Do meu Diário
Dia 21: Estigmergia
A estigmergia (conceito do zoólogo Pierre-Paul Grassé) consiste numa influência do comportamento de um animal em outro que resulta num efeito de grupo que produz uma função não planeada pelos indivíduos. O exemplo clássico é o cheiro deixado por uma formiga que vai e vem para uma fonte de alimento, e que influencia outras formigas, formando-se um carreiro. Mas é também esse processo que leva à formação de termiteiras e formigueiros: sinais deixados por um animal que levam à repetição do comportamento por outros animais.
Assim emergem grandes estruturas — uma termiteira, um formigueiro, são de uma complexidade impressionante — sem que haja, em cada um dos insectos —nem tampouco na «rainha»—, qualquer plano sobre como essa estrutura deve ser.
O processo não é completamente diferente do que ocorre no nosso corpo: nenhuma célula, nenhum órgão, tem o plano do organismo inteiro: apenas age de certa maneira. É o conjunto das várias funções que cria o organismo vivo.
A nossa espécie, como grupo, tem um processo semelhante. As pessoas fazem o que fazem, agem como agem, sem saber realmente porquê; o certo e o errado são aprendidos «porque sim». O que resulta dos vários comportamentos, dos vários juízos assim emitidos, é um grupo ou uma sociedade. Uma termiteira, um corpo, um formigueiro, são, pois, entidades emergentes de comportamentos ou funções individuais que não contêm o projecto da termiteira, do corpo, do formigueiro.
Ou seja, e repetindo-me por clareza, nem nos insectos nem no nosso corpo nem nas mentes individuais dos membros de um grupo há conhecimento da consequência das acções que desempenham para a funcionalidade da estrutura que emerge.
Desde há muito tempo —pelo menos desde os gregos— se pensa em sociedades perfeitas e se detalham as funções indivíduos que as compõem. Inevitavelmente esses planos falham porque ou obrigam os indivíduos a funções que não cabem na sua biologia individual ou porque, não tomando todas as consequências em consideração, produzem sociedades que falham.
Mais recentemente deu-se uma mudança. Não se pensa já no resultado final, apenas nos direitos individuais: o justo e injusto, o bom e o mau são vistos em termos individuais e não colectivos. Mesmo as leis deixaram de ser feitas para o todo social para passarem a ser feitas para os direitos individuais.
Planear um todo sem considerar a individualidade (como Platão tentou) é equivalente a tentar fazer uma casa com tijolos de papel: os elementos não comportam as exigência da estrutura planeada.
Pensar apenas ou sobretudo no indivíduo e nos seus direitos e esperar que o resultado seja uma sociedade funcional é pelo menos tão utópico: é como esperar que, fazendo vários tijolos diferentes, alguns de papel, outros de arame, outros de argamassa, e juntando-os ao acaso resulte alguma coisa além de um monte caótico de «tijolos» impossíveis de encaixar numa estrutura.
Creio que esta última tendência, a de se centrar no indivíduo e não na função que o indivíduo tem na viabilidade do todo, vem do facto de que quem preconiza estas soluções de híper-individualismo é exemplo da incapacidade de compreender que a sociedade é uma estrutura dependente da articulação ordenada das acções individuais. Ou seja, é exemplo de ver apenas o indivíduo —o tijolo— e não a sociedade —a construção.
Somos como formigas que não percebem porque fazem o que fazem; mas enquanto as formigas estão programadas para agir em conjunto e não podem desviar‑se desse plano, nós podemos propor modelos de conduta alternativos. E recentemente pensamos que cada um é a unidade que realmente conta.
A verdade, claro, é que não, não somos unidade alguma: dependemos de toda a cultura que nos formou, da cooperação, da regulação social por costumes e leis que não foram formuladas por nós. E ao enfatizar o indivíduo e não a sociedade que lhe possibilita a existência estamos a agir como se as células de um corpo pudessem agir a seu bel-prazer. Mas, num corpo, a isso chama-se cancro. Numa sociedade, chama‑se o ruir de uma civilização.
Rodrigo de Sá-Nogueira Saraiva
