quinta-feira, 2 de julho de 2026

25 de Abril, revolução, ou ascensão ao poder de gente pouco recomendável???

 


25 de Abril, revolução, ou ascensão ao poder de gente pouco recomendável???

CORRUPÇÃO - DESVIOS - ESCÂNDALOS

Neste capítulo deveria ser possível arrolar uma imensidade de casos. Mas muitos continuam por desvendar e outros, embora denunciados, nunca mereceram qualquer diligência no sentido de serem esclarecidos. É fácil compreender porquê, se se atentar na natureza de certos desvios. Aí vão alguns a título de exemplo.

Em poucos meses, só em dois organismos - o da Reforma Agrária e o IARN - os desvios ultrapassaram larguissimamente todos os registados em quase cinquenta anos do regime anterior. A Luta e o Tempo referiram-se com insistência ao assunto, mas os desvios são em tal número e neles estavam implicados tantos activistas da extrema-esquerda que ninguém se atreveu a tocar no caso.

Releia-se A Luta de 11/4/76:

«O relatório final sobre o inquérito aos desvios feitos com os fundos da famosa subscrição nacional "Um dia de salário para a Nação" está pronto e deverá ser tornado público em breve - ao que fomos informados por fonte próxima do Ministério do Trabalho.

Sabemos, por outro lado, que alguns dos desvios de fundos para fins estranhos aos da subscrição, que chegou a cerca de 80 000 contos, foram já repostos ou regularizados. Não é, no entanto, esse o caso de alguns "levantamentos" não justificados, como o do ex-ministro Costa Martins, aquando da sua viagem à União Soviética (um "vale" de 70 000 escudos), em que foi acompanhado por outros oficiais da Força Aérea, não se sabe bem a que título, e em nome dos quais foi igualmente levantado dinheiro do Fundo para a viagem.

O Estado-Maior da Força Aérea, entidade a quem foi solicitada recentemente a reposição deste segundo "vale", respondeu, ao que fomos informados, que não tinha conhecimento, não promovera tal viagem e não tinha em seu poder quaisquer documentos que permitissem a liquidação da respectiva importância».

Segundo O Diabo de 17/1/78, no Mensageiro de Leiria veio a notícia de que o Governo Português teria pago ao Governo de Argel qualquer coisa como um milhão de contos pelas despesas ocasionadas pela estadia do «Grupo de Argel» durante a «noite fascista». Como não vimos nenhum desmentido a esta notícia, gostaríamos de saber se se confirma ou não e, caso afirmativo, quem autorizou esse pagamento. De qualquer maneira, a ser verdade, o famoso «grupo» tratava-se bem.

Outros casos a relembrar:

- o de Palma Inácio, assaltante confesso, e condenado, a um banco, veio a ocupar alto cargo no Ministério do Trabalho;

- o de Edmundo Pedro; nunca foi esclarecido o enigma das armas que foram encontradas na sua posse;

- O de António Macedo; terá estado a habitar de graça uma sua antiga casa, depois de expropriada pela Câmara Municipal do Porto?

- o dos 7 000 contos colocados na Suíça por um ex-ministro do pós-25 de Abril (assunto levantado pelo Expresso, e nunca esclarecido);

- o de Melancia que nomeou de uma só vez 27 novos directores e subdirectores gerais;

- o de António Campos (MAP) que utilizou dinheiros para subsidiar organismos do Partido Socialista (Uniões Distritais de Agricultores), assunto referido pelo Jornal Novo de 29/9/78.

No sector das Forças Armadas também não faltaram casos enigmáticos e escandalosos. Um dos mais gritantes foi o de ter passado a haver, na Marinha, mais almirantes do que navios - e no Exército mais oficiais generais do que regimentos!

Vale a pena lembrar a revelação do semanário Edição Especial de 17/7/74, segundo o qual a Manutenção Militar comprou por 14 000 contos uma pousada em Lagos, que logo «ocupou» não respeitando o contrato com o seu empresário, e obrigando os turistas estrangeiros a sair, impedindo a entrada dos que haviam feito contrato. Essa pousada foi para ser junta a outra, a fim de ambas proporcionarem férias no Algarve aos oficiais das Forças Armadas e suas famílias a preços incrivelmente baixos.

E as armas que foram roubadas do Exército? Assunto da maior gravidade - mas mais grave é que os superiores responsáveis não tenham actuado prontamente. Os seus autores foram punidos? Não. O Povo foi informado do que na realidade se passou? Não. Alguém sabe onde foram parar as armas da Legião? E as da PIDE? O Povo sabe apenas que tudo isso se passou na Região Militar de Lisboa e que o seu comandante, o «general» Otelo, declarou que estavam «em boas mãos». E nelas continuam, para o que der e vier.

Rememore-se ainda que o semanário Expresso de 20/5/78 narrou:

«Aconteceu numa das ruas da cidade de Lisboa que um condutor descuidado não conseguiu evitar um automóvel que seguia na sua frente.

Depois de uma amena troca de palavras, o condutor do carro de trás verificou que o seu interlocutor era nem mais nem menos do que o conselheiro Vítor Crespo. Foi então que se tornou necessário saber qual a documentação do carro que era conduzido pelo referido conselheiro, para efeitos de declaração do sinistro a fazer à companhia de seguros.

Nessa altura, o outro sinistrado verificou que, estranhamente, o carro conduzido pelo conselheiro Vítor Crespo era propriedade do sr. Jorge de Brito. À surpresa do condutor acima referido, respondeu Vítor Crespo que se tratava apenas da viatura que lhe houvera sido destinada e que os bens de Jorge de Brito se encontravam congelados, o que levou o interlocutor a perguntar-lhe se a utilização do veículo não é uma estranha forma de proceder aos descongelamentos dos mesmos».

O Expresso poderia ter aproveitado a ocasião para perguntar ao conselheiro Vítor Crespo se também teria sido distribuída aos conselheiros da revolução a garrafeira de Jorge de Brito.

Quanto ao Fundo Militar do Ultramar, terão sido aplicadas verbas para fins não esclarecidos ao público, nem depois do ataque de Sá Carneiro.

Depois de todo este estendal de vilezas dá vontade de gritar:

Viva a seriedade do velho Estado Novo!

segunda-feira, 22 de junho de 2026

O Cancro da Civilização

 


Do meu Diário

Dia 21: Estigmergia

A estigmergia (conceito do zoólogo Pierre-Paul Grassé) consiste numa influência do comportamento de um animal em outro que resulta num efeito de grupo que produz uma função não planeada pelos indivíduos. O exemplo clássico é o cheiro deixado por uma formiga que vai e vem para uma fonte de alimento, e que influencia outras formigas, formando-se um carreiro. Mas é também esse processo que leva à formação de termiteiras e formigueiros: sinais deixados por um animal que levam à repetição do comportamento por outros animais.

Assim emergem grandes estruturas — uma termiteira, um formigueiro, são de uma complexidade impressionante — sem que haja, em cada um dos insectos —nem tampouco na «rainha»—, qualquer plano sobre como essa estrutura deve ser.

O processo não é completamente diferente do que ocorre no nosso corpo: nenhuma célula, nenhum órgão, tem o plano do organismo inteiro: apenas age de certa maneira. É o conjunto das várias funções que cria o organismo vivo.

A nossa espécie, como grupo, tem um processo semelhante. As pessoas fazem o que fazem, agem como agem, sem saber realmente porquê; o certo e o errado são aprendidos «porque sim». O que resulta dos vários comportamentos, dos vários juízos assim emitidos, é um grupo ou uma sociedade. Uma termiteira, um corpo, um formigueiro, são, pois, entidades emergentes de comportamentos ou funções individuais que não contêm o projecto da termiteira, do corpo, do formigueiro.

Ou seja, e repetindo-me por clareza, nem nos insectos nem no nosso corpo nem nas mentes individuais dos membros de um grupo há conhecimento da consequência das acções que desempenham para a funcionalidade da estrutura que emerge.

Desde há muito tempo —pelo menos desde os gregos— se pensa em sociedades perfeitas e se detalham as funções indivíduos que as compõem. Inevitavelmente esses planos falham porque ou obrigam os indivíduos a funções que não cabem na sua biologia individual ou porque, não tomando todas as consequências em consideração, produzem sociedades que falham.

Mais recentemente deu-se uma mudança. Não se pensa já no resultado final, apenas nos direitos individuais: o justo e injusto, o bom e o mau são vistos em termos individuais e não colectivos. Mesmo as leis deixaram de ser feitas para o todo social para passarem a ser feitas para os direitos individuais.

Planear um todo sem considerar a individualidade (como Platão tentou) é equivalente a tentar fazer uma casa com tijolos de papel: os elementos não comportam as exigência da estrutura planeada.

Pensar apenas ou sobretudo no indivíduo e nos seus direitos e esperar que o resultado seja uma sociedade funcional é pelo menos tão utópico: é como esperar que, fazendo vários tijolos diferentes, alguns de papel, outros de arame, outros de argamassa, e juntando-os ao acaso resulte alguma coisa além de um monte caótico de «tijolos» impossíveis de encaixar numa estrutura.

Creio que esta última tendência, a de se centrar no indivíduo e não na função que o indivíduo tem na viabilidade do todo, vem do facto de que quem preconiza estas soluções de híper-individualismo é exemplo da incapacidade de compreender que a sociedade é uma estrutura dependente da articulação ordenada das acções individuais. Ou seja, é exemplo de ver apenas o indivíduo —o tijolo— e não a sociedade —a construção.

Somos como formigas que não percebem porque fazem o que fazem; mas enquanto as formigas estão programadas para agir em conjunto e não podem desviar­‑se desse plano, nós podemos propor modelos de conduta alternativos. E recentemente pensamos que cada um é a unidade que realmente conta.

A verdade, claro, é que não, não somos unidade alguma: dependemos de toda a cultura que nos formou, da cooperação, da regulação social por costumes e leis que não foram formuladas por nós. E ao enfatizar o indivíduo e não a sociedade que lhe possibilita a existência estamos a agir como se as células de um corpo pudessem agir a seu bel-prazer. Mas, num corpo, a isso chama-se cancro. Numa sociedade, chama­‑se o ruir de uma civilização. 


Rodrigo de Sá-Nogueira Saraiva

domingo, 31 de maio de 2026

Nos 100 anos da Revolução de 28 de Maio de 1926.

 


CEM ANOS DA REVOLUÇÃO DE 28 DE MAIO DE 1926 🇵🇹
O QUE TERIA SIDO DA REVOLUÇÃO SEM SALAZAR???!!!
ANTÓNIO DE OLIVEIRA SALAZAR 🇵🇹 assumiu a pasta de Ministro das Finanças em dois momentos distintos da Ditadura Militar, embora o segundo período tenha sido o definitivo para a sua ascensão política:
Primeira vez (Breve passagem em 1926): Foi nomeado escassos dias após o golpe militar de 28 de maio, exercendo o cargo apenas entre 3 e 19 de junho de 1926. Demitiu-se rapidamente por não ver garantidas as condições de controlo e autonomia que exigia para governar o orçamento.
Segunda vez (O período definitivo: 1928–1940): Regressou ao ministério no dia 27 de abril de 1928. Embora tenha sido nomeado Chefe de Governo (Presidente do Conselho de Ministros) em 1932, Salazar manteve a pasta das Finanças em acumulação até 28 de agosto de 1940, data em que a transmitiu a João Pinto da Costa Leite (Luminares).
SALAZAR CONSEGUIU A GRANDE PROEZA DE EQUILIBRAR AS FINANÇAS PÚBLICAS E APRESENTAR O PRIMEIRO SALDO ORÇAMENTAL POSITIVO EM MENOS DE UM ANO ( aproximadamente 3 meses após a sua tomada de posse em 1928)!!!



O processo decorreu da seguinte forma:
- A Tomada de Posse: Salazar assumiu o cargo de Ministro das Finanças a 27 de Abril de 1928. PORTUGAL ARRASTAVA UM HISTÓRICO CRÓNICO DE DÉFICES ORÇAMENTAIS QUE DURAVA À DÉCADAS.
- O Primeiro Orçamento: Cerca de 3 meses depois, a 31 de Julho de 1928, Salazar publicou o Orçamento de Estado para o ano económico de 1928 - 1929.
- O MILAGRE FINANCEIRO: Logo nesse primeiro exercício (1928 - 1929), AS CONTAS DO ESTADO FECHARAM COM UM SUPERÁVIT ( EXCEDENTE).
Para conseguir este resultado " relâmpago", Salazar utilizou os superpoderes que tinha exigido aos militares para aceitar o cargo: O direito de veto sobre qualquer aumento de despesa de todos os outros ministérios. Salazar endireitou as contas através de uma política rigorosa de contenção de despesas, aumento e criação de impostos e centralização absoluta do controlo financeiro.
A partir desse ano de 1929, o equilíbrio orçamental passou a ser a imagem de marca de Salazar, o que lhe permitiu ascender a Presidente do Concelho de Ministros em 1932.
Durante quase toda a vigência do Estado Novo, o Equilíbrio Orçamental ( e o frequente superávit) foi a " regra de ouro" do regime.
N.B: A CARGA FISCAL NO ESTADO NOVO ERA SIGNIFICATIVAMENTE INFERIOR À DA " DEMOCRACIA" ACTUAL.
Se compararmos os números frios da receita fiscal em percentagem do PIB, constatamos que a carga fiscal em Portugal mudou radicalmente de escala após a transição para a " democracia" em 1974.
Ao longo das décadas de 1930, 1940 e 1950 , a carga fiscal em Portugal oscilou, de forma geral, entre os 8% e os 12% do PIB. Mesmo na fase final do regime, nos anos 60 e início de 70 - quando o país teve de aumentar os impostos para financiar a Guerra do Ultramar - , a carga fiscal máxima situou - se em torno dos 15% a 18% do PIB.
Com o 25 Abril de 1974 , a carga fiscal subiu em flecha logo a partir do final dos anos 70. Nas últimas décadas, estabilizou acima de 30% e, nos anos mais recentes, atingiu máximos históricos situados entre os 35% e 38% do PIB.
EM SUMA: A CARGA FISCAL NA "DEMOCRACIA" É MAIS DO QUE O DOBRO DAQUELA QUE EXISTIA NO ESTADO NOVO.

Texto excelente da minha querida amiga fascista Ana Mandim.

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Comunistas e complexados de esquerda, os párias da sociedade!!!




Coitadinhos dos comunistas, sempre tão perseguidos e injustiçados!!!
Pena foi não ter havido centenas de "Tarrafais", à imagem da democracia de Estaline, fez falta uma grande limpeza!!!

"Primeiro, eclode, logo a 8 de setembro de 1936, uma revolta de dezenas ou centenas de marinheiros de três navios da Armada portuguesa surtos no estuário do Tejo. O movimento, organizado pelo PCP, tem por objetivo a apropriação dos barcos de guerra para os levar para portos espanhóis e colocá-los ao serviço das autoridades republicanas sediadas em Madrid.
O chefe do governo é implacável a reprimir a tentativa, como confessará em posterior nota oficiosa: «Embora à custa do suor de todo o povo, com a clara consciência do dever se mandaram construir [os navios alvo do motim]. Com a mesma imperturbável serenidade, dei ordem para que fossem bombardeados até se renderem ou afundarem. A razão que se eleva acima de todos os sentimentos foi esta: os navios da Armada portuguesa podem ser metidos no fundo; mas não podem içar outra bandeira que não seja a de Portugal.»
Os navios são bombardeados (embora não afundados) e a rebelião será esmagada com um saldo de uma dezena de marinheiros mortos e a detenção de muitos mais (além da demissão de vários oficiais e sargentos da Armada), cabendo a 34 dos presos (juntamente com alguns dos condenados por participação nos acontecimentos de 18 de janeiro de 1934) inaugurarem, ainda nesse ano, a colónia penal do Tarrafal."

União Nacional-Salazar

Nota: Texto de minha autoria que mais uma vez foi retirado pela Comissão de Censura do Facebook da página Salazar-União Nacional.
E falam estes filhos de senhora de cama variável da censura do tempo do Estado Novo.
Realmente, sem dúvida que Salazar falhou redondamente ao não ter adoptado os muito democráticos métodos de controlo da oposição utilizados pelo camarada Estaline.

Alexandre Sarmento.

quinta-feira, 21 de maio de 2026

A vergonhosa traição dos genocidas de Abril.

 


«Aqui, pois, ressaltam mais particularmente os incidentes terroristas no norte e leste de Angola cometidos contra a vida e os bens dos portugueses, tais como: tiros, catanadas, espancamentos, assaltos a fazendas, vandalização e destruição das fontes de riqueza, dispersão e depredação de instalações, saques, emboscadas, assassinatos, barragens nas estradas e entradas furtivas em residências habitadas, roubos de viaturas, sanzalas saqueadas e destruídas, apedrejamentos, mulheres brancas violadas, pessoas alvejadas, rebentamentos fortuitos de granadas e explosões de morteiro, banditismo e toda a espécie inimaginável de actos de barbárie baseados no terror e na intimidação – transportes maltratados, acessos aos centros urbanos cortados, rezes esquartejadas, circuitos de comercialização destruídos, assaltos a operários nas fábricas, disparos sobre condutas de águas, ataques a hospitais, fuga de técnicos e saneamento de elementos válidos da administração pública com vista à destruição total da economia de Angola.
Neste contexto, Rosa Coutinho chegou mesmo a declarar que dera dez milhões de escudos mensais aos movimentos armados de Angola. «Em 1997, o Almirante justificou a mensalidade concedida nos seguintes termos: “Atribuí a cada um dos três movimentos um subsídio mensal de dez mil contos, equivalente a 200 000 contos actuais. Quem mais beneficiou com isso foi o MPLA, pois não tinha nada”»

Alexandra Marques, in Segredos da Descolonização de Angola. 

Irangate...o envolvimento de Portugal no caso!!!

 




Mais uma vez a cambada socialista e o seu corrupto e traidor de eleição, o inenarrável Mário Soares!!!

Diz-nos Rui Mateus que recebera, a 23 de Novembro de 1985, «uma estranha chamada telefónica. Era o chefe da estação da CIA [Skidmore] junto da embaixada dos EUA» a dizer «que o governo dos Estados Unidos necessitava da ajuda de Soares para convencer o novo governo a autorizar um avião israelita numa "missão humanitária" a aterrar em Lisboa e transferir a carga para um outro avião. Aparentemente a CIA encontrara dificuldades de contacto com o recém-chegado governo de Cavaco Silva e vinha fazer um apelo à velha amizade com o então candidato presidencial». Ou seja: Bob Skidmore pretendia agora abordar Mário Soares quando, dois meses antes, este último, «preocupado com a aparente falta de apoio dos EUA à sua candidatura», não conseguira, porventura, o intento desejado. Compreende-se, por isso, que a melhor forma do agente da CIA seria, nesse contexto, «acenar com a gratidão americana a troco desta ajuda de emergência», a qual consistiria, como «viria a descobrir» Rui Mateus, no seguinte: o de «que o célebre avião israelita em "missão humanitária" não era mais que um dos carregamentos de mísseis "HAWK" a caminho de Lisboa "onde [segundo Oliver North, in Under Fire] deveriam ser transferidos para outro avião" que deveria seguir para o Irão, no quadro do "Irangate" que tanta tinta faria correr» (pp. 258-259).

«Quando confrontado com jornalistas, Mário Soares "negaria veementemente relatórios de que aeroportos portugueses tivessem sidos utilizados como plataformas de trânsito de armas destinadas ao Irão, como parte do caso “Irão-Contra”. Mais, afirmou Soares, as autoridades portuguesas rejeitaram um pedido das autoridades dos EUA para autorizarem a “ajuda humanitária” que a América estava a enviar ao Irão" [in The Providence Journal Bulletin, de 23 de Maio de 1987]. O que coincide com a descrição de Bob Wooward, pelo menos no que toca ao caso já referido do pedido de 23 de Novembro pelo agente da CIA em Lisboa, Bob Skidmore. Segundo aquele conhecido jornalista e autor, "na noite de 21 de Novembro, North telefonou a Dewey Clarrige [chefe da divisão para a Europa, da CIA] .... em pânico e disse que necessitava de ajuda para obter autorização de Portugal para a aterragem de um avião de Israel numa missão humanitária". Ainda segundo Woodward, aquele alto funcionário contactaria o chefe da estação da CIA em Lisboa no sentido de obter tal autorização que o Governo de Portugal recusaria. O embaixador Frank Shakespeare não deveria ser informado desta "missão". Segundo o mais conhecido operacional deste tráfico, o tenente coronel Oliver North, os israelitas entrariam em contacto com o conselheiro de Segurança Nacional, Bad MacFarlane, em meados de 1985, propondo contactos que poderiam "resultar na libertação dos [seus] reféns em Beirute" [in Under Fire]. Ele próprio só terá entrado nesta "operação", que consistia inicialmente na troca de reféns por mísseis "Hawk" de fabrico norte-americano, em Novembro de 1985. O Governo americano concordaria com a venda de mísseis usados, deste fabrico, existentes em Israel, que os enviava para o Irão e, em troca, recebia mísseis novos dos EUA. Um negócio de centenas de milhões de dólares, que exigia a concordância das autoridades norte-americanas, um estranho intermediário iraniano, Manucher Ghorbanifar, com contactos com os serviços secretos israelitas e americanos e os intermediários de venda dessas armas, o ex-CIA, general Richard Secord e um ex-adido militar ex-israelita e próspero homem de negócios, Yakov Nimrodi. Quando Macfarlane informa o seu acessor, tenente coronel Oliver North, destas vendas com o apoio do governo norte-americano, pede-lhe "só para servir de monitor destas transacções" [in Under Fire]. Mas a 17 de Novembro de 1985, o então ministro da Defesa de Israel, Yitzhak Rabin, telefonar-lhe-ia pedindo ajuda no sentido de obter autorização do Governo de Portugal para que um avião do seu país, com mísseis "Hawk", pudesse aterrar "num aeroporto europeu onde deveriam ser transferidos para outro avião" [in Under Fire]. Portanto, o recém-empossado governo de Cavaco Silva recusara autorização a esta operação e assim se explica o desesperado telefonema do homem da CIA em Lisboa, na manhã de 23 de Novembro, querendo falar com Mário Soares e fazendo promessas de que esse apoio seria bem visto em Washington. A componente portuguesa desta história poderia acabar aqui, não fosse o livro de memórias de George Schultz, então secretário de Estado dos Estados Unidos. Schultz pressentira que existia uma diversão deste esquema secreto [referente ao escândalo «Irão-Contra» (1986), transformado entretanto "num chorudo negócio para alguns e numa fonte de financiamento dos movimentos 'contra' da Nicarágua"] que tinha autorização do presidente e, como tal, numa reunião no "Situation Room" [o gabinete de crise] da Casa Branca, recusar-se-ia a dar cobertura a um comunicado de imprensa, que o presidente dos EUA pretenderia divulgar. Segundo este, pretendia-se fazer crer que a actuação de Oliver North tinha sido a de mero observador da venda de armas israelitas ao Irão por razões humanitárias, tendo "encontrado, por acaso, um depósito de armas israelitas em Portugal". O ex-secretário de Estado negar-se-ia a colaborar e teria então dito ao presidente que "estão a distorcer a verdade e não acabam as mentiras. Estão-me a mentir neste momento a mim e aos outros membros do Governo" sendo certo que "Bud Macfarlane estava já a trabalhar neste projecto em Maio de 1985"»


[in George Schultz in Turmoil & Triumph, MacMillan Publishing Co., Nova Iorque, 1993].

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Salazar, sempre contra o comunismo.

 


«Nos recuados anos 30, Salazar tinha dado o alarme e iniciado uma guerra sem quartel ao comunismo internacional porque, como afirmava, se tratava duma estratégia para impor aos outros povos, não uma filosofia política libertadora, mas aquele comunismo que nós vivemos no século XX que levou a uma repressão sistemática, ao ponto de adoptar, em momentos de paroxismo, o terror como modo de governo.

Foi a este comunismo que Salazar, quando converteu a PVDE (Polícia de Vigilância e Defesa do Estado) em PIDE (Polícia Internacional de Defesa do Estado) declarou guerra, uma guerra sem tréguas, que na sua acção no terreno não deixou de cometer erros, distorções, abusos de força, aos quais nos dias de hoje se dá um empolamento muito especial para condenar toda uma instituição que também teve os seus méritos e constituiu um sério obstáculo à introdução duma ideologia desumana e que hoje sabemos ter [aparentemente] claudicado. Pacheco Pereira, no prefácio que escreveu em O Livro Negro do Comunismo afirma, a propósito de um balanço da ordem dos cem milhões de mortos vítimas do comunismo no século XX: "E depois tudo se pode dizer do PCP menos que não sabia, porque se há coisa em que o PCP se especializou foi em saber. E o PCP sempre soube de tudo. Soube das purgas, do Grande Terror, dos processos, dos massacres e deportações de guerra, das execuções, dos desaparecimentos, do que acontecia em África, em Angola, Guiné e Moçambique. A tentativa de apresentar o PCP como um partido periférico e isolado, fora do movimento do comunismo internacional até ao início da década de 50, logo sem experiência do estalinismo, não tem nenhum fundamento". Depois Pacheco Pereira afirma que o PCP, como um partido periférico, estava lá, na Rússia de Estaline, antes de 1936, e que os nossos comunistas fechavam os olhos ao clima de terror que Stéphane Courtois teve a coragem de desmascarar, concluindo assim: "não é de arqueologia que falamos, mas também dos dias de hoje. O PCP com os Soviéticos sabe tudo o que aconteceu em Angola - onde foi instrumental nos acontecimentos". Mas também Anthony Burton (...) fez um estudo da ameaça da propaganda e da subversão soviética contra as Forças Armadas do Ocidente. Ao tratar do caso de Portugal confirma que o PCP, já na década de 30, quando nasceu a PIDE, estava perfeitamente a par das intenções dos sovietes sob a batuta de Estaline, escrevendo: "Os planos para a tomada do poder em Portugal pelos comunistas foram elaborados há 40 anos e têm sido, desde então, modificados e aperfeiçoados em Moscovo".

Cunhal foi o elemento escolhido para secretário-geral do partido comunista, um inteligente e dedicado membro do partido de há muito, que passou bastantes anos exilado em Praga. Aí, ele treinou um corpo especial de talvez mais de 300 homens. Alguns foram treinados durante mais de oito anos e aprenderam a falar português fluentemente. Foram instruídos em comunicações, sabotagem, propaganda, serviço de informações e, especialmente, em organização. Como raça, os portugueses são muito maus organizadores e Cunhal sabia-o. Uma semana após o regresso do secretário-geral do PCP a Portugal, o primeiro contingente dessa equipa chegou, por via aérea, de Praga. Esses homens disseminaram-se pelo país como organizadores de células locais; organizadores para a conquista das autoridades regionais; organizadores de sovietes de trabalhadores nas fábricas, nos bancos, na indústria e na agricultura; e também de um serviço especial de informação, subordinado directamente a Cunhal. Foram extremamente eficazes.

Portugal não era o único objectivo da estratégia soviética na Europa, embora as suas possessões ultramarinas lhe conferissem uma importância especial. Após ter assegurado a tomada do poder pelos comunistas nos países satélites através de golpes de força, como aconteceu na Polónia e muito especialmente na Checoslováquia em 1948 com o célebre golpe de Praga, prossegue na política definida por Lenine logo após 1917 e concentra a sua atenção em África envolvendo a Europa pelo Sul e assim mais facilmente estender a sua ideologia a todo o continente europeu.

(...) A 15 de Março [de 1961] acontece o genocídio no Norte de Angola onde são dizimados selvaticamente cerca de sete mil seres humanos (mil brancos e seis mil pretos) pelos guerrilheiros da UPA e, a 8 de Abril, o projectado golpe de estado para afastar Salazar é neutralizado e os seus promotores são removidos das suas funções. Resta saber o que aconteceria se o Presidente do Conselho, Salazar, tivesse acedido à proposta dos EUA: ter-se-ia evitado o genocídio em Angola e o golpe de estado morreria por si? Quanto ao primeiro ponto creio que teria sido muito difícil travar um dispositivo certamente já montado e em movimento para evitar aquela mortandade. Recorde-se que a entrevista teve lugar a 7 de Março e a acção de Angola a 15, isto é, oito dias mais tarde. A complexidade da operação, a inexistência de estruturas de comando e controle, a enormidade da área afectada, leva facilmente à conclusão de que a acção era irreversível. Mas o projecto americano saiu gorado pois, contrariamente ao que tinha acontecido no Congo, os colonos portugueses não debandaram e participaram mesmo nas acções de pacificação conduzidas pelas poucas unidades militares presentes. Salazar não cedeu, mas principalmente o povo português, a velha e sempre nobre alma lusíada, enfrentou de forma resoluta e determinada a situação. Salazar resolve pacificamente a situação interna e as Forças Armadas respondem ao chamamento de "Para Angola, rapidamente e em força".

Entretanto, a situação em Angola em finais de 1963, com o MPLA encurralado no Quanza Norte e a FNLA confinada aos seus santuários na região dos Dembos, tinha estabilizado e ter-se-ia assim atingido um primeiro patamar na guerra em Angola. Esta situação não deixaria de agradar aos americanos que, depois de terem perdido a aposta inicial quando tentaram quebrar a unidade nacional relativa à política ultramarina e, indirectamente, apoiaram o desencadear brutal das hostilidades no Norte de Angola, viam que os colonos não tinham fugido como acontecera com os belgas no Congo e que aquele imenso território permanecia na esfera do Ocidente.

Sem infraestruturas minimamente adequadas ao novo esforço de guerra, a escassez dos meios humanos, a exiguidade e obsoletismo dos meios materiais, as extensíssimas linhas de apoio logístico não só desde a origem (Portugal) como dentro dos próprios Teatros de Operações (TOs), em especial Angola e Moçambique, tornavam a missão das forças armadas portuguesas indubitavelmente ciclópica. Poucos acreditavam na hipótese de suportarmos tal esforço por muito mais tempo, hipótese em que o "jogador" do Leste apostara porquanto, quer na Guiné, quer em Moçambique, o apoio do "jogador" americano não passava de político ou moral. Mas, estoicamente, íamos cumprindo a missão com o mesmo espírito que sempre tinha pautado toda a nossa história militar.

Mais três anos passaram e em 1966, apesar do esforço exigido à Nação, inacreditavelmente a situação no terreno mantinha-se controlada pelas forças portuguesas. A iniciativa e ímpeto do inimigo externo não tinham sido suficientes para fazer soçobrar o querer e a capacidade da gente lusa. Inicia-se, então, uma terceira fase do conflito com o aparecimento da UNITA e a abertura da frente Leste pelo MPLA em Angola e, em Moçambique, pelo deslocamento da Frelimo para Sul, para a área de Tete, a fim de dispersar os meios concentrados no Norte (Cabo Delgado) e impedir ou dificultar a construção da barragem de Cahora Bassa. Foi uma fase difícil para as nossas forças, só compensada pelo apoio dado pelo recrutamento local e pelo mesmo indomável espírito de missão que, a despeito de tudo, marcou, desde o início, a nossa acção».

GENERAL SILVA CARDOSO («25 DE ABRIL DE 1974. A REVOLUÇÃO DA PERFÍDIA»).

quinta-feira, 14 de maio de 2026

Salazar, a verdadeira revolução.

 



Se não tivesse existido Salazar, o 28 de Maio de 1926 teria sido uma espécie de 25 de Abril antecipado.

Alexandre Sarmento

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Os parasitas de Abril, os traidores.

 


Belo perfil moral e intelectual dos chamados capitães de Abril...

(...) A estratégia definida pelo PCUS e implementada no terreno pelo PCP começava a dar os seus frutos. O divisionismo que se verifica ao mais alto nível, desde as posições antagónicas de Spínola e do Presidente do Conselho, a polémica levantada com a nomeação de um civil - Silva Cunha - para Ministro da Defesa, a aparente apatia das cúpulas das Forças Armadas, a multiplicidade de acções postas em prática condenando a guerra em África, etc., etc., conduzem à morte de uma das principais armas que possibilitaram o êxito conseguido no Ultramar: a coesão da retaguarda.

Portanto o polvo continuava activo e através dos seus tentáculos a exportar o vírus revolucionário para os outros TOs onde se constituem comissões coordenadoras que, em Angola, é liderada por Pezarat Correia, coadjuvado essencialmente por oficiais milicianos marxistas e, em Moçambique, por Aniceto Simões com o célebre Major Tomé, então capitão, e os progressistas milicianos. E o segundo trunfo que conduzira à vitória, a coesão das Forças Armadas, começava a desagregar-se, explorando as frustrações de alguns, cobardia de outros e oportunismo e traição de tantos mais, inerentes ao clima psíquico criado pelo prolongamento de uma guerra cujo fim não se vislumbrava.

O chamado "Movimento dos Capitães" depressa foi contaminado pelo vírus revolucionário, onde a política ultramarina e a forma de pôr fim à guerra passaram a ser temas dominantes nas múltiplas reuniões que por toda a parte iam tendo lugar. Na reunião de Óbidos foi criada a comissão executiva (...) para a qual foram eleitos Vítor Crespo, Vasco Lourenço e Otelo Saraiva de Carvalho. Ignora-se quais tenham sido os critérios que presidiram a esta escolha. Não foi certamente o seu grau de profissionalismo ou valor militar, mas sim a sua grande permeabilidade ao vírus revolucionário, que lhes serviu de justificação ideal para traírem todos os juramentos que haviam feito ao escolherem a carreira das armas».

General Silva Cardoso («25 de ABRIL DE 1974: A REVOLUÇÃO DA PERFÍDIA»). 

Salazar, a verdade que muitos teimam em não aceitar.

 


"Raros serão os intelectuais do nosso tempo que não se tenham sentido atraídos algum dia pela tentação de analisar, compreender, esclarecer a figura mental e política de Salazar.
Figura desconcertante e complexa para muitos — para a maioria, talvez. E porquê? Já tentei explicá-lo em tempos. O Chefe do Governo Português apareceu numa altura da vida europeia em que os sistemas ditatoriais constituíam figurino dominante. Desde a instauração na Rússia, em 1917, da Ditadura Comunista; ao advento do Fascismo, em 1922, na Itália; a subida do Nacional-Socialismo ao poder, em 1933, na Alemanha; ao triunfo, após três anos de luta, do Generalíssimo Franco, em 1939 — o panorama estava cheio de regimes de poder pessoal, incarnados em chefes prestigiosos e espectaculares. Contemporâneo de todos eles, Salazar era bem diferente. Sereno, reflexivo, avesso à exibição, metódico e sóbrio, sem uniforme e sem aparato — o Estadista português formava contraste com os outros estadistas do modelo então em voga. Amigos e inimigos estranhavam a sua frieza e os seus silêncios; o seu isolamento discreto; a sua reserva habitual. Por outro lado, não podiam deixar de admirar a rapidez e segurança do seu êxito, a clarividência da sua acção governativa, a nitidez com que traçava e executava um piano de restauração e de engrandecimento — e, também, a fidelidade que sempre mantinha a certos princípios fundamentais e o prudente cuidado com que sabia evitar erros e excessos temerários.
Daí, a extraordinária curiosidade erguida à sua volta, a numerosíssima bibliografia que depressa surgiu a interpretar o fenómeno, as expressivas reacções que o seu caso inconfundível despertou. Talvez nenhum homem público fosse — e continue a ser — mais estudado e examinado por observadores de todas as origens, de todas as espécies e de todas as tendências. Chegou mesmo a falar-se num autêntico mistério — e cada qual vinha propor, ante esse mistério, a sua tentativa de decifração.
Quanto a mim, longe de ser mistério, Salazar é um vulto de singular clareza, de linhas fortes e luminosas. Porque se estava habituado ao político oportunista, variável, inconsistente, mascarado, a viver de transformações, evasivas ou estratagemas — surpreendia o aparecimento de um governante tão leal e tão simples.
Homem de fé e de estudo; capaz de se dedicar às empresas mais árduas com aplicação, isenção e escrúpulo; inteligência fiel à Verdade; asceta no viver; recto no pensamento e na conduta; fleumático na aparência; seguro dos seus rumos; previdente nos empreendimentos a longo prazo; entregue ao espírito de missão — poucos o entenderam, porque não correspondia à pequenez dos seus juízos e à medida dos seus preconceitos."

João Ameal

quarta-feira, 6 de maio de 2026

SALAZAR por Rodrigo Emílio

 



Se no giro anual do tempo que passa há datas que ficam e que perduram — o 15 (e não o 11, nem tão-pouco o 16) de Março, o 27 e o 28 (e nunca por nunca o 25) de Abril são três dessas datas. O que significa que estão elas inscritas, de pedra e cal, e gravadas a caracteres inolvidáveis, no calendário de honra da nossa História. Pertencem, pois, e de pleno direito, ao número, extremamente dígito, dos dias permanecentes, e das efemérides nunca efémeras e sempre a assinalar, no eldorado temporal da Nação Portuguesa — do ponto em que fixam: uma delas, o aniversário da brutal eclosão do terrorismo armado antiportuguês, logo rechaçado «rapidamente e em força», a partir de Angola; e as outras, o nascimento humano de Salazar e o seu providencial nascimento político, respectivamente.
Já assim se compreende porque razão não pode a gente, em boa consciência transitar em claro ou deixar em branco essa tripla — e duradoura, e memorável — conjunção de marcos memoriais, nem tão-pouco passar por ela como gato por brasas, e muito menos como cão por vinha vindimada...
Quer-me entretanto parecer que a melhor maneira, que eu tenho, de consagratória e votivamente começar por manifestar-me, a respeito de Salazar, consiste em dar a conhecer o que sobre o mesmo Salazar se me ofereceu dizer, um anos depois da sua morte.
Em 1971, já eu, de facto, me não continha, que não fixasse, com tintas assaz carregadas e a traços bastantes sombrios — e, como pode ver-se, bastante proféticos — todo um avisado e preventivo perfil do grande estadista.
«Salazar — escrevia eu, por então que não devemos chorar, a menos que nos revelemos, algum dia, indignos dele. A indignidade consistiria em deixarmos que tivessem ido a enterrar com ele os pensamentos, palavras e obras de mais de oito lustros de mestrado esclarecido e empreendedor. Então, teríamos de chorá-lo, sim, e bem amargamente, ao vermos que se dissipara toda a acção desenvolvida por ele em 42 anos de cuidados, durante os quais tratou de nos pôr «diante de coisas tão sérias como sermos ou não sermos, cumprirmos ou não cumprirmos a nossa missão no Mundo».
A Nação foi o ponto de referência cardial de todos os seus actos e, como tal, o ponto de reencontro de Portugal com as mais lídimas directrizes do seu destino.
Sob a égide de Salazar foi que nós nos soerguemos do letargo histórico em que jazíamos prostrados desde o liberalismo, e foi que de novo nos fundámos como Nação e nos erigimos como Povo às culminâncias do que nos está cometido. Estátua a toda a estatura, Salazar foi o que se impunha que fosse: um homem à medida da Nação, e à altura das circunstâncias, ainda mesmo das mais melindrosas (ou sobretudo dessas); um estadista de génio que, por largo tempo ainda, nos resgatará de todos os governantes abaixo do comum que por aí surgiram...
Ao longo de quatro décadas e tal de chefia, todas as ocasiões lhe pareceram poucas para advertir contra «tempos em que a grande divisão, o inultrapassável abismo há-de ser entre os que servem a Pátria e os que a negam. Dir-se-ia que alguns países» — observava ele, de caminho «estão fatigados da sua existência como nações independentes». Ora, não nos incluamos nós nesse número, não nos penitenciemos nunca da nossa grandeza (além-mar projectada), e já não haverá motivo de maior para chorarmos Salazar, porque é sinal seguro de que o merecemos, e de que merecemos ter sido tudo aquilo que fomos enquanto ele foi, «uma grande e próspera Nação».
Hoje por hoje, estou realmente em crer que jamais a causa de um Povo, neste mundo de Cristo, terá sido advogada com tamanha lucidez e tamanha tenacidade, com tanta pertinência e tanta pertinácia, como a nossa o foi por Salazar. Cada vez mais disso me convenço. E, já agora, talvez convenha recordar, aos que andam mais esqueciditos, que foi com Salazar à frente que nós, portugueses, «subimos esforçadamente a encosta duma nova restauração», para, do alto dela, afinal, nos despenharmos, de novo — e de vez... Já assim se percebe de onde lhe vinha o medo, quando o glorioso Presidente outrora exprimia o seu «grande medo aos ideólogos que, afeitos às abstracções e concepções geométrica, pretendem refazer séculos de História nas suas mesas de trabalho».
Pretendem refazer século de História, e, as mais das vezes, acabam por desfazer séculos de História! Como se viu por cá...
Pela parte de leão que nesse calvário coube a Portugal, outros entretanto terão que responder — e nunca Salazar! Outros — que não ele... — faltaram à palavra dada aos mil juramentos feitos. Outros — que não ele... — foram vistos e achados nesta desalmada obra-prima de pulhíticos!...
Concretamente, e em última análise: é à negligência de algumas centenas de acéfalos e perjuros que há que assacar responsabilidades de primeiríssimo grau.
A exemplo de Salazar, é certo, também eu, pessoalmente, «creio (...) que a não integração efectiva da ideia imperial no conceito corrente da Nação Portuguesa encurtou a este País os horizontes a que deverá habituar-se e em que» devia «aspirar a viver». Pena foi, realmente, que cedo demais se tivesse banido, da nossa doutrinação de Defesa, a sempre exaltante defesa de Império: aquela mesma ideia de Império que, a seu tempo, «trouxe aos espíritos» — que como Salazar chegou de resto, a reconhecer — «uma noção de unidade e um sentimento optimista de grandeza, indispensáveis para estimular energias e arredar-nos da mornidão e tacanhez que», em seu mesmo entender, «ameaçavam continuar a estiolar» (e de facto, estiolaram mesmo...) «pensamento, planos e esforços».
Em todo o caso, e tal como alguém já um dia escreveu, uma coisa é certa e sabida: «Se, em 1961, o doutor Salazar se tivesse orientado no sentido do abandono do Ultramar, a oposição de então, hoje no Poder, e dita democrática, teria assumido, com galhardia, a defesa das ideias históricas da República, reclamando-se da sucessão do pensamento ultramarino de Afonso Costa e do general Norton de Matos. A decisão do doutor Salazar, «para Angola, rapidamente e em força», deu lugar a duas ordens de consequências: manteve as fronteiras portuguesas tradicionais e empurrou a oposição para uma situação antinacional, que para todo o sempre a há-de desautorizar, por mais instaladinha no Poder que possa estar...»
E daqui não há que sair — de quarenta em quarenta anos que seja!

Rodrigo Emílio
In A Rua, n.º 57, pág. 10, 05~.05.1977.

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