terça-feira, 3 de março de 2026

A luta pelos Açores durante a Segunda Guerra Mundial.

 



«Ao receber para almoço na Sala dos Cisnes do Palácio da Vila, em Sintra, o ministro dos Estrangeiros da Argentina Henrique Ruiz Guinazu, Salazar fala em linguagem tranquila das nações latinas da América, que considera prolongamento da Europa latina. E parece muito calmo, sem cuidados. Da sua serenidade exterior não transparece a sua perturbação íntima, a sua angústia. Desabafa com o seu amigo Mário de Figueiredo: "Há umas semanas que atravesso forte trovoada no ministério dos Estrangeiros, que me não tem deixado atender a mais nada». E confessa-se: «A verdade é que a situação internacional pesa sobre todos nós e a mim preocupa-me de tal maneira que o espírito se me recusa a seguir, com a atenção que devia ser, outras coisas, o que é aliás lamentável". E os membros do governo não estão atentos, mas descuidosos, e Salazar queixa-se: "só nós e o ministro da Economia é que estamos em Lisboa; os das Finanças, Obras Públicas, Interior, Marinha e Colónias veraneiam cada um por seu lado; e o da Justiça nem sei onde está". Não obstante, prossegue com decisão resoluta a sua política. Nestes princípios de Maio de 1941, novas forças embarcam para os arquipélagos, sobretudo para Cabo Verde, e Salazar, como ministro da Defesa, timbra em despedir-se de soldados e oficiais. Em muitos círculos no estrangeiro, é compreendida a orientação que adoptou. Pierre Bernus, no Journal des Débats, afirma que Portugal está a defender a "sua alma e a sua existência próprias"; e II Giornale de Italia, o Corriere della Sera, o Osservatore Romano, o TempsLe JourLa Croix, elogiam a política do chefe do governo português. Mas este sente-se mais do que apreensivo: suspeita o pior da parte dos beligerantes. E com efeito, naquele mês de Maio, e sem que Salazar o saiba, um alto funcionário do Foreign Office, Sargent, escreve: "É uma questão em aberto a de saber se não devemos instigar secretamente o governo dos Estados Unidos a ocupar ou arrendar bases nos Açores e em Cabo Verde, e isto para começar. Não temos que participar nisso, e podíamos manter relações correctas com Portugal. Portugal queixar-se-ia, mas nada poderia fazer". E o subsecretário Butler, ao referir o assunto a Churchill, endossa a sugestão, embora a considere "drástica". Para Lisboa, era dito a Campbell que o governo inglês não podia auxiliar Portugal, e que aconselhava o governo português, no caso de ataque, a oferecer uma resistência simbólica e a partir para as ilhas ou para as colónias. Salazar reúne entretanto o Conselho de Ministros, e a decisão tomada é no sentido de não abandonar Portugal; se este fosse invadido, um ministro partiria para o ultramar levando consigo a legitimidade e o mandato de governar: e o governo demitir-se-ia. Campbell tem conhecimento desta deliberação por Vieira Machado, e ao comunicá-la para Londres deixa o Foreign Office preocupado. Mas em 6 de Maio o senador americano Pepper profere no Senado um discurso em que advoga a ocupação dos Açores, Cabo Verde, Canárias e Dacar. Bianchi sabe que o discurso teve a aprovação prévia de Roosevelt e do gabinete dos Estados Unidos. Em Portugal, a opinião pública reage vivamente; e o país sente-se possuído de um profundo sentimento antiamericano. Salazar fica exasperado. Em passeio no parque da sua residência com Sebastião Ramires, depois de jantar, este pergunta-lhe que fará se os americanos atacarem as ilhas. Salazar responde: "Vou mandar dar tiros. Quero ver se as democracias fazem guerra apenas para defender a soberania dos pequenos países". E três dias mais tarde publica uma nota oficial: "o governo português, embora lamente a desenvoltura com que de vários lados se traça o destino de países estranhos ao conflito actual, não pode evitar, nem mesmo apresentando queixas ou protestando junto dos respectivos governos, que as várias agências emissoras se acusem mutuamente e lancem as piores suspeitas sobre a intenção de uns e outros Estados violarem os direitos de terceiros países". E conclui por afirmar que nenhum pedido de bases nas ilhas portuguesas foi feito por qualquer país, e que o governo preparou a defesa dos três arquipélagos do Atlântico "em termos de poderem resistir a qualquer ataque de que porventura sejam objecto, embora o não espere". Reage sobretudo com vivacidade a opinião brasileira: o Jornal do Brasil, a Gazeta de Notícias, repudiam a atitude dos americanos ao quererem ocupar ilhas do Atlântico "como se fossem habitadas por selvagens". Depois, Ronald Campbell tem nova entrevista com Salazar. Insiste em que este defina desde já uma posição nítida em caso de ataque germânico. Salazar recusa. Diz Campbell: "Mas, Senhor Primeiro-Ministro, Portugal não tem uma grande esquadra, nem um grande exército, nem uma forte aviação. Que tem V. Ex.ª para prosseguir esta política". Replica o chefe do governo: "Tenho razão, Senhor Embaixador".

Está agora Salazar de posse do relatório que sobre as conversas de Estado-Maior foi apresentado pelo coronel Barros Rodrigues. Há que estudá-lo, e elaborar a resposta escrita a dar às autoridades britânicas. Santos Costa é encarregado de redigir um projecto, e para sua discussão é chamado a Lisboa Armindo Monteiro. Em reuniões sucessivas, e com participação de Teixeira de Sampaio, o texto é discutido, e aprovado, e quando regressa a Londres na segunda quinzena do mês de Maio, já Monteiro é portador do memorando definitivo.

(...) Regressado a Londres, Monteiro entrega a Eden, a 21 de Maio, o memorando português. Eden escuta sem interromper quanto lhe diz Monteiro; e depois lê atentamente todo o documento. Mostra surpresa pelo facto de o Estado-Maior português julgar improvável a resistência espanhola: é o inverso do que sempre lhe afirma o embaixador espanhol. Depois, o secretário de Estado comenta que é considerável o material de guerra que o governo português pretende adquirir. Se nas presentes circunstâncias não fosse possível fornecê-lo, qual seria a atitude de Lisboa? Monteiro não está habilitado a responder, fala de uma resistência simbólica; e nesse caso os Açores emergiam como segunda linha de resistência, onde se poderiam salvar elementos preciosos de reconstituição nacional. Eden significa a sua compreensão. E afirma que o documento está redigido com grande lealdade e clareza, e que naquele mesmo dia o entregará ao primeiro-ministro e aos chefes do Estado-Maior britânico. "É claro que o seu exame demorará algum tempo", conclui o secretário de Estado, "mas vou tratar do assunto activamente".


Salazar


Tem a entrevista de Monteiro com Eden uma importância decisiva, todavia, e excede em muito o problema que fora tratado. Com efeito, os americanos estão impacientes quanto aos arquipélagos portugueses do Atlântico, e Roosevelt pensa em enviar a Salazar um emissário secreto para se ocupar do assunto. Mas Eden em 23 de Maio telegrafa a Halifax para Washington: se Salazar estava reticente até agora, a verdade é que "acaba de nos fazer uma comunicação cujo exame nos poderá conduzir a um arranjo sobre as ilhas atlânticas", e enquanto existir a possibilidade de se conseguirem os objectivos através de conversações seria "um erro táctico mandar um emissário americano a Lisboa". E aos seus próprios militares Eden declara que é preferível obter o que se pretende por negociação: "é a mais desejável solução sob o ponto de vista político". Por outro lado, os chefes do Estado-Maior britânico, ao considerarem o memorando português, em 27 de Maio, admitem que estariam erradas as sugestões e conclusões que anteriormente haviam apresentado ao governo de Lisboa; mas declaram que não é possível ajudar Portugal. Churchill e Eden comentam esta última afirmação, classificando-a de "penosa e desnecessária", e entendem que não deve ser transmitida ao governo português. Em Lisboa, Sir Ronald também está preocupado com a situação, e escreve ao Foreign Office: "Salazar é um homem perante quem a única política possível é a fraqueza"; "se não podemos salvar Portugal, ao menos devemos assegurar que a bandeira portuguesa livre continue a flutuar no ultramar"; e insistindo na necessidade de ser leal para com Portugal, Sir Ronald adverte o seu colega em Madrid, Sir Samuel Hoare, de que não confunda a Espanha com Portugal, porque este prefere uma vitória inglesa e "porque o sistema nazi é anátema para Salazar e para oitenta por cento do povo português". Em reposta a Sir Ronald, o Foreign Office concorda: "aceitamos inteiramente a sua opinião quanto à necessidade de ser completamente franco com Salazar".

De novo, contudo, causam os americanos um embaraço na situação. Nos últimos dias de Maio, também a 27, Roosevelt pronuncia um discurso em que, salientando a importância fundamental das ilhas portuguesas para a defesa dos Estados Unidos, e vincando que a Alemanha tem o poder militar de as ocupar, sugere que seria "estúpido esperar que o inimigo provável se firme numa posição de que possa atacar". Salazar reage vigorosamente. Está sendo celebrado o décimo quinto aniversário do 28 de Maio, com participação das Forças Armadas, Legião Portuguesa, Mocidade Portuguesa, cumprimentos em Belém ao presidente Carmona, e uma sessão da União Nacional no Teatro D. Maria II. Mas nesse mesmo dia Salazar comunica a Londres a sua reacção, e põe o gabinete britânico de sobreaviso: não tendo compromissos políticos com Washington, ao contrário do que sucede quanto a Londres, o governo português consideraria qualquer acto dos Estados Unidos "como acto de agressão ao território português com as lógicas reacções que o caso exigiria". Entretanto o New York Times, o Herald Tribune, o Washington Post, outros orgãos da imprensa americana, comentam o discurso de Roosevelt dando a entender que no ânimo do presidente estaria assente a ocupação das ilhas portuguesas. No dia imediato, a 29, Salazar determina que Bianchi se aviste com Cordell Hull, e faça o reparo apropriado com entrega de uma nota escrita. Envia por outro lado instruções a Martinho Nobre de Melo, embaixador no Rio de Janeiro, para que submeta à atenção do governo brasileiro o problema, embora sem pedir qualquer diligência; mas aquele não deixa, dias depois, de levantar a questão em Washington por forma favorável a Portugal. E Salazar encarrega Monteiro de uma diligência junto de Eden; mas Monteiro tem dúvidas, e pondera que o reparo português, sendo politicamente favorável à Alemanha, pode levantar suspeitas quanto à atitude de Lisboa; Salazar, contudo, mantém as suas instruções, que foram dadas após "cuidadoso exame dos termos do discurso" que não pode deixar de provocar "impressões desagradáveis notadas também pelo embaixador de Inglaterra"; e para mais "a opinião pública está muito excitada, chegando a considerar o discurso como resposta à nota oficiosa do governo". Eden, porém, compreende bem a atitude portuguesa: Roosevelt tratara o caso dos Açores "sem cerimónia": não tinha ouvido Londres sobre o assunto: estava convencido de que não eram agressivas as intenções daquele: mas ia dizer em Washington uma palavra.

(...) Em 31 de Maio, Bianchi é recebido por Cordell Hull. Faz os seus reparos ao discurso de Roosevelt. E entrega a nota escrita que fora redigida em Lisboa por Salazar. Se os Estados Unidos, diz o chefe do governo português, se arrogam o direito de decidir como hão-de empregar a sua força para se defenderem e para defenderem outrem, o governo português julga do seu imperioso dever pedir esclarecimentos acerca dessa tese, "porque ela pode ser interpretada como conduzindo à admissão de que, para defender outros países ou para se defender a si própria, poderia uma grande nação cometer atropelo análogo do que se diz existir a ameaça por parte de terceiros países". Hull lê toda a nota, medita, e diz a Bianchi que responderá por escrito. E depois expande-se em considerações sobre a necessidade de o Ocidente se defender da Alemanha hitleriana. Salazar, porém, não espera pela resposta de Hull. Retoma o assunto em Londres. E diz vigorosamente: "A construção de uma política relativa à Península assenta na conveniência de a Inglaterra manter a Espanha neutral e fora da guerra, para o que a neutralidade portuguesa é condição essencial. A ocupação das ilhas do Atlântico pela Inglaterra ou pelos Estados Unidos arrastaria imediatamente a ocupação de Portugal continental, que a Inglaterra bem sabe não pode evitar". E continua: "Seria, portanto, gravíssimo erro procurar o nosso acordo para aquele fim. Mas a ocupação violenta pelos Estados Unidos, contra a nossa vontade, violando a nossa soberania sob pretexto igual ao usado pela Alemanha com respeito a outros países, é hipótese tão inconcebível que só perante atitudes patentes se pode apresentar ao espírito como possível. Contra tal agressão, a que resistiríamos, teríamos o direito de invocar, e não deixaríamos de o fazer, obrigações da Inglaterra para connosco. Além das consequências de ordem material que acima indico, surgiria esta de ordem moral e jurídica. Pergunto: em que situação viria a achar-se a Inglaterra? Se as consequências para nós seriam as mais trágicas, não creio que para ela não fossem graves sob mais de um ponto de vista". E Salazar comenta: "Há muito que vejo que a situação da Europa perante a América se está a inverter, perdendo aquela as suas possessões e bases junto da costa americana, que a segunda adquire, avançando para a Europa". Monteiro transmite estas considerações a Eden, que envia a Halifax uma palavra no sentido de dissipar a ebulição suscitada por Roosevelt.

Como prometera, Hull responde por escrito. Nota a reafirmação da neutralidade portuguesa, e a resolução de o governo de Lisboa em defendê-la, e à soberania portuguesa, contra qualquer ataque; o governo dos Estados Unidos não tem intenções agressivas, mas pacíficas, e apoia os princípios da não-agressão e de não-interferência; e a referência às ilhas portuguesas no Atlântico foi feita somente no contexto do perigo que as mesmas representam para o hemisfério ocidental se controladas ou ocupadas por forças dispostas a uma política de conquista e domínio mundial. Salazar não se tem por completamente esclarecido, e assim o afirma a Washington, com agastamento do departamento de Estado; mas compreende não ser possível ao departamento de Estado negar claramente o discurso de Roosevelt; e não insiste. Na grande imprensa a nota americana foi entendida como uma garantia dos Estados Unidos dada a Portugal. No mais, e neste incidente, Salazar pensa que a Grã-Bretanha se mostra "bastante silenciosa e tíbia".


Roosevelt



(...) Perante o discurso de Roosevelt e a reacção portuguesa, a Inglaterra não fica tão silenciosa e tíbia como Salazar julga. Com efeito, no mesmo dia em que recebe Monteiro, Eden telegrafa a Halifax pedindo-lhe que "avise" o governo americano de que não deve intrometer-se numa questão em que serão obtidos melhores resultados se for deixada apenas ao gabinete de Londres. Mas Churchill está por seu lado a discutir o assunto directamente, numa base pessoal, com Roosevelt, e pretende a cooperação deste para a tomada das ilhas atlânticas. O Foreign Office, no entanto, intervém, e diz a Churchill que "é muito mais provável conseguir do Dr. Salazar o que pretendemos se mantivermos os Estados Unidos afastados das negociações". Na conversa com Halifax, Roosevelt diz estar pronto a deixar os ingleses conduzir as conversas; mas acrescenta que "está a aprontar a expedição aos Açores e Cabo Verde" e que, uma vez concluídas pelos ingleses as negociações, os "americanos tomariam mais tarde a posição daqueles". De Lisboa, Campbell informa que o discurso de Roosevelt causara no país apreensão e ressentimento generalizados, e mesmo indignação, salvo talvez nos círculos oposicionistas por motivos políticos; e o "Dr. Salazar, tendo dado a sua palavra, honrá-la-á, como espera que a Inglaterra honre a sua"; e "para ele constitui um choque ver o chefe de uma nação, com a qual Portugal não tem laços especiais, falar como se a soberania portuguesa não fosse embaraço ao que os Estados Unidos possam considerar exigências estratégicas do hemisfério ocidental"; e "além disso o Dr. Salazar não confia nos Estados Unidos". E sentindo a irritação do chefe do governo português, Eden multiplica em Washington as suas intervenções para travar os americanos, e promove em Londres um encontro entre Monteiro e Winant, embaixador dos Estados Unidos, e personalidade escutada por Roosevelt.

Verdadeiramente, no entanto, Salazar apenas dá o incidente como encerrado quando, com data de 8 de Julho, recebe uma longa carta pessoal de Roosevelt. É então claro o presidente americano, e quase solene a sua garantia: "na opinião do governo dos Estados Unidos, o exercício permanente e sem limitação dos poderes soberanos do Governo de Portugal sobre o território de Portugal, os Açores e todas as colónias portuguesas representa uma segurança completa para o Hemisfério Ocidental no que respeita àquelas áreas. Em consequência, constitui firme desejo dos Estados Unidos que não seja violado o domínio soberano de Portugal sobre aqueles territórios". Rumores em sentido contrário provêm de fontes inimigas, com o objectivo de perturbar as relações tradicionais entre os dois países; regozija-se o governo americano com as medidas de defesa tomadas por Portugal, de modo a inutilizar qualquer ataque da Alemanha; o governo americano está pronto a auxiliar a defesa da soberania portuguesa nos Açores e outras possessões portuguesas, mas apenas se o governo português assim o desejar; e nesse caso o governo do Brasil estaria também disposto a cooperar. Roosevelt espera assim haver desanuviado qualquer mal-entendido entre ele e Salazar; e conclui por recordar que, como secretário de Estado assistente da Marinha, visitara em 1914-1918 os portos dos Açores quando o Governo português de então havia permitido aos aliados o uso da Horta. Finalmente, Roosevelt afirma que qualquer colaboração entre os dois países deverá ser baseada no respeito mútuo dos direitos soberanos de cada um e com salvaguarda dos melhores interesses do povo português. Mas esta carta apenas em 21 de Julho é entregue a Salazar, pelo ministro dos Estados Unidos em Lisboa. E oito dias depois responde o chefe do governo português: agradece, regista as garantias de Roosevelt, explica as dúvidas suscitadas, reitera a disposição de fazer respeitar a soberania e a neutralidade portuguesas, e reafirmando a posição especial da Inglaterra não exclui o apoio do Brasil nem a cooperação dos Estados Unidos, se na guerra em curso a situação neutral portuguesa, por violação da sua soberania, viesse a ser alterada. "Tudo são razões de peso para que do nosso lado se vigie com cuidadosa atenção o que interessa à limpidez e consistência das nossas relações. Confio em que do lado de V. Ex.ª encontrarei a mesma compreensão e simpatia". Está nesta fase encerrado o incidente. Para que não fiquem dúvidas, no entanto, sobre as intenções do lado português, o chefe do governo sugere a Carmona uma visita oficial aos Açores. Acede o presidente, sem embargo da fragilidade dos seus setenta e dois anos. E os governos civis dos três distritos autónomos deslocam-se a Lisboa para convidar o chefe de Estado a efectuar aquela viagem de soberania e unidade política. Mas quando Monteiro lembra a vantagem de se conseguir que uma unidade da esquadra americana seja deslocada para os Açores durante a estadia de Carmona, para saudar este, Salazar rejeita a ideia.

Na mesma altura, Salazar faz entregar ao gabinete britânico um outro documento que implica uma atitude fundamental. Monteiro apresenta a Eden um memorial em que, depois de responsabilizar a Inglaterra pelo não rearmamento de Portugal e em vista do non-possumus confessado pelo gabinete britânico quanto à defesa do continente português, o governo de Lisboa comunica a Londres haver tomado a grave decisão de, no caso de ataque contra o continente, se deslocar para os Açores e estabelecer no arquipélago, sob protecção de forças nacionais, os orgãos de soberania e de administração. Estando nesta hipótese perdida a neutralidade portuguesa, Lisboa conta então com o poder naval britânico para manter a liberdade de comunicações, ao mesmo tempo que solicita algum material antiaéreo para completar a defesa dos Açores, e tornar estes invulneráveis a qualquer agressão. Sir Ronald Campbell acredita nesta decisão de Salazar, e assim o comenta para Londres: "mais uma vez sublinho a minha convicção de que o Dr. Salazar será leal para connosco desde que lhe mostremos a nossa confiança"; mas há que tomar a sério a sua afirmação de que defenderá as ilhas contra quaisquer ataques, e por isso convirá não esquecer que "as forças britânicas não serão bem-vindas nos Açores antes que os portugueses façam um apelo" em nome da aliança.

No dia 4 de Agosto o gabinete britânico discute a atitude de Salazar. Considera esta satisfatória. Mas num ponto há divergência: Salazar abandonará o continente no caso de ataque pela Alemanha, com forças germânicas apenas ou em conjunto com forças de outro país, naturalmente a Espanha, o que supõe a ideia de que Portugal pode continuar neutral ainda que a Espanha entre na guerra contra a Grã-Bretanha ao lado da Alemanha, desde que as forças espanholas e alemãs respeitem Portugal; o gabinete de Londres, pelo contrário, deseja que Salazar siga para os Açores, logo que Portugal "esteja ameaçado". E isso porque, entrada a Espanha na guerra e na suposição de ataque a Gibraltar, a neutralidade portuguesa deixa de interessar à Inglaterra e o uso dos arquipélagos portugueses atlânticos torna-se indispensável para substituir Gibraltar. Sir Ronald é encarregado de persuadir Salazar a aceitar este segundo ponto de vista. Desde logo o embaixador afirma ser de excluir qualquer ameaça, que levaria Salazar a rever a sua decisão, ou tentar resolver uma questão de princípio sob o disfarce de conversações militares; e para Campbell o melhor método consiste em nunca pôr em dúvida a aliança e "criar para Salazar uma obrigação que o vá conduzindo pelo caminho desejado". E Eden comenta sobre este despacho como quem pensa alto: "sempre acreditei que seria extremamente difícil pedir ao governo português que abandonasse Lisboa muito cedo".


Óscar Carmona


Entretanto, o presidente Carmona partira para os Açores, a bordo do Carvalho Araújo, escoltado pelos contratorpedeiros Dão e Lima. Acompanham-no Pais de Sousa e Ortins de Bettencourt. Salazar assinala que por todas as ilhas é o chefe do estado recebido com "grande entusiasmo e as mais inequívocas provas de portuguesismo", tendo a imprensa dos grandes países seguido a viagem com o maior interesse, "com excepção talvez da dos Estados Unidos, que parece não dispuseram de informações". E nas capitais de distrito autónomos Carmona proclama: "Aqui é Portugal!".

(...) Entretanto, Roosevelt e Churchill haviam-se encontrado algures no alto mar, em pleno Atlântico, e acordavam numa declaração de oito pontos que consubstanciavam os objectivos da guerra e os princípios a que deveria obedecer a paz: é a Carta do Atlântico [por muito conhecidos, não se reproduzem aqui os oito pontos. Sendo um resumo dos quatorze pontos de Wilson, da guerra de 1914-18, consagram a livre vontade dos povos, a livre escolha de governo por cada um, igualdade no comércio mundial e no acesso às matérias-primas, colaboração económica internacional, segurança colectiva, liberdade dos mares, desarmamento, não engrandecimento territorial]. No seu regresso a Londres, Churchill informa o gabinete de que Roosevelt está "ansioso por ocupar os Açores", e que esperava um convite de Salazar nesse sentido. Churchill ponderara que tal convite lhe parecia improvável, salvo no caso de agressão alemã contra a Península. Deste modo, Churchill pensava que a Inglaterra teria de ocupar as ilhas, independentemente de qualquer provocação, pois não poderia correr o risco de se ver privada de Gibraltar sem uma base alternativa. Roosevelt afirmara que teria forças americanas prontas para a ocupação em meados de Setembro. Nessa reunião do gabinete, Eden intervém para dizer que Roosevelt lera na carta de Salazar o que esta não continha. Churchill replica que o presidente decidira dar-lhe a interpretação que mais convinha. Mas o gabinete conclui com mais prudência: convida apenas Eden a ponderar as palavras do primeiro-ministro.

(...) De harmonia com o convite feito na reunião do gabinete inglês de novo o Foreign Office pondera as relações com Portugal, em particular quanto aos Açores. Antes de mais não julga o Foreign Office possível qualquer atitude de má-fé: seria fatal quando se trata com Salazar: e tornaria mais difícil obter facilidades no arquipélago. Por outro lado, se Salazar se tem mostrado partidário da aliança luso-britânica, e desta faz a base da sua política, não se sente no entanto obrigado para os Estados Unidos, de que desconfia e por que não tem a menor simpatia. Comenta depois o Foreign Office: "Se é ou não desejável que os americanos estejam nos Açores, é assunto da mais alta política. A óbvia obsessão com que o Estado-Maior americano pretende aquelas ilhas é menos uma expressão do desejo americano de ajudar o esforço de guerra aliado do que uma expressão do expansionismo imperial americano. É isto que precisamente o Dr. Salazar receia, e deve ser tido em consideração". Conclui o Foreign Office que um arranjo anglo-português sobre os Açores é coisa natural, no quadro da Aliança; mas os americanos devem ser mantidos afastados, tanto quanto possível, no interesse britânico e no interesse português; e as conversações com Portugal devem prosseguir, por isso, antes de qualquer atitude violenta e antes que se "intrometa a complicação americana nas nossas negociações directas com os portugueses". Eden concorda com este parecer do seu departamento, e envia a Churchill uma minuta em que defende uma política de negociações com Portugal, ao mesmo tempo que mantém à distância os americanos, sem prejuízo de estes serem informados do progresso das conversas. Para travar Roosevelt, Churchill expede um telegrama ao presidente sublinhando que apenas em face de provocação alemã ou espanhola seriam os Açores tomados pela força. Nesta base continua Campbell as suas entrevistas com Salazar.

(...) Nos escaninhos superiores da política anglo-americana, no entanto, cruzam-se novas ideias quanto aos Açores. Roosevelt, com efeito, sente-se obcecado pelos Açores, e é encorajado pelo seu Estado-Maior. Fora sustado o seu golpe-de-força pela negociação luso-britânica, que tornara politicamente impossível aos Estados Unidos precipitarem-se sobre o arquipélago, e pelo acordo entre Londres e Lisboa, que privara Washington de qualquer pretexto ou fundamento. Mas o presidente americano exprime a Churchill o desejo de enviar aos Açores uma força naval dos Estados Unidos oito ou dez dias após a entrada em vigor do acordo anglo-português; Roosevelt sugere que de nada seja o governo português avisado; as forças navais americanas, e aéreas, entram simplesmente nos Açores; e aos portugueses seria depois dito que ingleses e americanos "estavam imensamente penalizados" pelo que acontecera mas que, perante o facto consumado, "muito pouco poderiam os portugueses fazer". Churchill concorda, e entende que se deve reafirmar a disposição de declarar guerra à Espanha, se esta atacar Portugal em razão do acordo dos Açores; e salienta que o compromisso com os portugueses não especifica as forças a serem usadas para defender Portugal. Ainda em Setembro, o Estado-Maior americano apresenta ao Estado-Maior britânico "um plano para uso dos Açores". Segundo esse plano, os Estados Unidos pretendem os Açores como base de patrulhas e de luta anti-submarina, de protecção a comboios, e de apoio para transporte de tropas e abastecimentos destinados ao Reino Unido, Mediterrâneo, Índia e China. Para este efeito, os chefes militares americanos, querem uma base naval em Ponta Delgada e outra na Horta; uma base militar nas Lajes, na Terceira; e uma base militar nas Flores. E propõem-se enviar para os Açores um efectivo de cerca de 10 000 homens. No pensamento do Foreign Office, este plano equivale à ocupação americana do arquipélago.


Base das Lages em construção


(...) Churchill, todavia, continua sob a influência de Roosevelt, e quer a todo o preço satisfazer este. Telegrafa por intermédio de Dill ao almirante americano King: "a minha decisão e o meu compromisso são no sentido de estabelecer os americanos plenamente naquelas ilhas para fins de guerra; mas King deve recordar-se de que os portugueses estão atemorizados com os americanos pois julgam que estes querem os Açores enquanto os ingleses são, pelo menos neste caso, inocentes cordeiros". Eden lê este telegrama, e fica perturbado. Protesta vigorosamente junto de Churchill: "A satisfatória reacção dos portugueses, baseada inteiramente na sua lealdade à aliança luso-britânica, contrasta mais do que favoravelmente com a conduta de outros neutros, como a Turquia ou a Irlanda"; e "se os americanos querem mais, como parece quererem por razões suas, tem de tentar consegui-lo por si mesmos". Churchill não força o seu secretário de Estado; procura ganhar tempo; e pede a King que se mantenha calmo porque está decidido a levar os americanos aos Açores.

(...) Do mesmo passo, o Estado-Maior britânico responde ao ambicioso plano dos chefes militares americanos. Dizem aqueles: "atendendo à história das negociações com os portugueses e sendo extremamente indesejável envolver Portugal na guerra nas condições presentes, confiamos em que o Estado-Maior americano não espere obter concordância imediata ao seu programa que excede largamente o conjunto das facilidades que solicitámos aos portugueses". Sustentam a necessidade de uma expansão gradual, para evitar uma reacção alemã e não apavorar os portugueses. Parece, afirmam os ingleses, que Washington não se dá conta das dificuldades do arquipélago; devem as facilidades ser progressivamente ampliadas até que, avaliadas as circunstâncias, se possa apresentar o assunto a Salazar; e não pode esquecer-se que tudo quanto afecte Portugal se repercutirá na Península, no Mediterrâneo e na África do Norte. Ao mesmo tempo, para travar Churchill, Eden escreve a este último: "Temos diante de nós um ambicioso plano americano, elaborado em completa ignorância das negociações de Lisboa e dos termos do acordo final""até novos comentários dos americanos, não devemos praticar qualquer diligência junto dos portugueses em nome daqueles"; de outro modo, se se precipitar tudo, o caso "teria um péssimo efeito sobre o Dr. Salazar e, vista a sua profunda desconfiança dos americanos, poderia alterar a presente atitude portuguesa de cooperação para uma atitude, que, na melhor das hipóteses, seria de relutante consentimento""é fundamental que os americanos compreendam que o Portugal moderno, que para todos os efeitos práticos é o Dr. Salazar, não é uma segunda Guatemala, de que os americanos podem obter tudo o que desejam simplesmente com ameaças e suborno"; além disso, os ingleses haviam assegurado que os americanos dariam garantias de respeito pela soberania portuguesa; o peso das forças portuguesas está nos Açores, e resistiria a um acto de força; e o "Dr. Salazar não é homem para concordar no que teria de ser considerado a dissolução do Império Português". Mas o primeiro-ministro, embora amolecido por Eden, continua obstinado: "compreende os seus sentimentos", diz ao secretário de Estado, "mas temos de trabalhar para obter para os americanos facilidades pelo menos iguais às nossas"; essas facilidades seriam a contrapartida da garantia americana quanto à soberania portuguesa; e "os portugueses devem tomar nota das profundas mudanças que ocorreram desde que todas estas conversas principiaram". Entretanto, é recebido em Washington o parecer dos chefes militares ingleses, e Eden comunica directamente com o Departamento de Estado: os americanos são travados na sua ávida precipitação.

(...) Logo que desembarcam nos Açores as forças britânicas, Roosevelt precipita-se na sua ânsia de utilizar também o arquipélago. Escreve ainda em Outubro a Churchill: "Salazar pode estar certo de que os Estados Unidos não têm o desejo de permanecer depois da guerra em qualquer território português e de que será bem-vindo como beligerante ao nosso lado". Churchill está desejoso de satisfazer o presidente americano, e sugere que dentro de oito ou dez dias, sem aviso aos portugueses, algumas forças dos Estados Unidos cheguem aos Açores. Eden não concorda: parece-lhe que Roosevelt trata o arquipélago como se este não fosse português: e quer que decorra muito mais tempo antes de anuir ao pedido americano, até para certeza de qualquer reacção alemã ou falta desta. Diz o primeiro-ministro que não faz questão de data; mas o assunto não pode ser esquecido, porque assim o prometeu ao presidente. Eden conversa então com Churchill e dissuade-o de qualquer acção. Mas não tem, neste particular, confiança no primeiro-ministro, e anota para o Foreign Office"Falei neste assunto ontem à noite ao P. M. e instei no sentido de passar pelo menos um mês antes de satisfazermos os americanos. Ele concordou mas o departamento deve estar vigilante sobre este problema durante a minha ausência". Mas na verdade Churchill propõe a Roosevelt que a esquadra americana comece a ser reabastecida nos Açores a partir de 7 de Novembro e que na mesma altura aterrem nas ilhas aparelhos da força aérea dos Estados Unidos. São propostas que excedem os termos do acordo, e o Foreign Office nota-o. Depois, Roosevelt muda de pensamento, e informa Churchill de que prefere tratar directamente com Salazar, sem os ingleses como intermediários. Replica o primeiro-ministro: "Com certeza, faça o seu próprio pedido ao governo português! O único problema consiste em saber se lhe deve dar mais alguns dias para ver a reacção alemã, mas a responsabilidade desta decisão pertence-lhe a si".  Simultaneamente, é assinado em Lisboa, pelos brigadeiros Ian Grant e Luiz Lello, um acordo para defesa do continente português, e em que se consideram quatro hipóteses: ataque pela Alemanha com resistência espanhola; ataque alemão com anuência de Espanha; ataque conjunto pela Alemanha e pela Espanha; e ataque apenas por esta última, havido aliás como pouco provável. E Campbell recebe instruções para apoiar o representante americano, Kennan, nas diligências que este vai empreender. Entretanto, Kennan fora chamado a Washington, e aí procurara moderar os departamentos de Estado e da Guerra quanto aos pedidos a apresentar sobre os Açores. Regressa Kennan, e solicita uma audiência ao chefe do governo: durante esta deve prestar as garantias anunciadas pelo governo britânico: e deve iniciar as diligências para obter nos Açores facilidades independentes para os Estados Unidos. Mas cinco minutos antes de partir para a entrevista recebe Kennan um telegrama de Washington determinando-lhe que retenha a prestação de garantias. Fica embaraçado, e preenche a conversa com banalidades, acabando por declarar que a sua diligência perdera o sentido uma vez que fora julgado preferível praticá-la em Washington junto do representante português. "Fico curioso de saber o que será", comenta Salazar. Mas a Bianchi, em Washington, nada é dito. Salazar compreende o jogo: os Estados Unidos querem obter primeiro as facilidades nos Açores anunciando as garantias para depois: e alcançado o seu objectivo apenas dariam garantias contra mais concessões noutros domínios.

Entretanto, também ainda em Outubro, Kennan recebe novas instruções de Washington, em nome pessoal do presidente. Segundo aquelas, deve pedir a Salazar: uma base aeronaval em Ponta Delgada, uma base aeronaval na Horta, uma base aérea em São Miguel, uma base aérea na Terceira, uma base aérea nas Flores; facilidades de comunicações, de observação e postos de radar; instalações para pessoal civil e militar; e autorização para estacionamento de forças maciças nas ilhas. Kennan deve invocar uma frase da aliança luso-britânica que alude aos "amigos dos amigos". E deve cumprir as suas instruções até ao dia 18 de Outubro, "se até essa data a Alemanha não houver empreendido qualquer acção militar contra Portugal". Kennan sente-se estonteado. Protesta para Washington: "tenho relutância em discutir com o Departamento ou pedir ao Departamento que discuta com o Presidente uma instrução que me é dada por este"; mas entende que se não podem apresentar pedidos aos portugueses; e "estou pronto a assumir a responsabilidade pessoal desta atitude". E declara-se disposto a ir a Washington para expor o seu ponto de vista. Ao mesmo tempo, dá a conhecer a Campbell o teor das suas instruções. Campbell fica desvairado. Comenta para o Foreign Office"a minha opinião é que os Estados Unidos seriam mal avisados em reter as suas garantias na esperança de as usarem como meio de pressão para conseguirem as facilidades que pretendem. Isso pode dar resultado com alguns governos mas não dará resultado - repito, não dará resultado - com o Dr. Salazar". E o Foreign Office reforça este parecer: "o governo dos Estados Unidos não tem facilitado os seus objectivos pela maneira altamente inepta como se tem comportado com o Dr. Salazar"; e além disso "temos informação secreta, mas fidedigna, de que o Dr. Salazar, tranquilizado embora quanto à reacção alemã, continua a justificar a sua decisão na base da aliança luso-britânica e não concederá facilidades aos Estados Unidos, salvo possivelmente sob cobertura inglesa". Mas o Foreign Office tem ainda outra preocupação mais profunda: "o Dr. Salazar não acreditará que nós ignoramos as pretensões americanas, e seremos certamente responsabilizados pela conduta dos americanos e acabaremos por ter de encontrar uma saída para as dificuldades criadas pela sua precipitação"; e é de esperar que os americanos não pensem "como último recurso em usar a força, uma vez que isso permitiria ao Dr. Salazar invocar a aliança anglo-portuguesa e pedir-nos que defendêssemos território português contra os americanos". Aliás, observa o Foreign Office, esse acto americano "não teria justificação possível em face da Carta do Atlântico e de qualquer código de moral internacional". Churchill fica dividido entre o alarme e a irritação. Responde ao Foreign Office"Tudo isto pode acabar mal para Salazar. Mas que podemos nós fazer excepto dizer a Campbell que dê a Kennan os melhores conselhos possíveis? É seguro que os Estados Unidos têm de ter facilidades pelo menos iguais às nossas. Não podemos separar-nos do pedido deles, e podemos imaginar que em apoio daquele podem usar a força". E na ausência de Eden, o primeiro-ministro pergunta a Cadogan: "Acha que Salazar pode ser convencido a tomar um avião para Gibraltar e encontrar-se ali comigo no próximo mês?". Mas Cadogan desencoraja a ideia: era improvável que Salazar aceitasse, salvo se se julgasse em muito sérias dificuldades: Churchill retira a sugestão: e esta fica em suspenso para a hipótese das diligências americanas correrem mal: nesse caso seria de tentar um encontro entre Salazar e Churchill ou Eden. A Campbell, todavia, é dada latitude para mencionar aquela possibilidade em Lisboa, se o julgar útil. Mas Campbell, por seu turno, sente alarme extremo, e agasta-se com Washington: "os americanos, com perfeita inconsciência, julgam que nós ocupamos as ilhas todas", e "os conselheiros do Presidente não devem ter lido o texto do acordo". E para Londres Campbell admoesta o Foreign Office"o Dr Salazar quer eliminar o sentido mórbido de subserviência perante a influência britânica"; e "inculcar um novo espírito de dignidade e respeito próprio" e o sentimento de "que os portugueses, embora materialmente fracos, podem, se moralmente fortes, lidar com quem quer que seja em termos de igualdade". E repisa em carta para Frank Roberts: "os americanos não obterão o que querem se se excederem""se insistirem ou ameaçarem, Salazar mostrará aos alemães e aos espanhóis que foi enganado pelos americanos, e depois recorrerá aos ingleses para se oporem àqueles, e se tudo falhar resistirá pela força e apresentará ao mundo o caso moral".

Impressionado com a reacção de Kennan, Roosevelt, embora dispensando-o de ir a Washington, autoriza-o no entanto a suspender o cumprimento de instruções e pede-lhe que exponha em telegrama o seu ponto de vista. No intervalo, Churchill apercebe-se da amplitude das exigências americanas nos Açores: vão para além de tudo o que imaginara. E intervém junto de Roosevelt: receia que haja um mal-entendido; quando concordou com negociações directas luso-americanas, julgava que estas se destinavam a obter facilidades semelhantes às concedidas aos ingleses; é agora informado de que Washington pretende regressar às exigências que em tempos haviam sido formuladas pelo Estado-Maior americano, e às quais objectara; e se é assim, "não posso deixar de sentir que é inviável obtê-las imediatamente, e pergunto-me se tem alguma informação precisa de Lisboa que o leve a ver ser possível alcançá-las por negociação directa". Entretanto, Kennan por seu turno expõe em longo telegrama o seu parecer. Afirma claramente: se forem apresentados a Salazar todos os pedidos constantes das instruções de Outubro, não só aquele os repudiará sem apelo como ficará tão suspeitoso que recusará no futuro o mais insignificante pedido. E Kennan enumera as suas razões: Salazar não está "preparado" para tais exigências, e a muito menores solicitações inglesas só acedeu com relutância e em virtude da aliança; as relações luso-alemãs estão tensas, quase no ponto de ruptura, e provocar esta é contrário ao interesse americano de manter neutral a Península; Salazar receia uma associação com os Estados Unidos pouco menos do que com a Rússia; estar-se-ia a jogar a favor da propaganda alemã, que apresenta as facilidades concedidas aos ingleses como simples abertura de uma porta por onde penetrará a torrente americana; Salazar há-de pensar que os Estados Unidos pretendem todo o arquipélago; não se está em troca a oferecer seja o que for a Salazar, enquanto os ingleses reafirmaram a aliança e as garantias de defesa do império português; se as exigências americanas, tal como formuladas, forem submetidas a Salazar, este chamará imediatamente Campbell e torná-lo-á responsável pelo que se passa; e, finalmente, há que notar haverem sido recusados a Londres muitos dos pedidos que agora Washington se propõe fazer. Deste modo, conclui Kennan, "salvo se estamos dispostos a conspirar para derrubar o Dr. Salazar, o que envolveria uma responsabilidade que me faz estremecer", há que ganhar a confiança do chefe do governo português e apresentar os problemas "docemente e gradualmente". E por isso, quem quer que venha negociar deve poder usar de grande latitude discricionária. Perante esta firmeza de Kennan e os seus argumentos, e em face da intervenção de Churchill, Roosevelt modifica a sua atitude. Diz a Kennan: "Em virtude da sua compreensão e conhecimento da situação local e da psicologia dos portugueses, e da possibilidade de reacções alemãs, nós confiamos no seu julgamento quanto aos limites práticos até onde deve ir". E uma vez que não é lícito pedir sem compensação, Kennan fica autorizado a prestar ao governo português a garantia territorial anunciada, relativa a "todo o império colonial português e sua soberania". A Churchill diz o presidente americano quais as novas instruções que expediu para Lisboa; e o primeiro-ministro e Eden convencem-se de que "os americanos não sabem o que querem". Mas em 24 de Outubro, de posse das suas novas instruções, Kennan apresenta-se a Teixeira de Sampaio. Este pergunta pelas garantias americanas, esperadas desde Agosto. Kennan responde que está autorizado a prestá-las imediatamente. E em 25 daquele mês endereça a Salazar uma nota em que diz: "No cumprimento de instruções do meu governo, tenho a honra de informar V. Ex.ª de que, em ligação com o acordo recentemente concluído entre Portugal e a Grã-Bretanha, o governo dos Estados Unidos toma o compromisso de respeitar a soberania portuguesa em todas as colónias portuguesas". Dias mais tarde, Roosevelt dirige-se pessoalmente a Salazar. Escreve: Kennan dir-lhe-á "quanto eu tenho acentuado, como meio de encurtar a guerra e de salvar vidas, o uso de facilidades na Terceira e na Horta por americanos assim como por ingleses. Mas posso eu aproveitar esta oportunidade para lhe recordar uma história que decerto lhe é familiar?". E o presidente dos Estados Unidos lembra que em 1918, quando subsecretário da Marinha, visitara a Horta e Ponta Delgada, onde os aliados desfrutavam de facilidade de abastecimento, de reparação e de bases para a campanha anti-submarina. "Nesse tempo, nunca foi posta em causa a boa-fé dos Estados Unidos em cumprir a sua promessa de, tão cedo quanto possível após a guerra", abandonarem essas bases; tudo inspeccionara pessoalmente; as relações entre os dois países eram então de confiança e amizade mútua; e "em 1919 todas as nossas forças foram retiradas". E Roosevelt conclui por dizer que gostaria de ver Salazar "num dia próximo" e tratar da aproximação cultural entre os Estados Unidos, Portugal e o Brasil. "Não preciso de lhe dizer que os Estados Unidos não têm quaisquer desígnios sobre o território de Portugal e suas possessões". Salazar compreende a notificação suavemente feita por Roosevelt. Mas desconhecendo as intenções iniciais americanas, e suspeitando-as somente, não pode avaliar com rigor quanto a sua política fizera sustar aquelas e quanto recuo há na carta de Roosevelt. Nem pode tão-pouco pesar o serviço que no episódio fora prestado por Kennan e por Churchill.


Winston Churchill



(...) Em 1 de Dezembro, Kennan tem com Salazar a nova conversa que solicitara. Reitera o desejo americano de facilidades nos Açores, à sombra e em compensação das garantias escritas prestadas pelo governo de Washington, e faz-se eco das necessidades da aviação civil norte-americana, que pretende um aeroporto comercial nas ilhas para as suas carreiras transatlânticas. Salazar continua a não se comprometer, todavia. Kennan levanta problemas económicos, e de abastecimento a Portugal, e suscita a questão das exportações do volfrâmio para a Alemanha, que Washington desejava ver sustadas; e refere-se à eventual construção de mais um aeroporto nos Açores, que de início os americanos encaravam nas Flores e que agora pretendem em Santa Maria. Salazar, apoiado em números, demonstra a sem-razão dos aliados no problema do volfrâmio, que considera muito delicado por poder arrastar à perda da neutralidade portuguesa e à prática de actos de guerra por parte da Alemanha; e quanto aos aeroportos, cuja construção Kennan tentara ligar à guerra contra o Japão, repisa Salazar a tese de que na situação actual não são possíveis facilidades nos Açores fora do quadro da aliança luso-britânica. E por seu lado sublinha que Portugal aguarda reacção à pergunta que há muito fizera: de que maneira e com quem deve ser discutida a participação portuguesa em operações militares para expulsar os japoneses de Timor? Kennan não está habilitado a satisfazer Salazar; mas julga compreender que no espírito deste as duas questões se apresentam como ligadas e interdependentes. Neste contexto e nestas linhas, Salazar entrega a resposta à carta de Roosevelt. E ausenta-se de Lisboa, para uns breves dias em Santa Comba e no Vimeiro. Entretanto, em Londres e Washington debatem-se os dois problemas. De parte americana, mantém-se a ideia de um acto brutal de violência que coloque Salazar perante um facto consumado. De parte inglesa, pretende-se resistir às pressões norte-americanas, por um lado; e por outro lado os chefes do Estado-Maior britânico ambicionam ampliar as facilidades de que as forças britânicas dispõem nos Açores e julgam ser vantajoso, para a causa aliada, que Portugal declare guerra ao Japão. Campbell, que meditara profundamente o discurso de Salazar de 26 de Novembro na Assembleia Nacional e começa a ser permeado pelas razões profundas da política do chefe do governo português, sente-se alarmado. Intervém, escreve uma carta pessoal a Eden: o que a Londres parecia líquido não o era, e podia suscitar consideráveis dificuldades; se os alemães haviam "engolido" o acordo dos Açores, porque resultava de uma aliança anterior às hostilidades, não aceitariam sem reagir uma declaração de guerra contra o aliado nipónico; há o risco de os japoneses tomarem Macau, de que os portugueses são "extraordinariamente orgulhosos", e onde se encontram centenas de milhar de refugiados, cujo sacrifício Salazar considera um dever evitar; e, embora conste que já fez algumas sondagens em Madrid, Salazar não desejara precipitar uma atitude que, de momento, pode perturbar o alinhamento neutral da Península. E Campbell comenta que é errado presumir que o chefe do governo português se sente impressionado com os triunfos aliados: "não há que pensar que Salazar deseja subir para o comboio da vitória; a essência da sua política é a independência e a não-subserviência a qualquer potência, incluindo as potências aliadas; e está firmemente resolvido a não ser peão no jogo de quem quer que seja". Salazar poderá declarar guerra ao Japão quando o julgar da sua conveniência: não o fará quando essa declaração for apenas da conveniência dos aliados.

(...) No termo de 1943 chega a Lisboa o novo ministro dos Estados Unidos, Henri Norweb. Amigo pessoal de Roosevelt, é homem que desconhece dificuldades, melindres alheios, interesses diversos, e que se sente estupefacto e desorganizado se alguém ou algum governo tiver ponto de vista diferente do de Washington. No dia 31 de Dezembro de 1943, Norweb é recebido por Salazar. Desde logo ataca todo o problema frontalmente: os Estados Unidos pretendem facilidades próprias em Ponta Delgada, a extensão do aeroporto das Lajes, um novo aeroporto em Santa Maria, uma estação meteorológica e de navegação nas Flores. Salazar mantém absoluta reserva quanto aos pedidos de fundo; e apenas declara que não vê inconveniente em que as facilidades concedidas aos ingleses sejam utilizadas pelos americanos, nem se opõe a que estes tenham nas instalações daqueles alguns oficiais, desde que não ostentem as insígnias dos Estados Unidos, não constituam unidades de combate e se mantenham nominalmente sob comando britânico. Salazar duvida, no entanto, que a sua reacção haja sido claramente entendida por Norweb, cuja atitude de insensibilidade lhe pareceu perigosa e cujo tom se lhe afigurou confuso. Depois, de harmonia com os desejos do Estado-Maior inglês, Campbell apresenta em 6 de Janeiro um memorial em que solicita a extensão de algumas facilidades concedidas, à luz da experiência adquirida em três meses. Campbell amplia e desenvolve verbalmente o conteúdo do documento. Salazar não suscita quaisquer dificuldades em examinar o novo pedido de Londres. Mas queixa-se de Norweb, e mostra a maior relutância em discutir a diligência daquele com o enviado britânico. Desvenda a Campbell um aspecto capital: quando em nome de Berlim apresentara o seu protesto pelo acordo dos Açores, Huene afirmara que o governo alemão compreendia os ingleses no arquipélago, mas não compreenderia nem aceitaria os americanos. Campbell entende a implicação, sente-se alarmado, comunica urgentemente a Eden o que se passa; e afirma estar seguro de que, se as forças americanas tenderem a desembarcar nos Açores para além da fórmula já admitida por Salazar e contra a vontade do governo português, ou sem acordo deste, as forças portuguesas resistiriam militarmente. Eden comenta: "uma péssima amostra da diplomacia americana".

Salazar pressente que os americanos podem resolver usar a força. E na noite de 8 para 9 de Janeiro de 1944, às duas da madrugada, chama Campbell: faz-lhe uma comunicação sóbria, é breve, incisivo: e com simplicidade informa o embaixador de que acaba de dar instruções ao comando português nos Açores para atacar as forças americanas, até ao extremo limite dos meios militares disponíveis, se aquelas procurarem desembarcar. Não tem Campbell dúvidas sobre a decisão de Salazar, e transmite a Londres a sua ansiedade. As autoridades militares portuguesas nos Açores confirmam ao comando inglês as ordens recebidas, e a sua decisão de cumpri-las. Depois, Campbell comunica durante a noite a Norweb e a Crocker, conselheiro americano, as consequências de um acto de força dos Estados Unidos. Norweb e Crocker ficam entorpecidos de assombro: "parecia que uma mola se desprendera subitamente de uma caixa e lhes esmagara o nariz". E Norweb cai doente, fica de cama. Mas Churchill, no seu americanismo, sente irritação: não tem paciência para os neutros que querem escapar às dificuldades e ainda beneficiar: e pretende que Campbell apoie os americanos vigorosamente. Então, de meias-palavras deixadas cair por Palmela, o Foreign Office torna na primeira quinzena de Janeiro à sua ideia anterior de fazer um convite a Salazar para uma visita oficial a Londres. No pensamento do Foreign Office, o convite não deveria ser apresentado, para não lhe diminuir a amplitude, como destinado apenas a discutir os Açores, ou Timor, ou o problema do volfrâmio. Dir-se-ia ao chefe do governo português que o governo britânico julgou chegado o momento de examinar em conjunto o futuro imediato, o desenvolvimento ulterior da aliança luso-britânica, a posição dos dois países no após-guerra. Em 13 de Janeiro, Eden telegrafa a Churchill, ausente no norte de África, e obtém a concordância deste ao convite a Salazar. Entretanto, em Lisboa, Campbell insistia, em 17, por uma resposta ao seu pedido de princípios de Janeiro, relativo à extensão de facilidades nos Açores. Salazar escreve pessoalmente ao embaixador uma longa carta em 20, e é firme, mesmo sobranceiro: o governo português tem em muita conta os interesses britânicos, e procura satisfazê-los; mas não tem em menor conta a defesa dos seus próprios interesses, ou dos seus direitos, ou dos acordos concluídos e no espírito em que o foram, nem pode afastar-se dos princípios políticos em que se baseia; e um certo número de acções precipitadas obrigam-no a dizer, como já foi dito em Londres, que não deseja trabalhar sob pressões que imponham soluções mal pensadas ou semivoluntárias, nem está disposto a aceitar factos consumados; e em qualquer caso o governo português quer nas suas decisões salvaguardar a sua completa liberdade de espírito. Salazar reage como quem pressente perigos iminentes. E na verdade, no mesmo momento, a embaixada britânica em Washington acentua junto do Foreign Office toda a amplitude das ambições americanas sobre os Açores. E sublinha: Roosevelt afirmara a Halifax que o governo americano estava "vivamente interessado no destino do arquipélago" e a "ideia de uma qualquer forma de ocupação americana das ilhas está de há muito no seu pensamento" uma vez que as "encaram como uma importante base avançada para defesa deste continente". Corroborando a informação da embaixada britânica nos Estados Unidos, Roosevelt envia uma mensagem pessoal a Churchill: baseando-se nas entrevistas iniciais entre Salazar e Norweb, que este interpretara para Washington como consentimento de Lisboa ao desembarque de forças americanas, o presidente americano, embora admita que Salazar haja depois mudado de opinião, informa Churchill da sua intenção de não ter em conta tal mudança e do seu desejo de enviar em breve forças americanas para os Açores, que ficariam sob controle inglês para efeitos de operações. Mas em 20 de Janeiro, Norweb, já refeito, volta a avistar-se com Salazar: fala de Timor, da guerra no Oriente, da eventual participação portuguesa: mas não é discutido o problema dos Açores. Eden entretanto lê a mensagem de Roosevelt para Churchill, e com urgência intervém junto deste. Para Eden, "não há a menor dúvida de que o ministro americano não compreendeu Salazar de todo, e está fora de questão que este haja faltado à sua palavra". Dera o chefe do governo português o seu acordo à estadia de algumas forças americanas nos Açores sob comando inglês: não dera acordo ao desembarque de forças americanas independentes, nem à permanência de uma esquadra aérea dos Estados Unidos, como Roosevelt pretende. E a verdade é que Salazar "tem sido muito compreensivo em todos estes importantes problemas, não obstante a confusão e inépcia das diligências americanas"; se Washington persistir na sua atitude, "poderá prejudicar outros importantes desejos americanos e britânicos"; e é óbvio que o "Presidente não conhece Salazar, que é perfeitamente capaz de repetir a sua ameaça de resistir pela força a desembarques americanos - ainda que isso possa ser havido como loucura - se estes preferirem o facto consumando à negociação". Não se contentando em enviar ao primeiro-ministro os seus comentários escritos, Eden fala pessoalmente a Churchill sobre o assunto, no dia imediato, e submete-lhe um projecto de resposta a Roosevelt, que na sua substância é perfilhado pelo primeiro-ministro. Este afirma ao presidente não ter dúvidas de que Norweb está agindo num equívoco, baseado num acordo que Salazar não deu; Salazar está pronto a cooperar, desde que salvaguardados os princípios; não se pode esquecer que os alemães aceitam os ingleses nos Açores, mas não os americanos, porque a aliança não se aplica a estes; e sem embargo dos anglo-americanos possuírem força esmagadora, seria "incoerente com a nossa atitude geral para com pequenas potências tratá-las brutalmente em questões de neutralidade". Churchill recomenda que quaisquer forças americanas se apresentem como britânicas, e promete enviar a Salazar uma mensagem pedindo-lhe para satisfazer os desejos dos Estados Unidos. Em Lisboa, também a 20 de Janeiro, é dada resposta oficial a pedido inglês de extensão das facilidades nos Açores: Salazar recusa a utilização de Ponta Delgada: e vai considerar o problema das Lajes. No dia seguinte Norweb, em nota, limita-se a solicitar autorização para que seja construído, em local a escolher, um aeroporto, que possa ser usado em alternativa ao das Lajes. E ao receber João Neves, embaixador do Brasil, Salazar queixa-se da rudez e insensibilidade de Norweb; João das Neves confidencia as queixas a Campbell; e este confidencia-as ao Foreign Office e a Norwerb. Desde este momento, os americanos actuam cautelosamente, e com extremo respeito pelos escrúpulos e princípios de Salazar.

Entretanto, chegam a Campbell as instruções de Londres para convidar Salazar a uma visita oficial a Inglaterra. Salazar recebe o embaixador em 22 de Janeiro, e este faz o convite em termos prementes e persuasivos. Salazar agradece: mas lamenta desde logo não o poder aceitar. Campbell insiste: "estou certo de que gostaria de ir a Londres, pense bem no convite". Salazar responde: "não tenho dúvidas, vou pensar". Depois, Campbell levanta uma outra questão: as exportações de volfrâmio. Londres atribui máxima importância àquela matéria-prima, e ao seu valor estratégico; e desejaria que fosse embargada a sua exportação, estando Londres disposta em princípio a compensar os prejuízos económicos. Salazar exprime dúvidas; queixa-se de que no assunto o ponto de vista inglês parece mudar constantemente; salienta que dois terços da produção portuguesa se destinam aos aliados; e invoca mais uma vez as possíveis reacções alemãs. Mas pretende-se discutir a matéria imediatamente? Não, responde o embaixador, apenas quereria que o governo português reflectisse no caso. Para Londres, Campbell informa ser pouco provável que Salazar aceite o convite, pois está convencido de que se estiver ausente três ou quatro dias "todo o país ficará em pedaços"; e no problema do volfrâmio parecem-lhe genuínas as preocupações de Salazar. Mas dois dias mais tarde Campbell avista-se com Teixeira de Sampaio, e repisa junto deste todas as questões. Passam duas horas em conversa. Sampaio tinha estado doente, com violento ataque de gripe; e retomava agora o serviço. E confidencia a Campbell que não é bom o estado de espírito de Salazar. Este ficara ressentido com a pressão de Campbell para que tudo fosse decidido com urgência: e despendera dezasseis horas seguidas, sozinho, a estudar os assuntos pendentes e a redigir respostas às notas do embaixador. Além disso, Sampaio não ocultava que Salazar continuava desconfiado, e que tinha razões para tanto. Sob a capa dos serviços de informação ingleses a polícia descobrira factos de onde se concluía o envolvimento da embaixada britânica numa conspiração, em conluio com os oposicionistas, para derrubar o governo português. Campbell desmente com energia as conclusões da polícia. Na sua transmissão desta conversa para Londres, todavia, Campbell comenta que já sabia que Salazar sabia; assim o dissera Catela [inspector-superior da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado, colaborador da confiança de Agostinho Lourenço. Havido ao tempo por pró-alemão, e mesmo nazi, as suas simpatias reais estavam no entanto do lado inglês], informador da embaixada, a Risso-Gil, que imediatamente o comunicara ao embaixador. E quanto aos oposicionistas, Campbell dá o seu parecer em carta a Roberts, do Foreign Office"a minha impressão sobre a oposição aqui é a de que esta consiste em pequenos grupos, trabalhando em segredo, e desprovidos de qualquer coesão. Estou convencido de que, se Salazar desaparecesse subitamente, começariam a apunhalar-se uns aos outros. E duvido que Monteiro (ou qualquer outro) seja suficientemente forte para pôr todas as cabeças de acordo e formar um governo homogéneo". Decerto: Salazar sabe que, ao aproximar-se a vitória aliada, "os portugueses, de harmonia com os seus hábitos, hão-de querer imitar o resto de uma Europa em que o autoritarismo sofrerá um forte desconto"; mas a verdade é que, segundo as informações chegadas à embaixada, Salazar tem motivos para "estar satisfeito com a situação que considera haver melhorado". Nos primeiros dias de Fevereiro, a 3, Sampaio chama Campbell, e em nome de Salazar declina o convite para este visitar oficialmente Londres.

Paralelamente, Salazar responde aos pedidos americanos. Todos são recusados. Exceptua a construção de um aeroporto alternativo nos Açores, que poderá interessar à aviação civil em futuro próximo. Concorda em estudar a sua localização, na ilha do Faial ou na de Santa Maria. Mas para o efeito o governo português dirigir-se-á a uma companhia civil americana quando puder dispor dos técnicos necessários para acompanharem os daquela [na altura, a Pan American Airways]. Quando a conhece, Campbell ressente esta concessão: considera-a como significando a penetração dos Estados Unidos num país até agora na exclusiva esfera de influência britânica. E em carta comenta para Roberts: "creio que os americanos, por estarem muito fortes, julgam que ninguém lhes deve recusar coisa alguma"».

Franco Nogueira («Salazar», III).

domingo, 1 de março de 2026

Uma África sem rumo...

 


«A independência das nações africanas tem-se processado, na generalidade dos casos, sobre dois erros que as prejudicarão: o racismo contra o branco e a suposta unidade dos seus povos naquele continente. Esta última suposição tenderá a subordinar o negro ao árabe; o racismo negro tenderá a prescindir de tudo quanto o branco mais progressivo pode levar-lhe em capital, trabalho e cultura. Seria mais assisado substituir o exclusivismo rácico pela colaboração que vimos ser imprescindível. É por isso que nós entendemos que o progresso económico, social e político daqueles territórios só será possível numa base multirracial em que as responsabilidades de direcção em todos os domínios caibam aos mais qualificados e não ao desta ou daquela cor. Sei sermos acusados de, com esta doutrina, estarmos tentando assegurar o predomínio da raça branca em África, com base, sobretudo, no facto de o nosso multirracialismo não ter ainda reflexo bastante lato na distribuição de responsabilidades nas províncias ultramarinas de África. É certo que estamos ainda longe de atingir o ponto em que poderíamos estar plenamente satisfeitos com as nossas realizações. Mas não pode negar-se que não só é o mais seguro o caminho que trilhamos como o progresso dos territórios tende a cobrir a totalidade das respectivas populações, e não sectores privilegiados. Esse progresso é impossível negá-lo, pois que as realizações podem comparar-se, e com vantagem em muitos pontos, às dos outros países africanos. E se os nossos críticos estão seguros de que não é assim, mal se compreende que não tenham aceite a ideia de ser feito um estudo por individualidades de relevo internacional, e sob a égide da Organização das Nações Unidas. Foram infelizmente preferidos os discursos ao exame desapaixonado das realidades em debate, que tinha o nosso apoio.»

Oliveira Salazar («Realidades da Política Portuguesa», SNI, 1963).

Crónicas de uma morte anunciada da Nova África pós-colonial.

 



«AS TRÊS ÁFRICAS


Com o pretexto falso de que o caso não tinha interesse para Angola, como se Angola fosse uma ilha, não me permitiram na ONU que se abordasse este problema, que facilmente sobrepunha as realidades africanas aos mitos das suas propagandas. Nem por isso as realidades deixam de ser o que são - e de negar todos os dias este mito absurdo.

Geograficamente, nem depois do Sara se haver tornado mais transitável, mudou o verdadeiro facies africano. Nele se distinguem perfeitamente, apesar da sua conformação maciça e original, três Áfricas, que nem os seus caracteres geográficos nem a sua evolução histórica consentem que se confundam - da mesma maneira que nunca se confundiram as três Américas, que tanto se distinguem na América total. Ao Norte, uma África mais mediterrânica do que propriamente africana, em que floresceram velhas e nobres civilizações fortemente influenciadas pelo esplendor e domínio das culturas grega e romana - e cuja população, depois de várias vicissitudes históricas, se estabilizou por ocupação definitiva do elemento árabe, invasor, em convivência com os berberes autóctones. Separada do grande corpo da África, como um verdadeiro continente, pelo oceano de areia que se chama o Sara, ignorou-a durante muitos séculos, não havendo com ela outras relações senão as do comércio de algumas matérias-primas preciosas, e dos escravos, trazidos pelos berberes nómadas para os árabes, entre os quais se encontram ainda hoje os melhores especialistas do nefando negócio. À data das primeiras independências africanas depois da Guerra, era esta a recordação mais viva que os árabes haviam deixado aos africanos do sul: a do comércio de escravos.

Abaixo do deserto, e até uma linha irregular que vai da foz do Rio Zaire ou Congo, atravessa o Congo ex-belga e vai morrer no Oceano Índico, entre Moçambique e Tanganica, situa-se a segunda África, a verdadeira África Negra ou África Central. Finalmente, ao sul desta linha, mais ou menos, diferente já da segunda por caracteres geográficos e factores históricos, fica a África do Sul, abrangendo os actuais territórios de Angola, parte do Congo, Niassalândia, Rodésia do Norte, Rodésia do Sul, Moçambique, Bechuanalândia, Suazilândia e União Sul-Africana; e com a sua contestada dependência, a antiga Dâmara ou Sudoeste Africano. Esta segunda África, cuja distinção de caracteres geográficos parece pouco importante relativamente à terceira, tem todo o relevo na consideração dos factos sociais, étnicos e políticos, que as colocaram em mundos diferentes.

Foi na África Central que, pela inospitalidade do clima e por outras razões discutíveis, menos se fixaram as populações de outras raças; estas eram em grande maioria, populações flutuantes, de grandes empresários comerciais e industriais, e os seus empregados de todas as categorias, de funcionários públicos, de exploradores da riqueza africana, que constantemente se renovavam e só muito raramente se fixavam. Iam lá por meses, outros por anos, multiplicavam-se na medida em que se multiplicavam os seus negócios, e regressavam aos seus países. E assim, nesta África, a verdadeira população africana foi quase sempre a negra, quase exclusivamente a negra; e cederam-lhe facilmente as independências, quase sem condições nem preparação, e as oportunas como as mais inoportunas, logo que viram que podiam descartar-se das despesas e responsabilidades da administração sem perder os lucros do negócio. Eram, enfim, muito poucos aqueles que amavam realmente a África e que nela se haviam volvido africanos. A maioria foi sempre estrangeira no território que ocupava e esta África podia dizer-se quase exclusivamente monorracial. Demais, desde os primeiros que a visitaram, até aos últimos que a ocuparam no decorrer de menos de um século, todos para lá foram e regressaram em confortáveis transatlânticos.

O mesmo não aconteceu na África do Sul, que conheceu, por consequência, uma evolução muito diferente. Os portugueses estão em Angola e Moçambique há quinhentos anos e lá se estabeleceram à custa de riscos de viagem e de lutas que dizimaram uma grande parte; e foram, geralmente, levando a Pátria consigo, exportando com eles Portugal e prolongando-o, para ficarem, para se fixarem. Com eles, foram não só os simples comerciantes e aventureiros ávidos de riqueza, mas também, e com o mesmo intuito de fixação, ou por devoção a que hipotecavam a vida, mestres e missionários, grandes viajantes e exploradores, cientistas dedicadíssimos e altruístas sem esperança de recompensa terrena.

Toda a África portuguesa foi regada pelo sangue de uns e outros. Pouco tempo depois, uma colónia de huguenotes franceses e holandeses estabelecia-se em terras do Cabo da Boa Esperança e, com ela, principiava a História da União Sul-Africana. Mais tarde, foram ingleses que ocupariam as Rodésias e o Niassaland. E todos eles, ao contrário do que acontecera na África Central, trouxeram consigo gente humilde e brava que ficou, que ligou os seus destinos à terra, que criou raízes e se fez, pela sua capacidade, tão africana como os próprios negros. As diferenças de número em que esses brancos sempre estiveram, eram largamente compensadas pelas diferenças de capacidade. Se muitos praticaram um racismo que ainda perdura e que a União Sul-Africana tornaria odioso, outros, como os portugueses, cruzaram-se e conviveram com as raças nativas e com as raças orientais, separados apenas, menos pela cor, do que pela diferença de classes que verdadeiramente os distinguia. Essa gente fez em África o que outros da mesma raiz fizeram nas Américas, onde criaram as nações que lá se formaram. Por alguma razão, abaixo desta linha que separa as duas Áfricas, a independência que os negros procuram impor como um direito de número, tem encontrado resistências que não encontrou na África Central - e menos pela independência, do que pelas suas condições exclusivas. Esta África não é monorracial como a outra, e só como plurirracial pode ser considerada.






ONDE A UNIDADE?

Onde está, pois, a tal Unidade Africana continental, desta África tão distinta nas suas três partes? Onde está, pois, a Unidade num continente em que o único traço comum é dado por uma cultura estranha - a ocidental?

Acontece, porém, que essa unidade nem sequer existe nas próprias Áfricas que se distinguem pela Geografia e pela História. Para que ela existisse, seria necessário não só fazer evoluir os sentimentos e instituições de tribo que ainda dominam em África, de modo a transformá-los em embriões de verdadeiras nações - o que está absolutamente fora das possibilidades imediatas da Revolução - mas também que as novas nações independentes se houvessem constituído mais racionalmente, digamos, mais "nacionalisticamente", em lugar de terem aceitado como territórios nacionais a manta de retalhos que o colonialismo lhes legou.

Contra essa unidade nacional, a que na maioria dos casos ainda faltam os fundamentos de nação, contra essa unidade da África independente, falam constantemente, com poderes reais que excedem os da propaganda, os mais evidentes factos de uma revolução irreversível, mas que ainda não encontrou o sentido das suas realidades. Na África do Norte, a Argélia foi "libertada" para a ditadura de Ben Bella em conflitos com o seu povo, a que também pertencem os berberes, e conflitos externos de fronteira com o seu vizinho marroquino; a desunião do mundo árabe todos os dias se faz e se desfaz, incapaz de resistir aos caracteres tradicionais. Na África Central foi impossível manter a unidade da Federação Mali, como se mostra impossível a constituição de outras Federações; luta-se na fronteira entre o Congo e Uganda, onde Batoro, Baamba e Bakenjo não se entendem; poucos dias depois de reconhecida a independência do Quénia, deflagravam questões armadas de fronteira entre a nova nação e a Somália; no Congo ex-belga, só a presença de tropas das Nações Unidas e o escancarado neocolonialismo de belgas, ingleses e norte-americanos, contém dificilmente as tribos desavindas, numa unidade impossível. Isto, além de conflitos menores que constantemente ensanguentam outras fronteiras, e até territórios mais interiores, e que seria impossível citar aqui em tão curto espaço.

A Unidade Africana é, pois, um mito indefensável - e eu compreendo muito bem porque não me deixaram falar sobre ela no organismo mais poderoso da sua propaganda.

Esse mito, despropositado, além de megalomanizar os mais responsáveis pela Revolução, destrói o seu sentido das proporções, desencaminha a revolução e a desacredita.

Nkrumah, o ditador do Gana, terminou o seu discurso de Adis-Abeba com as seguintes palavras: "A menos que estabeleçamos agora a unidade africana, nós, os que estamos aqui sentados, seremos amanhã as vítimas do neocolonialismo." A condição não tem o menor sentido prático, mas a conclusão é verdadeira. O neocolonialismo já lá está em cerca de vinte das nações recentemente independentes - e será muito pior e mais espoliativo do que foi o colonialismo, pois se exercerá sem responsabilidades.

Certamente, a Revolução não se perde - é irreversível. Mas terá que arrepiar caminho, com estes ou outros líderes, e convencer-se de certas realidades africanas que, claramente, se opõem aos seus frenéticos desígnios actuais.»

Henrique Galvão («Da minha luta contra o Salazarismo e o Comunismo em Portugal»).

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Razões Para Permanecermos em África - Henrique Galvão.

 



«Diz Thomaz Ribeiro Colaço, numa síntese perfeita: "É portuguesa, como se sabe e não sofre contestação, a mais velha fronteira a demarcar no mundo da área cristã, uma unidade-nacional. Essa fronteira política e não natural, não é nem nunca foi daquelas que laboriosamente se ajustam em chancelarias inteligentes. Nenhuma chancelaria a ajustou e, adentro dela, Portugal entrou no seu oitavo século com 80% de analfabetos - o que exclui, para o desenho dessa fronteira, qualquer intelectualismo persistente na acção de elites numerosas. Isto quer dizer que a simples permanência de Portugal na Europa o torna documento de fenómeno único: génio político exercido pela massa. Depois, como capitalista inseguro que transfere bens para o exterior, essa massa, insegura na Península, transferiu para o exterior substância sua. Esse seu capital era Pátria, era Nação, era Liberdade comum. Digamos, Portugal depositou Portugal no exterior  - e assim criou no mundo, como caso singular, como caso unicamente seu - a autenticidade de uma nação pluricontinental. Note-se: seria inconcebível que Shakespeare escrevesse em Singapura ou Cervantes nas Filipinas; mas foi muito natural que, antes, Camões escrevesse a sua obra em Macau"...».

Henrique Galvão («Da minha luta contra o Salazarismo e o Comunismo em Portugal»).

Salazar e o Ataque dos Americanos ao Império Português.

 



«Lisboa, 15 de Fevereiro [de 1963] - Ontem, li a notícia de que um cargueiro venezuelano foi assaltado no mar das Caraíbas por comunistas, que se proclamam libertadores do seu país. Tal como no Santa Maria. Mas estes estão sendo considerados - piratas.

(…) Lisboa, 29 de Agosto - Ontem, depois de jantar, fui ao Forte de Santo António para ouvir de Salazar o relato das conversas que, por seu lado, tem tido com George Ball. (…) Registo a síntese rigorosa do que disse.

"Não há dúvida: os americanos evoluíram alguma coisa, mesmo muito", principia Salazar. "Há ano e meio, há dois anos, julgaram que uma pressão, uma ameaça, um ultimato nos fariam cair, ou pelo menos modificar a nossa política. Bem: já viram que não dava resultado, desistiram. E eles próprios vêem os seus interesses afectados, têm muitos problemas, não sabem como resolvê-los, e estão perplexos. E por isso nos mandam um emissário especial de alta categoria, sem que o tivéssemos solicitado. Muito bem. Mas que nos vem propor?  Na conversa consigo e na que teve comigo, reparei que Ball usou repetidamente estas palavras: assegurar a presença, a influência e os interesses de Portugal em África. Ora que significa isto? Que está por detrás disto? Que conteúdo têm estas palavras? A verdade é que se Angola ou Moçambique são Portugal, este não está nem deixa de estar presente: é, está. Presença, para os americanos, quer dizer outra coisa: a língua, a cultura, alguns costumes que ficassem durante algum tempo até sermos completamente escorraçados. Isto e nada, é o mesmo. E o mesmo se quer dizer com a influência e os interesses. Com isto pretendem os americanos dizer que seriam garantidos os interesses económicos da metrópole, isto é, de algumas empresas ou grandes companhias. Mas tudo isto não vale nada. Que a economia comande a política é particularmente verdadeiro quanto à África. Bem vê: quem tem o dinheiro é que empresta, quem produz é que exporta; e quem tem dinheiro e empresta, e depois não lhe pagam, é levado a emprestar mais e mais; e para garantir esses novos empréstimos é depois levado a intervir, a controlar, a dominar as posições chave. E quem produz é que exporta; mas quando lhe não pagam as exportações, reembolsa-se com a exploração do trabalho e das matérias-primas locais. E ao fazer tudo isto é evidente que expulsa a influência e os interesses económicos de outros mais fracos, que nem podem emprestar tanto nem exportar tanto. É o neocolonialismo. Ora, meu caro senhor, nós não poderemos comparar a força económica e financeira da metrópole com a dos Estados Unidos. E o senhor está a ver, não está? Os americanos a oferecerem bolsas de estudo para formar médicos, engenheiros, técnicos nos Estados Unidos; os americanos a percorrer os territórios com a propaganda dos seus produtos. Em menos de um ano, de português não havia nada. Não, meu caro senhor, uma vez quebrados os laços políticos, ficam quebrados todos os outros. Mas então, sendo Angola parte de Portugal, não podem os americanos investir e exportar? Podem, decerto, mas têm de negociar com uma soberania responsável e com um governo que sabe exigir, ao passo que se o fizerem com um governo africano, inexperiente e fraco, sai-lhes mais barato. De resto, tudo isto está demonstrado; veja a Argélia, veja o Congo. Mas, para nós, o Ultramar não é economia, e mercado, e matérias-primas, e isso os americanos não o podem entender. Bem: este é um aspecto. Mas que quer Ball dizer com os prazos? É evidente que se os americanos estivessem dispostos a aceitar que Angola seja Portugal, não falavam de prazos. Poderiam querer discutir ou negociar connosco uma qualquer construção política ou jurídica que coubesse nos seus princípios teóricos, e depois apoiar-nos-iam sem reservas. Mas não: querem um prazo. Um prazo, para quê? E que se passa findo esse prazo? E enquanto decorre esse prazo, não acontece nada? Deixamos de existir no mundo, não se fala mais de nós? E os terroristas cessam os seus ataques? Ah! mas se os americanos podem garantir que os terroristas depõem as armas, então é porque têm autoridade sobre os terroristas, orientam-nos, estão em contacto com eles. E os terroristas depõem as armas sem mais nada? Não exigem condições, não apresentam preço, e os americanos não assumem compromissos? Quais, como, para quando? E que promessas fazem ou fariam à Organização da Unidade Africana? E como justificaria esta o seus silêncio sobre nós e a ausência de ataques a Portugal? Não, meu caro senhor, os americanos continuam a pensar que com jeito, docemente, conseguem anestesiar-nos e impelir-nos por um plano inclinado".

Salazar suspende a sua fala, concentra-se em silêncio na imensidade do céu, aconchega mais a manta sobre o peito e o pescoço, e continua.

"Está claro que se aceitássemos o caminho dos americanos, em troca do Ultramar choveriam aqui os dólares, receberíamos umas tantas centenas de milhões. Ficaríamos para aí todos inundados de dólares e de graça. E sabe? Os que vierem depois de nós ainda haveriam de dizer: afinal era tudo tão fácil, não se percebe mesmo por que é que aqueles tipos não fizeram isto. Mas os dólares iam-se num instante, deixavam umas fábricas e umas pontes, e depois começava a miséria. Duraria o ouro dois ou três anos. Depois era a miséria, a miséria, a dependência do estrangeiro. E em qualquer caso é-nos defeso vender o país".

Nova suspensão de Salazar, como quem se recolhe para organizar melhor os pensamentos que vai expor.

"Por outro lado, temos de pensar no futuro, na história, no julgamento da história. Não podemos recusar este passo que os americanos deram sem esgotar todas as suas possibilidades, e sem que fique bem documentado que fomos até ao extremo limite da flexibilidade e das concessões, salvaguardando a unidade e a integridade da nação. E se conseguíssemos que os americanos fizessem mais uma pequena evolução, dessem mais um pequeno salto, então tiraríamos o carro do atoleiro. De modo que entendo devermos preparar um papel, um memorandum, com as bases de um acordo com os Estados Unidos. Sem sacrifício de nenhum princípio nosso, e sem nos deixarmos arrastar ingenuamente, vamos pôr à prova a boa-fé dos americanos. Se, como costuma dizer-lhe Rusk, e o Ball repetiu, autodeterminação é para os americanos o consentimento dos governados à forma de governo, pois, poderemos encontrar a fórmula que comprove que toda a nação portuguesa, aderindo à forma de governo, se encontra autodeterminada, e que nesse sentido pratica actos que o demonstram. Ah! se os americanos dessem o salto e tirássemos o carro do atoleiro!"».

Franco Nogueira («Um Político Confessa-se. Diário: 1960-1968»).

A luta pelos Açores durante a Segunda Guerra Mundial.

  «Ao receber para almoço na Sala dos Cisnes do Palácio da Vila, em Sintra, o ministro dos Estrangeiros da Argentina Henrique Ruiz Guinazu, ...