populacional que se tornou, para todos os efeitos económicos, absolutamente redundante.
O esvaziamento do trabalho não é apenas uma crise económica; é uma amputação espiritual. Durante séculos, o trabalho foi a âncora que conferia dignidade, propósito e estrutura à vida humana e à organização das comunidades. Retirada essa âncora o que resta à população? Para evitar o colapso social e as revoltas que a escassez e o vazio existencial provocariam, as agendas tecnocráticas desenharam um novo modelo de contenção. A solução já não passa por reabilitar ou educar as massas para uma economia que não tem espaço para elas, mas sim implementar uma ração de subsistência - sob a forma de subsídios estatais permanentes - acoplada a uma oferta de ócio barato, anestesia digital e o "Soma" (*) das substâncias recreativas que inundam as esquinas. O entretenimento fútil, o fluxo infinito de imagens nos ecrãs e a névoa química quotidiana operam como o calmante perfeito para um rebanho humano que aceita a sua irrelevância em troca de uma sobrevivência minimamente confortável.
O drama específico de Portugal é que, perante esta agenda global de submissão financeira e social, os cidadãos encontram-se totalmente indefesos devido à própria arquitetura da Constituição de 1976. Sem círculos uninominais e sem órgãos independentes que travem o centralismo estatal, o regime português transforma-se numa autêntica ditadura dos medíocres, permeável a qualquer agenda transnacional. Quando Bruxelas ou os bancos centrais decidirem acelerar o Euro Digital, a transição forçada da farsa verde ou a distribuição da Renda Básica de Controlo, não haverá em Portugal um tribunal independente ou um Parlamento soberano com força constitucional para resistir. A blindagem partidária da nossa Constituição garante que os peões no poder assinem, sem pestanejar, a certidão de óbito da nossa soberania nacional e individual.
Teresa Silva
(*) Aldous Huxley in "Admirável Mundo Novo"
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