terça-feira, 21 de abril de 2026

O Caso dos Ballets Roses

 


O CASO DOS BALLETS ROSES
O que é que os traficantes do sexo pretendem?
Angariar sempre clientela em pessoas estrategicamente colocadas para depois daí colher protecção e cumplicidade.
Asseguradas pela chantagem que operava pela nova situação de vulnerabilidade.
Atrair um solteirão mulherengo com a promessa de "carne fresca" era a estratégia.
Essa coisa de se dizer que o Mário Soares andava a defender as pobres raparigas...
Com que bases se faz esta afirmação?
Da mesma forma se poderia supor que ele andava era a defender as patroas...
Ou com maior probabilidade, a engrenagem mundial, que preside a estas actividades e as mantém a funcionar.
Mas não restamos aqui em maré de hipóteses.
Ora vejamos o que é que se terá passado com maior lógica.
Vamos mais atrás.
Como se sabe, a prostituição tinha sido encarada pelo Estado português, como um facto que não se conseguia facilmente atalhar. Nem debelar.
E o Estado tinha as casas e prostitutas, cadastradas e vigiadas pelas autoridades policiais.
Além de controle sanitário, também acontecia que deste modo se evitava um tanto - mas não tudo - a situação de escravidão e chantagem, a que estão sempre sujeitas as raparigas na situação de clandestinidade.
Mas o Estado fechar os olhos a um comércio destes, também não podia colher aplausos.
E falava-se então que um grupo de senhoras católicas, tinham diligenciado - e conseguido - acabar com essa situação.
Houve pessoas que não gostaram disto até apontavam o dedo acusador às "noelistas".
Foram as "noelistas" que queriam acabar com as casas, dizia-se com escárnio e animadversão.
E até as comparavam com aquelas beatas da "Gabriela Cravo e Canela".
Que queriam encerrar o “Bataclã”
Refiro-me ao livro. Não à novela. Esse livro já circulava em Portugal em 1961, pelo menos.
A prostituição, ainda no tempo de Salazar, acabou por ser declarada ilegal.
Muita gente se moveu para isso.
Um deles foi o padre Adriano Botelho, meu professor de R. e Moral e de O.P.A.N. e prior da Igreja de Alcântara.
Outro o Padre Abel Varzim, que é mais um caso bem conhecido, de como a oposição intrigou para o indispor contra o governo e reciprocamente.
Quando a prostituição se ilegalizou o P. Botelho já sem tanto que fazer, foi em missão anti-escravatura-branca para a Argentina, onde proliferavam "las casitas".
E depois de cá se ter proibido a prostituição?
É claro que se sabia que estas coisas não acabam de um dia para o outro.
Por um lado o Estado Português tinha melhores meios do que outros países, para controlar. Mesmo na clandestinidade que doravante iria acontecer.
Tinha as fronteiras relativamente bem controladas.
O serviço de fronteiras, estava a cargo da eficiência da PIDE.
Não se entrava neste país com essa facilidade toda.
O que já dificulta um tanto, o tráfico.
E cá dentro?
O Estado mantinha a vigilância.
E actuava em casos que achava mais graves.
Ora considerava-se grave a prostituição de menores.
Pouca gente se lembra que a maioridade só era atingida aos 21 anos, a menos que os pais emancipassem antes, os filhos.
O que se fazia para efeitos de carta de condução, aos 18 anos.
Ora uma rapariga de 18 anos era considerada menor.
E aí a lei actuava sempre.
Mas para actuar tinha de ter provas, fazer investigação.
Porque normalmente, quando a prostituição passa a ser clandestina, camufla-se bem. E as coisas ficam mais difíceis.
E era investigação que a polícia andava mesmo a fazer.
Não creio que nessa altura se prostituíssem crianças de idades tão tenras, como diz a novela. Aliás seria perigoso para os próprios traficantes.
Mas hoje isso já pode ser visto por quem desce a Avenida da Liberdade, a qualquer hora do dia. Nem precisa de ser à noite.
Ora a justiça andava de olho nessas jovens, ou melhor, nos empresários dessas jovens.

Com essa história da notícia dos "Ballet Rose" na Imprensa estrangeira, procurou desacreditar-se a acção do Estado português e, de certo modo, amarrou-se as mãos à justiça.
Lembremos que o caso andava em processo.
O nosso governo não era conivente. Era adversário.
Por outro lado o "Jeune Afrique", de tendência afro-asiática e comunista, já tinha antes, achado aqui um bom meio de atacar o Estado Português considerado adversário maligno.
E foi este jornal que iniciou a acusação. Eu diria a calúnia.
Foi por ele que o jornalista inglês foi induzido a procurar uma "cacha", "manchete" de sensação.
Ora nós sabemos, e a PIDE sabia ainda melhor (*), que tanto a maçonaria como o PCUS, patrocinam o comércio sexual, para domínio dos povos e colheita de dividendos políticos e económicos.
Envolvendo políticos, têm-nos na mão.
Sabemos das práticas de patrocínio de "rendez-vous" e chantagem sexual dos serviços secretos, nomeadamente, russos e americanos dessa época.
Por exemplo, o caso Profumo, dirigido pelo KGB.
Ora Mário Soares tinha sido comunista e também maçon.
E parece que chegou a ter estas duas qualidades em simultâneo.
Podemos dar-lhe o benefício da dúvida e abonar a crença de que Mário Soares era idealista e foi manejado pelas "chafaricas" a que pertenceu.
E eu pessoalmente até creio.
Curiosamente, na defesa que lhe fez, Magalhães Godinho, um dos argumentos foi de que O jornalista Briant, sabia através do "Jeune Afrique" e não do Mário.
Segundo o Magalhães Godinho, há esta passagem anedótica:
O jornalista inglês, provavelmente soprado pelo "Jeune Afrique", veio ter com Soares que o remeteu para Pires de Lima, então jovem como ele, Marocas, e filho de uma reputada figura do regime (**).
E veio muito lampeiro bater à porta do Pires de Lima.
- O sr. Dr. Pires de Lima?
- Eu próprio, que deseja?
- Bem há aí umas belas broncas que nos vão render muito...
- Diga então respondeu o P.L.
- É daquele caso dos "Ballet Rose”(***) ...
- Sim, sim...
- E o inglês contou o que sabia ...
Mas o azar foi este. O Pires de Lima que o atendeu era o pai e não o filho que ele procurava. E percebeu logo a jogada.
E telefonou à PIDE a dizer que havia um jornalista inglês envolvido na campanha e que preparava uma peça jornalística...
A PIDE, é claro, que não tinha motivos oficiais para o deter e o artigo saiu logo dois dias depois no pasquim inglês.
Notas :
(*) - Podemos ler no livro "A bem da nação" o depoimento que a esse respeito fez o Antigo inspector, Óscar Cardoso.
(**) - Lembremo-nos de que os jovens filhos-família, eram as peças mais cobiçadas e assediadas pelo "reviralho" 😊 a maçonaria+marxismo).
Temos o Galvão Teles, a filha do Silva Pais, o próprio Jorge Sampaio ...
[06/12, 21:53] Pedro Torres de Castro: -------
O LIVRO
As pessoas que escrevem ou comentam sobre o famigerado caso "Ballet Rose" se lessem a o relatório da defesa que fez o advogado de Mário Soares, José Magalhães Godinho, mudariam de opinião. Veriam que todas as tretas escritas pelo Francisco e pela Felícia ruiriam pela base.
Sem ponta por onde se lhes pegue.
Está num livro que se imprimiu em 25 de Maio de 1974, precisamente um mês, após a implantação da "liberdade".
De título, “Causas que foram Casos” da colecção “Que País?”. Uma edição da Seara Nova.
De notar que J. Magalhães Godinho, advogado que foi de Soares já nessa altura estava naturalmente alinhado no ideário desta figura pública.
Tal como com outros oposicionistas ao regime de então, cuja defesa apresenta nesta obra.
Tais foram, Salgado Zenha, Carneiro Franco, Duarte Vidal e o próprio irmão Vitorino. Entre outros mais.
Mais insuspeito não pode ser…
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O caso dos "Ballet Rose" pelo "Sunday Telegraph". Da iniciativa do próprio "Sunday".
Até o Magalhães Godinho se empenhou por completo, para provar que o Mário Soares, foi um mero peão. Que nem sequer chegou bem a ser peão...
Até argumentou que o Mário Soares com a sua proverbial dificuldade para as línguas estrangeiras não estava em condições de comunicar e informar o jornalista inglês.
E note-se que a imprensa britânica se apoiou no facto de conhecer que a justiça portuguesa andava em cima de uma rede de corrupção de menores.
Nesse tempo, para tal efeito, eram consideradas menores as raparigas de menos de 18 anos.
O processo, em segredo de justiça, estava a andar.
O papel dos "mass-media" britânicos foi insinuar que Salazar tinha abafado o processo por medo do escândalo.

Conclusão
O papel dos "mass-media" britânicos foi insinuar que Salazar tinha abafado o processo por medo do escândalo.
Tempos depois a Imprensa anglo-americana vem com Wiriamu. Da parte USA, foi o Washington Times. Do UK, não tenho agora os dados.
Mas fez tanto eco, e com tanta pontaria...
...foi precisamente uma semana antes da visita de Marcelo à Grã-Bretanha...
As descrições eram horríveis. Os portugueses já suplantavam em barbaridade, essas descrições que conhecemos, de nazis e sovietes ...
Criou-se um estado emocional na Grã-Bretanha contra Portugal.
Com tanta pontaria que o então jovem "Bochechas", que lá estava no UK, se pôs desvairado, aos pinotes, em cima da nossa verde-rubra.
Segundo dizem alguns e contestam outros.
Como sempre, aliás.

Pedro Torres de Castro

O essencial sobre Salazar.

 






Através do texto da autoria do Dr. Marcos Pinho de Escobar, fica aquí, a minha pequena homenagem ao Maior Português de todos os tempos :

Três atributos são – ou deveriam ser – fundamentais em um governante: a inteligência, a integridade e a dedicação. Se já não é tarefa fácil identificar uma destas qualidades num homem público, muito difícil será encontrar duas, e bastante improvável encontrar as três em simultâneo. Pois para o bem de Portugal e dos portugueses, a António de Oliveira Salazar foi concedida – de forma ampla – a graça de possuir esta tríade de ouro do verdadeiro condutor da Polis. Não apenas inteligência, mas uma inteligência superior; não somente integridade, mas uma integridade – perdoe-se a redundância – absoluta; não simplesmente dedicação, mas uma dedicação total da sua pessoa a Portugal. E nele estas três características essenciais não estavam “soltas” a flutuar no espaço, mas solidamente ancoradas num profundo amor a Deus e à Pátria. Só assim se pode entender o núcleo do seu pensamento político, no qual a Nação é o valor supremo na ordem temporal e o Estado o ministro de Deus para o bem comum – conceitos naturalmente incompreensíveis para a mentalidade materialista, hedonista e mundialista dos dias de hoje.

Pois com inteligência superior, integridade absoluta e dedicação total, Salazar foi o arquitecto de uma grande obra de restauração moral e material; nesta ordem e não noutra, pois entendia que os valores do espírito possuem uma indiscutível primazia sobre a matéria. Por outras palavras, estava convencido de que o homem deve procurar primeiro ser melhor, para, então, poder estar melhor.

Mas Salazar e a sua obra não podem ser adequadamente entendidos sem o conhecimento do que foi a desordem, o descalabro e a violência política da I República, conclusão lógica da fatídica inoculação do vírus divisor do corpo nacional, do abandono da tradição portuguesa e da adopção de figurinos estrangeiros – tripla obra do liberalismo oitocentista. E tampouco se pode aquilatar da real magnitude das realizações materiais levadas a cabo durante o consulado salazariano ignorando-se as condições confrangedoras do ponto de partida e as grandes dificuldades, internas e externas, a que sempre teve de fazer frente.

Salazar legou uma herança: e esta é moral e material. Ela é o exemplo do homem, é todo um pensamento político, é um vasto conjunto de realizações económicas e sociais.

O homem

Se o dom de uma inteligência superior está fora das possibilidades de reprodução, a integridade e a dedicação são modelos de conduta. O seu sentido de responsabilidade de governante, a escrupulosa separação entre o público e o privado, a vida espartana e a entrega contínua da sua pessoa ao serviço da Nação já constituem um legado de valor incalculável. Mas há mais, muito mais. Homem de estudo e reflexão, nele ressaltam a disciplina intelectual, o rigor da análise, o claro discernir entre causa e efeito, entre o essencial e o aparente, entre o provisório e permanente. E, tudo isto, acrescido de uma inesgotável capacidade de trabalho, de uma força de vontade inquebrantável, de uma serenidade inabalável, de um extraordinário poder de concentração e síntese.

Homem de pensamento, Salazar estava longe de ser apenas um teórico, encontrando-se profundamente enraizado na realidade, na vida do homem real, feito de espírito e matéria. Capaz de uma visão cristalina dos homens e das coisas, era dotado de um agudo realismo político, caracterizado pela ponderação, pelo equilíbrio, pela fineza. Homem de uma fé profunda, de intensa vida interior, de recolhimento, Salazar sentia uma natural aversão ao verbo fácil, aos banhos de multidão, à demagogia: cada palavra dita ou escrita era fruto de meditação, tinha o significado justo e o lugar preciso. Seus “Discursos”, em seis volumes, são exemplo do que há de mais elevado em prosa política na língua portuguesa.

Estava convencido de que todo trabalho sério e fecundo, todo esforço construtivo, todo progresso autêntico, obedecem a um plano de longo prazo, e este necessita de um ambiente de ordem e estabilidade. Por isso entendia que toda obra política é fruto da continuidade, do tempo e da paciência. Arquitecto de um edifício grandioso a muitos títulos, era o seu primeiro crítico, apontando-lhe, com humildade, as imperfeições e as lacunas.

Concebia o Poder não como um direito ou um privilégio, mas como um dever, um sacrifício – uma missão. E exerceu-o com prudência, com lucidez, com uma clara noção do possível – como um Sábio.

O pensamento:
razão, experiência e fé

Homem tradicional, Salazar orientava-se por uma dupla vinculação: ao alto, aos fins transcendentes da vida humana, ou seja, a Deus; e ao baixo, à terra, às realidades da vida individual e colectiva. Compreendia a política no seu sentido original e nobre, como a ciência e a arte do governo dos povos, orientada obrigatoriamente ao bem-comum. E este, da mão de Santo Tomás, concebia-o como o bem-comum completo, na sua tripla vertente: a concórdia, o bem-estar material, a virtude – em outras palavras: a união pacífica dos cidadãos e o seu legítimo bem-estar material, ordenados de forma a permitir e promover o desenvolvimento da vida virtuosa.

Opôs-se frontalmente, no pensamento e na acção, aos que pretendiam expulsar a Deus da sociedade política e romper as amarras que ligam os homens ao passado, na infeliz e tantas vezes trágica ilusão de que por meio de abstracções que ignoram as realidades fosse possível criar um homem e um mundo novos. Foi, portanto, o contrário de um ideólogo, incorrendo na ira dos ideólogos do egoísmo, da inveja e do ódio – a saber: liberais, socialistas e comunistas.

Ao considerar vital restituir ao Poder os seus quatro atributos essenciais – força, independência, estabilidade e prestígio – Salazar foi taxativo na sua rejeição da democracia, definida esta pela trilogia: soberania popular – sufrágio universal – partidocracia. Concebendo a sociedade ordenada a um fim último transcendente que é Deus, entendia que era Nele e nunca na massa a sede da soberania. Por isso não aceitava que a vontade de uma maioria numérica pudesse ser o critério de aferição da legitimidade de uma lei, ou que esta violasse os princípios da ordem natural e as leis divinas, ou que o governo fosse obra da multidão e não de um escol cujo dever é servir o agregado nacional e sacrificar-se por ele.

Não concebendo a sociedade como um aglomerado de indivíduos desenraizados e atomizados, mas como uma unidade orgânica formada por grupos diferenciados e hierarquicamente articulados, Salazar condenou a democracia por esta ignorar as desigualdades naturais entre os homens, com o consequente nivelamento por baixo da sociedade, e o sufrágio universal, justamente por este não levar em conta a diferenciação humana. A concepção organicista do agregado nacional conduzia-o a duas outras considerações fundamentais: a unidade essencial da Nação como valor supremo e a incontestável primazia do interesse colectivo – nacional – sobre o interesse dos indivíduos e grupos. Daí a sua rejeição teórica e prática do sistema de partidos, que atenta contra aquela unidade e aquele interesse.

Salazar abalançou-se à construção de um sistema político fundado na ordem (condição essencial para a existência, prosperidade e conservação da sociedade) e na autoridade (garante da ordem); orientado por tudo o que é permanente na História (a tradição); que existe em função da pessoa humana, integrada nos seus grupos naturais e históricos (família, paróquia, profissão, município, etc.); que tem por objectivo a realização do bem comum do conjunto; que reconhece e protege as liberdades concretas efectivamente vividas.

A obra material

É uma brilhante reforma financeira que em 1928 salva Portugal da bancarrota e ordena as contas públicas por um período de mais de quarenta anos; é a reconstrução das infra-estruturas económicas essenciais (estradas, caminhos de ferro, portos, energia hidroeléctrica, hidráulica agrícola, rede telefónica, etc.); é um processo de modernização, industrialização e desenvolvimento da economia que se reflecte na criação ou expansão considerável de sectores tão diversos como a produção de energia eléctrica, a química, os petróleos, a metalo-mecânica, a siderurgia, os cimentos, a construção/reparação naval, a agricultura e os produtos alimentares, os têxteis, a construção de automóveis, etc.

Entre 1926 e 1974 Portugal foi o país que apresentou a mais alta taxa de crescimento do produto interno bruto na Europa Ocidental – o dobro da obtida pelo Reino Unido –, registando entre 6% e 7% ao ano na década de sessenta, alcançando 11.2% em 1973. Neste mesmo ano o índice de desemprego era de 1,5%, hoje ronda os 15%. Desde 1975 a politicamente correctíssima ONU, insuspeita, pois, de qualquer simpatia para com católicos, nacionalistas ou contra-revolucionários, publica um indicador de desenvolvimento económico para cada país, com base em dados colectados nos dois anos anteriores. Uma rápida análise dessas tabelas mostra que em 1975 a Portugal era atribuída a 24ª posição entre duas centenas de países – resultado obtido com o cômputo dos excelentes resultados de 1973 e primeiros meses de 1974, a compensar os estragos revolucionários do resto do ano. Pois em 2017 o país já ocupava o 41.º lugar…

A herança de Salazar é ainda mais considerável: é a defesa intransigente dos interesses e direitos de Portugal no mundo, da sua identidade, da integridade das suas gentes e das suas terras, da sua independência, da sua soberania; é a implementação de uma política externa que restaurou o prestígio da Nação Portuguesa a um patamar desconhecido desde a gesta dos Descobrimentos; é o desenvolvimento das ciências, das artes e da cultura; é a paz pública, a defesa e promoção da família, a segurança dos cidadãos, a estabilidade política e económica, o respeito pela ordem natural, a promoção de uma vida cristã – entre muitos outros aspectos.

Profundo conhecedor da natureza humana e, em particular, da natureza dos portugueses, Salazar afirmou um dia que aqueles que lhe sucedessem fariam diferente e ao contrário dele. Nisto, como em tanto mais, o tempo veio a dar-lhe carradas de razão: nos cinco anos e meio do governo presidido pelo Professor Marcello Caetano fez-se diferente; desde a revolução marxista de 25 de Abril de 1974 faz-se ao contrário.

[Após sofrer um grave acidente vascular cerebral, Salazar é substituído na Presidência do Conselho de Ministros, a 27 de Setembro de 1968, por Marcello Caetano, eminente catedrático de Direito. Colaborador de Salazar desde a época em que este fora Ministro das Finanças, Caetano exerceu funções de alta autoridade e foi uma das principais personalidades do regime. Em 1958 deixa o cargo de Ministro da Presidência – o n.º 2 na linha de comando do Executivo – e regressa à vida académica. No discurso proferido ao assumir a chefia do governo, Caetano declarou que a partir daquele momento os portugueses, tão acostumados que estavam ao governo de um “homem de génio”, teriam de habituar-se ao governo de “um homem como os outros”. A este “pormenor” podemos acrescentar outro: o da sua conversão de contra-revolucionário a liberal…]

Vale a pena comparar o estado geral do país confiado a Salazar em 1928 com a situação na qual se encontrava aquando da sua saída do Governo em 1968. E contrastar agora o que foi o Portugal restaurado por Salazar – grande, forte, soberano e português – com o rectângulo exíguo, falido, submisso e estrangeirado, produto acabado do regime saído da mal chamada revolução dos “cravos”.

Salazar, a imagem do Mestre Maurras, entendia a Nação como “Mãe e Filha dos nossos destinos”. Nascidos numa realidade, herdeiros e usufrutuários de um capital material e moral acumulado por todas as gerações passadas, somos, de certa maneira, “determinados” pela Nação-Mãe que nos deu a vida, o “ser” que somos juntamente com ela. Mas para que a Nação viva e continue, não podemos romper os vínculos que nos unem à geração que nos precedeu e àquela que nos vai suceder. Se dependemos da Nação Portuguesa para sermos, ela depende de nós – da nossa vontade – para ser e para continuar.

Para aqueles que compartam este profundo sentimento nacional, sejam ou não portugueses, Salazar – homem, pensamento e obra – é fonte obrigatória e inspiração, é modelo e exemplo seguro a seguir.

A vergonhosa traição dos genocidas de Abril.






«Aqui, pois, ressaltam mais particularmente os incidentes terroristas no norte e leste de Angola cometidos contra a vida e os bens dos portugueses, tais como: tiros, catanadas, espancamentos, assaltos a fazendas, vandalização e destruição das fontes de riqueza, dispersão e depredação de instalações, saques, emboscadas, assassinatos, barragens nas estradas e entradas furtivas em residências habitadas, roubos de viaturas, sanzalas saqueadas e destruídas, apedrejamentos, mulheres brancas violadas, pessoas alvejadas, rebentamentos fortuitos de granadas e explosões de morteiro, banditismo e toda a espécie inimaginável de actos de barbárie baseados no terror e na intimidação – transportes maltratados, acessos aos centros urbanos cortados, rezes esquartejadas, circuitos de comercialização destruídos, assaltos a operários nas fábricas, disparos sobre condutas de águas, ataques a hospitais, fuga de técnicos e saneamento de elementos válidos da administração pública com vista à destruição total da economia de Angola.
Neste contexto, Rosa Coutinho chegou mesmo a declarar que dera dez milhões de escudos mensais aos movimentos armados de Angola. «Em 1997, o Almirante justificou a mensalidade concedida nos seguintes termos: “Atribuí a cada um dos três movimentos um subsídio mensal de dez mil contos, equivalente a 200 000 contos actuais. Quem mais beneficiou com isso foi o MPLA, pois não tinha nada”»

Alexandra Marques, in Segredos da Descolonização de Angola.

Irangate...o envolvimento de Portugal no caso!!!

 



Mais uma vez a cambada socialista e o seu corrupto e traidor de eleição, o inenarrável Mário Soares!!!

Diz-nos Rui Mateus que recebera, a 23 de Novembro de 1985, «uma estranha chamada telefónica. Era o chefe da estação da CIA [Skidmore] junto da embaixada dos EUA» a dizer «que o governo dos Estados Unidos necessitava da ajuda de Soares para convencer o novo governo a autorizar um avião israelita numa "missão humanitária" a aterrar em Lisboa e transferir a carga para um outro avião. Aparentemente a CIA encontrara dificuldades de contacto com o recém-chegado governo de Cavaco Silva e vinha fazer um apelo à velha amizade com o então candidato presidencial». Ou seja: Bob Skidmore pretendia agora abordar Mário Soares quando, dois meses antes, este último, «preocupado com a aparente falta de apoio dos EUA à sua candidatura», não conseguira, porventura, o intento desejado. Compreende-se, por isso, que a melhor forma do agente da CIA seria, nesse contexto, «acenar com a gratidão americana a troco desta ajuda de emergência», a qual consistiria, como «viria a descobrir» Rui Mateus, no seguinte: o de «que o célebre avião israelita em "missão humanitária" não era mais que um dos carregamentos de mísseis "HAWK" a caminho de Lisboa "onde [segundo Oliver North, in Under Fire] deveriam ser transferidos para outro avião" que deveria seguir para o Irão, no quadro do "Irangate" que tanta tinta faria correr» (pp. 258-259).

«Quando confrontado com jornalistas, Mário Soares "negaria veementemente relatórios de que aeroportos portugueses tivessem sidos utilizados como plataformas de trânsito de armas destinadas ao Irão, como parte do caso “Irão-Contra”. Mais, afirmou Soares, as autoridades portuguesas rejeitaram um pedido das autoridades dos EUA para autorizarem a “ajuda humanitária” que a América estava a enviar ao Irão" [in The Providence Journal Bulletin, de 23 de Maio de 1987]. O que coincide com a descrição de Bob Wooward, pelo menos no que toca ao caso já referido do pedido de 23 de Novembro pelo agente da CIA em Lisboa, Bob Skidmore. Segundo aquele conhecido jornalista e autor, "na noite de 21 de Novembro, North telefonou a Dewey Clarrige [chefe da divisão para a Europa, da CIA] .... em pânico e disse que necessitava de ajuda para obter autorização de Portugal para a aterragem de um avião de Israel numa missão humanitária". Ainda segundo Woodward, aquele alto funcionário contactaria o chefe da estação da CIA em Lisboa no sentido de obter tal autorização que o Governo de Portugal recusaria. O embaixador Frank Shakespeare não deveria ser informado desta "missão". Segundo o mais conhecido operacional deste tráfico, o tenente coronel Oliver North, os israelitas entrariam em contacto com o conselheiro de Segurança Nacional, Bad MacFarlane, em meados de 1985, propondo contactos que poderiam "resultar na libertação dos [seus] reféns em Beirute" [in Under Fire]. Ele próprio só terá entrado nesta "operação", que consistia inicialmente na troca de reféns por mísseis "Hawk" de fabrico norte-americano, em Novembro de 1985. O Governo americano concordaria com a venda de mísseis usados, deste fabrico, existentes em Israel, que os enviava para o Irão e, em troca, recebia mísseis novos dos EUA. Um negócio de centenas de milhões de dólares, que exigia a concordância das autoridades norte-americanas, um estranho intermediário iraniano, Manucher Ghorbanifar, com contactos com os serviços secretos israelitas e americanos e os intermediários de venda dessas armas, o ex-CIA, general Richard Secord e um ex-adido militar ex-israelita e próspero homem de negócios, Yakov Nimrodi. Quando Macfarlane informa o seu acessor, tenente coronel Oliver North, destas vendas com o apoio do governo norte-americano, pede-lhe "só para servir de monitor destas transacções" [in Under Fire]. Mas a 17 de Novembro de 1985, o então ministro da Defesa de Israel, Yitzhak Rabin, telefonar-lhe-ia pedindo ajuda no sentido de obter autorização do Governo de Portugal para que um avião do seu país, com mísseis "Hawk", pudesse aterrar "num aeroporto europeu onde deveriam ser transferidos para outro avião" [in Under Fire]. Portanto, o recém-empossado governo de Cavaco Silva recusara autorização a esta operação e assim se explica o desesperado telefonema do homem da CIA em Lisboa, na manhã de 23 de Novembro, querendo falar com Mário Soares e fazendo promessas de que esse apoio seria bem visto em Washington. A componente portuguesa desta história poderia acabar aqui, não fosse o livro de memórias de George Schultz, então secretário de Estado dos Estados Unidos. Schultz pressentira que existia uma diversão deste esquema secreto [referente ao escândalo «Irão-Contra» (1986), transformado entretanto "num chorudo negócio para alguns e numa fonte de financiamento dos movimentos 'contra' da Nicarágua"] que tinha autorização do presidente e, como tal, numa reunião no "Situation Room" [o gabinete de crise] da Casa Branca, recusar-se-ia a dar cobertura a um comunicado de imprensa, que o presidente dos EUA pretenderia divulgar. Segundo este, pretendia-se fazer crer que a actuação de Oliver North tinha sido a de mero observador da venda de armas israelitas ao Irão por razões humanitárias, tendo "encontrado, por acaso, um depósito de armas israelitas em Portugal". O ex-secretário de Estado negar-se-ia a colaborar e teria então dito ao presidente que "estão a distorcer a verdade e não acabam as mentiras. Estão-me a mentir neste momento a mim e aos outros membros do Governo" sendo certo que "Bud Macfarlane estava já a trabalhar neste projecto em Maio de 1985"»
[in George Schultz in Turmoil & Triumph, MacMillan Publishing Co., Nova Iorque, 1993].

domingo, 19 de abril de 2026

A CIA e o Portugal de Abril.




Por muito que custe a muito boa gente, o 25 de Abril não passou de um golpe de estado patrocinado por interesses exteriores e hostis a Portugal e aos portugueses. Portugal não passou nem passa de mais um território cobiçado, saqueado e vilipendiado pelas grandes potências mundiais, claro que nunca no interesse da nação portuguesa, está à vista de todos e só não vê ou viu quem não quis ou foi conivente com aqueles que nos prejudicaram e traíram.

Muito há ainda para dizer, a informação, a documentação estão visíveis e de consulta fácil ao comum cidadão, mas, a falta de curiosidade, o enviesamento mental e a formatação efectuada pelos meios ao serviço do regime que tudo têm feito para manter a população ignorante e desinformada, há que manter a narrativa politicamente correcta que vai sustentando este regime anti-português, corrupto e vendido aos interesses internacionais.

Dúvidas houvesse, estão mais do que desfeitas.

Leiam os textos das imagens infra.

Alexandre Sarmento


 












A Verdade Proibida: O Bem que Salazar Fez a Angola

 





A Verdade Proibida: O Bem que Salazar Fez a Angola

Frente à crise que, em 1961, ameaçava desagregar o Mundo Português construído ao longo de mais de meio milénio, o Presidente do Conselho, Professor Oliveira Salazar, não hesitou. Perante massacres selvagens, manipulações internacionais e a cobiça de potências estrangeiras que queriam a todo o custo destruir o que Portugal edificara, Salazar tomou a única decisão possível: defender Angola. Defender aquilo que era português por direito histórico, por construção civilizadora e por séculos de trabalho árduo de várias gerações de portugueses.

Convém recordar, embora muitos prefiram convenientemente esquecer, que Angola, tal como todas as Províncias Ultramarinas, não existia antes de Portugal lá chegar. Não havia Estado, não havia fronteiras, não havia cidades, não havia estruturas. Não foi “invadida”; foi desbravada, organizada, civilizada por portugueses de coragem, visão e grandeza. Por isso Portugal justamente a reclamava como parte integrante do seu mundo: porque Angola foi construída por Portugal, e não por aqueles que em 1975, num acto criminoso e oportunista, se apoderaram violentamente de uma terra que não desenvolveram e da qual nada sabiam administrar.

E foi nesse contexto que Salazar, o homem que a propaganda barata de há 50 anos insiste, falsamente e sem vergonha, em chamar “fascista” e “ditador”, enviou tropas para Angola. Não por ambição, não por crueldade, mas porque civis inocentes estavam a ser massacrados por grupos terroristas negros, armados e financiados por interesses estrangeiros. Massangano e Nambuangongo não foram “revoltas”: foram massacres brutais, com assassinatos à machadada, mutilações grotescas, execuções sumárias de homens, mulheres e crianças. Uma barbárie indescritível, cuja violência ainda hoje envergonha qualquer pessoa de bem.

É exactamente aqui que se revela o carácter de Salazar: um homem firme, moralmente formado no Cristianismo, de profundo sentido humanista e com uma visão extraordinária da missão histórica de Portugal. Ditador? Fascista? Apenas na cabeça dos ignorantes e mal-intencionados. Se o fosse, não teria mandado prender Francisco Rolão Preto, líder do movimento fascista português; nem teria mantido distância crítica de Mussolini; nem teria rejeitado sempre qualquer forma de totalitarismo. Salazar era um estadista, dos maiores do século XX, e acreditava naquilo que hoje chamariam “democracia cristã”, ainda que desconfiando da corrupção dos partidos.

Foi este homem, de inteligência raríssima, trabalhador incansável e com uma nobreza de carácter que poucos compreendem, que em 1961 correu em defesa de Angola. Não o fez por capricho, mas por profunda convicção no imperativo da história e na justiça da causa portuguesa. Angola era parte viva de Portugal, possuía já elevada autonomia administrativa, e era defendida por soldados de todas as raças, aliás, no Exército Português havia mais angolanos negros a combater contra os terroristas do que entre os próprios “movimentos de libertação”. Essa realidade é incómoda, por isso é silenciada.

Graças à acção do Estado Novo, Angola viveu, entre 1961 e 1974, um desenvolvimento material e económico absolutamente espantoso. Um verdadeiro fenómeno africano. Escolas primárias, liceus, escolas técnicas, missões de ensino estruturadas com padrões europeus; hospitais, bairros modernos, serviços de alto nível; portos capazes de receber navios gigantes; estradas que cruzavam o território de norte a sul, de leste a oeste; linhas férreas eficientes; produção agrícola de primeira linha, Angola tornou-se um dos maiores produtores mundiais de café e algodão, uma potência emergente que o mundo admirava.

E tudo isto foi possível porque portugueses, angolanos, brancos, pretos e mulatos trabalhavam lado a lado, em comunhão de objectivos. Era uma sociedade com uma prosperidade real, palpável, que nada tinha a ver com o desastre absoluto que os incompetentes sanguinários do MPLA instaurariam após 1975.

Quer gostem, quer não, Salazar foi um dos maiores responsáveis pelo desenvolvimento de Angola até 1975, mesmo tendo falecido em 1970. Foi graças à sua decisão firme de 1961, à sua capacidade de governo e à sua visão do Mundo Português que Angola pôde continuar a crescer e a prosperar. Deixou aos seus inimigos, terroristas, comunistas e oportunistas, um território altamente desenvolvido, organizado e promissor. O que eles fizeram depois dispensa comentários: destruíram quase tudo.

Os angolanos de hoje, muitos deles alimentados por propaganda anti-portuguesa, não fazem a menor ideia do bem colossal que Salazar fez àquela terra africana. Ironia suprema: se Angola, à data da sua independência em 1975, nasceu como um país moderno, foi por causa daquele estadista que tantos gostam de humilhar, mas que, perante a verdade histórica, continua a erguer-se gigante.

E assim ficou a memória daquele homem que muitos caluniam mas que, na hora decisiva, ergueu sozinho a bandeira do Mundo Português para defender Angola. Ficaram as estradas, os portos, as escolas, as cidades que ele impulsionou e que ainda hoje murmuram, silenciosas, o nome de quem acreditou nelas antes de todos. Ficou também o vazio deixado pelos que destruíram o que não construíram. Mas a verdade permanece: quando Angola mais precisava, foi Salazar quem lhe deu o futuro. E mesmo que tentem apagar essa verdade, ela continuará inscrita na própria terra, como cicatriz e como testemunho de um tempo em que Portugal ainda sabia ser grande.

Aproveitamos para agradecer o envio deste texto absolutamente pertinente a @Ecos de Angola.

A Tropa Secreta da PIDE - Os Flechas

 



OS "FLECHAS" O EXÉRCITO DA PIDE/DGS EM ANGOLA - DECLARAÇÕES ESCALDANTE
PARA RECORDAR
OS "FLECHAS" O EXÉRCITO DA PIDE/DGS EM ANGOLA - AS DECLARAÇÕES ESCALDANTES DO INSPECTOR DA PIDE ÓSCAR CARDOSO SOBRE OS FLECHAS / JOÃO SOARES / MÁRIO SOARES / UNITA / MPLA
Durante a guerra de Angola, a PIDE/DGS criou um grupo paramilitar de bosquímanos, um povo africano.
Em 1967, seis anos depois do início da guerra em Angola, a PIDE/DGS começou a recrutar novos membros entre algumas etnias africanas com o objectivo de integra-los num novo grupo paramilitar autóctone, criado nesse ano pelo inspector Óscar Cardoso, que tinha então sido transferido para Angola. Esse grupo ficaria conhecido como os “Flechas”.
O emprego de grupos autóctones em acções de combate contra insurgentes independentistas não era uma novidade. Porém, ao contrário de grupos semelhantes criados por ingleses, franceses ou sul-africanos, os “Flechas” actuavam na dependência directa dos serviços secretos da PIDE/DGS. Com a sua criação em 1967 procurou-se, acima de tudo, melhorar a capacidade de recolha de informações estratégicas, operacionais e tácticas, tentando desenvolver acções encobertas e clandestinas de combate aos grupos insurgentes, que ganhavam cada vez mais terreno em Angola.
Os “Flechas” eram constituídos principalmente por bosquímanos, um povo que habitava a parte sul de África há vários séculos e que se dedicava à caça e à recolecção. Foi o próprio Óscar Cardoso que lhes escolheu o nome, por utilizarem arcos e flechas envenenadas para caçarem. A grande vantagem de formar um grupo de bosquímanos estava no seu conhecimento do território africano — conseguiam permanecer vários dias destacados em território hostil, alimentando-se do que a natureza lhes dava, perseguindo pistas e seguindo o rasto de insurgentes.
Uma vez encontrados os acampamentos dos independentistas, bastava conduzirem acções de vigília
para obterem mais informações e esperarem para fazer uma emboscada. A ordem era que
capturassem os opositores e os levassem para serem interrogados. Porém, isso raramente acontecia
— na maioria das vezes, os “Flechas” acabavam por matar os insurgentes durante os confrontos.
As informações recolhidas no acampamento eram depois entregues a elementos da PIDE/DGS para serem analisadas.
Os Flechas
Os Flechas foram forças de operações especiais dependentes da Polícia Internacional de Defesa do
Estado (PIDE) , criadas, inicialmente em Angola, para actuar na Guerra do Ultramar.
História
Durante a Guerra do Ultramar, a PIDE (a partir de 1969, chamada Direcção-Geral de Segurança (DGS) era
responsável pelas operações de recolha de informações estratégicas, investigação e acções clandestinas contra os movimentos guerrilheiros, em apoio das Forças Armadas e de Segurança. Como tal foi decido criar uma força especial armada para auxílio e protecção dos agentes da PIDE nas operações contra os guerrilheiros.
Os membros dos Flechas eram recrutados entre determinados grupos nativos, nomeadamente ex-guerrilheiros e membros da etnia bosquímana (khoisan). Os bosquímanos que historicamente tinham sido invadidos pelos povos bantu não tinham qualquer problema a aliar-se aos portugueses, dado que viam nos movimentos de libertação o bantu invasor do seu território. Estes eram especialmente escolhidos pelas seus conhecimentos do inimigo, conhecimento do terreno, conhecimento das populações locais, etc. Esses membros nativos eram enquadrados
por oficiais do Exército Português e por agentes da PIDE e recebiam treino de forças especiais.
Com o decorrer da Guerra do Ultramar os Flechas revelaram-se uma das melhores forças anti-guerrilha ao serviço de Portugal, indo progressivamente alargando o seu tipo de actuação. Se no início eram basicamente usados como guias e pisteiros dos agentes da PIDE, passaram posteriormente também a ser usados como forças de assalto em operações especiais. Pelo reconhecimento do seu elevado nível de eficácia, as próprias Forças Armadas
passaram a solicitar frequentemente à PIDE o auxílio dos Flechas nas suas operações.
Algumas das operações frequentemente realizadas eram as chamadas Pseudo-Terroristas, em que os Flechas, muitos deles ex-guerrilheiros, se disfarçavam de guerrilheiros inimigos, para atacarem alvos com características tais que não podiam ser abertamente atacados por forças identificadas como portuguesas (ex.: alvos em território estrangeiro, missões religiosas que auxiliavam terroristas, bases terroristas de difícil aproximação, etc.).
Os Flechas actuaram sobretudo em Angola. Na década de 1970 começaram a ser organizados Flechas também em Moçambique mas que não chegaram a ter uma importância tão elevada.
Organização e Equipamento
Foram inicialmente organizados pelo Sub-Inspector Óscar Aníbal Piçarra de Castro Cardoso no período que passou nas “terras do fim do mundo”- o Kuando-Kubango. Os Flechas estavam organizados em Grupos de Combate de cerca de 30 homens. Estavam equipados com o equipamento em uso no Exército Português, mas também utilizavam muito armamento capturado aos guerrilheiros, nomeadamente nas Operações Pseudo-Terroristas.
O seu item de fardamento mais conhecido era a Boina Camuflada que se tornou um dos seus
símbolos.
Portugal deixou a PIDE colaborar com apartheid - Óscar Cardoso
Óscar Cardoso foi inspector-adjunto da PIDE/DGS. Era o número dois da organização em Angola. Nas savanas do Cuando Cubango fundou os Flechas “para travarem a UNITA que queria fazer a guerrilha na região”. O sucessodestas forças levou a multiplicar os grupos em todos os teatros de operações.
Em 1976, Óscar Cardoso foi para a Rodésia de Ian Smith onde criou forças especiais para enfrentar os guerrilheiros da ZANU, comandados por Robert Mugabe. Um ano depois foi para a África do Sul organizar as forças de Savimbi na guerra contra Angola. Pela primeira vez, depois da “Revolução dos Cravos” em Portugal e a extinção formal da polícia política portuguesa, um alto responsável da PIDE fala do percurso de Savimbi ao serviço de Portugal e do apartheid.
Jornal de Angola - Foi para Angola como militar ou já ao serviço da PIDE?
Óscar Cardoso - Eu era um homem de confiança do regime e a PIDE soube que o director da polícia em Angola, São José Lopes, estava metido numa conspiração com a Rodésia e a África do Sul para proclamarem a independência do território. Com São José Lopes estavam pessoas com grande poder económico na província.
Era preciso travar aquilo. Fui para Luanda com essa missão. Nessa altura já era inspector.
JA - Conseguiu travar essa conspiração?
OC - A minha missão era secreta, mas São José Lopes soube tudo ainda eu não tinha desembarcado em Luanda. Por isso, quando cheguei, mandou-me para o Cuando Cubango alegando que havia movimentos subversivos na região que era preciso travar. Quis ver-se livre de mim, rapidamente. Na verdade as forças do MPLA usavam o norte do Cuando Cubango para se infiltrarem no planalto central e o Savimbi queria fazer a guerrilha naquela zona.
Eu estudei antropologia na Escola Colonial e interessei-me pelos khoisan, os chamados bosquímanos. Conheci-os ao vivo. Quanto à conspiração, eles pararam na altura mas nunca abandonaram o projecto. Logo a seguir ao 25 de Abril, retomaram-no.
JA - O que concluiu com os seus estudos?
OC - Os bosquímanos foram empurrados para os locais mais inóspitos e por isso odiavam todos os que não eram da tribo. Verifiquei que eram pisteiros espantosos. Liam os rastos como nós lemos um livro. Sabiam se as pegadas eram de homem ou mulher, se iam carregados ou não. Um dia até me disseram que a pista era de uma mulher grávida. O administrador Amaral Pontes tinha uma grande paixão pelos bosquímanos. Chamavam-lhe Tata Kun.
Um dia decidimos fazer deles uma força contra os grupos da UNITA que queriam implantar-se no Cuando Cubango.
Como as suas armas eram os arcos e flechas, pus-lhes o nome de “Flechas”.
JA - Como conseguiam enfrentar forças armadas só com arcos e flechas?
OC - As flechas eram armas terríveis. Eles conhecem um tubérculo altamente venenoso que fica uns dias em infusão. Depois embebem as pontas das flechas naquele líquido e quando acertam nas presas, elas ficam paralisadas. Nem os elefantes resistem ao veneno. Os Flechas arrasaram os homens da UNITA porque eles tinham medo da noite. Os bosquímanos conhecem a noite tão bem como o dia e atacavam o inimigo quando estava a dormir. Seguiam o lema do general chinês Sun Tse Wu, que existiu há mais de 3500 anos: sejam mais rápidos que o vento e tão misteriosos como a mata. Sejam destruidores como o fogo e silenciosos como as montanhas. Sejam impenetráveis como a noite e furiosos como o trovão.
JA - Os Flechas no Leste também eram bosquímanos?
OC – Não. Dado o êxito dos Flechas no Cuando Cubango, decidimos criar unidades em todos os postos situados no teatro de guerra. Em Gago Coutinho (Lumbala Ngimbo) foram recrutados os antigos guerrilheiros que se entregaram ou foram feitos prisioneiros. Depois também recebemos um grande reforço dos guerrilheiros da UNITA comandados pelo major Sachilombo, formado na academia militar de Nankin e que na época era o número dois da UNITA.
JA - A UNITA foi criada pela PIDE?
OC - Não, a UNITA foi criada pelo Savimbi e mais alguns companheiros, que receberam treino político e militar na China. Nós conhecíamos o perfil de todos e quando se instalaram na Frente Leste fomos estabelecendo contactos. Eles estavam a ser muito úteis porque combatiam as forças do MPLA. Mas depois infiltraram-se na zona do Munhango e começaram a incomodar a actividade dos madeireiros. Nessa altura fizemos o que qualquer força de inteligência militar faz: estabelecemos contactos com Savimbi e os seus oficiais.
JA - Está a falar da “Operação Madeira”?
OC- Exactamente. O pessoal da PIDE e do comando da Frente Militar Leste começou a estabelecer contactos com Savimbi e os seus oficiais. Conseguimos resolver o problema dos madeireiros. Logo nos primeiros contactos verificámos que o Savimbi tinha muito gosto em trabalhar connosco. O general Bettencourt Rodrigues, um militar extraordinário, deu luz verde e a UNITA passou a combater ao lado das tropas portuguesas.
JA - Quem fez os contactos com a UNITA no Munhango?
OC - Alguns nomes são públicos, mas eu não vou repeti-los. Por uma questão de ética só dou eu a cara. E refiro o senhor general Bettencourt Rodrigues porque ele nunca escondeu o seu papel na Operação Madeira. O Savimbi estava cheio de vontade para combater as forças do MPLA e nós fizemos-lhe a vontade.
JA - Savimbi fez alguma exigência para lutar ao lado das tropas portuguesas e dos Flechas da PIDE?
OC - Fizemos um acordo, ele combatia os guerrilheiros do MPLA e nós dávamos em troca armas, apoio logístico e médico. O Savimbi esteve várias vezes internado no Hospital do Luso (Luena). Ele tinha problemas de saúde que se agravaram mais tarde. Recebeu tratamento várias vezes num hospital da África do Sul que tinha uma área secreta, destinada exclusivamente ao pessoal da UNITA.
JA - Depois da “Operação Madeira” a UNITA fez operações contra a tropa portuguesa?
OC - Fez algumas, para limpar a imagem. Quando se soube que Savimbi estava do nosso lado, perdeu prestígio em África. E ele queria mostrar que eram mentiras para o prejudicar. Fez uma operação que quase me custou a vida. Mas Deus salvou-me.
JA - Não me diga que Deus estava ao lado da PIDE?
OC - Pensem o que quiserem, mas eu fui salvo por Deus. Quando os comandantes Sachilombo e Pedro foram para Gago Coutinho, algum tempo depois começaram a circular notícias que davam a UNITA como uma organização ao serviço da PIDE. Então o Savimbi, que era muito traiçoeiro, resolveu fazer uma operação para limpar a imagem negativa. Armou-me uma cilada. Queria matar-me, matar um coronel da Força Aérea da África do Sul e o major Sachilombo.
JA - O que aconteceu?
OC – O Savimbi mandou dizer que queria mandar um grupo grande de guerrilheiros para nos ajudar na III e na IV Região do MPLA. Disse que o comandante Nzau Puna ia comandar esses grupos. Montámos a Operação Viragem e tratámos de todos os pormenores. O ponto de encontro era perto de Cangamba. Nós mandámos Flechas por terra em direcção ao local. Eu e o major Sachilombo fomos num helicóptero sul-africano, pilotado por um coronel.
Aterrámos a cinco quilómetros do objectivo, num pequeno planalto, como estava previamente combinado. Veio ao nosso encontro um homem andrajoso, mas com as mãos e as unhas bem tratadas. Fiquei desconfiado com isso.
JA - Retiraram da zona?
OC - Desconfiei e manifestei as minhas desconfianças ao major Sachilombo. Mas decidimos acompanhar aquela figura estranha. Dois quilómetros à frente, encontrámos os nossos Flechas. Estavam todos sem armas. Disseram que os oficiais da UNITA lhes pediram para guardarem as armas porque estávamos numa operação de amizade e não fazia sentido andarem armados. Fiquei ainda mais desconfiado. O guia indicou-nos um morro a cerca de dez quilómetros. Era lá que estavam os homens da UNITA e o Savimbi. Nesse momento o major Sachilonmbo chamou-me à parte e disse para sairmos imediatamente dali. Dissemos aos homens para se dispersarem e esperarem a
chegada do helicóptero.






JA - Como escaparam?
OC - Partimos apressadamente para o helicóptero e quando levantámos voo pedi ao piloto para sobrevoar o morro onde estava Savimbi e os seus homens. Mas o piloto disse que tinha pouco combustível e era melhor regressar a Cangamba para abastecer. Chegámos a uma hora que já não dava para regressar. No dia seguinte, ao nascer do sol, partimos para o local. Estava tudo limpo, mas sobre o morro caía uma chuva torrencial. Não se via nada. Demos algumas voltas até que o nosso radio telegrafista em terra nos disse que quase todos os Flechas tinham sido mortos
pela UNITA. Disse-lhe para desligar o rádio e esconder-se. Montámos uma operação de resgate. Os Flechas em terra tinham sido esquartejados. Foi horrível. Se não fosse aquela chuva hoje não estava aqui.
JA - Acabaram aí as relações com a UNITA?
OC - Continuaram, mas quisemos saber o que tinha acontecido. Os seus homens disseram que o Savimbi decidiu montar a Operação Baile para limpar a imagem da UNITA. Queria apresentar a minha cabeça, as do major Sachilombo e do coronel sul-africano. Além disso ficava com o helicóptero como troféu. Assim provava que nada tinha a ver com a PIDE e ainda acusava os portugueses de estarem aliados à África do Sul. Dizer ao mundo que tinha morto em
combate o fundador dos Flechas era um grande trunfo. E fazia o papel de justiceiro em relação ao major Sachilombo.
JA - Essa foi a única operação contra as forças portuguesas?
OC - Ainda fizeram mais uma ou duas operações contra as forças armadas portuguesas, sempre para mostrar que a UNITA lutava contra nós. Eu alertei para este comportamento, mas nada pude fazer quando, depois do 25 de Abril, a inteligência apresentou Savimbi como o “muata da paz” e a UNITA como o “movimento dos brancos”.
JA - Ninguém o quis ouvir?
OC - Não, eu estava de licença graciosa em Portugal e apanhei lá os acontecimentos do 25 de Abril. Perdi os contactos e não pude agir. Aquela ideia de fazer do Savimbi o grande dirigente angolano da paz foi um erro trágico. Perderam os angolanos e os portugueses. Depois fui preso no Forte de Peniche. Estive lá dos dois lados. Comandei o forte e depois fui prisioneiro. Mas nunca ninguém me tocou com um dedo. Só quiseram destruir-me psicologicamente.
Resisti.
JA - O senhor era considerado da linha dura da PIDE.
OC – O que é isso da linha dura? Nunca torturei ninguém. Nunca toquei com um dedo num preso. Havia um dirigente estudantil que andava a fazer asneiras. Foi preso. Quando o interroguei percebi que ele não valia nada. Telefonei à mãe para ir buscá-lo à sede da PIDE. No dia seguinte todos os estudantes souberam o que aconteceu e ele perdeu o prestígio. Depois do 25 de Abril reapareceu e hoje é um grande político. Mas confesso que, por vezes, era preciso dar uns calores.
JA – A PIDE tinha infiltrados nos movimentos de libertação.
OC – Sim, nós tínhamos e eles também tinham pessoas infiltradas nos nossos serviços.
JA - Depois do 25 de Abril foi julgado em Tribunal Militar?
OC - Fui julgado e na minha folha de serviços constavam relevantes serviços prestados à pátria, no Exército, na GNR e na PIDE/DGS. Apanhei dois meses de prisão por não me ter apresentado semanalmente no posto da GNR, como tinha sido determinado pelo Tribunal civil. Nos meses que se seguiram ao 25 de Abril soube que a UNITA tinha torturado e assassinado o Soba Matias no Cuando Cubango. Fiquei em choque. Ele era um valioso combatente ao serviço de Portugal.
JA - Quem era o Soba Matias?
OC - Um grande homem. Um dia foi ter comigo ao posto da PIDE em Serpa Pinto (Menongue) e disse que andavam homens da UNITA a fazer mal ao povo. Pediu-me oito armas para ir apanhá-los. Confiei nele e entreguei-lhe as armas.
Apanhou os guerrilheiros da UNITA. Desde então, foi um combatente extraordinário. Depois do 25 de Abril os homens da UNITA foram à sua aldeia e mandaram-no arriar a bandeira portuguesa. Ele recusou. Torturaram-no até à morte e esquartejaram-no para servir de exemplo ao povo. Foi terrível.
JA - Mesmo sabendo disso, foi trabalhar com Savimbi na África do Sul?
OC - Eu tive de fugir de Portugal. Passei 730 dias preso em Peniche e quando saí em liberdade condicional, participei em algumas operações do ELP e do MDLP. Fui denunciado e os revolucionários queriam prender-me outra vez.
Quando o autocarro se atrasa 15 minutos ficamos logo nervosos. Eu passei 730 dias da minha vida no Forte de Peniche. Não queria ficar preso nem mais um minuto. Contactei os meus amigos da Rodésia e fui para lá. Saí de Portugal clandestinamente e em Madrid os meus amigos do MDLP arranjaram-me um passaporte. Eles tinham muitos passaportes, em branco. Tive que arranjar um nome falso.
JA - Como passou a chamar-se?
OC - Rogério Ramon Pinto de Castro. Cada nome destes correspondia ao meu pseudónimo nas organizações a que pertencia: Exército de Libertação de Portugal (ELP), Movimento Democrático de Libertação de Portugal (MDLP), Frente de Libertação dos Açores (FLA) e Frente de Libertação da Madeira (FLAMA). Preenchemos o passaporte e um amigo fez um carimbo com uma batata para parecer verdadeiro. Assim embarquei para Salisbúria (actual Harare, capital do Zimbabwe).
JA - Em Portugal participou nos atentados do MDLP e do ELP?
OC - Ajudei a fazer atentados. Mas só atacámos as sedes do Partido Comunista. Ainda tentámos salvar Portugal, mas quando precisámos de um presidente, o general Spínola fugiu para o Brasil. Percebi logo que aquilo não ia dar nada.
JA - António Spínola não era o vosso chefe?
OC - Nunca foi. O ELP foi fundado pelo coronel Santos e Castro. O MDLP foi criado pelo comandante Alpoim Calvão.
A FLAMA tinha pouco peso e a FLA não ia a lado nenhum. A CIA pediu-me para ir aos Açores ver se havia possibilidades da independência do arquipélago. Mas isso só era possível se derrotássemos os comunistas.
Moscovo estava por trás do 25 de Abril. Eles queriam Portugal na órbita comunista por causa das colónias. Mas percebi logo que não íamos a lado nenhum. Então decidi oferecer os meus préstimos à Rodésia.
JA - Trabalhou com a CIA?
OC - Sim, trabalhei mas só depois do 25 de Abril. Fui aos Açores ver se havia possibilidade de declarar a independênciado arquipélago. Os meus contactos foram muito importantes, mais tarde. O meu amigo Daniel Chipenda foi abandonado pelos americanos depois da independência de Angola e eu meti-o na CIA.
JA - Antes de irmos à Rodésia: qual foi o papel de Mário Soares no Verão Quente?
OC - Serviu-se de nós. Ele queria poder a todo o custo. Apoiou os operacionais do ELP e do MDLP, trabalhou com a CIA, fez tudo o que Carlucci lhe mandou fazer. Quando conseguiu o que queria, abandonou os amigos. É muito parecido com o Savimbi. Por isso, sou capaz de me sentar à mesa com todos, menos com os socialistas.
JA - Qual foi o seu papel na Rodésia de Ian Smith?
OC - Organizei as forças especiais, para enfrentarem os guerrilheiros da ZANU. Eu ganhei muita experiência em Angola e acabei por criar “Flechas” na Rodésia. Um ano depois, fui-me embora. Eles tratavam-me como se fosse um criado.
Nunca fui tão maltratado. Meti-me num avião e aterrei em Joanesburgo. Viram o apelido Castro no meu passaporte, o meu rosto barbudo e disseram que era um espião cubano. Pedi um rand para telefonar ao brigadeiro Ben Roos.
Recusaram. Ofereci dez dólares rodesianos por um rand. Nada. Depois veio um oficial, ouviu a minha história e deu-me um rand para telefonar. Falei com o brigadeiro e ele mandou logo os seus homens tirar-me do aeroporto.
JA - Foi assim que ficou a trabalhar com os sul -africanos?
OC - A minha ideia era essa. Ben Roos disse-me que a África do Sul estava a preparar a batalha final contra Angola e que iam ganhar. Convidou-me para ser o oficial superior de ligação com os homens da UNITA e do Batalhão Búfalo. Aceitei. Mas alertei imediatamente o brigadeiro para a personalidade do Savimbi. Ele já sabia tudo . Foi assim que fui parar a Oshakati, onde montei o comando. E comecei a trabalhar com o pessoal da UNITA.
JA - Quem era o seu contacto?
OC - Era o senhor Isaías Samakuva, um homem muito apagado e extremamente limitado. Tinha pouco rasgo. Não é fácil trabalhar com pessoas que não percebem nada do que lhe dizemos. Expliquei-lhe que a África do Sul queria que a UNITA servisse de tampão aos avanços da SWAPO. Mas o Savimbi tinha-lhe dito que a UNITA estava a lutar contra os cubanos e os russos e ele repetia esse discurso por tudo e por nada. Mas não tomava qualquer decisão. Quando vejo que hoje é líder da UNITA, fico admirado. Ele não serve para liderar seja o que for. Não tem qualidades.
JA - Nesta altura falou com Jonas Savimbi?
OC - Muitas vezes. Mas ele nada tinha a ver com as operações, os sul-africanos não lhe davam confiança para isso.
Em Oshakati e no Rundu só tratávamos de inteligência, de operações militares e de sabotagens. O Savimbi era o político, nada tinha a ver com estas coisas. A base militar principal era na Jamba. Os sul-africanos e os americanos criaram ali aquela estrutura, grande em qualquer parte do mundo. Lá nada faltava. Mas eu estava mais ligado à inteligência e às operações. No início, o objectivo era travar a SWAPO. O Savimbi aceitou as regras, mas cedo mostrou que o seu único pensamento estava no combate ao MPLA para um dia chegar ao poder em Angola. Além de traiçoeiro, ele era de uma ambição sem limites.
JA - Qual era a sua missão?
OC - Fazia tudo. Vezes sem conta fui levar armas e munições à fronteira. Transportei dezenas de feridos. Eles eram retirados de Angola em bicicletas e chegavam à fronteira num estado lastimável. Quase sempre tinham que ser mandados para o Rundu. Quando o Hospital de Ondângua não respondia à gravidade dos feridos, iam para Pretória, para o Hospital Voortekerhoogte. Ali os serviços secretos criaram uma área só para o pessoal da UNITA. Ninguém tinha acesso a essa zona. Médicos, enfermeiros, técnicos e pessoal de apoio eram todos credenciados pelos serviços
secretos.
JA - A UNITA usava armas sul-africanas?
OC - Nem pensar. A África do Sul não podia arriscar tanto. Montámos um esquema perfeito. Comprávamos armas de origem soviética à Hungria e a UNITA dizia que aquele material era apreendido às FAPLA nos combates. Todas as armas eram soviéticas. Entregávamos o material em Omungwelume, no Marco 14. Ali era o centro logístico. No Rundu tínhamos o grande aeroporto onde chegavam os aviões carregados de material. Nesta altura, também estava activo o
Batalhão Búfalo, treinado pelo meu amigo Jan Breytenbach, um grande militar sul-africano. E tínhamos Flechas do Cuando Cubango. Hoje vivem algures na África do Sul, abandonados por todos.
JA - Na Jamba encontrou aqueles políticos portugueses que iam ver Savimbi?
OC - A Jamba era mais para mostrar a organização da UNITA e eu trabalhava como operacional. Ali estavam todos seguros, os aviões da Força Aérea Angolana não tinham capacidade de ir lá bombardear e regressar às suas bases.
Os portugueses iam mais para tratar de negócios. Os diamantes e o marfim fizeram muitos amigos à UNITA.
JA - Sabe o que aconteceu com o avião de João Soares?
OC - Claro que sei. O avião era de um grande amigo meu, Joaquim Silva Augusto, comerciante no Rundu. Ele como piloto não era grande coisa. Carregaram os porões com pontas de marfim e com diamantes. Levantaram voo, mas o Augusto não conseguiu aguentar o aparelho no ar. Foi terrível, ficaram todos em mau estado. Foram transportados para o Hospital Verwoerd, onde a minha mulher era enfermeira. Só sabíamos que o Augusto estava gravemente ferido.
A minha mulher foi imediatamente para o hospital, mas não encontrou o Augusto, estava a fazer exames de Raios X.
Os outros tinham os olhos negros, estavam irreconhecíveis.
JA - Como soube que um dos feridos era João Soares?
OC - A minha mulher soube que os feridos eram todos portugueses. No dia seguinte já encontrou no hospital a mãe e a esposa de João Soares. Ele estava gravemente ferido. O nosso amigo Augusto, também. O tráfico de diamantes e de marfim daquela vez correu mal.
JA - João Soares diz que isso é invenção do Jornal de Angola.
OC - O avião estava cheio de marfim e diamantes. Perguntem ao nosso amigo Augusto, que ele confirma tudo.
A UNITA roubava os diamantes em Angola e matava os elefantes. Depois os amigos iam à Jamba buscar o material.
JA - É verdade que os sul-africanos pediram a Mário Soares apoio à UNITA, em troca de lhe salvarem o filho?
OC - Desconheço. O Mário Soares não foi à África do Sul ver o filho ao hospital. Maria Barroso esteve lá muitos dias.
A esposa de João Soares também. É uma situação interessante. Eu trabalhava com os sul-africanos na ligação com a
UNITA. E Mário Soares apoiava a UNITA em Portugal. Estávamos unidos no mesmo objectivo. Mas para mim, esse homem foi o que de pior aconteceu à minha querida pátria.
JA - Pertencia às Forças Armadas Sul-Africanas?
OC - Trabalhei sempre com a inteligência militar. E sou coronel na reforma da Força Aérea da África do Sul. Fui condecorado. Quando chegou a altura de ir para casa perguntaram-me se queria uma pensão mensal ou se queria receber tudo de uma vez. Preferi o dinheiro todo. Deram-me 100.000 euros. Fui muito bem tratado na África do Sul.
Participei nas negociações que conduziram à retirada das nossas tropas de Angola.
JA - Como oficial das forças sul-africanas?
OC - Sim, nessa condição. Era perito em inteligência militar. Reuní-me com os oficiais angolanos e tratámo-nos todos com respeito. Do lado angolano estava gente com muito valor. Retirámos as nossas forças para além do paralelo determinado. Mas a guerra através da UNITA continuou até à Batalha do Cuito Cuanavale. Foi a batalha final. Os angolanos saíram vitoriosos. Tenho de reconhecer que foram heróicos, bateram-se pela pátria deles, como ninguém.
São os vencedores.
JA - Tem alguma pensão do Estado Português?
OC - Tenho uma pensão, porque servi Portugal no Exército, na GNR e na PIDE/DGS. Fui condecorado e louvado. Mas agora andam a cortar-me a pensão. Estou muito triste com o presente de Portugal e apreensivo quanto ao futuro. Há demasiada corrupção. Deve ser o país mais corrupto do mundo. Depois as manobras do super capitalismo estão a lançar as pessoas na pobreza.
JA - Como vê as relações com Angola?
OC - Também estou apreensivo. A maneira como tratam Angola é revoltante. Há situações de autêntica irresponsabilidade. Mas Angola e Portugal estão condenados a ter boas relações. Espero que todos os problemas sejam ultrapassados. A presença da China em Angola também me preocupa. Se eles não tivessem ambições expansionistas, não tinham um exército tão grande. Aqueles milhões de homens em armas não são apenas para as paradas.

O Caso dos Ballets Roses

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