sábado, 1 de agosto de 2026

O dia de S. Traidor - António José de Brito

 




«(...) E veio o dia de São Traidor…!
- Como é próprio de uma época em que a traição, a vileza, a covardia e a abjecção são os traços dominantes, o que se censura hoje a Salazar é o que ele teve verdadeiramente de grande e elevado.
- Classifica-se de atitude suicida a sua oposição férrea e persistente a todos os oportunismos e a todas as diversas soluções políticas que traduziam apenas a vontade de não lutar pela integridade das fronteiras seculares de Portugal quando foi esse, ao invés, um dos seus mais belos títulos de nobreza: ter reconhecido lucidamente que a única solução política digna era combater à outrance pela grandeza da Nação que só existia esse meio de conservar o que era nosso há centenas de anos e de assegurar um futuro de prosperidade e ordem e que, assim, no caso de se perder tudo o resto, se salvava, ainda, o bem mais precioso de um povo que é a sua honra. Porque sobrevive-se enquanto Pátria a uma derrota gloriosa, mas não a um abandono ao inimigo por comodismo, medo, indiferença pelo interesse comum.(…)
- Ainda não tinha fechado os olhos e já se entrava no caminho das autonomias crescentes para as províncias ultramarinas (que – admitia-se sem rebuço – viriam acaso a produzir a independência futura das mesmas) como se a missão do Estado fosse andar a semear Brasis pelo mundo, em vez de velar pela intangibilidade do património histórico e espiritual herdado dos antepassados.
Depois, os ventos semeados deram as tempestades previsíveis. Veio o dia de São Traidor e iniciou-se, oficialmente, a construção de um país novo – ou antes de uma horda movida pelos instintos de prazer e egotismo – para o que procedeu, desapiedadamente, à destruição do que era um autêntico país – o nosso país. Em nome da edificação de um Portugal maior, reduziram-no a um inviável e anárquico rectângulo peninsular.
- Em nome da liberdade, impôs-se a ideologia obrigatória do antifascismo. Em nome dos direitos do homem, espancou-se, torturou-se, elaboraram-se leis penais com efeitos retroactivos, agravadas a seguir por uma triste assembleia que se chama da República. Em nome da paz, centenas de milhares de brancos, pretos e mestiços tombaram vítimas da descolonização exemplar, ao passo que milhões de outros, sem serem ouvidos e achados, foram entregues ao jugo soviético. Em nome do bem-estar dos desfavorecidos e desprotegidos, arrasou-se a economia, estabelecendo-se o princípio, que conduz à miséria geral, de que o importante é diminuir o trabalho e aumentar o ganho. Em nome da independência nacional, mendigam-se empréstimos aos capitalismos lá de fora, empenhando-se o que nos resta. (…)
- Mas enquanto os coveiros da nação se arrastam no seu carnaval, aqueles para quem a fidelidade não é uma palavra vã, para além dos vermes e pigmeus actuais, volvem as suas mentes e corações para a figura cimeira de Salazar, o derradeiro estadista nascido nesta terra para quem se pode erguer o pensamento sem se ter de corar de pejo e tristeza.»
Retirado de “A Rua” do Professor Doutor António José de Brito.

Em nome da verdade - o PREC.

 



«Na noite de 27/28 de Setembro de 1974 e dias seguintes, foram presas centenas de pessoas, civis e militares, a maior parte das quais surpreendidas a dormir em suas casas. Entre os presos militares, encontrava-me eu. O pretexto foi a "Manifestação da Maioria Silenciosa" que se preparava para o dia 28, em apoio ingénuo ao Presidente da República, General António Spínola. Inventou-se ter a Manifestação propósitos sediciosos contra Costa Gomes, Vasco Gonçalves e Otelo Saraiva de Carvalho, o que, embora muitos o desejassem, não correspondia em absoluto a qualquer realidade.

Os mandatos de captura, bastantes dos quais assinados em branco, referiam o crime de "associação de malfeitores", parece que criação notável do Dr. Salgado Zenha. A maioria dos detidos foi conduzida para o Forte de Caxias, tendo quase todos os militares sido, após alguns dias, transferidos para a Prisão Militar da Trafaria. Na generalidade dos casos, não houve culpa formada, nem interrogatórios formais e válidos.

(...) O documento [ESTADO PORTUGUÊS RÉU CONDENADO PELA PRISÃO DE KAÚLZA DE ARRIAGA] (....), resume o facto da minha prisão, alguns acontecimentos com ela relacionados, nos quais se distingue a acção judicial, em consequência por mim movida contra o Estado Português, e, muito especialmente, a Sentença do Tribunal da Auditoria Administrativa de Lisboa e o Acordão do Supremo Tribunal Administrativo, dando-me razão plena e condenando o Estado Português.

Alguns têm estranhado o valor reduzido da indemnização - 100.001$00 - em que o Estado foi condenado. Devo esclarecer que fui eu próprio que não quis maior indemnização, dado entender tratar-se de uma reparação essencialmente moral e não de um processo de auferir lucros materiais. Lucros que, de resto e em última análise, apenas sobrecarregariam os contribuintes. Por outro lado, eu não me podia sentir atingido ou sequer tocado, no meu foro íntimo, com a miserabilidade dos agentes do Estado responsáveis pela prisão de que fui objecto, pela sua duração e pelo que durante ela ocorreu. Os grandes atingidos, os violados maiores, foram, sim, não só a Legitimidade e a Legalidade como a Moral, a Verdade, a Liberdade, a Justiça e os Direitos Basilares do Homem. Cem mil e um escudos era, na época, a indemnização mínima que podia exigir-se, sem prejuízo de eventuais recursos para instâncias superiores.

(...) Ainda hoje é, para mim, evidente que, se após o "25 de Abril" me mantivesse General do activo e até se na situação de reserva não tivesse sido preso, me sentiria na obrigação nacional de procurar evitar, a todo o custo, a descolonização e a marxização do País. E, ou conseguiria o sucesso tudo salvando, ou, admito, em face do logro em que viviam os portugueses, mais provavelmente teria perdido e seria pessoalmente destruído.

Assim e com a mesma probabilidade, os então novos dominadores de Portugal, sem o desejarem, bem pelo contrário, acabaram por me prestar, no plano pessoal, "saneando-me" e prendendo-me, grande serviço.

Por outro lado, também involuntariamente, acabaram do mesmo modo por me conferir, mantendo-me preso até se consumarem aquelas descolonização e marxização, o privilégio de, com verdade, poder proclamar ser eu uma das poucas pessoas e dos pouquíssimos militares que, nem por acção, nem por passividade ou omissão, tiveram quaisquer responsabilidades, directas ou indirectas, na execução do desastre nacional.

Tudo isto sem prejuízo, não só da iniquidade, arbitrariedade e prepotência praticadas, como da ilegitimidade, ilegalidade e dolo havidos, como ainda da violação verificada dos mais basilares Direitos do Homem».

Kaúlza de Arriaga («Guerra e Política. Em Nome da Verdade. Os Anos Decisivos»).

sexta-feira, 31 de julho de 2026

As vergonhosas prisões arbitrárias durante o PREC.



 «(...) Foi preso pelo “crime” de grau de parentesco? Alguma vez lhe disseram que foi esse o motivo?


Esse foi o motivo. Telefonaram para o COPCON a dizer que “estava ali um sobrinho do Marcello” [Caetano] e a resposta foi “tragam-no” (a mim e aos outros). Depois o MDP/CDE emitiu um comunicado a dizer que tinham sido presos 12 notórios fascistas que tinham desempenhado altos cargos no antigo regime e um desses 12, era eu! Isto tudo com 17 anos, repito.

Foi com a “legalidade” de um dos famosos mandados em branco?

Nem isso! No nosso caso não existiu qualquer mandado, sequer. Foi apenas a legitimidade revolucionária.

Como foi tratado na prisão? 

Na prisão, estive duas vezes no isolamento (antes de ser interrogado) e à parte umas ameaças durante os interrogatórios, fui bem tratado. Contudo, no momento da minha detenção, simularam o meu fuzilamento (e dos meus companheiros) no isolamento.

Essas práticas de tortura eram comuns?

Hoje sei que houve vários tipos de sevícias, tanto físicas como morais, sobretudo morais, mas não posso afirmar que fossem comuns. Agora que aconteceram, aconteceram...».

Entrevista a Nuno Alves Caetano no Jornal "O Diabo."

terça-feira, 28 de julho de 2026

Salazar, o homem e a obra.

 


HOMENAGEM A SALAZAR E AOS SEUS 25 ANOS DE GOVERNAÇÃO, PRESTADA PELA CÂMARA MUNICIPAL DO PORTO, EM 1953.
( EXCERTOS DO DISCURSO PROFERIDO PELO ESCRITOR , CONDE D' AURORA)

" ESTE HOMEM DE GÉNIO, ESPANTO DO MUNDO ACTUAL, INVEJA DE TODOS OS POVOS, QUE MESTRES TERIA TIDO? "

" ESSA A GRANDE RENÚNCIA, O MAIOR VALOR DE SALAZAR.
SALAZAR VALOR DE PORTUGAL E DO MUNDO, JÁ PERTENÇA DA HISTÓRIA DE PORTUGAL E DO MUNDO. "

"Não é sem a mais alta emoção que uso da palavra neste soleníssimo momento. Comovido, como não posso deixar de me sentir, pequenino e esmagado, tal um minúsculo comparsa em recuado travelling de grande espectaculosidade histórica, pelo ambiente e pelo assunto: discorrer sobre Salazar e no Salão Nobre dos Paços do Concelho do mais representativo, do mais tradicional, do mais opulento município de Portugal.
(...)
Vinte e cinco anos da estadia de Salazar no poder, do estadista de maior nome mundial da actualidade.
Tentarei traçar ante a retina da vossa imaginativa, culta e inteligente, com minhas mãos inábeis, em acelerada retrospectiva panorâmica, a infra-estrutura material da obra por ele realizada; mostrando, depois, a superstrutura que a timbra, sua maior obra, sua grande obra, a reedificação espiritual; e finalmente tentar, quase em quiromância, descrever as linhas de força, as ideias mestras, os antecedentes, a explicação de Salazar, tanto quanto é possível explicar qualquer caso humano, especialmente este que extravasa todas as medidas normais e representa, no Tempo e no Espaço, um tipo extra - série, como disse de Monzie.
É já um slogan adoptado pelo nosso espírito, ainda relapso no conservantismo passivo e derrotista, bom condutor das forças do mal, considerar de mau gosto repisar os benefícios de ordem material dos últimos vinte e cinco anos. Mas a realidade é bem outra: é o nunca ser demais relembrar tais factos, deleitando-nos no orgulho como na usufruição de tais verdades. Circuitêmo-las rapidamente. Relembremos como Salazar, quando nem os homens do 28 de Maio conseguiam estancar uma derrocada financeira que vinha dos tempos da Monarquia Liberal, e tão pavorosamente se agravara no período da República Demagógica ( e V.V.Ex.ªs poupar- me -ão os números que todos conhecem e ninguém nega), lembremos como Salazar restaurou o equilíbrio orçamental; extinguiu o déficit crónico ( caso único nos tempos actuais da Europa! ) ; como se pagou integralmente a dívida flutuante e a taxa de juro baixou de 13% para 2.5% ; como se restabeleceu o crédito e se restaurou a moeda que passou de uma situação risível a ser uma das mais fortes do mundo.
(...)
Apetrecharam -se os portos, de aquém e de além mar. E renovou -se totalmente a grande rede de estradas por todo o país, num esforço de grandeza colossal. O repovoamento silvícola dos nossos escalvados montes, em centenas de milhares de hectares, só tem par na história com a obra do Pinhal de el- Rei.
E não se pode esquecer a obra de hidráulica - agrícola apenas porque o aproveitamento hidro - eléctrico atinge cifras astronómicas. E construiram -se milhares de escolas, de edifícios públicos, de tribunais, de casas para magistrados, correios e telégrafos com sua vasta rede de ligações telefónicas a todo o país. Centenares de pontes! E porque faltou o << brasileiro>> a construí - los, também se ergueram hospitais, realistas estes e obedecendo a planos. E restauraram -se por todo o País os nossos mais notáveis monumentos nacionais que se esboroavam e desapareciam sem deixar vestígios.
Por todo o Mundo Português se estendeu a obra de construção, integrando o Ultramar no seu verdadeiro conceito de Províncias de Portugal; e tudo lá se fez como na metrópole, resgatando até os caminhos de ferro e os portos; construindo estradas, saneando as finanças, organizando os quadros, fomentando então de um modo ingente a agricultura ultramarina.(...)
E tanta, tanta coisa ainda, em todos os mais pequenos recantos da vida portuguesa. E passarei em claro, por falta de tempo, vastos sectores inteiros. Mas se a infra-estrutura é notável, como já verificamos, muito mais importante é a obra de renovação dos espíritos: a Superstrutura. Essa é a consciência da nossa dignidade nacional, a nossa consciência imperial, o orgulho legítimo de sermos portugueses, que no dessoramento do último século e meio havíamos quase totalmente perdido. E também a paz nas ruas, nos espíritos, nas almas. (...) É o restabelecimento das potências do Espírito. É o primado da Inteligência e da Razão. É, numa palavra, a certeza que os portugueses adquiriram de que a Nação é uma realidade presente com projecção no futuro, e não apenas um passado de museu, morto, glorioso embora. E se alguns outros homens eram também dotados de tais sentimentos, não exclusivos de Salazar, faça -se -lhe a justiça que só ele conseguiu, com seu exemplo de abnegação e trabalho, votando à tarefa a própria vida - só ele conseguiu a generalização de tal espírito, de tal disciplina, de tal convicção.
(...)
Suavemente, lentamente, persuasivamente, dentro das nossas fronteiras vai-se a pouco e pouco vivendo de novo habitualmente, vítimas já quase apenas dos males do século, porque não podemos esquecer que Salazar não tem o condão de desligar -nos do Tempo e do Espaço, nem dar solução, como tantos rabugentamente pretendem, aos grandes danos do presente, existindo com muito maior intensidade nos outros países, esses mais ricos que o nosso ainda sem subsolo nem grande indústria.
(...)
Este homem de génio, espanto do mundo actual, inveja de todos os povos, que mestres teria tido? Estudemos as linhas de força da sua personalidade. Quando digo mestres eu quero lembrar essencialmente três de quem hauriu mais profundamente aquela sua vasta preparação de estadista que o faz dominar os acontecimentos, tão ao contrário dos<< políticos - políticos>> dominados, esses, pelos acontecimentos. Aquela clareza dos seus discursos, álgida embora quanta vez, mas clara e álgida como a demonstração de um teorema. Que só pelos discursos fica Salazar indelèvelmente inscrito entre os grandes clássicos da língua. (...)
Ora quando digo Mestre eu quero significar em primeiro lugar o Povo de Portugal, esse Volk, tão marcado na actual personalidade de Salazar, embora Salazar mais propriamente herói nacional de que herói popular. Povo da nossa terra, em toda ela igual e como ele: arca do bom senso, do carácter, de todas as nossas virtudes atávicas e tradicionais. (...)
A seguir é a admirável já cultura e não apenas instrução do curso teológico (...)
É depois a velha, a grande Universidade de Coimbra. Mas até essa, quintacolunizada pelo espírito destruidor do mal, abastardada ao ponto de tentar expulsar de seu seio o futuro estadista, apenas porque ele tinha o autêntico, o tradicional, o verdadeiro espírito de escolar coimbrão. É a Mestra Coimbra, mais o burgo que a Universidade; mais o meio, o ambiente, a república estudantil.
Ah! São esses os três grandes mestres de Salazar.
(...)
Gélida casa a sua, gabinete oficial e burocrático sem alma, objectivo como um volume de carneira do<< Diário do Governo>>. Gélida casa sem lume, sem o calor, o colorido, a consolação, o conforto de aquilo a que Fradique shakespereanamente chamava<< o leite da bondade humana>>.
Essa a grande renúncia, o maior valor de Salazar. Salazar valor de Portugal e do Mundo, já pertença da História de Portugal e do Mundo."

( SALAZAR , pintura a óleo da autoria de Henrique Medina)

Ana Mandim 

segunda-feira, 27 de julho de 2026

A colossal fortuna de Salazar.

 



Para calar a boca dos que muito falam sem saber!!!

"Pensei de interesse procurar saber quais os haveres de Salazar à data da sua morte. Julgo que possuía na altura apenas uma conta bancária: na Caixa Geral de Depósitos, Crédito e Previdência – Caixa Económica Portuguesa. Fora o depositante n.º 84 840. Extraviara a sua caderneta. Fora-lhe atribuído em 1965 um novo número: 95 450. Em 31 de Dezembro de 1969, a sua conta apresentava um saldo positivo de 274 892$00. Creio que durante a doença, e além do vencimento que lhe era directamente pago pelo Ministério das Finanças, alguns levantamentos terão sido feitos, por cheques que o doente ainda assinara, nos primeiros meses de 1970. Quando Salazar morre, o saldo na Caixa, numa ordem de grandeza aproximada, não deveria exceder os 50 000$00. Quanto às suas «propriedades» em Santa Comba e no Vimieiro: em 19 de Outubro de 1970, foi feita uma escritura de habilitação de herdeiros no notário Fernando dos Santos Manata, tendo outorgado João Manuel Alves (ulteriormente presidente da Câmara de Santa Comba), José Pinto de Matos e José Maurício de Gouveia; o «falecido não fez qualquer disposição de última vontade»; e deixou como únicas herdeiras suas irmãs Marta, Maria Leopoldina e Laura (esta última viúva de Pais de Sousa). À herança foi atribuído um «valor provável» de 50 000$00. Este quantitativo deve ter sido calculado por baixo. Pode presumir-se que os terrenos e a casa de Salazar deveriam valer em 1970 cerca de cem contos. Nestes termos, o património pessoal de Salazar, no total e à sua morte, deveria oscilar entre cento e cinquenta a duzentos contos."

Franco Nogueira in «Salazar – Volume VI – O último combate (1964-1970)», 1985.

quarta-feira, 22 de julho de 2026

África e Salazar.

 


Palavras de Salazar sobre o problema africano, sempre de uma suprema lucidez e completamente objectivo.

«... As aspirações dos povos africanos não diferem das que ainda hoje constituem os anseios da maioria das sociedades espalhadas por esse mundo fora, e que anseiam libertar-se do ciclo de subdesenvolvimento em que se encontram. Os seus objectivos coincidem, assim, com os problemas de governo dos respectivos países ou territórios; e, como acontece em toda a parte, quando tais problemas não encontram solução, ou quando esta se processa em ritmo mais lento do que aquele que revelam as aspirações dos povos, logo se põem em dúvida, ou seja politicamente em crise, quer as instituições quer a competência da administração. Este fenómeno é tanto mais frequente quanto menor é o grau de cultura da sociedade em questão, o qual, por sua vez, deriva essencialmente do grau de desenvolvimento da economia territorial, pois que a educação e a cultura não as produz a terra nem se colhem das árvores, como fruto espontâneo: conquistam-se pelo trabalho. Parece, assim, que não haverá outra saída do ciclo de subdesenvolvimento que não seja pela via do trabalho dos povos interessados, pois que os programas de educação em massa impostos de fora e oferecidos como dádiva não conseguirão ultrapassar os escolhos de ordem material que se lhes antepõem e que impedem resultados espectaculares. Se esta noção é exacta - e não vejo que nalguma parte do Globo ou nalgum tempo da História tenha sido rebatida - afigura-se que o critério que havia de presidir à evolução africana não deveria desprender-se da necessidade de as responsabilidades da administração estarem entregues aos elementos mais qualificados para as assumirem, com o apoio de uma soberania interessada no progresso do conjunto.

Não exporei aqui certas dúvidas, a primeira das quais seria se tal doutrina terá levado suficientemente em conta, na sua aplicação, o que nos parece deveria ter sido a sua principal razão de ser, ou seja, os interesses dos povos; tão-pouco procurarei responder a certas interrogações, tais como as de saber a quem melhor vem aproveitando o vento da mudança e se a doutrina tem sido sempre aplicada ou se a comunidade internacional, pelo contrário, tem assistido inerte a gritantes derrogações do princípio. Limitar-me-ei a expor a nossa opinião.

Nós conhecemos, por contacto directo de longa tradição, o nível e as possibilidades de certas elites africanas e não duvidamos por isso da sua capacidade como elementos dirigentes que, no caso português, o são e têm sido através da História. Mas não julgamos, e a experiência vem confirmando a nossa convicção, que essas elites sejam numericamente suficientes em todos os domínios e em todos os escalões, quer da administração quer da actividade privada - sem a qual aquela não teria objecto nem sentido - para assumir inteiramente sós as complexas funções de um Estado moderno. Que assim é parece pela circunstância de, em certos casos, se estar fazendo uma experiência que a nós se nos afigura contrariar a independência real dos povos: enquanto o governo é entregue aos elementos locais, as empresas e iniciativas de valor económico básico continuam - e é esta a melhor hipótese - a cargo dos que, embora nacionais da antiga potência soberana, passaram agora a ser estrangeiros no país onde servem. Quer-nos parecer, quando despidas das aparências e reduzidas as coisas à sua essência, que estes novos Estados se arriscam a criar por este processo sujeições mais graves do que aquelas de que pretendem libertar-se. Mas por outro lado, onde tal experiência não esteja sendo executada, temos assistido, e receio que viremos a assistir com maior frequência, a retrocessos da vida económica e social e ao retorno de certas práticas incompatíveis com a prosperidade e progresso desejados.

Deve ter-se como incontroverso que tais inconvenientes não resultam da vontade dos nossos dirigentes africanos; e se, como se faz crer, esses são, em todos os casos, os mais habilitados, também não deve provir tal estado de coisas da deficiência das suas qualificações. A justificação, parece-nos, residirá na falta de elementos de apoio com que essas elites contam. E é natural que assim seja, porque um Estado não é constituído apenas por governantes. Um Ministro da Economia, por exemplo, não poderá governar, se não tiver, ao nível dos serviços públicos, os engenheiros, os economistas, os agrónomos, os veterinários, os funcionários de carteira e de campo; e, tendo-os todos, nada terá a dirigir se lhe faltarem os chefes de empresa, os técnicos, os comercialistas e os operários especializados, que na esfera privada mantêm em funcionamento as actividades económicas, isto é, os homens que organizam e dirigem o trabalho. A existência de todas estas camadas populacionais não foi considerada essencial para a formação das novas nações africanas; nós entendemos, porém, que será indispensável para o seu funcionamento e para a sua independência. E como uma economia nacional não se inventa nem improvisa e a preparação profissional é extremamente morosa (como estão a reconhecer mesmo os países economicamente fortes relativamente aos seus planos de desenvolvimento) parece que aos povos considerados se indicou um caminho pelo qual não conseguirão progredir a ritmo compatível com o resto do mundo e, assim, radicarão o seu atraso e comprometerão a sua independência nacional.

A independência das nações africanas tem-se processado, na generalidade dos casos, sobre dois erros que as prejudicarão: o racismo contra o branco e a suposta unidade dos seus povos naquele continente. Esta última suposição tenderá a subordinar o negro ao árabe; o racismo negro tenderá a prescindir de tudo quanto o branco mais progressivo pode levar-lhe em capital, trabalho e cultura. Seria mais assisado substituir o exclusivismo rácico pela colaboração que vimos ser imprescindível. É por isso que nós entendemos que o progresso económico, social e político daqueles territórios só será possível numa base multirracial em que as responsabilidades de direcção em todos os domínios caibam aos mais qualificados e não aos desta ou daquela cor.

Sei sermos acusados de, com esta doutrina, estarmos tentando assegurar o predomínio da raça branca em África, com base, sobretudo, no facto de o nosso multirracialismo não ter ainda reflexo bastante lato na distribuição de responsabilidades nas províncias ultramarinas em África. É certo que estamos ainda longe de atingir o ponto em que poderíamos estar plenamente satisfeitos com as nossas realizações. Mas não pode negar-se que não só é o mais seguro caminho que trilhamos como o progresso dos territórios tende a cobrir a totalidade das respectivas populações, e não sectores privilegiados. Esse progresso é impossível negá-lo, pois que as realizações podem comparar-se, e com vantagem em muitos pontos, às dos outros países africanos. E se os nossos críticos estão seguros de que não é assim, mal se compreende que não tenham aceite a ideia de ser feito um estudo por individualidades de relevo internacional, e sob a égide da Organização das Nações Unidas. Foram infelizmente preferidos os discursos ao exame desapaixonado das realidades em debate, que tinha o nosso apoio.

Uma palavra sobre Angola. Estamos sendo vítimas ali de ataques que a princípio pretenderam acobertar-se sob a capa de sublevação das populações ansiosas por não continuarem integradas na Nação Portuguesa. O entusiasmo dos libertadores africanos porém não permitiu ocultar senão por pouco tempo a sua intervenção no recrutamento, financiamento e treino dos elementos estrangeiros que através de Estados limítrofres penetram em Angola. De modo que hoje não pode já afirmar-se que há ali uma revolta de carácter mais ou menos nacionalista, mas que uma guerra é conduzida por vários Estados contra Portugal, num dos seus territórios ultramarinos. Ora, duas coisas se devem ter por certas: a primeira é que, ao atacar-se Angola, não se ataca só Portugal, mas se está pretendendo enfraquecer as posições, e não só estratégicas, de todo o mundo ocidental; a segunda é que os que atacam, os que apoiam, os que ajudam com a sua indiferença, estão a agir contra os verdadeiros interesses das populações de Angola, só com retardar-lhes o desenvolvimento pacífico e com levar ali a semente do antagonismo racial que não existia e é hoje (...) o principal obstáculo ao progresso e bem-estar do continente africano».

Oliveira Salazar («Realidades da Política Portuguesa»). 

Tugalândia, o paraíso dos ignorantes!!!

 





O mais grave é que nada mudou, antes pelo contrário, agravou-se!!!
Mas curiosamente ainda anda por aí muito cretino a dizer que hoje se vive muito melhor, a esses eu rebato, vivem melhor porquê, quantos são e à custa de quê e de quem?
Não me phodam, hoje há por aí muito boa gente a viver muito bem, mas eu sei o porquê, um cavalgaram este regime de merda, outros viveram dos esquemas que o regime lhes permitiu, outros, vivem mesmo à pala do regime, um regime feito por medida para acobertar vigaristas, incompetentes, ladrões, pederastas, pedófilos e outras bichezas que num regime são e sério estariam completamente manietados, presos ou postos no lugar que lhes compete, ostracizados e apontados a dedo pelo sistema de justiça e pela sociedade em geral. Hoje, infelizmente, são agraciados, recebem comendas, são aplaudidos por uma sociedade tão corrupta e venal quanto eles, um país que mete nojo com gente que não vale uma merda!!!
Estou farto disto, eu sei bom como resolver isto, mas não o posso escrever pois poderia ser alvo da Justiça que neste país também não é séria, não é imparcial e não é para todos, este país é só para alguns, os cretinos do costume...

Abram os olhos e comecem a pensar numa verdadeira revolução, desta vez sem a merda dos cravos. Eles comeram tudo e não deixaram nada, portanto por mim bem podem meter a merda da vossa democracia nas nalgas, cambada de imbecis!!!

Não se esqueçam, nunca outro regime foi tanto o regime da sardinha para três como este!!!

Saturei.

Meu rico Salazar.

Alexandre Sarmento 



terça-feira, 21 de julho de 2026

Coincidências?

 



«Segundo uma fonte bem informada, na reunião Bilderberg de 2004 em Stresa, Itália, montou-se uma promoção por grosso aos Bilderberg portugueses. Na sequência dessa sessão, ocorreram grandes alterações na liderança em Portugal.

- Pedro M. Santana Lopes, o pouco conhecido presidente da Câmara Municipal de Lisboa, foi subitamente nomeado Primeiro-Ministro pelo Presidente da República.

- José M. Durão Barroso, anterior Primeiro-Ministro, foi nomeado Presidente da Comissão Europeia.

- José Sócrates, deputado, foi eleito líder do Partido Socialista depois de Eduardo Ferro Rodrigues se demitir a 25 de Maio de 2003, numa crise social e política decorrente de uma investigação policial, que comportava quinze casos e que alegadamente o implicava, de abuso sexual de menores em orfanatos do estado entre 1999 e 2000 (as fontes próximas da investigação confirmaram-me que a crise foi encenada dos bastidores por membros do Clube Bilderberg). Sócrates tornou-se Primeiro-Ministro de Portugal em 2005».

Daniel Estulin («Toda a Verdade sobre o Clube Bilderberg»).

quinta-feira, 16 de julho de 2026

O verdadeiro nacionalismo.

 



Recomendo a leitura aos que se dizem nacionalistas e que usam como bandeira a figura de Salazar, pode ser que entendam desta forma o erro no qual sistematicamente incorrem!!!

É exactamente nestas palavras proferidas por Salazar que eu me revejo nelas, e por isso mesmo me assumo como nacional-salazarista de corpo e alma.

«Nenhum de nós afirmaria em Portugal a omnipotência do Estado em face da massa humana, simples matéria-prima das grandes realizações políticas. Nenhum de nós se lembraria de considerá-lo a fonte da moral e da justiça sem que às suas decisões e normas se sobreponham os ditames de uma justiça superior. Nenhum de nós ousaria proclamar a força mãe de todos os direitos sem respeito pela consciência individual, pelas legítimas liberdades dos cidadãos, pelos fins que se impõem à pessoa humana. Nenhum de nós - nacionalista e amante do seu País - faz profissão de nacionalismo agressivo, exclusivo, odioso, antes, se se apega à noção de pátria, é que compreende, por instinto do coração e por imposição da inteligência, que o plano nacional é ainda o melhor para a vida e os interesses da humanidade. E no entanto, fugindo da divinização do Estado e da sua força, em nome da razão e da história, nós temos de realizar o Estado forte, em nome dos mais sagrados interesses da Nação; temos de fortalecer a autoridade, desprestigiada e diminuída, diante das arremetidas de mal compreendida liberdade; temos de dar à engrenagem do Estado a possibilidade de direcção firme, de deliberação rápida, de execução perfeita.

Discursos de Salazar(13 de Janeiro de 1934) 

«Patriotismo reduzido ao futebol»

 



«Patriotismo reduzido ao futebol»

E deste trecho que registámos, transita para outro. Começa por uma observação de amarga ironia: «O patriotismo está hoje reduzido aos jogos de futebol que são jogados por onze mercenários». E acrescenta:

«A Pátria é uma entidade espiritual. O salazarismo, durante 50 anos, confundiu a Pátria com a Nação que é uma realidade de natureza, o conjunto dos que nascem portugueses. O actual socialismo não fala já da Pátria (a palavra Pátria aparece uma única vez na Constituição política para designar o território) e supõe-a reduzida à República, que é o conjunto dos bens públicos acrescidos dos bens privados. O nome de Portugal – que Agostinho da Silva disse ser “um dos nomes de Deus” – foi substituído pela designação de este País.

Há a alta e a baixa política. Entre nós, hoje, só há a baixa política. É uma baixa política que tem por modelo a linguagem e a terminologia do comunismo (classes sociais, luta de classes, classes trabalhadoras, mistificação e desmistificação, etc.) e o comunismo é, como todos sabem, a única doutrina acessível a todos os estúpidos. Claro que, nesse sentido, não sou um político e a minha linguagem, como a minha terminologia, é outra. Falo da Pátria, falo do espírito, falo mais do direito de ensinar do que do direito de aprender, falo da liberdade sem a qual não há liberdades, etc. Claro que o eleitorado ou o leitorado dos semanários, da RTP, dos discursos políticos, começa por estranhar esta outra linguagem. Não sou, pois, naquele sentido, um político. Como Leonardo Coimbra o não era quando foi Ministro da Instrução e deu início à primeira tentativa de extinguir a Universidade, quando afirmou que “se para ser republicano será preciso não acreditar em Deus, eu não sou republicano”. Nem político era Álvaro Ribeiro quando doutrinou o movimento da Renovação Democrática e escreveu a sua teoria do ensino».

Orlando Vitorino 

No socialismo, a culpa morre sempre solteira!!!

 




Principal característica do nosso tempo

«Uma das principais, se não a principal característica do nosso tempo, é a abolição da culpa pessoal. Os actos dos indivíduos são atribuídos a razões e motivos não pessoais: as condições da sociedade, o conflito entre ricos e pobres, a educação, a família, o ensino, traumatismos, recalques e complexos psíquicos. Esta abolição da culpa pessoal projecta-se no Direito e na política. O socialismo é uma das consequências: abolida a culpa pessoal, os indivíduos deixam de ser responsáveis pelos seus actos e acabam por ser absorvidos no grande corpo social de que o Estado é a representação. É o Estado que se torna, então, o responsável, o único responsável, e, nessa qualidade, torna-se seu dever intervir em todas as formas de existência, públicas e privadas.

Esta situação tem a origem mais profunda na abolição do pecado. Onde não há culpa, não há pecado. O diabo e o inferno não são reais. O pecado deixa de ser inerente à natureza do homem e do mundo. Ou seja: a humanidade e o mundo, não começam no pecado original. Como o pecado original teve por castigo e consequência o trabalho – “ganharás o pão com o suor do teu rosto” –, desaparecido o pecado original, o trabalho deixa de ser uma maldição bíblica e é, antes, exaltado, até divinizado.

Dentro de si, cada homem continua, decerto, a sentir que o trabalho é o que há de negativo na existência, o que lhe rouba o tempo que gostaria de dedicar aos seus interesses mais próprios, à nobre, produtiva e feliz ociosidade. Cada homem continua a ter por finalidade permanente libertar-se do trabalho, da obrigação do trabalho, e para isso recorre a todos os meios ao seu alcance, desde os mais vulgares e baixos, os que podem trazer a riqueza argentária: atraiçoar parentes, atropelar amigos, comprar lotaria, jogar no totobola e, frustradas todas as tentativas, invejar e odiar o rico. Mas na sua existência exterior, social, política, todos aplaudem a divinização do trabalho, que passou a constituir a substância e a finalidade da política, antiga arte de governar os povos. Os cidadãos deixam de ser cidadãos para serem trabalhadores. Todas as revoluções se fazem com esse fim. Com esse fim, todos os governos governam e todas as sociedades se organizam. E se admitirmos – como cada um de nós na nossa tácita intimidade reconhece – que o trabalho não deixou de ser o que há de negativo na existência e constitui realmente, ou nela é simbolizado, a condenação bíblica de um pecado do género humano, então a política está tendo por conteúdo e finalidade a exaltação do que há de maldito no mundo e na condição do homem, contradição trágica. E se assim é, então a humanidade jamais se poderá libertar do trabalho. A civilização interrompe a sua marcha, pois ela resulta da ciência e da técnica que são a substituição do trabalho pela máquina, da arte e do pensamento que resultam da ociosidade criadora, “único fragmento da nossa semelhança com Deus que nos resta do paraíso.

Claro que nada disto significa que não se atenda ao mundo do trabalho, aos dramas, sofrimentos e direitos dos trabalhadores. Pelo contrário. O que seguramente afirmo é que não se satisfazem esses direitos nem se resolvem esses dramas nem se põe termo a esses sofrimentos, exaltando, divinizando, sobrepondo a todos os valores a causa que lhes dá origem, o trabalho, enquanto se qualificarem todos os homens só como trabalhadores e só para eles se organizar a sociedade e a política. A finalidade da política é criar as condições para que os homens possam ser o que de melhor se destinam a ser. E os homens nasceram para ser felizes, ociosos e vários. O socialismo não permite que os homens sejam vários, porque os massifica na uniformidade colectiva: não permite que sejam ociosos, porque só os reconhece como trabalhadores. Não permite que sejam felizes, porque não pode haver felicidade na condição permanente de trabalhador e na banalidade vazia da uniformidade colectiva».

Orlando Vitorino 





quarta-feira, 15 de julho de 2026

Quem tinha Salazar, Tinha Tudo.

 





No tempo dele havia quase tudo de bom, hoje há quase tudo de nada, impera a corrupção, o compadrio, a idiotia e a vaidade.
No tempo dele tínhamos um país soberano e um povo livre, hoje somos esmagados e trucidados por um Estado ladrão e governados pelos nossos credores e pelos donos das grandes corporações!!!
Portanto senhores democratas abrileiros de merda, bem podem meter a viola no saco, o resultado da vossa incompetência está bem à vista de todos, Salazar desenvolveu o país e não deixou dívidas, vocês, seus cretinos corruptos, endividaram o país, empenharam as futuras gerações, fizeram uma nação escrava de uma dívida impagável e sobretudo atrasaram o país, nada funciona, nada funciona, querem enganar quem? Metam a vossa democracia naquele local onde o sol não brilha, cambada de parasitas incompetentes.
Salazar fez muito com muito pouco, vocês fizeram uma mão cheia de nada com uma colossal fortuna, ou melhor, engordaram as vossas contas bancárias e património, o vosso e o dos vossos companheiros de crime, reitero, o resultado está à vista, pena é este povo outrora trabalhador, focado e inteligente hoje acreditar ainda numa classe política improficiente e desonesta.
Gostem ou não, Salazar é o maior exemplo de probidade e honestidade que alguma vez passou pelo governo de Portugal, e contra factos, não há argumentos.

Alexandre Sarmento

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Spínola -A Guerra e o Fundo do Ultramar.

 



«O general Spínola tem duas fases na vida dele. Uma, em que se dedicou à Guiné, à parte militar, ao desenvolvimento social - foi a fase nobre da vida dele. Depois, deixou-se deslumbrar pela política, com influência de alguns deputados da ala liberal. Ele nunca me mostrou as cartas que tinha recebido. Depois disse-me que tinha recebido directivas, mas que continuava fiel ao presidente do Conselho. Mas o general Spínola, com todas as qualidades que tem, tem um defeito: é muito vaidoso. A certa altura, deixámo-nos de falar, e ele criou aquele mito da impossibilidade da defesa militar da Guiné, que o levou a ser substituído pelo general Bethencourtt Rodrigues que, pelo contrário, dizia que a Guiné era susceptível de ser defendida desde que tivesse mais meios - e os meios ainda foram conseguidos no meu tempo. A última vez que fui à Guiné foi em 1972. Senti que o general Spínola estava diferente. Quando ele levantou o problema do colapso militar, eu estava na última fase como ministro do Ultramar. Mas mandou-se à Guiné o general Costa Gomes que, quando regressou, disse que a Guiné era perfeitamente defensável desde que se mudasse o dispositivo. Foi na altura em que se resolveu substituir o governador. Fui eu que fiz o convite ao Bethencourt Rodrigues para ir para a Guiné. Eu combinei com ele falar num sítio onde não houvesse muita gente, e fomos para São Julião da Barra. Mas estava cá uma esquadrilha inglesa de acrobacia aérea, e foi um inferno para lá chegar.

Cheguei a São Julião da Barra, ele estava lá e eu disse-lhe: "Trago-lhe uma boa notícia. Você vai para a Guiné. Nós precisamos de si na Guiné. Diga que sim". Ele aceitou. Foi à Guiné, fez um estudo da situação, veio cá e disse, confirmando o que o Costa Gomes tinha dito: "A Guiné é defensável, mas tem que se mudar o dispositivo. E têm que ser reforçados certos meios de defesa". Mas a partir de certa altura, quando começou a cair a vontade de luta do general Spínola, começou-se a dizer que a guerra subversiva não era susceptível de ser vencida. Não é verdade: os ingleses venceram a guerra subversiva no Quénia, na Malásia... Na guerra subversiva, a tendência é para se passar para a guerra convencional, porque a guerra subversiva provoca a desordem mas não consegue dominar o território. Eles passaram a vida a dizer que a guerra subversiva não era susceptível de ser vencida, e quando, na Guiné, passaram para a guerra convencional, começaram a dizer que a guerra convencional não era susceptível de ser vencida. Foi quando começaram a evocar a falta de material, argumento que nós anulámos porque conseguimos o material. O Bethencourt Rodrigues foi informado de que estava em preparação a remessa de material, para além de termos mandado muito material disponível, que fazia parte da defesa do continente. Disse-me que ia mudar o dispositivo e que aquilo seria perfeitamente dominável.

Havia muitos problemas administrativos que superavam os problemas militares. E militares que pediram que o novo ministro da Defesa fosse um civil. Quem pressionou mais a solução civil foi o próprio Costa Gomes. Eu, na altura, já estava no Governo há doze anos, só desejava sair e voltar à minha vida profissional. E só fui por causa da conjuntura e da situação em que estava o País, porque não ia abandonar num momento difícil. E fiquei, o que me valeu dois anos na cadeia, depois do 25 de Abril. Depois de tomar posse, cheguei à conclusão de que a situação era preocupante porque havia o problema do armamento - nós tínhamos dificuldade em conseguir o armamento que os militares diziam que precisavam. Havia um agravamento da situação em Moçambique, na zona de Vila Pery, que era necessário eliminar. Eu tinha que tirar razão aos militares quando eles diziam: "Não temos meios". E só o conseguiria criando os meios. Foi o que fiz: tentei suprir a falta de armamento para lhes tirar o argumento do "nós não nos podemos bater como deve ser porque não temos armamento". E o armamento conseguiu-se. Mas o que aconteceu foi que, quando apareceram os mísseis terra-ar Strela, na Guiné, aquilo criou um alarme excessivo. Também apareceram Strela em Angola e não houve aquela reacção. Nessa altura, dediquei-me ao problema do armamento e estabeleci ligações com o ministro da Defesa da África do Sul, Pieter Botha, que veio cá tão discretamente que ninguém deu por nada. Estivemos dois dias fechados no Forte de São Julião da Barra a discutir os problemas. Eu fui nomeado ministro da Defesa em 7 de Novembro de 1973 e isto passou-se logo a seguir. Discutimos o problema do armamento. A África do Sul tinha comprado duas baterias de mísseis terra-ar Crotale em França - eu consegui que eles desistissem de uma, e comprámo-la nós, directamente aos franceses. Pagámos a bateria aos franceses, os trinta por cento que estavam no contrato, e chegámos a mandar o pessoal para ser treinado. A bateria dos Crotale era para proteger o aeroporto de Bissau. Havia na Guiné aviões MIG, que eram da República da Guiné, mas podiam ser usados lá.

Conseguimos artilharia em Israel, porque uma das coisas de que se queixavam na Guiné, era que a artilharia deles tinha alcance superior ao da nossa. Conseguimos os Red Eye, mísseis terra-ar individuais, na Alemanha. Não sei quem os vendia, só sei que eles nos forneciam 500 Red Eye americanos. Aí, também houve influência do Ministério dos Negócios Estrangeiros, mas indirecta. Esteve no meu gabinete o general Étoile, que era quem superintendia nas vendas dos aviões Mirage, e que nos fez uma oferta de Mirage, pondo como única condição ficarem com base em Cabo Verde. Eu disse-lhe: "Não preciso dos Mirage em Cabo Verde, mas na Guiné". Ele respondeu: "O senhor sabe muito bem como é que isso se faz depois". Oficialmente os Mirage não podiam ter base na Guiné. Eu nem sei se, depois do 25 de Abril, o material veio ou não. Discuti também com Pieter Botha o fornecimento de excedentes, em vez de os venderem ou mandarem para a sucata, vendiam-nos a nós. Havia sido negociado um contrato de empréstimo até seis milhões de contos, mas em vez de ser em dinheiro era em material. Em compensação, nós vendíamos à África do Sul petróleo de Angola. Este contrato ficou assente, mas depois não teve seguimento. O reequipamento tinha uma verba à parte, que saía parcialmente daquele Fundo de Defesa do Ultramar. Eu deixei no Ministério cerca de oitocentos mil contos, os tais que ninguém sabe onde foram parar. Eu sei que na noite do 25 de Abril a primeira coisa que eles fizeram foi porem uma equipa de contabilistas no Ministério a verificar a minha contabilidade, onde não faltava meio tostão. Para gastos confidenciais, duzentos mil contos; para reequipamento, seiscentos mil contos.

[...] Em determinado momento, o almirante Crespo disse que o general Spínola estava a escrever um livro e que não havia muita vantagem em que o livro fosse publicado. Isto passou-se quando eu ainda estava no Ministério do Ultramar. Uma tarde, chegou um despacho do general Costa Gomes, dizendo que o livro do Spínola estava pronto para ser publicado. Eu disse: "Ele não pode publicar o livro sem eu o ter lido". Os militares no activo não podem publicar nada sem autorização superior. Mas Spínola recusou-se a dar-me o livro para ler, embora ele minta e diga que eu tinha conhecimento do livro, insinuando que tinha sido por intermédio da DGS. Mas a DGS também não sabia do livro. Fui ter com Marcello Caetano e disse-lhe: "O livro não pode ser publicado sem autorização, mas ele recusou-se a entregar-mo". Então, Marcello Caetano respondeu-me: "Para não estarmos a criar um problema, você encarrega o general Costa Gomes - que era o superior hierárquico do general Spínola - de ler o livro e de lhe dar um parecer". Então chamei o general Costa Gomes e ele deu-me um parecer favorável. Nessa altura, despachei nestes termos: "Embora não tenha conhecimento do livro, porque não me foi facultado para ler, confio no parecer do chefe de Estado-Maior General das Forças Armadas. Publique-se».

Silva Cunha («África a arder», in José Freire Antunes, «A Guerra de África - 1961-1974», Vol. I). 

O dia de S. Traidor - António José de Brito

  «(...) E veio o dia de São Traidor…! - Como é próprio de uma época em que a traição, a vileza, a covardia e a abjecção são os traços domin...