Observo a sucessão de alertas que irrompe pelo monitor da minha secretária com o distanciamento irónico de quem assiste, pela centésima vez, aos truques previsíveis de um ilusionista de feira. Nas últimas semanas, o caudal informativo transformou-se numa sucessão frenética de alarmes: ciberataques que paralisam instituições bancárias, ameaças de bomba que desviam aviões em pleno voo e, a coroar o cenário, diretivas cirúrgicas vindas de Bruxelas e de várias capitais europeias. O conselho, partilhado com uma solenidade quase eclesiástica, é de que cada cidadão deve ter em casa um kit de emergência preparado para resistir durante 72 horas.
A escolha precisa deste hiato temporal — as misteriosas 72 horas — não é um detalhe logístico inocente. No jargão da gestão de crises e da psicologia de massas, três dias é o período exato em que a infraestrutura do Estado confessa a sua incapacidade de resposta imediata, mas é também o tempo necessário para que o pânico individual se transforme em submissão coletiva. Setenta e duas horas é o compasso de espera em que o cidadão, privado da ilusão de segurança que o banco ou a rede elétrica lhe davam, se sente mais desamparado, mais frágil e, portanto, mais receptivo a qualquer solução que venha de cima. É o intervalo perfeito para que a angústia amadureça.
O observador imune à propaganda percebe que esta sucessão de sobressaltos não é um acidente histórico, mas uma aplicação requintada de engenharia social. A técnica da indução do medo perpétuo funciona como um anestesiante biológico. Lembramo-nos, inevitavelmente, daquela lucidez feroz com que Juan Manuel de Prada dissecou o fenómeno nos tempos da pandemia, quando uma população inteira foi levada a executar exatamente o que as instâncias de poder decretavam. Prada expôs a perversão oculta desse mecanismo: o medo não se limita a paralisar; ele recruta voluntários. Sob o pretexto de uma ameaça invisível, o vizinho transformou-se no guarda do vizinho, o cidadão comum assumiu as vestes de um polícia informal e zeloso para punir quem ousasse não obedecer. O rebanho apavorado não só aceita a perda de liberdades, como passa a exigir o castigo dos dissidentes.
Toda esta coreografia do caos serve um propósito antigo que a história teima em repetir sob novas roupagens. Cria-se o problema, tolera-se ou fomenta-se a instabilidade, para que a própria população clame pela intervenção de uma autoridade maior que devolva a ordem. A nova ordem que se desenha nos gabinetes burocráticos não se impõe através da força das armas, mas pela rendição psicológica dos governados e pela sua cumplicidade vigilante. Aceitamos a monitorização omnipresente, a digitalização absoluta da moeda e o controlo das nossas rotinas com a docilidade de quem agradece a salvação. No fundo, os kits de emergência que nos mandam preparar não servem apenas para guardar comida; servem para nos habituar à ideia de que o amanhã será inevitavelmente precário e vigiado, convencendo-nos de que a escuridão é a única realidade possível.
Teresa Silva

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