Não há nada mais próprio do nosso tempo do que a insolência de nos tratarem como crianças assustadas, fechadas num quarto escuro onde os adultos projetam sombras terríveis na parede. Vivemos sob o jugo de uma pedagogia incessante e uniformizada, uma espécie de catequese laica que repete, com a insistência monocórdica dos antigos pregoeiros, verdades que não admitem réplica. Dizem-nos, com uma gravidade dominical, que os combustíveis fósseis são a própria encarnação do mal, que o dióxido de carbono — esse gás invisível que alimenta as plantas e que nós próprios expiramos em cada segundo de hesitação — é um veneno absoluto, e que a energia nuclear é uma roleta russa permanente que devia ser banida da memória dos homens.
Toda esta narrativa oficial, difundida com o zelo de quem possui o monopólio da virtude, assenta numa premissa ainda mais perversa: a da escassez. Há anos que nos preparam psicologicamente para a ruptura, que nos ameaçam com o espectro dos apagões e do racionamento, obrigando-nos a olhar para o interruptor da luz com a culpa de quem comete um pecado venial. É uma farsa magistral. Qualquer observador minimamente atento, livre do contágio do pânico consensual, percebe que o mundo não padece de uma falta de energia, mas sim de uma saturação. O que há é um excesso de produção e, acima de tudo, uma obsessão pelo controlo dos canais de distribuição. Ameaça-se com a escuridão não porque falte a matéria-prima, mas porque o medo é o método mais eficaz para ditar o preço da dependência.
Neste grande teatro de sombras, a história oficial gosta de esquecer as suas próprias ramificações incómodas. Quase ninguém se atreve a pronunciar hoje o nome de Nikola Tesla sem o remeter para a excentricidade dos manuais de curiosidades ou para a marca de automóveis que se apropriou do seu apelido. No entanto, foi ele quem vislumbrou a possibilidade de uma energia livre, captada diretamente do magnetismo e da atmosfera terrestre, transmitida sem fios e sem portagens. Aquela ideia — a de uma energia abundante, gratuita e inacessível ao fisco — era o pior pesadelo dos barões do petróleo e dos oligopólios que começavam a desenhar o século XX. Por isso, a promessa da energia livre foi diligentemente apagada do mapa, soterrada sob patentes compradas e silêncios cirúrgicos.
O que nos resta, portanto, é esta programação quotidiana. Aceitamos a tese da nossa própria debilidade e pagamos faturas cada vez mais altas por uma energia que, na verdade, nos rodeia em abundância. Rimo-nos dos teóricos da conspiração para não termos de admitir que a maior de todas as conspirações é a própria realidade que aceitamos sem protesto: a de que o progresso humano deve ser sempre vigiado, racionado e, acima de tudo, faturado.
Teresa Silva

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