quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Salazar - Cristine Garnier.

 



Regressei a Portugal. Lentamente, prudentemente, retomo contacto com esta doce terra sentimental e como não sei conservar recordações, que se desfiam entre os meus dedos, sinto-me desorientada. Há quem torne a encontrar, sem esforço, a cor das paisagens perdidas, o eco das palavras extintas, mas, para mim, os dias passados velam-se de esquecimento. E isto causa-me uma pena imensa e empobrece-me…

Assim, mão invisível e familiar como que apagou com uma borracha todas as imagens da minha última permanência em Lisboa.

Partirei amanhã para o Vimieiro. Esta manhã atravesso de automóvel as lezírias, ruivas planícies das margens do Tejo onde se criam os toiros bravos. Camponeses com os seus lenços de cores violentas, curvam-se nos arrozais em longas filas. Durante quilómetros, apenas se vê a imensidade do céu sem nuvens e, depois, aparecem os campinos de barrete verde. A manta de riscas dobrada atrás da sela do cavalo, pampilho na mão, conduzem nobremente os bois na estrada poeirenta.

Vou almoçar ao Monte de Santo Isidoro, a casa de José Palha. A herdade branca surge por entre os sobreiros, com grandes abóboras sobre as telhas rosadas e cinzentas e no meio dos gerânios do terraço. As pombas fizeram ninho nos jasmineiros, encostados aos painéis de azulejo levemente coloridos de azul. Em torno, grandes rebanhos de carneiros avançam lentamente nas pastagens. Os chocalhos das vacas enchem o ar de sons bucólicos. Quanta calma… E é já Paris que recua, foge da minha lembrança.

O dono da casa vem ao meu encontro, movendo o seu chapéu preto de aba larga. É um grande lavrador que ama por igual cavalos, toiros e o canto plangente das guitarras. Junto dele, sorrindo sob o sol da campina, encontram-se Ricardo Espírito Santo e Augusto de Castro. O primeiro, semelhante a um «viking», é um financeiro de Lisboa, grande amador de arte; o segundo, antigo diplomata e escritor de fama, dirige o «Diário de Notícias», o mais importante jornal português.

Assim que entramos na casa, entre móveis vermelhos do Alentejo decorados com flores e corações, vou logo directa ao que me interessa, conforme o meu costume:

– Falem-me do Presidente, - digo-lhes.

– Oh, – peço silenciosamente, – não percamos tempo! Expliquem-me, por favor, as maneiras de Salazar. Ajudem-me a reatar os fios que me escaparam. Tenho de saber se posso fazer perguntas ao Presidente com a minha habitual espontaneidade e rir diante dele sem constrangimento. E dirijo-me a Ricardo Espírito Santo:

– Todos gostam de falar no ar sério de Salazar, «sério» que se nota nas maneiras e na voz. A um dos seus colaboradores declarou um dia: «Devemos ser sempre sérios. Até quando se organizam festas para divertir os homens devemos fazê-lo com seriedade». Diga-me, Salazar fala sempre assim?

– De forma alguma –, responde o banqueiro. Tem muitas vezes reflexões divertidas. Um dia, falando-me de um homem para o qual procurava emprego, disse-me: «Conheci a mulher dele quando ainda era pequenina e trouxe-a ao colo. Quem me diria, nesse tempo, que ainda havia de trazer o marido às costas»? Doutra vez, citou o caso de um cantor que lhe pedia um subsídio para ir a Itália: «Se há tanta gente que me pede auxílio a chorar, sem que a possa socorrer, como quer o senhor que eu dê dinheiro aos que cantam»?

Quando está à vontade, longe dos cuidados de Lisboa – e vê-lo-á assim, amanhã, no Vimieiro – abandona-se por vezes a uma alegria que surpreende. Já o vi rir como uma criança por uma graça dita a tempo, por uma anedota inocente. Se ele tivesse seguido a sua inclinação natural pode estar certa de que levaria uma vida bem diferente daquela que a si próprio impôs. Foi para melhor servir o Estado que renunciou a todos os prazeres e ao encanto da vida. Desde que se encontra no Poder em poucas recepções apareceu e, no entanto, gosta de festas. Lembro-me da ilha de Almourol iluminada, dos jardins de Queluz preparados para um baile, de um castelo alcandorado num monte e no qual se preparara, segundo as suas ordens, uma refeição à antiga… Ainda há pouco felicitei Salazar pela forma como determinara os detalhes de uma recepção e incitei-o a dar mais vezes festas. Respondeu-me com um meio sorriso: «Não; era capaz de me habituar».– António Ferro, que encontrei em Berna na semana passada, contou-me, – apoiei, – uma história do mesmo género. Pedira a Salazar para assistir uma noite, em sessão privada, à exibição de um filme português. No dia seguinte o Presidente disse-me: «Gostei talvez demais do filme porque não consegui dormir e hoje de manhã não pude trabalhar como de costume. Não está bem. Faça-me o favor de não me tornar a convidar para esse género de distracções».Estamos instalados diante de uma chaminé vazia, em cadeirões de madeira. Em volta de nós, dispostas graciosamente, vêem-se arcas pregueadas de cobre, faianças antigas, inúmeras imagens de santos, que fazem desta morada campestre um vivo museu de arte popular. Pelas janelas abertas chega-nos o som benfazejo das campainhas dos rebanhos que, em todos os países do mundo, nos dá o sentimento da segurança, a ilusão da felicidade.



– Será então pela renúncia às mais simples alegrias que Salazar mantém o seu prestígio?

– Julgo que sim, – admite Ricardo Espírito Santo. Se os seres não têm coragem para agir de acordo com os seus pensamentos, acabam, como diz Bourget, por pensar de acordo com a sua maneira de viver. Não lhe parece? Pois bem, Salazar sempre quis e sempre soube aplicar à sua existência o rigor dos seus princípios. E é isto, na minha opinião, o que o torna respeitado até pelos próprios adversários.

Augusto de Castro descansa o seu copo de vinho do Porto na velha mesa rústica.

– Salazar, – afirma ele, – deve todo o seu prestígio sobretudo à sua inteligência, ao desprezo pela popularidade, por essa popularidade fácil e ruidosa que tanta vez corrói os ídolos.

José Palha, abana a cabeça.

– O que mais nos impressiona em Salazar, o que o distingue dos outros estadistas, – declara, – é o seu espírito de pobreza. Poder-se-ia dizer: o seu «neo-franciscanismo».

Há um instante de silêncio. Cada um destes homens pensa na ideia particular que faz de Salazar e que não está resolvido a desvendar-me. Na casa ao lado, uma criada de saia engomada dispõe em volta dos pratos perfumadas guirlandas de reseda.

Augusto de Castro, que contemplava as traves pintadas de verde com flores, continua em voz surda:

– Na nossa época, ninguém se preocupa com a verdade porque não se está habituado a encontrá-la em parte alguma. Todavia, em Portugal, a verdade conservou o seu valor graças a Salazar, que sempre a apresentou sem artifícios nem disfarces. Nos seus discursos, relatórios, comunicados, não há que procurar subentendidos, frases sibilinas, intenções ocultas. Salazar vai directo à rectidão, à clareza, à verdade pura, sem se preocupar com desagrados. É a verdade a sua melhor arma política. Eis o que nos leva a prestar homenagem ao Presidente.

José Palha, que cruzou as suas longas pernas calçadas de botas altas, inclina para mim a face burilada.

– Uma das qualidades menores de Salazar, – diz, – contribui igualmente para a sua nomeada: o respeito de que sabe rodear as funções alheias. Ouça um exemplo. Quando o Cardeal Spellman voltou em 1947 do último conclave de Roma e passou por Lisboa, o Presidente organizou um jantar em sua honra. A recepção estava prevista para as oito horas mas o avião chegou apenas quarenta minutos antes. O Secretário-Geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros fez notar ao Presidente que as formalidades da Alfândega iriam causar um grande atraso ao jantar e que se poderia abreviá-las ou até suprimi-las. O Presidente respondeu: «É impossível. Só o Ministro das Finanças nos socorreria neste caso e ele não está em Lisboa – Mas, V. Ex.ª é o Presidente do Conselho, exclamou estupefacto o Secretário-Geral, e pode tudo. – Sim, sou Presidente do Conselho, replicou Salazar, mas não sou Ministro das Finanças!»– Em Paris, – disse eu, – Paulo Osório contou-me um dia que muitos portugueses no estrangeiro atribuíam o prestígio de Salazar aos seus êxitos. Será o que devemos concluir da nossa conversa?

– Talvez, – responde o escritor. Porque é um facto: os acontecimentos deram sempre razão a Salazar, quer se tratasse de endireitar as finanças em 1928, de alinhar o escudo pela libra em 1931, de tomar posição ao lado dos nacionalistas desde o primeiro dia da guerra de Espanha e, enfim, de respeitar os compromissos internacionais no decorrer da última guerra. Salazar soube então, graças à habilidade da sua diplomacia, poupar-nos aos horrores da invasão e manteve a soberania de Portugal através de dificuldades sem conta!




Em redor da casa, o som das campainhas torna-se mais intenso. Uma pomba branca vem poisar no rebordo da janela.

– Quer, – pedi docemente, – falar-me de Salazar tal como o viu durante esta guerra?

Augusto de Castro levantou-se. Apoiado a um bufete vermelho constelado de corações, fica um instante silencioso.

– O Governo português, – diz, por fim, – havia assegurado desde os primeiros dias do conflito uma posição de neutralidade. Esta posição fora tomada de perfeito acordo com a nossa velha aliada, a Inglaterra, que, podendo garantir-nos meios de defesa, não tinha interesse em dilatar a guerra até à Península. A nossa neutralidade, porém, – diplomaticamente forte e militarmente fraca – era muito difícil de manter. Como disse então Salazar: «A neutralidade não é cómoda, nem barata…».Por mais de uma vez nos vimos ameaçados pela invasão. Tropas italianas, disse-se, haviam chegado a ser embarcadas com destino a Lisboa. Os aliados afirmavam que os alemães se interessavam fortemente pelos Açores e os alemães espalharam o boato de que os aliados preparavam um ataque a essas ilhas e até propriamente a Portugal. Passámos dias cheios de ameaças e de perigos e as negociações que Salazar teve de dirigir, no decorrer desta «batalha de neutralidade», foram extremamente delicadas.

O meu pensamento escapa-se por um instante e imagino o Salazar dessa época, tal como mo descreveu António Ferro: «Durante a guerra, o Presidente recebia-me sentado, defronte de uma mesa coberta de telegramas cifrados que chegavam de todos os cantos do mundo. Absorvido como um telegrafista na sua cabina de escuta, Salazar tomava nota das comunicações e ele próprio respondia, raciocínio frio e coração ardente, a todas as ameaças de guerra, a todas as ilusões de paz. Outros telegramas chegavam, às pilhas. Conversávamos um pouco. Assim que me levantava para me despedir, Salazar dirigia-se de novo para a sua cabina de escuta, tal como num aeroporto o chefe da torre de comando, que se sente responsável pelas inúmeras vidas suspensas em pleno céu…

«Eu via então, na rua, as pessoas que olhavam tranquilamente as montras opulentas. Os seus rostos ignoravam a angústia. E eu pensava naquele homem tão calmo, de gestos ponderados, que assegurava dia e noite, à sua mesa de trabalho, uma neutralidade permanentemente em perigo. Pensava no homem cujo esforço sobre-humano era totalmente desconhecido de toda a gente que ia jantar para as suas casas tranquilas, enquanto em tantos outros países só havia sofrimento, lágrimas e ruínas…».A voz rude de José Palha traz-me à realidade:

– Quando os aliados pediram, em 1943, a concessão de bases nos Açores, indispensáveis à vitória do Atlântico, Salazar respondeu «sim», logo ao primeiro contacto. Pediu somente que nos fornecessem meios de defesa contra um eventual ataque aéreo. A assinatura desse acto constitui um dos pontos culminantes da nossa história diplomática e poderia servir de matéria para um estudo fecundo.

– Contudo, – prossegue Ricardo Espírito Santo, – à medida que a posição alemã se tornava mais crítica, os aliados insistiam para que abandonássemos uma neutralidade «in nomine». Salazar que continuava a resistir a estas pressões, disse-me um dia: «O oportunismo só é possível para as grandes nações, seguras da sua força e da sua riqueza. Nós, que somos fracos e pobres, apenas nos poderemos fazer respeitar à força de rectidão e de honestidade. Neste momento, podemos desagradar aos nossos amigos mas, mais tarde, eles compreenderão».

– Isso lembra-me uma anedota pouco conhecida, – exclama José Palha. No princípio da Guerra, um embaixador estrangeiro insistia com Salazar para que este respondesse a certos pedidos. Depois de ter recorrido a muitos argumentos o embaixador admirou-se: «Mas, senhor Presidente, sem esquadra, sem exército, sem dinheiro, que é que julga ter?» E Salazar replicou sobriamente: «Razão, senhor embaixador!».

– Contaram-me outra frase de Salazar – diz Augusto de Castro. A história é da mesma época. O representante de um país amigo apresentou ao Presidente um pedido difícil. Seguiu-se acesa discussão. O representante não hesitou em formular ameaças. Então Salazar, levantando-se, cortou bruscamente: «Saiba, senhor, que não tenho medo de morrer de medo!».

A criada que dispusera as resedas vem convidar-nos a ir para a mesa.

– Ainda uma pergunta! – imploro. A última! Ouvi dizer que Salazar previra durante a guerra a organização política que hoje se chama Pacto do Atlântico. É exacto?

– Sim, – responde Ricardo Espírito Santo. Num dos seus discursos, em 1944, disse que os países banhados pelo Atlântico seriam chamados dentro em breve a desempenhar um papel importante ao lado dos Estados Unidos e que a América ajudaria a Europa a erguer-se das suas ruínas. Após este discurso profético, Salazar recebeu a visita de um jornalista americano que lhe perguntou como concebia o futuro do mundo. Assisti precisamente a essa entrevista. O presidente expôs longamente as suas ideias sobre a dominante do após-guerra: o afastamento da Europa do predomínio mundial. Via ainda o Atlântico que, em vez de separar os continentes e os povos, seria um elo de ligação entre as Américas, a Europa Ocidental e a África.

«Esta comunidade, disse, terá o encargo de defender a herança da civilização cristã e europeia contra o assalto dos asiáticos».

Alguns anos mais tarde, tal como o previra Salazar, nascia o Pacto do Atlântico (in Férias com Salazar, 3.ª edição, Lisboa, 1952, pp. 89-99).

terça-feira, 11 de agosto de 2026

O ataque terrorista do 15 de Março de 1961

 


«Na manhã de 15 de Março de 1961, 200 portugueses de raça branca e 300 portugueses de raça negra foram selvaticamente assassinados no decurso de uma incursão terrorista no Norte de Angola. Nessa manhã, um grupo de 4000 terroristas atacou a roça experimental situada na pequena aglomeração de Nova Caipemba. Um sobrevivente, Manuel Lourenço Alves conta os seguintes factos: "O assalto começou às seis horas da manhã em todas as casas pertencentes à roça, fossem elas ocupadas por europeus, negros ou mulatos - todas elas foram atacadas ao mesmo tempo. As mulheres foram arrastadas para fora das suas casas com os seus filhos. Perante as suas mães, os terroristas começaram então a cortar os braços e as pernas das crianças e divertiram-se a brincar com os membros em pedaços numa imitação grotesca do jogo de futebol. Depois as mulheres e as raparigas foram despidas, violadas e cortadas aos bocados. Isto é um exemplo do que se passa nos nossos dias um pouco por toda a parte do mundo. Estes actos, de uma incrível selvajaria, são realizados, de uma maneira deliberada e premeditada, por homens cujo único fim é o da destruição dos valores humanos e da vida humana. Os patrões velhacos, que financiam, fiscalizam e encorajam por toda a parte a causa comunista, vivem nos seus palacetes particulares no Oeste, sem que os títeres, que fazem o seu repugnante trabalho, tenham a menor suspeita do papel que desempenham. Os patrões dos bonecos zombam perdidamente da morte violenta de milhões de seres tal como de moscas se tratasse. A sua guerra é total: as suas vítimas mais débeis e mais impotentes são crianças, tanto a Este como a Oeste"».

Deirdre Manifold («Fátima e a Grande Conspiração»).

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Uma censura que envergonharia o lápis azul da PIDE!

 


PERSEGUIÇÕES A JORNAIS E PARTIDOS POLÍTICOS

- Foram proibidos os jornais: Tempo Novo, Bandarra, O Sol, Tribuna Popular.

- Foram eliminados o Partido Liberal, o Partido do Progresso, o Partido da Democracia Cristã e outro da extrema-esquerda hostil ao PC.

- Alguns jornais foram vítima de sistemática perseguição. Por exemplo: o Conselho da Revolução, sem apoio em qualquer lei, suspendeu O Diabo, sem audiência nem possibilidade de recurso, a pretexto de um artigo de crítica ao «conselheiro» Vasco Lourenço; posteriormente Vera Lagoa foi absolvida - mas alguém pensou que teria direito a ser indemnizada pelos prejuízos sofridos?

- O caso do Jornal Português de Economia e Finanças também é paradigmático: foi suspenso por dois meses e obrigado a pagar pesada multa por ter publicado o seguinte suelto:

«Quando reabre a Bolsa de Lisboa? Sim, porque nem todos tiveram o dom adivinhatório do 25 de Abril».

Compreende-se a pena aplicada ao «JPEF» quando se lê o livro de Neves Anacleto A Inventona do 28 de Setembro (pág. 138) que afirma ter o «companheiro» Vasco Gonçalves, sócio da Casa de Câmbios Vítor Gonçalves, nas vésperas do 25 de Abril, vendido os seus milhares de acções e colocado na Suíça a grossa maquia assim realizada.

O diário República foi tomado de assalto por alguns trabalhadores «progressistas», que correram com o director Raul Rego e vários redactores. Meses depois, já em 1976, o jornal foi entregue aos donos. Então Raul Rego, o seu director, escreveu no novo jornal, A Luta, um editorial em que afirmou que nunca no regime anterior o República havia sido atacado com tanta violência, de dentro e de fora. A Luta, outra vez, no aniversário do assalto ao República (19/5/76) publicou vários comentários de idêntica índole sob o seguinte título na 1.ª página: O dia mais vergonhoso para a Imprensa Portuguesa.

sábado, 8 de agosto de 2026

Salazar, o génio das finanças.

 





Salazar, deu dez a zero a todos os vultos da economia do século XX, aplicou as suas políticas económicas e demonstrou estarem correctas, feliz ou infelizmente, todos os grandes vultos internacionalmente reconhecidos nessa área, não passaram de teóricos!!!
Salazar definiu um rumo para a economia e aplicou na perfeição as suas teorias. Contra factos, não há argumentos.
A obra está à vista, o país que éramos em 1973 o comprova!!!

Alexandre Sarmento

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Quando todos fomos os bastantes!!!

 


Tal como um dia num discurso o nosso saudoso e ilustríssimo José Hermano Saraiva definiu a nossa índole, a nossa raça e alma, a nossa Nação Valente e Imortal, quando fomos verdadeiramente Portugueses...

"Nós nunca fomos muitos, mas enquanto soubemos ser todos, fomos sempre os bastantes"

Realmente, nunca nos demarcámos pela quantidade, mas sim, pela qualidade, pela tenacidade, pela fibra, pela vontade, pela resiliência e pelo orgulho da nossa herança genética, a nossa história, pelo orgulho nos nossos idos e pelo sangue, suor e lágrimas por eles derramado.
Temos em José Hermano Saraiva e António de Oliveira Salazar dois grandes exemplos daquilo que fomos e do que deveríamos ser, verdadeiros exemplos, homens de sabedoria, inteligentes, honestos e verdadeiros exemplos para as futuras gerações, homens que tudo fizeram, tudo deram pelo futuro da Nação, homens de verdade, que falavam verdade, tal como umas palavras um dia proferidas por Salazar, infelizmente por muitos esquecidas...

"É preciso que gritemos tão alto a verdade, que demos tal relevo à verdade que os surdos a ouçam e que os próprios cegos a vejam."

Aqui fica um testemunho sobre a índole e honestidade moral e material de Salazar pela voz do grande historiador...

«Como ministro pouco contacto tive com ele [Oliveira Salazar]. A ideia que tinha dele era realmente a de um justo, no sentido religioso do termo. E uma homem com uma inteligência privilegiada. Grande escritor e de um grande humanismo - naqueles 40 anos não há "casos", não houve nada disso. Muito coerente, não era democrata, não acreditava na democracia. Mas alguém acredita? Contam-se umas tretas, convence-se uma malta... Mas voltando ao Salazar, penso que o país lhe deve muito. E chegou ao fim na miséria. Eu ajudei a pagar a conta dele do Hospital da Cruz Vermelha. Não há outro caso de estadista deste género. Era um homem com um grande respeito pela verdade.»

Alexandre Sarmento 

Os novos fascismos.

 


O Fascismo.

"Para o fascismo, o Estado é absoluto: perante ele os indivíduos e os grupos não são mais que o relativo. Tudo no Estado, nada contra o Estado, nada fora do Estado. (...) O indivíduo só existe enquanto está no Estado: está subordinado às necessidades do Estado e, à medida que a civilização toma formas cada vez mais complexas, a liberdade do indivíduo restringe-se sempre mais. (...) Neste sentido, o fascismo é totalitário (...). Nem partidos, associações, sindicatos nem indivíduos fora do Estado. (...) Nós representamos um princípio novo no Mundo, representamos a antítese nítida, categórica, definitiva da democracia (...)."

Benito Mussolini, O Fascismo, 1931

Reparem bem que afinal hoje na prática vivemos o verdadeiro regime fascista, se fizermos uma analogia na qual juntemos no aparelho do Estado, os partidos, as associações e os sindicatos( se não fazem parte integrante do Estado, vivem em perfeita simbiose, são estes os principais beneficiários, e também o suporte visível do dito Estado). Dizem que vivemos em democracia, mas que ilusão, iludidos pelo voto e pelo poder apenas virtual que o mesmo nos proporciona. 

Vejamos, o estado é tudo, aliás, não escondem nada, é tudo feito às claras, comecemos pelo sorvedouro infindável da riqueza produzida pelos portugueses, uma taxa fiscal real acima dos 50 ou 60 por cento, pagamos tudo, desde o ar que respiramos, pela vista da nossas casas, sofremos de dupla e tripla tributação e não nos vale a pena contestar. O sistema blindou-se, os comensais do regime usufruem de enormes e pornográficas mordomias, na grande maioria dos casos são imunes a uma Justiça também ela tutelada pelo regime, sem isenção, lenta e ineficaz e parcial.

Falam-nos de fascismo, falam do antigo regime, mas a realidade é diversa, nunca tivemos tanta falta de liberdade como hoje, nunca fomos tão oprimidos e reprimidos, nada é possível fazer sem a porcaria de um parecer ou uma vistoria por parte do Estado, juntando-lhe os custos, as taxas, taxinhas e as contraordenações, o estado sofre de um apetite desmesurado de dinheiro, o estado é uma ténia da Nação, basta atentarmos ao lema do Fascismo para percebermos exactamente em que tipo de regime vivemos...

Tudo pelo Estado.

Nada contra o Estado.

Agora chamem-me fascista!!! 

Alexandre Sarmento



terça-feira, 4 de agosto de 2026

15 de Março de 1963, uma carnificina patrocinada pela CIA!!!

 


(…) Na madrugada de 15 de Março, como se esperava em Washington, Bona, Lisboa e outras capitais, o Norte de Angola foi avassalado por uma onda de brutalidade. Grupos negros bakongos, empunhando catanas e canhangulos, armas rudimentares de fabrico nativo, lançaram um ataque generalizado às fazendas e povoações na zona de fronteira com o Congo, na Baixa do Cassange, até às cercanias de Carmona. A violência tribal disseminou-se indiscriminadamente, não poupando crianças e mulheres brancas, pelas plantações de café isoladas, as vias de transporte e os postos de abastecimento. Um escritor famoso calculou que 300 europeus foram assassinados na área de Nambuagongo, outros tantos na região de Dange-Quixete, e 200 mais a norte do distrito do Congo. Nos dias seguintes prolongaram-se os actos de fúria radical previstos pela UPA. Richard Beeston, do Daily Telegraph, o único repórter que viajou pelas áreas da violência depois de 15 de Março, contou a David Newsom, primeiro-secretário da embaixada americana em Londres: 'Durante uma acção aparentemente organizada, que começou em 15 de Março, 800 portugueses entre uma população total de 10 000 foram massacrados durante três dias'. Os ataques tinham um objectivo desertificador: a eliminação dos fundamentos materiais da comunidade branca.

Muitos fazendeiros empreenderam a fuga do inferno, chegando a Luanda, e daí partindo alguns para Lisboa. Em 20 de Março, a Força Aérea tinha já evacuado do Norte mais de 3 500 pessoas, sobretudo mulheres e crianças. Um oficial do Exército testemunhou: 'A Luanda afluíam os refugiados do Norte, em estado físico e de espírito que favorecia o pânico e a ideia do êxodo para a metrópole… Nos muceques agitadíssimos, o clamar de ´'mata branco' enchia as noites de terror, escuras e chuvosas'. Mas outros colonos, como os habitantes de Carmona, dispuseram-se a ficar e a suster pela força das armas o que era seu pela força do trabalho. Richard Beeston: 'A seguir ao massacre, os brancos do Norte fizeram justiça pelas suas próprias mãos. A primeira reacção coube à PIDE (a polícia secreta portuguesa). O Governo organizou uma milícia armada de cidadãos. Só depois o Exército interveio'. (…) Por todo o Norte de Angola vulgarizaram-se as imagens apocalípticas do horror e da crueldade" 

(in Kennedy e Salazar. O leão e a raposa, Difusão Cultural, 1991, pp. 187-189).

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Os retornados.

 



Afirmou António José Saraiva, destacado antifascista, no semanário "Liberdade", de 5 de Maio de 1976: 

"Diz-se e escreve-se que eles (retornados) eram exploradores, brutais, ávidos de lucros, criminosos de delito comum, culpados de si mesmos (...) Esses que apontam os crimes dos retornados - que fizeram, durante vidas inteiras senão aproveitarem-se dos ditos crimes? Como foi possível a vida parasitária da maior parte da população portuguesa durante séculos, senão às costas do preto, accionado pelo colonizador? Donde vinha o café e o açúcar que se consomem ainda hoje abundantemente nas pastelarias de Lisboa? Donde vinha o algodão barato que permitia a tantos operários e patrões sustentarem-se de fabriquetas primitivas? Donde vinham as toneladas de ouro que faziam do escudo uma moeda forte, permitindo, com uma indústria deficiente e uma agricultura rudimentar, sustentar legiões de funcionários improdutivos? Todos somos responsáveis pela política de Portugal, em África, prosseguida com tenacidade desde os fins da monarquia, objectivo prioritário da primeira república, a que se dedicavam homens como Mariano de Carvalho, Brito Camacho e Norton de Matos. Os retornados não são mais do que boomerang do império que todos nós fomos. O retorno que nos atinge em cheio é a arma que o nosso braço lançou. Os retornados, com que o País foi solidário enquanto foram prósperos, são uma acusação viva lançada à cara da nação inteira. Uma dupla acusação. Em primeiro lugar, porque o fenómeno dos retornados é o resultado de uma política de descolonização cuja torpe inércia é tão profunda quanto o arranque das descobertas foi deslumbrante. A página da descolonização não foi menos sangrenta que a da expansão; só que foi um pântano podre, enquanto a outra foi fogo que alumiou a Terra (...) O ódio racial aos retornados a pretexto dos seus crimes é apenas uma maneira de a nação portuguesa querer ilibar-se dos crimes por que toda ela é absolutamente responsável. É um caso típico de bode expiatório. E lança uma viva luz sobre o mecanismo do racismo. Trata-se de discriminar uma parte da nação, lançando sobre ela o odioso dos males colectivos. O retornado é o cristão-novo dos nossos dias. Serve para o resto do povo imacular a sua consciência; convencer-se de que nada tem que ver com os malefícios e os abusos da colonização. Serve também para desviar as atenções dos erros cometidos em nome da nação: se eles retornaram é porque são inteiramente maus e porque a descolonização foi um fracasso vergonhoso. E servirá para desculpar outras inépcias que vão cometer-se... O racismo nasce fundamentalmente dessa necessidade de limpeza de uma dada comunidade. Nós portugueses pecamos puros, porque as culpas foram desse punhado de "criminosos". E se eles, tiveram de retornar, a culpa não é dos responsáveis dessa sangrenta e lamacenta descolonização: não, a culpa é dos retornados, culpados de si mesmos, como já foi escrito (...) Os retornados chegam no momento em que precisamos de uma desculpa para o maior fracasso da nossa História e de um objecto para cevar a nossa frustração irremediável".


António José Saraiva fez, em palavras, o verdadeiro retrato do povo português, ante a original descolonização. A "vanguarda revolucionária" do "25 de Abril" proporcionou ao País e às próprias Forças Armadas, uma tranquilizante lavagem ao cérebro.

Os refugiados são acusados de tudo. Muitos responsáveis pela governação permitem e auxiliam a intoxicação da opinião pública. Arenga-se nos jornais, na Rádio, na Televisão, nas ruas e praças, para desviar as pessoas da trágica realidade. Membros do MFA, alguns depois ministros, bradam, histérica e sistematicamente, que não se poderia chegar à democracia sem passar pela descolonização. Que nenhum povo é livre, quando oprime outros povos. Lava-se o povo no banho da culpa colonial. Forjam-se mitos. Inventam-se cambiantes. Mudam-se as tácticas, de um tipicismo caracterizadamente comunista e comunizante. Assim se vai destruindo o País. E o refugiado transforma-se em mexilhão... empurrado, espoliado, banido, na senda de um calvário de que não se descortina o termo.

A entrega de Angola, da forma como foi realizada, leilão de bens pilhados, tornou Portugal mais pequeno e mais pobre. Sem o aval do Ultramar, o País definhou. Como Povo "fazedor de nações", deitou fora a expansão da indústria, da agricultura, do comércio, da cultura.

Os refugiados "exploradores" ergueram obra que dignifica, engrandece e redime um país. 

domingo, 2 de agosto de 2026

Subversão e Terrorismo em África.

 



«A URSS, a Checoslováquia, a Jugoslávia e Cuba são os países do bloco leste que maior dinamismo irão mostrar em África durante os anos sessenta. Nestes estados comunistas, são montados serviços e organizações e formados especialistas para "trabalhar" os africanos. África é considerada zona "intermédia" ou "centro convulso". A URSS, Cuba e China desenrolarão em África esforços propagandísticos muito superiores aos dos países ocidentais, com o fim de neutralizar politicamente o continente, em relação ao diferendo Leste-Oeste, de conseguir adeptos nos governos constituídos ou colocar no poder grupos que lhes sejam ideologicamente favoráveis, ou que, no mínimo, sejam contrários aos Estados Unidos.

A estratégia externa cubana reside em exacerbar as contradições internas em países onde existam crises económicas, para assim provocar uma reacção repressiva, a fim de paralisar a sociedade e tornar viável a ascensão das vanguardas marxistas e pró-castristas, que depois aproximarão o país do bloco soviético.

Fidel Castro sobrestima as possibilidades internacionais para o desencadear de revoluções "à cubana". O fulcro da propaganda de Castro situa-se na exaltação do modelo cubano e na tomada do poder pela violência; além disso, procura convencer por todos os meios o Terceiro Mundo de que os EUA são a causa de todos os seus problemas. Este é o suporte teórico para a experiência do "foco" guerrilheiro e para a estratégia da subversão; o Congo, em África, o Vietname na Ásia, além, claro está, da própria Cuba, na América Latina, são os exemplos práticos em que assenta toda a retórica do sistema.



(...) Na sua propaganda, Cuba adopta as causas afro-asiáticas de maior aceitação: a descolonização, o anti-apartheid, a unidade africana, o anti-sionismo (primeiro velado, depois declarado), o direito da China a ser admitida na ONU, o apoio ao Vietcong, etc... No campo diplomático, cultivam-se as relações com uma quantidade de estados "moderados", além dos países "progressistas" afro-asiáticos: Ghana, Guiné, Mali, Egipto, Iraque, Síria, Tanzânia, Congo-Brazzaville, Daomé, Ceilão (Sri Lanka), Índia, Indonésia, Cambodja (Campucheia), Birmânia, Laos, Vietname do Norte.

(...) A inclinação e o interesse inicial dos soviéticos por Sékou Touré (mais do que por Nkrumah) deve-se à tendência teórica marxista evidenciada pelo líder guineense e à ausência de uma classe comercial profissional "pró-ocidental", contrariamente ao que acontece no Ghana. Também terá influído a desvinculação do exército da Guiné em relação à França, ao contrário do ganês, que mantinha estreitos laços com a Inglaterra. Por outro lado, durante a crise congolesa, Nkrumah desempenhara um papel nem sempre coincidente com as posições de Kruschev. No fim, Moscovo fracassaria, nas suas pressões para que Modibo Keïta, do Mali, e Kwame Nkrumah, do Ghana, institucionalizassem o "socialismo científico", através de um partido comunista.

(...) Kwame Nkrumah mantém centros de treino de guerrilheiros dos "movimentos de libertação" de toda a África Ocidental.

(...) A URSS, não obstante, encontrava-se muito mais activa que a China, dentro dos movimentos anti-portugueses, a partir de lugares como Ghana, Guiné, Congo Brazzaville, Tanganica e Uganda. A URSS mantinha os seus centros de instrução militar e apoiava politicamente tais movimentos.

O primeiro intento sério da URSS, respeitante às colónias portuguesas, seria a promoção da Frente Revolucionária para a Independência Nacional das Colónias Portuguesas, criada na Guiné, em 1959, por intermédio do Embaixador soviético, Daniel Solod.

A URSS, no início dos anos sessenta, estimava que o ponto mais vulnerável da cadeia colonial de Lisboa era Angola, seguida pela Guiné Bissau. Depois dos soviéticos darem uma conferência em Moscovo, com o MPLA, em Dezembro de 1960, seria iniciada em Angola a violência dirigida pelo MPLA. A China, não obstante, não se decidia a entrar na questão com a UPA, de Holden Roberto, ou o MPLA de Mário Pinto de Andrade (velho militante do partido comunista português, com amplos vínculos dentro do partido comunista francês, tendo colaborado com o diário soviético PRAVDA). O MPLA, contava, na época, com vários militantes europeus e, sobre Agostinho Neto, um dos seus líderes, pesavam suspeitas de colaboração com os portugueses.

Decrescendo o poder militar do MPLA, em 1963, quando a OUA confirmou a UPA de Holden Roberto e Jonas Savimbi como representante da luta armada em Angola, a URSS perdeu a influência nos movimentos angolanos. O MPLA enfrentaria uma profunda divergência entre os grupos de Agostinho Neto e Lúcio Lara, apoiados na altura pelo Congo Brazzaville e o grupo de Viriato Cruz, o qual se uniria ao GRAE de Holden Roberto e receberia ajuda da China e da Argélia. Embora o MPLA continuasse a manter estreitos laços com Moscovo, ao mudar a sua sede de Brazzaville para a Zâmbia começou a ser cortejado pelo Embaixador chinês na Tanzânia, Ho Hing.



No GRAE, desenvolveu-se uma luta entre Holden Roberto e Jonas Savimbi, tendo culminado com a rotura do movimento. Em Dezembro de 1963, Holden Roberto entrevistava-se com o Marechal sino Chen Yi, em Nairobi, onde consegue a promessa chinesa de armamentos, enquanto Chou en Lai discutia com Ben Bella, nesse mesmo mês, a possibilidade de estabelecer bases de treinos na Argélia, para o MPLA, a UPA de Holden Roberto e o PAIGC de Amílcar Cabral.

O PAIGC recebeu da China a ajuda necessária para lançar as suas primeiras acções militares, nos princípios de 1963. Desde o início de 1960, membros do PAIGC eram enviados por Amílcar Cabral para receberem treino militar na China, Checoslováquia e Ghana.

O bureau político soviético, ficou inquieto, perante a campanha chinesa em África e Ásia. Mikail Suslov, alertou o resto dos dirigentes, numa notícia secreta, em 14 de Fevereiro de 1964, sobre as intenções sinas e a necessidade de se lhe prestar atenção. A partir desse momento, a URSS lançou-se numa ofensiva, com vista a ampliar as suas relações com os Estados africanos constituídos, como o Senegal, Quénia e Nigéria. Os soviéticos alargavam as pistas do aeroporto de Conakry, a fim de disporem de um ponto intermédio entre a URSS e Cuba. No final do ano (1964), a Guiné começou a reconsiderar a sua posição com respeito à URSS. Sékou Touré introduziria mudanças internas na organização do Partido Democrático da Guiné e corrigiu vários ministros demasiado "anti-soviéticos".

(...) A subversão na África, ao longo de sessenta, não pode ser considerada um elemento marginal, dentro da política externa de Havana. A pouca divulgação internacional da acção castrista em África leva a pensar (sobretudo após a sua invasão de Angola), que ao entrar nos anos sessenta Castro inaugura a sua política extra-americana independente. No continente americano, pensa-se erradamente que a exportação da revolução apenas tem como objectivo a América Latina.

Desde o seu início, a política africana é dirigida e supervisada por altas figuras da equipa castrista: "Che" Guevara, Osmany Cienfuegos, Manuel Piñeiro, Jorge (Papito) Sergera, Raul Castro e o próprio Fidel. Os meios, recursos, dinheiro, armas e homens, de forma aberta ou camuflada, canalizados para África, especialmente depois da crise dos mísseis, foram substanciais.



A presença cubana em África, anterior à invasão de Angola, explica-se como conveniente para objectivos ideológicos e políticos, mas a presença de Cuba na década dos anos sessenta foi permanente em locais como a Guiné, Argélia e Congo Brazzaville. Sem ser tão institucionalizada como nos anos setenta, a década de sessenta não deixa de ter uma estratégia coerente, de onde os actos cubanos não são resultado de improvisações ou factos conjunturais. Castro está presente no conflito argelino-marroquino, na destruição do sultanato de Zanzíbar, ajuda as guerrilhas da UPC [União dos Povos dos Camarões], no Camarão e as PAI [Partido Africano da Independência], no Senegal; treina e apoia logisticamente o PAIGC da Guiné Portuguesa; oferece "guardas pretorianas" a presidentes africanos, como Sékou Touré e Massemba-Débat; apoia o modelo de "Che" Guevara no Congo Léopoldville e treina, financia e doutrina centenas de guerrilheiros africanos de várias origens, nas escolas de subversão.

Os últimos anos da década de sessenta são um período de reconsideração política, sobretudo na Guiné e na Argélia. Restabelecem-se os laços com a Argélia, mediante um acordo secreto que convém ao chefe da DGI [Direcção-Geral de Inteligência], Manuel Piñeiro e à chefia dos serviços secretos argelinos. No campo económico, fortalece-se os laços com Marrocos, o esforço canaliza-se até ao PAIGC, através de Amílcar Cabral, ao MPLA, à FRELIMO e à facção camaronesa de Woungly-Massaga. Realiza-se um esforço para explorar novamente o corno sul-africano, enquanto se incuba a sucessão na Eritreia e se colabora com a URSS (através da DGI), à volta dos acontecimentos do Biafra, na Nigéria.

O castrismo parece mais inclinado a considerar o apoio à guerrilha nas colónias britânicas (Rodésia, Nyasa), onde pode ser favorável a internacionalização do conflito, e forçar uma decisão favorável ao campo soviético. Os serviços secretos cubanos trabalham contra o Senegal, o Camarão, o Congo e as colónias portuguesas.

(...) A penetração e subversão castrista na África do Sul, aproximam-se de Nelson Mandela, líder do Congresso Nacional Africano (ANC) que em 1962, durante a sua estada no Ghana, pediu dinheiro, armamentos e facilidades para treino de militares. Esta petição foi recebida com agrado por Havana, mas o encarceramento de Mandela impossibilita pôr-se em prática um plano de violência armada na África do Sul, somado ao pouco respeito de Castro pelos líderes do ANC, como Albert Lutuli e Oliver Tambo.



O Partido Comunista sul-africano aproxima-se de Cuba e do bloco soviético, através do jornalista marxista inglês Idris Cox. Os meios africanistas cubanos, não obstante, mostram-se cautelosos.

Em Moçambique, o bloco soviético faz eco dos comentários de Kwame Nkrumah, que acusam o presidente da FRELIMO, Eduardo Mondlane, de estar ao serviço da CIA. Mesmo assim, o embaixador cubano na Tanzânia, Pablo Rivalta, apresenta a segunda figura da FRELIMO, Marcelino dos Santos, como um elemento de toda a confiança. Rivalta informa que os acampamentos de treinos guerrilheiros da FRELIMO, na Tanzânia, estão "contaminados" pela CIA através dos "corpos da paz". A mútua pendência entre Castro e a FRELIMO mantém-se até quase à independência moçambicana.

A FRELIMO, não obstante, continua a receber a ajuda da Tanzânia, Zâmbia e China, e de um outro "assessor" cubano. Nos seus campos de treino, A FRELIMO conta com a colaboração de militares chineses e tanzanianos. (Os castristas verificam como a FRELIMO, a mais poderosa organização nas terras ultrécada de sessenta, verifica-se a presença de guerrilhas cubanas no PAIGC. Amílcar Cabral situa-se então no grupo moscovita e os serviços secretos cubanos começam a "trabalhá-lo". Camarinas portuguesas, se lhes escapa).

Castro joga a cartada do PAIGC, na Guiné-Bissau e Cabo Verde, contrabalançando com os chineses. No princípio da dentros de treino e vias de aprovisionamento são estabelecidos na Guiné. Para tal, Sékou Touré passa por cima das suas divergências com Castro, ao ponto da segurança cubana assegurar a sua guarda pessoal. Uma "ajuda técnica", na esfera agro-pecuária, é o pretexto escolhido para camuflar esta actividade.

(...) Durante todo o tempo da "desaparição" de Che Guevara, nos círculos relacionados com a problemática africana, soube-se que ele mesmo se estava a ocupar de todos os pormenores do esboço guerrilheiro do centro sul-africano: estudando materiais, estabelecendo contactos, supervisionando o treino dos guerrilheiros, organizando redes informativas, abastecimentos, incrementando a espionagem, etc.



A ideia é simples: Vietname na Ásia, o Che Guevara em África (apoiado pela Argélia, Ghana, Congo Brazzaville e Tanzânia, para derrubar os colonialismos inglês e português que ainda restavam, assim como os do regime rodesiano e sul-africano), enquanto Fidel Castro se ocupava da América Latina. Esperava-se assim, comprometer os Estados Unidos na zona sul-africana e na América Latina, além do Vietname, provocando uma grande confusão.

A ideia pretende desenvolver a primeira introdução real de guerrilha no Congo Léopoldville, com duas bases: o Congo Brazzaville e a região dos Lagos da Tanzânia. Depois de se instaurar em Léopoldville um governo do MNC [Movimento Nacional Congolês], com Gaston Sumialot e Christopher Gbenye à frente, tornar-se-ia fácil desferir golpes laterais, a partir de ambos os Congos, até Angola, e da Tanzânia sobre Moçambique. Esperava-se unir os dois Congos e constituir uma franja duma costa à outra (com ambos os Congos, Angola, Tanzânia e Moçambique), o que propiciaria o desmoronamento do sistema com um governo dos futuros guerrilheiros do Zimbabué. Depois disso, considerava-se que a África do Sul Ocidental (Namíbia) fosse uma conquista fácil.

A África do Sul e a Namíbia são os pontos chave de toda a estrutura. Especulava-se com duas alternativas: uma extensa luta guerrilheira na Namíbia e na África do Sul, ou a invasão da África do Sul com um exército africano, sob as ordens de Che Guevara, atacando a partir de diversos países fronteiriços. Desta maneira, por intermédio de Che, o castrismo esperava transformar África num elemento estável da sua política. Se, no decorrer da evolução do plano, verificasse a intervenção militar norte-americana, então implementar-se-ia a estratégia da confusão, com dois, três, vários Vietnames.

(...) O terrorismo sempre figurou na agenda de Castro, ainda que se tentem dificultar as evidências. Muitas das organizações que operaram nos anos sessenta obtiveram treino, bases e inclusive instrução cubana. O PLO, as Brigadas Vermelhas, os tupamaros, os montoneros, o comando Boudiaf e outras mais pequenas devem parte da sua existência à generosidade de Fidel Castro.

A ligação de Havana com o editor italiano Giangiacomo Feltrinelli, chefe das Brigadas Vermelhas, tornou-se pública nos finais da década. Fidel Castro tinha contribuído com largas somas de dinheiro e tinha-o ajudado a construir uma rede de contactos na Europa. Feltrinelli travou relações pessoais com Che Guevara e com Fidel Castro e a sua editora publicaria a revista "Tricontinental", a voz internacional de Fidel Castro, financiada pelos seus serviços secretos. Com a autorização de Castro, Feltrinelli publicou em várias línguas os manuais: "Guerra de Guerrilha" de Che Guevara e "Guerrilha Urbana" de Carlos Marighella.

Castro ajudou a formar o comando terrorista do grupo palestino pró-soviético, Frente Popular para a Libertação da Palestina, de George Habash e cujo braço armado é conhecido como "Comando Boudiaf", que seria dirigido por Mohamed Boudiaf, argelino, ex-benbelista e amigo pessoal de Fidel Castro. Depois da misteriosa morte de Boudiaf, a embaixada de Cuba, em Paris, seria o eixo da posterior reorganização deste grupo, que viria a ter como chefe o lendário Ilich Ramírez Sánchez (Carlos, o Chacal).

Carlos tinha participado na conferência Tri-Continental de Havana, durante a qual recebeu um curso especial de comando na província de Matanzas e que compreendia: guerrilha urbana, armas automáticas, explosivos, sabotagem, cartografia, fotografia, falsificação, etc.

Dali, a DGI recomendou-o à KGB para efectuar este curso especial na URSS, Carlos recebeu em Cuba treino de contra-informação, após o que se incorporou no comando de Mohamed Boudiaf, na Europa.



O governo inglês confirmaria a ligação da embaixada cubana em Londres com as actividades de Carlos, assunto que provocou a expulsão de um agente de serviços secretos cubanos que actuava sob cobertura diplomática. Por seu lado, André Mousset, Ministro do Interior de França, afirmara o envolvimento directo de Cuba nos planos terroristas de Carlos "o Chacal"; Mousset demonstraria as relações de pelo menos três diplomatas cubanos com Carlos em Paris.

"...após vários dias de investigação, o governo francês ordenou a expulsão de três diplomatas cubanos, sob acusação de que eram cúmplices de Carlos (o terrorista Ilich Ramírez Sánchez), e os serviços secretos cubanos não empreendem tais acções sem autorização da KGB..."

É a época em que Fidel Castro se entrega completamente à criação e fortalecimento de organizações terroristas, tais como as Brigadas Vermelhas, os tupamaros, os montoneros, o MIR chileno, os comandos palestinianos de George Habash, os grupos de comando no México, os mocheteros em Porto Rico, o movimento Weatherman, etc.

(...) A subida ao poder do coronel Khadafi, na Líbia, desperta a curiosidade e o interesse da URSS e de Cuba, que tentariam submetê-lo às suas posições. O líbio, ainda muçulmano fanático, de tendência indecifrável, concretiza o desafio petrolífero contra os países ocidentais que apoiam Israel e desencadeia uma vaga de subversão e terrorismo anti-sionista na área.

No ano de 1966, Raul Castro instalou-se em Hanói para discutir a concessão de ajuda militar. Cuba oferece treino à aviação e artilharia, assim como ajuda em trabalhos de contra-espionagem e interrogatórios. Cuba abre uma embaixada em território Vietcong, enquanto Raul Castro discute, com a Coreia do Norte, a possibilidade de oferta de treinos aos movimentos e guerrilhas de África e América Latina.

(...) Cuba não dispõe nos anos sessenta de uma política definida para o Médio Oriente, em parte pela frieza das suas relações com Nasser, e porque a URSS procedia com cautela antes da ligação de Yasser Arafat com a China. A partir do problema militar egípcio na "Guerra dos 6 Dias" com Israel, em 1967, a influência, auxílio financeiro e material, treino militar e santuários de Nasser para os "movimentos de libertação" da África entram em declínio. Mesmo assim, a Liga Árabe, move-se para posições mais moderadas.

As pressões soviéticas para que Castro rompa com Israel materializam-se com a visita de Alexei Kosygin a Havana, em 1967, mas Cuba resiste a estas pressões, ainda que, por outro lado, Castro mantenha relações ocultas com a facção palestiniana pró-soviética e George Habash. Abu Iyad, o braço-direito mais próximo de Yasser Arafat, comentara que desde 1966, a OLP enviara militares para treinos em Cuba, e que os instrutores cubanos efectuaram treinos nos campos de manobra palestinianos. O diferendo Castro-Nasser tinha contribuído para que Havana mantivesse esta posição ambivalente com a OLP e Israel; enquanto a sua propaganda oficial apresentava Tel-Aviv como instrumento norte-americano, técnicos israelitas auxiliavam os planos citrícolas de Cuba. A velha guarda estalinista era evidentemente pró-nasserista e anti-Israel, enquanto os "neo-marxistas", as forças armadas, a juventude comunista e a população evidenciavam a sua preferência pelo "David" mesoriental.



Castro e Khadafi (além da URSS, Sudão e Egipto) fazem convergir desde o início a sua ajuda à Frente de Libertação Eritreia, promovendo a criação de um Estado independente da monarquia etíope. Castro, a URSS e o egípcio Nasser reconheciam o valor deste território, pelos seus portos (Assab e Massawa), que davam acesso ao Mar Vermelho. Esta posição inicial a favor da independência da Eritreia, causara transtornos políticos a Castro quando os seus exércitos entraram em acção, em 1978, a favor do etíope Mengistu Haile Mariam, decidido a acabar com as aspirações de independência da Eritreia.

A partir de 1969, o "akid" Khadafi lança uma severa campanha contra Fidel Castro, devido às suas relações com Israel e ao seu "falso não-alinhamento". Khadafi procura entre outras coisas afastar Fidel Castro como possível centro do não-alinhamento. Castro descobre então o reencontro cubano-argelino, que se vem concretizando desde a visita que o Chanceler e chefe dos serviços secretos de Boumédiène, Abdulaziz Bouteflika, efectuara em Havana em Novembro de 1968.

(...) O período que vai desde o descalabro guerrilheiro na Bolívia, em 1967, até à invasão de Angola, não é de inactividade ou pura reconstrução doméstica quanto a África. Além das missões militares na Serra Leoa, Guiné Equatorial, Somália, Argélia, Moçambique, assim como as do Yémen do Sul, Síria e Iraque, treinam-se, armam-se, financiam-se na Zâmbia, Benin, Congo Brazzaville, Guiné, Madagáscar, Mali, Líbia e Burundi. Reforçam-se as missões diplomáticas e serviços secretos em África e no Médio Oriente, estendendo-se ao Egipto, Tanzânia, Congo Brazzaville, Guiné, Argélia, Síria, Iraque, Yémen do Sul, etc. Castro mantém cursos de treinos subversivos e ajuda militar aos "movimentos de libertação" africanos.

(...) A invasão de Angola não significa um corte estratégico ou a introdução de um novo esquema, mas a culminação de um processo que se inicia simultaneamente em Cuba e na URSS, no final dos anos sessenta, com a consolidação de Brezhnev e a subida do grupo internacionalista e do complexo militar-industrial, o fortalecimento interno dos velhos marxistas em Cuba, assim como a introdução de esquemas sócio-económicos soviéticos. Angola encontra antecedentes na forma como a URSS e Cuba se movimentam no Yémen do Sul e na Somália, assim como na sua participação conjunta na Síria, em 1973.Na ordem ideológica, Castro criou as condições para que o seu próximo "internacionalismo" militar não provoque desavenças. Tomam-se medidas de controlo dos intelectuais e militantes do extinto movimento de 16 de Julho (inimigos da velha guarda estalinista cubana). Suprime-se a revista "Pensamento Crítico", de tendência anti-soviética, assim como a publicação das chamadas Obras Polémicas. Nas Universidades e escolas pré-Universitárias introduz-se o estudo do marxismo-leninismo e eliminam-se as disciplinas de filosofia e sociologia. No terreno laboral, dita-se a "isabelina" (Lei contra vagabundos) que permite encarcerar todo aquele que não se encontre a trabalhar. Legaliza-se a detenção "preventiva" dos indivíduos supostos opositores "potenciais" (a Lei do suspeito)».

Juan F. Benemelis («Castro, subversão e terrorismo em África»).

Salazar - Cristine Garnier.

  Regressei a Portugal. Lentamente, prudentemente, retomo contacto com esta doce terra sentimental e como não sei conservar recordações, que...