quarta-feira, 30 de setembro de 2020

Entrevista a Orlando Vitorino

O Homem português é, actualmente, uma ilha de pensamento rodeada de socialismo por todos os lados, existindo a possibilidade, não remota, da Pátria se afundar no mar poluído do Marxismo, diluída em qualquer organização ou império.
entrevista de Victor Mendanha publicada no Correio da manhã a 4.12.86 e 6.12.86.





Acção política não coincide com pensamento


CM – Existe, na verdade, um pensamento político português?

O.V. – Não pode deixar de existir um pensamento político português, pois não pode existir Pátria ou Nação sem haver um pensamento. Pode existir uma Nação sem pensamento mas depressa se evanesce se não possuir um pensamento próprio.

O que acontece, em Portugal, é que o pensamento político português encontra-se dissociado do pensamento que preside à actual acção política.

Houve um período, desde o início da Nacionalidade até à época final dos Descobrimentos, em que o pensamento português coincidiu com a acção política.

A principal expressão dessa coincidência encontra-se no Rei D. Duarte, com o seu «Leal Conselheiro», um livro admirável, uma obra que os portugueses têm sido obrigados, propositadamente, a não conhecer. Basta dizer que o «Leal Conselheiro» só foi editado no século XIX.

No entanto trata-se do livro criador daquela aristocracia que deu origem à governação de Portugal conducente aos Descobrimentos.

CM – Já existiam, nesse tempo, forças contrárias ao Pensamento português?

O.V. – Sem dúvida. O próprio D. Duarte foi incitado pelo irmão, o famoso Infante D. Pedro, a impedir o Infante D. Henrique de prosseguir os trabalhos e os estudos necessários às descobertas.

O Infante D. Pedro é uma espécie de representante da CEE no século XIV. Ele escreveu a célebre carta de Bruges, na qual aconselhava D. Duarte a contrariar a obra de D. Henrique, andando pela Europa e procurando integrar Portugal nesse espaço geográfico, político e filosófico, impedindo a expansão marítima.

CM – Tivemos outros «delegados» da CEE nesses tempos?

O.V. – Damião de Góis é outro desses inimigos do pensamento nacional. Viveu a maior parte da sua vida nesses países que são, hoje, a Comunidade Económica Europeia e veio para Portugal com a finalidade de escrever umas crónicas e outros textos, nos quais representa uma posição contrária à do pensamento português que tinha feito Portugal.

Opõe-se, por exemplo, a João de Barros, contemporâneo seu, que dirigia os Descobrimentos na altura, como feitor da Casa da Índia. João de Barros possuía um conhecimento não só teórico como directo do que seria a essência de Portugal, e sobre isso escreveu as famosas «Décadas da Ásia», as que restam de uma obra que teria projectado, ou até teria escrito, incluindo as «Décadas da Europa», as «Décadas da África» e as «Décadas de Santa Cruz».

Escreveu, igualmente, livros de filosofia, um deles com o título «Tratado das Causas», o que significa ter sido um livro sobre o que há de mais essencial na filosofia. Estes tratados também desapareceram, sem deixar rasto, pois quem venceu o conflito foram os partidários do pensamento não português.

Sempre tivemos delegados da CEE


CM – Essa linha de ataque contra o Pensamento português, desde o Infante D. Pedro a Damião de Góis, teve continuação?

O.V. – Não só teve continuação como se desenvolveu, através de toda a decadência de Portugal iniciada no século XVI, quer com os «estrangeirados» do século XVIII, quer com o seu último representante, o António Sérgio, passando por homens como Oliveira Martins, Luís António Verney, etc.

Todos eles tiveram e emitiram uma má opinião de Portugal.

CM – Podemos considerar a época governativa do Marquês de Pombal como um período de grande avanço do pensamento antiportuguês?

O.V. – Está provado que o Marquês de Pombal promoveu, até, uma separação institucional entre o pensamento político da acção exercida e o pensamento político português.

Isto verificou-se, por exemplo, na sua reforma da Universidade, que ainda hoje vigora, pois a nossa Universidade continua sendo pombalina... Foi uma Universidade feita sob o signo da abolição da filosofia substituindo-a, apenas, pelo iluminismo.

CM – Assim, somos obrigados a pensar que 1820 não passa de mais uma ofensiva daquilo a que poderemos chamar pensamento antiportuguês?

O.V. – Foi a realização, em termos de acção política, de algo que já vinha de antes e frutificou sob esse aspecto de chamar liberalismo ao que não era liberalismo mas, apenas, um pensamento francês.

Depois, em 1870, esse liberalismo acaba por ser substituído pelo positivismo como doutrina, digamos, oficial, tendo segregado o pensamento português no ensino, nas instituições e na acção política.

Naturalmente, do positivismo transita-se para o marxismo e, actualmente, caso se possa chamar pensamento ao marxismo – pois trata-se mais de uma ideologia que de um pensamento – é esse marxismo que domina as instituições portuguesas e, sobretudo, domina toda a organização do nosso ensino.

A ingenuidade dos partidos não marxistas

CM – Mas nem todos os partidos, da actual democracia, defendem o marxismo.

O.V. – Três desses partidos dizem-se não marxistas, no entanto o marxismo, até pela mão destes três partidos, é imposto, mantido e desenvolvido em todos os sectores da vida nacional, sobretudo no ensino.

A ingenuidade desses três partidos provém, totalmente, da ignorância em que eles se encontram sobre o que vem a ser a vida do Espírito e do pensamento. Por isso o partido actualmente do Poder, Partido Social-Democrata, está convencido – afirmando-o até com grande satisfação – de que erradicou o marxismo do ensino da História e da Filosofia oficiais.

O ridículo desta situação consiste no facto de julgar ter abolido o marxismo do ensino só por ter mandado cortar, dos compêndios da História, o capítulo sobre esta ideologia. Ora toda a estrutura do ensino, em todos os domínios, tanto na Filosofia como na História, é marxista e cortar esse capítulo até facilita mais a infiltração e a formação marxista das gerações...

CM – Perante tantos e tão grandes ataques, onde poderemos encontrar o pensamento português?

O.V. – Ao lado de toda esta acção política efectiva, comandada por um pensamento político estrangeiro, tem continuado a desenvolver-se o pensamento português. O que existe de patriótico em Portugal está concentrado, ou melhor, refugiado desde há dois ou três séculos no pensamento filosófico.

Esta linha de Filosofia Portuguesa vem, como lhe disse, de D. Duarte e mantém-se hoje. O seu maior desenvolvimento deu-se, até, no presente século, desde a obra de Sampaio Bruno até à obra de Álvaro Ribeiro e José Marinho.

CM – Voltemos à primeira metade deste século. Surge Oliveira Salazar com a sua ditadura antimarxista. Teria Salazar empregue, como orientação, o pensamento político português?

O.V. – Salazar não foi um pensador mas um pragmatista interessado, sobretudo, com os aspectos económicos e financeiros.
Do mais tinha uma concepção moralista que procurou dar ao Governo que exerceu durante quase meio século.

CM – Não teve contactos com filósofos do pensamento português?

O.V. – Houve uma tentativa de aproximação com Leonardo Coimbra, depois do convite feito por António Ferro para o grande pensador português dar uma conferência no Teatro de S. Carlos.

A seguir à conferência António Ferro promoveu o encontro entre Leonardo Coimbra e Oliveira Salazar. Pouco se sabe de quanto foi dito nesse encontro, ao qual assistiram António Ferro e o jornalista Boavida Portugal. O primeiro nada disse, durante toda a sua vida, sobre o diálogo travado mas o segundo confidenciou, a algumas pessoas, ter o encontro começado de forma cordata mas descambado, depressa, numa discussão a chegar quase ao insulto. Tendo terminado com Salazar a perguntar a Leonardo Coimbra por que não escrevia romances em lugar de filosofia

Uma contradição capaz de ser compreendida

CM – Pode considerar-se o marxismo como uma doutrina dissolvente das Pátrias?

O.V. – O marxismo é um internacionalismo, evidentemente que um falso internacionalismo na faceta em que, actualmente, se manifesta. Não podemos esquecer tratar-se de uma ideologia assumida por um país, a União Soviética, e posto ao seu serviço.

À expansão do imperialismo soviético convém a desnacionalização dos outros países e povos, que essa despersonalização seja propagandeada e seja desejada.

O mesmo sucede, aliás, com os americanos, pois também eles fomentam, nos outros países, o predomínio do socialismo, apesar dos Estados Unidos serem um país capitalista.

Existe aqui uma contradição, mas uma contradição capaz de ser compreendida, pois o socialismo esvazia o carácter nacional e patriótico dos povos, substituindo-os por um jogo económico.

CM – O pensamento político português estará condenado a desaparecer, devido aos ataques desferidos pelo pensamento estrangeiro?

O.V. – Para que o pensamento português desapareça será necessário desaparecer Portugal.

Se tivermos confiança de que Portugal, apesar de tudo, prossiga – e Portugal apenas poderá prosseguir depois da crise que, actualmente, o afecta – só o poderá fazer com a Filosofia Portuguesa. De outro modo Portugal desaparecerá em breve, integrado em qualquer organização ou império.

CM – E a Filosofia Portuguesa tem força para sobreviver e ajudar Portugal a resistir?

O.V. – Com certeza. Temos o exemplo de Leonardo Coimbra, a figura central da Filosofia Portuguesa, que viveu nas condições mais hostis, mais desfavoráveis, e conseguiu ser o maior filósofo contemporâneo, não só de Portugal como de toda a Europa.

Leonardo Coimbra resistiu às maiores intrigas políticas, urdidas quer através dos partidos da época quer através do Parlamento.

A força de uma Filosofia reside na verdade do pensamento por ela transmitido e, depois de Leonardo Coimbra, essa verdade de pensamento foi, pacientemente, sistematizada por um homem chamado Álvaro Ribeiro, tarefa a que entregou toda a sua vida, com ausência total da ambições e com sacrifício do seu bem-estar.



Uma cabala bem urdida

Correio da Manhã – Em que diverge a actual acção política em Portugal do Pensamento político português?

Orlando Vitorino – Em primeiro lugar, o pensamento da actual acção política é, todo ele, socialista.

Como sabe, as doutrinas políticas exprimem-se, primeiro, através da Constituição e, segundo, através dos partidos.

Ora, a Constituição diz, claramente, que a política portuguesa é socialista. Quanto aos partidos, ou se dizem socialistas, que é o caso do Partido Comunista, do Partido Socialista e do Partido Social-Democrata, ou não se dizem socialistas, como é o caso do CDS que, afinal, tem uma prática rigorosamente socialista, até mais eficaz para a implantação do socialismo do que os outros três partidos.

Lembro-lhe que o actual presidente do CDS sempre disse não ser liberal. E recordo-lhe que o fundador do CDS, ao candidatar-se à Presidência da República, este ano, fundamentou as suas propostas num livro em que diz ser sua finalidade aperfeiçoar o sistema socialista existente...

Durante as últimas eleições para a Presidência da República o sistema apresentou quatro candidatos: Freitas do Amaral, Mário Soares, Salgado Zenha e Maria de Lourdes Pintasilgo, todos eles afirmando-se como socialistas.

CM – Estamos, pois, rodeados de socialismo por todos os lados, desde a fórmula clássica até a outras mais moderadas. Como domina o socialismo o país?

O.V. – O socialismo exerce em Portugal, como em toda a parte onde se instala, um controlo muito grande da vida da população, tem nas mãos os poderes do Estado, não permitindo sequer o aparecimento de partidos ou candidatos que não sejam socialistas.

CM – Essa situação foi implantada no nosso país rapidamente. Antes do 25 de Abril o socialismo possuía pouca expressão política entre a população. Como se passou essa tomada de Poder?

O.V. – Durante o século passado existiu, em Portugal, um regime que se dizia liberal mas seguindo o modelo francês, o qual não foi mais do que uma preparação para o socialismo.

A partir de 1870 o socialismo introduz-se em Portugal pelas vias mais eficazes, as do ensino e as da cultura oficial, formando quadros mentais socialistas.

República das Janelas

CM – Dentro dessa linha de pensamento, como podemos analisar a República, que surge em seguida?

O.V. – A Primeira República afirmou-se liberal mas insistiu no modelo francês, até nas coisas mais simples, como foi o caso do célebre imposto das janelas, copiado das leis francesas.

O imposto das janelas, extremamente ridículo mas claramente socialista, obrigava o cidadão a pagar determinada quantia por cada janela que a sua casa tivesse, a mais de um número determinado...

Mesmo esse falso liberalismo da Primeira República demorou, apenas, uns dezasseis anos.

Quando Oliveira Salazar subiu ao Poder continuou com esse falso liberalismo, por ver que era o sistema liberal que lhe podia dar melhores resultados económicos. Foi ao emprego do sistema liberal que ele ficou a dever a grande façanha da restauração das finanças.

Uma vez restauradas as finanças, Salazar começou a fortalecer o Estado e esse fortalecimento do Estado é já uma característica socialista. Fortalecido o Estado, passou a dirigir toda a vida nacional e a política económica transformou-se numa política dirigista.

CM – Mas seria Salazar o dirigente absoluto dessa política dirigista?

O.V. – Não era tanto ele a ter a iniciativa mas, sim, uma classe formada nessa altura, a que podemos chamar de plutocracia. Toda a gente sabe que os ministros de Salazar eram os que interessavam à classe dirigente ou plutocrata e demitidos pelas mesmas razões.

Com um Estado forte e uma plutocracia a comandar esse Estado, temos uma situação análoga à da implantação do socialismo. A diferença consiste, apenas, na substituição dos plutocratas – portanto homens de negócios e não políticos – por homens políticos. Aliás, os homens políticos de hoje estão-se transformando em plutocratas.

Foi isto que efectivamente sucedeu com o 25 de Abril e essa substituição teve lugar com o predomínio do Partido Comunista e do Partido Socialista, este último a arrogar-se, na altura, também de marxista.

CM – Qual o papel histórico de Marcello Caetano? Teria sido uma charneira entre a plutocracia e o socialismo?

O.V. – Marcello Caetano nutria uma grande admiração pela União Soviética e pela organização soviética.

Houve, nos anos trinta, um congresso de certos monárquicos em Condeixa-a-Nova, no qual participou Marcello Caetano. Nesse congresso, disseram-me que por proposta de Marcello Caetano, saiu uma conclusão com a legenda ou «slogan»: «O Rei e os Sovietes».

Depois, Marcello Caetano abandonou a Monarquia mas não deixou de ter admiração pelos sovietes. Aliás, a reforma administrativa de Marcello Caetano, com o seu código, parece inspirada na organização soviética.

Temos aí o corporativismo

CM – E nessa substituição da plutocracia pelo socialismo, acontecida a partir do 25 de Abril, como foram substituídas as estruturas corporativas do Estado Novo?

O.V. – Ainda há pouco tempo me disse um dirigente político, aí de um partido, que o corporativismo, não conseguido totalmente por Salazar, está hoje a ser realizado. Basta ver a existência dos chamados parceiros sociais.

CM – Considera o socialismo como uma doutrina ainda com força ou já esvaziada?

O.V. – Trata-se de uma doutrina falida em todo o Mundo. Aliás, existe um pensador liberal [Frederico Hayek] que marcou a data do fim do apogeu do socialismo no ano de 1946.

O socialismo dominou, durante um século, o Governo de grande parte de povos, mas em 1946 estava completamente falido. Fracassara no desenvolvimento económico e na cultura, mas continuava dominando o Estado. Então, para sobreviver, passou a rodear as suas medidas de governação socialista de processos liberais.

Foi com esta mistura de aparente socialismo mas efectivo liberalismo – mas não de liberalismo total, pois isso iria destruir a aparência socialista – que conseguiu e consegue ainda hoje, perdurar.

CM – De que forma o socialismo tem sido funesto para a cultura portuguesa?

O.V. – Existe uma cultura oficial socialista, composta pelas universidades, onde dominam as ideias socialistas, e pela Comunicação Social, quase toda estatizada ou dominada pelo Estado, segregando uma cultura autenticamente portuguesa.

Poderá dizer-se que os elementos mais conscientes da cultura nacional, que são os filósofos portugueses, vivem como exilados no seu próprio país.

CM – Poderá dar-nos um exemplo dessa forma de procedimento anticultural?

O.V. – Ainda há pouco tempo existiam vinte e seis mil inéditos de Fernando Pessoa «escondidos» numa arca, guardados por «dragões» universitários que só vão publicando, de vez em quando, aquilo que entendem.

Depois fazem-se edições do Fernando Pessoa com textos seleccionados ao sabor de determinada pessoa que transitou de ferveroso salazarista para ferveroso socialista, uma delas com um prefácio no qual se chega ao ridículo de dizer que Fernando Pessoa era um grande conhecedor de literatura, mas seria melhor conhecedor se fosse marxista...

Vazio caracteriza vida dos portugueses

CM – A hostilidade ao pensamento português assumiu procedimentos muito gravosos para a integridade dos filósofos portugueses?

O.V. – Chegou a fazer perigar a integridade física. Temos o caso de Afonso Costa, político da Primeira República, que foi ao Porto, acompanhado de vários sicários, para assassinar Sampaio Bruno, um pensador português.
Além dos documentos existentes sobre esta tentativa de assassínio pessoal, há o próprio testemunho de Fernando Pessoa.

CM – A maior parte dos que tentam destruir a cultura portuguesa age por ignorância ou por convicção?

O.V. – Existem os quadros mentais, formados desde há dois séculos, a levar essas pessoas a ter uma noção socialista dos problemas e da solução desses mesmos problemas.

Se colocarmos um problema à maioria das pessoas elas atribuem a sua origem e a necessária solução ao Estado. O Estado já surge, pois, como uma entidade vaga, abstracta mesmo, os «eles» indefinidos, mas que são uns eles muito concretos... isto demonstra, tipicamente, a existência de uma mentalidade socialista.

Semelhante forma de pensar cria uma inércia e uma irresponsabilidade total, um vazio a caracterizar a vida actual dos portugueses, pois ela não passa de oito horas de emprego, mais oito horas de cama e ainda mais oito de televisão, não possuindo, sequer, um momento de afirmação.

terça-feira, 29 de setembro de 2020

O padrinho do Porreiro, pá!!!






«O que impressiona, em todos estes políticos no poder, é apresentarem uma imagem que nada tem a ver connosco, portugueses. Todos eles nos são – nos rostos, na linguagem, até no modo de falar, de vestir, de estar – todos eles nos são… como dizer?... completamente alheios, pouco portugueses. Há uma excepção. É Mário Soares. Com todas as suas limitações, com o pouco saber de que dá provas sucessivas, com as suspeitas que possam levantar-lhe (caso do empresário alemão Flick ao declarar “ter preferido resistir ao socialismo comprando homens como Soares e Gonzalez, o que dera resultado”), com os queixumes dos socialistas que o viram “meter o socialismo na gaveta” (o que não é verdade) e afirmar-se “um tanto liberal” para “governar à Tatcher”, com os seus onze anos de filiação no PC, com o estado a que reduziu “este País”, com as suas velhas ligações a assaltantes de bancos, com a sua confissão de agnosticismo (que suspeitamos ele não saber bem o que seja), com os seus amuos de menino gordo quando o tirassem do poleiro, com tudo isso, apesar de tudo isso, todos reconhecemos nele um homem que pode ser do nosso convívio, que cabe bem nos ambientes que frequentamos. Não nos surpreenderá encontrá-lo no “café”, sentado à nossa mesa, bebendo e cavaqueando connosco. Não nos passa pela cabeça que não tenha o nome na lista telefónica e que não atenda se lhe telefonarmos. Temos a sensação de acabarmos de nos cruzar com ele na rua, de ficarmos lado a lado na plateia de um teatro, de trocarmos uma piada, de nos rirmos juntos. E de haver em nós lembranças comuns dos velhos tempos da pacatez salazarista, noites gloriosas de fado com a Amália, espera no corredor dos camarins das actrizes (ele até casou com uma), as revoltas contra a Censura que acabavam por se desfazer em risotas (como há tempos lembrou em público o insuspeito Ernesto de Sousa), um certo golão de Eusébio… E as prisões na PIDE que dizem ele ter suportado sem falsos gestos heróicos, sem ranger de dentes, estendendo-se no catre e dormindo a sono solto… E os seus exílios em São Tomé e Paris, exílios dourados e passados em lugares paradisíacos, todos nós invejávamos até… Ora, a nenhuma destas sensações, a nenhuma destas lembranças, é possível associar figuras como a do sr. Freitas do Amaral, pomposo a fingir de modesto, circunspecto para fingir de sábio, distante para fingir de bem comportado, sempre vestido para ir fazer exame com o fato da primeira comunhão. Nem a do sr. Cavaco Silva, tecnocrata seco, aplicado e trabalhador, provinciano e fechado na sua vida na esperança de se assemelhar a Salazar. Nem a da eng.ª Pintasilgo, com a sua beatice de freira laica, o seu compungimento com o sofrimento dos pobrezinhos, o seu gozo de se rebolar num Rolls-Royce e frequentar palácios de Belém, o seu blá-blá marxista, o seu “petit-sourire” de holandesa rósea e gorda, as suas boquinhas beijoqueiras e contentes de que julga ser julgada mais inteligente do que as outras. Não, Mário Soares é outra loiça. Será possível que a política o tenha dessorado, mas a imagem é a de um dos nossos, gordalhudo, malandrete, bonacheirão, simpático, porreiro. Como se ainda ontem andasse connosco em farras pelintras. Agora, é ministro e deixou de aparecer. Achamos piada. Governou-se. Ainda bem. Nós continuamos sem cheta, ele governou-se. Ainda bem. Há-de haver sempre quem se governe. Antes ele do que outros. E suspeitamos que ele, lá no fundo, tem saudades de nós, prefere esta nossa vida pacata, morna, saborosa, sobressaltada pelo pequename, e acabará por voltar».

António Carlos Carvalho (in A Capital, 4 Nov. 1985)


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quinta-feira, 10 de setembro de 2020

A caminho do verdadeiro comunismo!!!

 

Historiadores - Holodomor "O Holodomor consistiu no... | Facebook

Na foto: uma família ucraniana vítima do genocídio comunista, o Holodomor, cerca de 10 milhões de ucranianos morreram de fome.


«Num país onde o único patrão é o Estado, a oposição significa morrer lentamente de fome. O velho princípio: quem não trabalha não come, é substituído por este outro: quem não obedece não come».

L. Trotsky, 1937

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

A "Matança da Páscoa"

 


11 de Março 1975. A casca de banana que tramou Spínola


«A referência à célebre "Matança da Páscoa" devia situar-se no capítulo dedicado ao "11 de Março". Propositadamente decido localizá-la no final do texto que nos explica como deve processar-se a "tomada do Poder" pelo PCP. Há uma razão para isso: aquele texto foi elaborado depois do "25 de Novembro". Mas muito antes, em Março de 1975, houve uma tentativa de tomar o Poder pela violência, matando, à partida, as pessoas que poderiam desencadear a oposição. Essa tentativa falhou por acção de um golpe falhado que foi o "11 de Março" Foi um golpe de antecipação que - falhando - teve pelo menos a virtude de eliminar as condições propícias à matança decretada pelo PCP.

Um relatório manuscrito datado de Abril de 1975 e redigido no Rio pelo tenente Carlos Rolo é aqui portanto, transcrito do original. Um texto para o Povo Português ler e meditar. A célebre lista da "matança" tinha sido elaborada pelo PCP/LUAR. Os "revolucionários" encarregados de organizar a sua execução teriam sido segundo o relatório, Palma Inácio e Otelo (este último candidato agora à Presidência da República!...). Costa Gomes e Vasco Gonçalves "visaram" a lista! O relatório indica nomes concretos de pessoas concretas que podem testemunhar. Parece ser tempo de os portugueses começarem a compreender o que realmente se passou e que pode vir a passar-se.

"Encontrei-me em Madrid com o sr. Agostinho Barbieri, em casa dele, na rua Juan Bravo, 75-2.º, dizendo-lhe que ia lá para saber quais os apoios que haveria de Espanha e mais informações que permitissem fazer qualquer coisa em Portugal pois havia notícias de um golpe de esquerda. Que era enviado pelo general Monteiro e que também pretendíamos saber se havia dinheiro.

Respondeu-me que o melhor seria falar com o eng. Santos e Castro marcando um encontro para as 16 horas em casa dele.

Disse-me logo que o dinheiro prometido pelo António Champalimaud (50.000 contos) ainda não tinha vindo, mas que ele (António) tinha da sua autoria prometido mais 25.000 contos, ou seja um total de 75.000 contos, que seriam administrados pelo eng. Santos e Castro, prof. Soares Martinez e Agostinho Barbieri porque se encontrava fora.

Foi-se o medo, a incerteza e o sonho | PREC | PÚBLICO

Às 16 horas houve de facto uma reunião com o eng. Santos e Castro e Agostinho Barbieri e à parte dela, já no final, apareceu o Jorge Braga.

Depois de uma apresentação o eng. Santos e Castro falou, informando o seguinte:

1. Que iria haver um golpe da esquerda, notícia que aliás já tínhamos em Lisboa, mas deu como pormenores os seguintes:

a) Seria na noite de 12/13 de Março.


b) Tinha o nome de código de "Matança da Páscoa".


c) Seriam mortas 1500 pessoas: 500 militares e 1000 civis.


d) Tinham sido requisitados dois hospitais, talvez para prisões.


e) Que na lista estavam incluídos nomes de pessoas que se encontravam presas.


f) Que tinha sabido através de "ajudante de campo" ou "oficial às ordens" do Costa Gomes da existência dessa lista, por o Otelo a ter ido dar ao Costa Gomes para visar e que nessa altura, tendo o Costa Gomes pedido mais uma cópia, foi necessário, por não a haver, fazer uma fotocópia.


1. Foram feitas duas e uma delas acabou nas mãos de um oficial A.M. de nome, possivelmente, Rui Ribeiro que estava na Cova da Moura e ia avisando pessoas. Disse ainda que essa lista tinha sido elaborada por o PC/LUAR que a teria dado a Vasco Gonçalves e este tinha feito três cópias dando uma ao Palma Inácio, outra ao Otelo e uma terceira em arquivo. Este número de listas foi confirmado por conversa tida entre os "ajudantes de campo" ou "oficiais às ordens" do Costa Gomes e Vasco Gonçalves, para "controle de cópias" dos documentos secretos.


2. Que era necessário falar com o Luís Abecassis que tinha grande número de oficiais das F. A. ajuramentados com ele. Posteriormente em Lisboa o general Tavares Monteiro não foi dessa opinião.


3. Que o coronel Varela recebia diária e directamente informações do que se passava no Estado-Maior do Exército Espanhol.


4. Que à mais pequena coisa a Espanha estava pronta a invadir Portugal. Em dez horas estaria em Lisboa. Tinha três divisões prontas com dois comandos operacionais, uma na região de Badajoz (Cáceres) com um Batalhão de blindados e uma Divisão, e outro mais a Norte (Salamanca) com o resto das forças.


5. Que o Governo espanhol tinha feito circular uma carta entre os oficiais espanhóis autorizando a criação de unidades de "Viriatos".


6. Que os antigos telegrafistas da DGS estavam a trabalhar para o Varela Gomes.


7. Que tinha contacto permanente com o comandante da região aérea de Badajoz/Sevilha e que o Governo espanhol concederia asilo político e internamento de aviões.


8. Que tinha contacto com o Árias Navarro mas que quando houvesse qualquer coisa ele só seria avisado com três horas de antecedência.


9. A seguir falou de sistemas políticos».


Alpoim Calvão («De Conakry ao MDLP - dossier secreto»).

11 de Março de 1975: Trabalhadores derrotam golpe e levam revolução à  economia | Partido Comunista Português

«O cerco continua a apertar-se e, em meados de Fevereiro de 1975, é elaborada uma lista de oficiais para serem presos, na qual consta o nome de Alpoim Calvão, segundo testemunha o capitão-tenente Geraldes Freire. "Nunca o vi como um opositor ao 25 de Abril, mas em Fevereiro de 1975 fui chamado pelo CEMA, Pinheiro de Azevedo, para ir ao COPCON [Comando Operacional do Continente: Criado a 8 de Julho de 1974, foi constituído sob o comando do general CEMGFA e destinado a intervir directamente na manutenção e restabelecimento da ordem, em apoio às autoridades civis e garantir a segurança em situações internas de ameaça à paz e tranquilidade públicas]. Lá mostraram-me uma lista de uma série de oficiais a prender. Havia vários oficiais da Escola de Fuzileiros, por isso, fui claro: 'Responsabilizo-me por eles mas não prendo ninguém. Depois, há aqui o Alpoim Calvão que não está debaixo da minha hierarquia, mas que também, deixem que vos diga, que acho uma grande estupidez prendê-lo, até porque vão fazer dele um herói'".

Quando António Spínola, desiludido, renuncia à Presidência da República e se afasta do poder, já Alpoim Calvão e os amigos estão organizados "para enfrentar o gonçalvismo, para salvar restos de uma Pátria que se desagregava". A estrutura é, porém, ainda muito incipiente e inofensiva. Para já, bem o sabem, organizar operações de envergadura é algo com que apenas podem sonhar.

11 de Março de 1975 – História de um golpe de estado da direita | CDU Soure

Pelas 15h00 do dia 10 de Março, no entanto, tudo muda. O primeiro-tenente Nuno Castro Barbieri visita o antigo camarada da Guiné e amigo Alpoim Calvão para lhe transmitir que uma informação dos Serviços Secretos Espanhóis inclui o seu nome numa lista de diversas personalidades a abater. Tivera conhecimento dela numa reunião em Madrid em que participaram figuras como o seu pai Agostinho Barbieri Cardoso, ex-subdirector-geral da PIDE/DGS, Santos e Castro, ex-governador geral de Angola, e Otto Skorzeny, o famoso ex-oficial da SS que libertara Benito Mussolini, em 1943 [Oficial da Schutzstaffel (SS) e grande especialista em operações especiais durante a II Guerra Mundial, chegou a ser considerado pelos Aliados como "o homem mais perigoso da Europa". Foi escolhido pelo próprio Hitler para libertar Benito Mussolini, missão que cumpriu a 12 de Setembro de 1943, com a operação "Carvalho", no monte Gran Sasso. No final da guerra, foi preso mas não chegou a ser julgado em Nuremberga, ficando alguns anos num campo de desnazificação. Daí saiu para Espanha, onde faleceu de cancro a 6 de Julho de 1975]. O nome de código da acção: "Matança da Páscoa", de acordo com o próprio chefe do governo espanhol, Árias Navarro.

Jornalismo: Diz que é uma espécie de democracia: NOS IDOS DE MARÇO: O  reverso dos cravos


E havia mais detalhes: as execuções começariam a 12 de Março e estariam a cargo de elementos da extrema-esquerda, apoiados pelo RALI (Regimento de Lanceiros N.º 1 de Lisboa, comandado pelo tenente-coronel Leal de Almeida) e por elementos do Movimento de Libertação Nacional - Tupamaros, que, alegadamente, se tinham deslocado a Portugal para essa missão [Movimento uruguaio de guerrilha urbana que operou nos anos 60 e 70, assaltando bancos e distribuindo comida e dinheiro nos bairros pobres de Montevideu, atacando as forças de segurança e executando raptos políticos]. Informações que seriam mais tarde dadas como provadas pelo juiz de instrução, Saraiva Coelho, no seu despacho sobre o processo n.º 12/76:

"Esta reunião tem efectivamente lugar na Rua Jau, casa do tenente-coronel Quintanilha, com o coronel Durval de Almeida, o tenente-coronel Xavier de Brito, o major Silva Marques e o tenente-fuzileiro Nuno Barbieri. Mais tarde chega o tenente Carlos Rolo acabado de regressar de Espanha. Confirma a existência de uma lista de pessoas a prender ou eliminar - cerca de 500 militares e 1.000 civis (...).

11 de Março de 1975: Trabalhadores derrotam golpe e levam revolução à  economia | Partido Comunista Português

As prisões estavam planeadas para a noite de 12 para 13 de Março com o nome de código "Matança da Páscoa". Carlos Rolo não era portador de um exemplar ou cópia de tal lista. Esta parece que nunca ninguém a viu, nem um seu exemplar consta do processo. (...) Resolvem dar conhecimento destes factos ao general Spínola.

Também este general deveria ser preso ou eliminado em Massamá onde residia. (...)" [Despacho de instrução do processo n.º 12/76, in GUILHERME ALPOIM CALVÃO, JAIME NOGUEIRA PINTO, O 11 de Março - Peças de Um Processo, Editora Futuro Presente, Lisboa, 1995, pp. 19 e 20]».

Rui Hortelão, Luís Sanches Baêna e Abel Melo e Sousa («Alpoim Calvão. Honra e Dever»).

O caminho para a servidão!!!

 

Nem me vou alongar em comentários, este pequeno excerto do livro "1984" de George Orwell é bastante explícito, apesar de ter sido escrito há cerca de 8o anos, demonstrou perfeitamente para onde se encaminha a humanidade, resumindo, a ideologia que muitos refutam, outros renegam, outros, pura e simplesmente ignoram, o verdadeiro comunismo tomou conta do planeta!!!

Somos hoje uma sociedade de escravos voluntários, até quando, isso não sei, mas sei que na hora em que haja um despertar para a verdadeira realidade em que vivemos, teremos sem dúvida a "bota do sistema a esmagar-nos o rosto"!!!

Despertem, desliguem a televisão, desliguem das tecnologias que nos estão a tornar reféns, pensem, busquem a verdade, desliguem do rebanho de alienados...

O panorama é assustador, mas real!!!

Alexandre Sarmento


1984 - Saraiva

(...) - Como é que um homem afirma o seu poder sobre outro, Winston?

Winston reflectiu.

- Fazendo-o sofrer - disse.

- Exactamente. Fazendo-o sofrer. A obediência não basta. A menos que sofra, como posso eu ter a certeza de que obedeceu à minha vontade e não à dele? O poder consiste em infligir dor e humilhação. O poder consiste em desagregar a mente humana para a reconstituir sob uma forma nova, sob a forma que entendermos dar-lhe. Começas agora a ver que tipo de mundo estamos a criar? Precisamente o oposto das estúpidas utopias hedonistas que os antigos reformadores imaginaram. Um mundo de medo, traição e tortura, mundo onde se pisa e se é pisado, mundo que se tornará mais impiedoso, e não menos, à medida que se for aperfeiçoando. O progresso, neste nosso mundo, será um progresso no sentido de cada vez maior sofrimento. As antigas civilizações afirmavam basear-se no amor ou na justiça. A nossa baseia-se no ódio. Não haverá lugar para outras emoções além do medo, da raiva, da humilhação e do triunfo. Tudo o mais será por nós destruído. Tudo! Já hoje estamos a liquidar hábitos mentais que sobreviveram dos tempos anteriores à Revolução. 

Vídeo | COVID-1984 – Poder, controle e a luta pela liberdade

Cortámos os laços entre filhos e pais, entre homem e homem, entre homem e mulher. Já ninguém se atreve a confiar na própria mulher, no filho ou nos amigos. E no futuro suprimiremos esposas e amigos. Os filhos serão tirados às mães à nascença, como se tiram os ovos às galinhas. O instinto sexual também será suprimido. A procriação transformar-se-á numa formalidade anual, como a renovação dos cartões de racionamento. Aboliremos o orgasmo. Os neurologistas já estão a estudar o assunto. Não restará lealdade, senão a lealdade ao Partido. Nem amor, senão o amor ao Grande Irmão. Nem riso, senão o riso da vitória sobre um inimigo aniquilado. Nem arte, literatura ou ciência. Desaparecerá a distinção entre beleza e fealdade. Não haverá curiosidade, nem o gozo de viver. Todos os prazeres que possam fazer concorrência ao Partido serão destruídos. Mas haverá sempre (nunca te esqueças disto, Winston), haverá sempre a embriaguez do poder, cada vez mais intensa, cada vez mais subtil. Sempre, a todo o momento, a emoção da vitória, a sensação de esmagar um inimigo indefeso. Se queres uma imagem do futuro, pensa numa bota a pisar um rosto humano. Para sempre.

O retorno de George Orwell - Outras Palavras

(...)- Nós controlamos a vida, Winston, a todos os níveis. Tu imaginas que existe uma coisa chamada natureza humana que vai ficar indignada com o que fazemos, virando-se contra nós. Mas nós criamos a natureza humana. Os homens são infinitamente maleáveis. Se voltaste à tua antiga ideia de que os proletários ou os escravos se hão-de erguer para nos derrubar, tira daí o sentido. Eles estão impotentes, como animais. A humanidade é o Partido. Os outros situam-se fora... são irrelevantes».

George Orwell («1984»).

terça-feira, 8 de setembro de 2020

No reino da parvolândia!!!

 

Não tardará teremos o Primeiro Ministro Costa a falar de austeridade, e parece-me que já adivinho qual será o seu discurso, depois de 46 anos, o ouro evaporou-se, os milhões da CEE, idem! Não produzimos sequer para pagar os juros de uma dívida monumental, até hoje continua a dar para tudo, mas não para todos, uns vivem na opulência com o produto do saque, os outros trabalham sem saber como enfrentar o dia de amanhã, vão esticando os salários, cada vez sobra mais mês depois do salário se ter evaporado.
Uns comem os figos, aos outros rebenta-lhes a boca, é assim desde o 25 de Abril de 1974.
"Não te chega para o bife? Antes no talho do que na farmácia. Não te chega para a farmácia? Antes na farmácia do que no tribunal. Não te chega para o tribunal? Antes a multa do que a morte. Não te chega para o cangalheiro? Antes para a cova do que para não sei quê que há de vir."
Mais palavras para quê, os portugueses até gostam e votam neste circo.
Alexandre Sarmento

Os resistentes, sempre firmes e hirtos.

 

Pin by beachcomber on lighthouses | Lighthouse, Lighthouse pictures,  Beautiful lighthouse


Uma única coisa deve importar ao Homem: permanecer de pé entre as ruínas.


«Apenas conta, hoje, o trabalho daqueles que se sabem manter no cume: firmes nos princípios; inacessíveis a todo o compromisso; indiferentes perante as febres, as convulsões, as superstições e as prostituições, ao ritmo das quais dançam as últimas gerações. Apenas conta a resistência silenciosa de um pequeno número, cuja presença impassível de “convivas de pedra” permita criar novas relações, novas distâncias, novos valores, para criar um pólo que, não impedindo, é certo, este mundo de desenraizados e agitados de ser o que é, permitirá, todavia, transmitir a alguns a sensação da verdade, sensação essa que será talvez também o despoletar de alguma crise libertadora.»

Julius Evola

Wall Street, Bilderbeg e outros donos do mundo!!!


Miguel Bruno Duarte: Nova Ordem Mundial

«Se a Revolução Bolchevique tivesse fracassado, o desenvolvimento industrial da Rússia teria certamente rivalizado com o dos Estados Unidos, da Grã-Bretanha e da Europa, e teríamos um mundo muito diferente hoje. Porém, ao apoiarem a Revolução Bolchevique, os banqueiros americanos abrandaram o crescimento industrial da Rússia para passo de caracol na corrida para a Segunda Guerra Mundial. Impediram a Rússia de emergir como superpotência, e a indústria soviética que realmente se desenvolveu era controlada pelos banqueiros e investidores de Wall Street nos bastidores.

(...) Por que razão estariam os Rockefeller e seus sequazes tão ansiosos por derrubar a monarquia russa? Haveria outra razão mais relevante para avançar com a Revolução Russa?

Numa palavra: sim. A resposta é tão significativa hoje quanto o era há cem anos. Petróleo! Antes da revolta bolchevique, a Rússia ultrapassara os EUA enquanto produtor de petróleo líder mundial. Em 1900, os campos saturados de crude em Baku produziam mais do que os Estados Unidos e, em 1902, produziram mais de metade da produção total mundial.

O caos e a destruição da Revolução destruíram a indústria petrolífera russa. Diz-nos Antony Sutton em Wall Street and the Bolshevik Revolution: "Em 1922, metade dos poços estava inactiva" e a outra metade mal funcionava, porque lhes faltava tecnologia.


Em The Rockefeller File, Gary Allen também salienta que a revolução esmagou a concorrência da América. "A Revolução eliminou efectivamente a concorrência à Standard Oil por parte da Rússia durante vários anos, até a Standard Oil avançar e obter uma parte do negócio petrolífero da Rússia".

Porém, para que os banqueiros de Wall Street arrasassem a concorrência e condenassem o povo russo à pobreza e à corrupção durante décadas, tinham de ter líderes que pudessem fazer uma revolução bem-sucedida. Entram Vladimir Ulianov Lenine e Leão Trotski.

(..)Em lado algum», diz-nos Gary Allen no Capítulo Nono de The Rockefeller File, «encontramos determinações [da Comissão Trilateral] a favor do empreendedorismo individual e das liberdades individuais».

Esta rejeição liminar do empreendedorismo individual e da liberdade do indivíduo é enigmática. Como é que o Marxismo, e o sistema de igualização social e económica resultante, pode ser fascinante para David Rockefeller, ou para a Comissão Trilateral? Rockefeller não é apenas rico, também gozou de uma boa educação. Conhece o fracasso do Marxismo sob a forma de Comunismo a mando de ditadores implacáveis como Estaline no séc. XX, em que se estima terem sido chacinados 100 milhões de cidadãos, e mais de mil milhões escravizados, nesse regime.

Como podemos reconciliar a imagem mental de um Capitalista a abraçar um Marxista, ou qualquer Comunista/Socialista? A razão da aparente incongruência prende-se com a definição que aprendemos destes termos.

Na escola, ensinam-nos que o Capitalismo se baseia no livre empreendedorismo. Os Capitalistas são empresários abastados, gente que faz negócio para ganhar dinheiro, e não se pode ganhar dinheiro sem lucros. É esta a pedra basilar da economia de mercado. Em todo o mundo, a economia de mercado torna-se num mercado livre global. Toda a gente trabalha para ganhar dinheiro, o que produz lucros para investir em mais empresas e indústrias que fazem dinheiro, para criar mais emprego que espalhe a riqueza e crie um nível de vida mais elevado para todos. Bens e serviços produzidos são o resultado da colaboração da imaginação e inovação individuais. «O que a mente puder conceber, poderá alcançar». O indivíduo «é dono» do seu emprego, negócios, propriedade. O que ganhar para si pode guardar e gastar como entender. A riqueza individual gera riqueza para o Estado mediante aplicação de impostos.


Tal não se verifica para um Marxista, do modo como entendemos o Marxismo. Vai tudo para o Estado; não fica nada para o indivíduo. No Marxismo, os sistemas comunistas ou socialistas, a propriedade privada é proibida. Uma estrutura política monopartidária controla o ordenamento económico do Estado, em que o povo recebe uma parte igual de bens e propriedades. Não há incentivo para desempenhar melhor um trabalho, nem para implementar melhorias aos métodos laborais do Estado, porque não há reconhecimento pelo esforço individual.

Por conseguinte, porque é que se há-de levar a sério a aparente contradição que os banqueiros da magnitude de Rockefeller, Morgan e Rothschild, os mastros do nosso sistema de economia de mercado, apoiariam e financiariam voluntariamente uma revolução «anti-capitalista, ímpia» para Comunistas? Como é que o Ocidente, o padrão do capitalismo e da liberdade, ganha com tal programa?

A palavra mágica é monopólio, «um monopólio abrangente» que não só controla o governo, o sistema monetário e toda a propriedade, como também é um «monopólio que, à semelhança das empresas que imita, se perpetua e eterniza a si mesmo».

Já vimos o poder do monopólio controlado pelo Estado na União Soviética e na China. Nestes regimes comunistas, ao invés de criar um sistema económico de distribuição equitativa, havia gente que era mais igual do que outra, consoante o cargo ou o estatuto na hierarquia do Estado. Os que gozavam de mais regalias chefiavam o Estado. Todavia, na sequência da glasnost de Mikhail Gorbachov, que abriu o Estado ao escrutínio público, o sistema comunista da União Soviética dissolveu-se.

Daniel Estulin: “Estamos viendo el descalabro del modelo liberal Bretton  Woods y el reparto del viejo mundo”

Ironicamente, a desigualdade da riqueza económica não melhorou em nada desde a mudança da Rússia para um mercado livre, nem as anteriores províncias soviéticas gozam de melhor nível de vida após a recuperação da sua independência. Antes pelo contrário, a Mafia russa tem-se aproveitado do novo capitalismo para exercer um poder corrupto numa terra ainda mais vitimizada. Entretanto, a fusão do comunismo com o capitalismo regista um sucesso e um crescimento económico fenomenais na China. Aliás, a China surge como a próxima superpotência, porque pratica o que a elite financeira do Ocidente e os Bilderberg almejam para a sua ordem mundial única: capitalismo planificado pelo Estado.

O facto é que membros do Establishment que laboram através de organizações «privadas» como, por exemplo, o Clube Bilderberg, CFR e a Comissão Trilateral, entendem o socialismo como derradeiro sistema de poder para controlo total, e entendem a sua psicologia melhor do que anti-capitalistas no Congresso como, por exemplo, Reforma e Regulamentação da Segurança Social. Mais uma vez, o Socialismo para eles não é um sistema de redistribuição da riqueza dos ricos para os pobres, mas sim um mecanismo de conseguir cada vez mais concentração de poder e controlo.

Por exemplo, ao fazerem empréstimos generosos a nações do terceiro Mundo de modo a ajudar a desenvolver as suas economias, os bancos nacionais na verdade fazem mais lucro e exercem mais poder internacionalmente. Como o conseguem? Voltemos a 1976. Nessa altura, os Grandes Cinco Bancos de Nova Iorque (todos geridos por membros da Comissão Trilateral e do Council on Foreign Relations) emprestaram mais de 52 mil milhões de dólares a vários países do Terceiro Mundo e comunistas, «muitos dos quais já em dificuldades para pagarem os juros, quanto mais o capital inicial. Por conseguinte, os Trilateralistas exigiram, e conseguiram, um Fundo Monetário Internacional «revisto», subsidiado na sua maioria pelo contribuinte americano, que emprestava dinheiro a esses países falhados do Terceiro Mundo para que eles cumprissem as suas obrigações para com os grandes bancos. Claro e o dinheiro injectado no Fundo Monetário Internacional para isso é pago por cada vez mais inflação doméstica», explica-nos Gary Allen em The Rockefeller File.

Miguel Bruno Duarte: Nova Ordem Mundial

Em Confessions of a Monopolist, publicado em 1906, Frederick C. Howe falava do funcionamento desta estratégia na prática: «As regras dos grandes negócios: Crie um monopólio, deixe que a Sociedade trabalhe para si. Desde que vejamos todos os revolucionários internacionais e todos os capitalistas internacionais como inimigos implacáveis uns dos outros, escapar-nos-á um ponto crucial... uma parceria entre o capitalismo monopolista internacional e o socialismo revolucionário internacional existe para seu benefício mútuo».

Gary Allen, no seu best-seller clandestino, None Dare Call it Conspiracy (2), descreve como, mediante controlo absoluto, os ricos podem criar e perpetuar um monopólio. «O controlo precisa de uma sociedade estática. Uma sociedade em crescimento, competitiva e livre dá a mais gente a hipótese de fazer fortuna e de substituir quem já estava no topo. Por conseguinte, promove-se legislação que limite o esforço empreendedor e exerça tributação sobre a acumulação de capital não protegida nas fundações isentas de impostos dos alinhados no Establishment. Envidam-se todos os esforços para encostar as pequenas e médias empresas à parede e para serem engolidas pelos gigantes do Establishment.

O ímpeto dos alinhados para atrofiar a concorrência não difere em nada da maneira como os proprietários dos caminhos-de-ferro americanos usaram, entre 1877 e 1916, a Comissão de Comércio Interestatal para reter controlo do Estado sobre os caminhos-de-ferro, o que lhes deu efectivamente um poder monopolístico».

Em The Rockefeller File, Allen nota a maneira subversiva de impor monopólios: «Em finais do séc. XIX, os santo dos santos de Wall Street entendeu que a maneira mais eficaz de conseguir um monopólio incontestado era dizer que era para «bem do público» e de «interesse público».

Is Amazon really skirting antitrust law? | KUOW News and Information

Zbigniew Brzezinski também reconheceu o valor de um monopólio regido pelo Marxismo, à semelhança de David Rockefeller. Este aprendeu-os aos pés do pai, John D. Jr. «Júnior», como lhe chamavam, odiava a concorrência, e os seus filhos foram ensinados que a única concorrência que valia a pena ter é aquela em que se podem controlar ambos os lados da equação.

«Para os Rockefeller», diz-nos Gary Allen, «o socialismo não é um sistema de redistribuição da riqueza - muito menos da riqueza deles -, mais sim um sistema para controlar o povo e os concorrentes. O socialismo põe o poder nas mãos do governo. E dado que os Rockefeller controlam o governo, controlo do governo significa controlo dos Rockefeller. O leitor poderia não saber disto, mas fique ciente de que eles sabem!».

Esta realidade é a melhor regalia do poder monopolista. Por conseguinte, não nos espantemos que aquilo que os banqueiros internacionais favorecem na formação de uma «Empresa Mundial» de cartéis seja a sua capacidade de controlar as finanças, os mercados, os recursos naturais e, em última instância, os povos do mundo.

Wall Street and the Bolshevik Revolution: The Remarkable True Story of the  American Capitalists Who Financed the Russian Communists: Sutton, Antony C.:  9781905570355: Amazon.com: Books

No princípio do séc. XX, contudo, o Marxismo era uma teoria económica nova, e as eminências pardas e os banqueiros americanos respigaram dele outra maneira de perseguir «mercados que pudessem ser explorados em monopólios sem medo da concorrência», afirma Antony Sutton no seu livro Wall Street and the Bolshevik Revolution.»


Daniel Estulin («Toda a Verdade sobre o Clube Bilderberg»).

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

Portugal e os Templários.

 Centro de Interpretação Templário – Almourol” é único em Portugal e abre em  outubro | Antena Livre

Após a extinção da Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão, autorizada pelo papa Clemente V, a pedido do rei de França, em 1310, em Frielas, a 14 de Abril, foi feito o tratado entre o rei D. Dinis e o rei de Castela, para impedir que os bens da Ordem dos Templários fossem dados a estranhos aos respectivos reinos. D. Dinis mandou negociar, em Roma, a criação da uma nova ordem que o servisse e o ajudasse a defender o reino. O negócio foi cometido ao cavaleiro Lourenço e ao cónego de Coimbra, Pedro Pires, com procuração datada de 14 de Agosto de 1318.
Como veremos mais abaixo, no excerto do livro de António Quadros, "Portugal, Razão e Mistério", os meandros da forma como se instalaram os Templários em Portugal.
Episódio marcante para a nossa forma de ser e estar, quem sabe uma das razões para que nos tivéssemos diluído no tempo e meandros da História, é certo que, ainda hoje temos como matriz cultural e espiritual muito daquilo que nos legaram estes nobres Guerreiros de Deus, os Templários...

Alexandre Sarmento


DA ORDEM DO TEMPLO À ORDEM DE CRISTO

Logo em 1308, pela Bula Regnans in Caelis, o Papa se dirigiu aos soberanos europeus, denunciando os alegados crimes dos Templários franceses e ordenando a abertura de um inquérito aos de todos os reinos. No caso português, D. Dinis não só recebeu essa Bula, mas uma outra, intitulada Callidi serpentis vigil, expedida a 30 de Dezembro do mesmo ano, recomendando e pedindo mesmo a prisão dos Templários portugueses, para serem entregues aos tribunais.

O Rei mandou-lhes de imediato instaurar um processo judicial, mas, agindo com notável circunspecção, tudo fez com delongas, dando tempo aos cavaleiros para prepararem a sua defesa. Nesse período quase todos fugiram ou esconderam-se, com a sua evidente protecção. Entretanto formou-se um tribunal, constituído pelo Bispo João de Lisboa, pelo jurista Mestre João das Leis e pelo prior dos Fransciscanos.

Nenhum templário foi preso, mas, por sentença de 27 de Novembro de 1309, todas as propriedades e bens templários reverteram para a Coroa, a começar pelas propriedades de Pombal, Soure, Ega e Redinha, mais tarde Idanha-a-Velha, Salvaterra do Extremo, Rosmaninhal, etc.

Um perigo se avolumava no entanto para a Coroa portuguesa, o de que, depois da extinção oficial da Ordem, o Papa e os Bispos pudessem reclamar a «herança» dos seus avultados bens, o que além de tudo o mais, pela transferência de castelos e praças fortes para fora da jurisdição real, podia colocar em risco a paz do Reino. Foi então que D. Dinis congeminou um entendimento com o seu genro, o Rei D. Fernando de Castela, que resultou na Convenção de Salamanca, de 22 de Janeiro de 1310, a que aderiu pouco depois o Rei D. Jaime II, de Aragão.


Esta aliança dos reis peninsulares relevava toda a consideração que tinham pelos Templários. Era, no fundo, uma barreira levantada para a sua defesa e ao mesmo tempo para garantia dos direitos dos soberanos aos seus bens.

A inquirição ordenada por D. Dinis aos Templários portugueses, à sua vida, aos seus costumes, às suas práticas e à sua fé, ilibou-os totalmente. Também os nossos Prelados, reunidos, os declararam inocentes de quaisquer crimes. E assim pouco a pouco, começaram todos a regressar à pátria, recebendo pensões sobre os bens penhorados e sendo tratados com respeito por toda a gente, como «antigos Templários». (quodam Milites).

A aliança dos reis peninsulares foi extraordinariamente efectiva. Assim, quando a Ordem do Templo foi extinta, em 1312, concedendo-se muitos dos seus haveres aos Hospitalários, o Papa abriu uma excepção em favor dos três soberanos, D. Dinis, D. Fernando e D. Jaime II, fixando um prazo para concertar com a Santa Sé a aplicação dos bens. Para entretanto os administrar em Portugal, o Papa nomeou o Bispo do Porto, D. Estêvão, personalidade de ambicioso que anteriormente tivera o favor real, mas que se mostrava agora indigno da sua confiança. Por isso o nosso monarca rejeitou tal nomeação e, pondo os tempos entre os males, foi atrasando as negociações.

E, quando a Bula da suspensão foi enfim publicada, já não podia ter entre nós qualquer efeito. Os cavaleiros haviam desaparecido; os bens estavam em poder de D. Dinis; o administrador do Papa achava-se repudiado. Os Hospitalários não podiam ter a ousadia de chamar a si os territórios templários (1).

Não cessaram porém as pressões da Ordem de S. João do Hospital, de alguns Bispos e da própria Igreja de Roma, considerando-se com direitos à herança templária. D. Dinis não esquecia que o próprio Papa João XXII, em 1317, tinha tomado a liberdade de doar ao Cardeal Bertrand, um dos seus prelados favoritos, nada menos do que a povoação e o castelo de Tomar, com todas as suas rendas. No lance, como sempre habilíssimo, D. Dinis instigou o príncipe herdeiro e alguns nobres do reino a apresentarem um protesto, decisivo e formal. O cardeal desistiu da posse, para que estava autorizado por uma bula, e não se falou mais nisso (2).



Por outro lado, ao defender de forma tão sábia e eficaz os Templários em desgraça e ao conservar sem perdas, mesmo mínimas, todo o seu património, D. Dinis não fez como os seus pares de Castela ou de Aragão, que absorveram na Coroa todos os bens templários. Pelo contrário, tudo indica que, desde o princípio, teve a ideia preconcebida e o propósito de restaurar de algum modo a Ordem, que lhe prestara bons serviços e sobretudo na qual via uma força de primeira importância para os seus planos, se é que estes não tinham uma das suas fontes principais na própria herança espiritual da Ordem.

Não o soube a tempo Dante Alighieri, que no Canto XIX do Paraíso, na Divina Comédia, condena duramente o de Espanha (3) (provavelmente D. Fernando IV, de Castela e Leão) pela sua luxúria e vida de moleza, os reis de Aragão, Sicília e Maiorca (provavelmente Jaime II e Frederico II), cujas obras ignóbeis (...) desonraram uma raça ilustre e duas coroas (4), e ainda o nosso D. Dinis, também por obras ignóbeis (5).

Eram os reis peninsulares que tinham assinado o pacto de guardar os bens templários, resistindo às pressões de Clemente V para a sua absorção no património eclesiástico, através dos Hospitalários ou dos Bispos. Mas Dante foi duplamente injusto para com o Rei português. Não se sabe exactamente quando concluiu, no exílio, a sua Divina Comédia. Os primeiros Cantos, o Inferno e o Purgatório, terão sido escritos entre 1290 e 1313. O Paraíso, muito possivelmente entre 1313 e 1317-1320, isto é, nos últimos anos da vida do grande poeta e pensador, que morreu em 1321. O certo, contudo, é que, se foi tão severo para com D. Dinis, associando-o a outros reis, foi por o ter julgado, como eles, um ambicioso, que se apropriou para seu proveito dos bens dessa Ordem pela qual tinha particular reverência.

Não teve Dante tempo para saber que, ao invés de ter acrescentado a sua fortuna com as propriedades e tesouros templários, D. Dinis foi o Príncipe justo e sábio (denominação pelo poeta reservada para os habitantes, no Paraíso, do Sexto Céu ou Céu de Júpiter) que salvou a Ordem dos Templários, que resgatou e restaurou todos os cavaleiros do país e, mais do que isso, que preservou o seu legado, cumprindo-o em superabundância e dando-lhe um sentido amplificante e universal ao transformá-la na Ordem de Cristo.



Sampaio Bruno tocou neste ponto, embora ao de leve, no seu artigo D. Dinis e os Templários, postumamente inserido no livro Os Cavaleiros do Amor, ao escrever que se Dante, tendo acabado os seus dias em 1321, conhecimento teve da nobre conduta do Rei português, houve de levar com ele o desgosto de ter mal-entendido um benfeitor dos seus confrades (6).

Duplamente injusto, escrevemos. É que, se houve soberano europeu do seu tempo que tivesse entendido, perfilhado e assumido o pensamento doutrinário e poético do autor da Divina Comédia, ou que com tal pensamento se tivesse encontrado pela convergência joanina, joaquimita e templária, esse soberano foi como veremos D. Dinis, irmão espiritual de Dante, seu contemporâneo, homem da mesma geração, companheiro da mesma confraria invisível e sonhador do análogo desiderato escatológico das duas beatitudes.

D. Dinis foi contudo mais lúcido na sua visão política, ao conceber antes no futuro, mas preparando-o, o seu Império do Espírito Santo, do que no presente existencial e conflituoso, como quimericamente o chegou a projectar o arrebatado Alighieri, ao ver em Henrique VII de Luxemburgo, eleito Rei dos Romanos em 1308 e coroado Imperador em S. João de Latrão em 1312, a cabeça carismática de um Império dentro do qual ele próprio, o gibelino, o «branco», o adversário de Bonifácio VIII e depois de Clemente V, não só poderia voltar à sua Florença natal de onde fora exilado pelos «negros», como poderia (julgava) doutrinar o Imperador. Dante recebeu Henrique VII em Vercelli e acompanhou-o a Pisa nesse mesmo ano, procurando inspirar-lhe o projecto de uma soberania terrena de Deus-Espírito na Verdade, na Fraternidade e no Amor, enquanto para o Sumo Pontífice ficaria reservada a soberania no espiritual, isto é, para um a representação da primeira, para o outro a da segunda beatitude.

Portugal, Razão e Mistério - Livro - WOOK

Mas este Imperador tão frágil, tão precário, no qual tão excessivamente investira o seu sonho o poeta, veio a morrer pouco depois, a 24 de Agosto de 1313 em Buoncovento, perto de Siena, dessa Siena grata onde o imortal florentino passou, desterrado, os últimos anos da sua existência, escrevendo o Paraíso e as Questões da Água e da Terra.

Pouco depois, em Portugal, D. Dinis preparava discretamente a sua jogada. Com procuração sua e instruções esplícitas, partiu para Avinhão uma embaixada portuguesa, constituída por João Lourenço, cavaleiro de Monsaraz e Pedro Peres, Cónego de Coimbra, encarregados de expor ao Papa João XXII (que em 1316 tinha sucedido a Clemente V) as razões por que o nosso Rei tinha conservado na Coroa as propriedades e os bens templários e porque, atendendo «às graves injúrias, inúmeros danos e outros diferentes e enormes males, os quais tinham feito e não cessavam de fazer os sarracenos, inimigos pérfidos da Fé» (7), sarracenos que vizinhavam no sul (os Califados de Sevilha e Córdova), era necessário criar uma milícia capaz de lhes fazer frente, para tal usando os haveres e rendimentos templários e aproveitando para sua sede o lugar muito fortificável de Castro Marim, nas margens do Guadiana, fronteiro à Espanha muçulmana.

Os embaixadores expuseram de viva voz ao Papa esta pretensão, sublinhando que no castelo de Castro Marim poderia sediar uma santa milícia cujos cavaleiros e professos, deixando as vaidades do mundo e incitados com zelo de verdadeira Fé, prestariam grandes serviços ao nome de Deus e desalojariam os sarracenos, que tanto dano causavam ao seu rei e reino (8).

Está-se a ver o alcance do ardil de D. Dinis. Perante a forma como era apresentada a ameaça muçulmana, tanto mais que o poderio da Espanha moura era ainda uma realidade e o Algarve, só recentemente reconquistado para a fé cristã, corria sempre o perigo de uma invasão, João XXII, concordou com a proposta e, pela Bula Ad ea exquibus cultus augeatur divinus, dada em Avinhão a 14 de Março de 1319, proclamou o estabelecimento de uma nova Ordem de Cavalaria, a Ordem da Milícia de Jesus Cristo («Ordo Militiae Jesu Christi), sendo os seus cavaleiros denominados Cavaleiros de Cristo (Milites Christi).

A sede seria em Castro Marim, devendo os cavaleiros seguir a regra cisterciense, tendo como superior espiritual o Abade de Alcobaça, que poderia quando e como quisesse inspeccionar o chefe e membros da Ordem. Os Mestres deveriam prestar juramento e fidelidade ao Rei, não podendo, eles ou os cavaleiros, alienar os bens da Ordem. Por outro lado a citada bula outorgava, doava e unia, incorporava, anexava e aplicava para todo o sempre à dita Ordem de Jesus Cristo: Tomar, Castelo Branco, Almourol e todos os outros castelos, fortalezas e outros bens móveis e de raiz, homens, etc., etc., que a Ordem do Templo tinha e havia e devia ter nos ditos reinos de Portugal e Algarves (9).

Cortes de Lisboa de 1323 – Wikipédia, a enciclopédia livre

Era afinal a restauração da Ordem do Templo, tanto mais que todos os antigos templários se incorporaram na nova ou renovada Milícia, incluindo o seu último Mestre, D. Vasco Fernandes. E tal foram o desinteresse e rectidão demonstrados por D. Dinis nesta ocasião, sublinhou o historiador alemão Henrique Schaeffer, que a 26 de Novembro daquele mesmo ano, não só mandou entregar à Ordem de Cristo todos os antigos domínios templários, como também mandou restituir nos cavaleiros de Cristo os rendimentos cobrados pelos almoxarifes régios nos bens dos Templários desde a sua extinção (10). Eis o que indica eloquentemente a disposição e os planos, do Rei para a nova Ordem.

Foi a 5 de Maio de 1319 que, dando quase imediato cumprimento à bula do Papa (que ele praticamente tinha ditado), foi celebrada em Santarém a instituição da nova Milícia, tendo como Mestre, nomeado por João XXII sob proposta de D. Dinis, o também Mestre da Ordem de Avis, D. Gil Martins, homem sobre cuja pureza de vida, valor de pessoa, inteireza de Fé e de outros merecimentos de sua natural bondade tinha o Papa louváveis testemunhos (11).

Inaugurava-se deste modo a aproximação entre as duas Ordens de Cristo e de Avis, seguindo esta, aliás, a mesma regra de Cister, colaboração que viria a atingir o seu ponto mais alto no tempo de D. João I, Mestre de Avis, e bem assim em vida dos seus sucessores, até D. Manuel I. Só desta vez foi o Mestre de Cristo nomeado pelo Papa, porque a partir da morte de D. Gil Martins (que sucedeu pouco depois, em 13 de Novembro de 1321), passaria a ser eleito pelos cavaleiros.

Naquele dia 5 de Maio de 1319, em Santarém, com grande pompa, o próprio Rei recebeu pessoalmente o juramento do Mestre de Cristo, D. Gil Martins, que ali foi armado cavaleiro da nova Ordem.

Foi a 11 de Junho de 1321 que se realizou o seu primeiro capítulo, no qual se lhe arrolaram todos os bens (10 cidades e 46 vilas e coutos) e se lhe fixou em 84 o número dos membros, dos quais 69 seriam Freires Cavaleiros, 9 seriam Freires Clérigos e 6 Freires, Serventes ou Sargentos.

Um pequeno grupo, como se vê. Grupo de Freires-Cavaleiros que nunca foi muito maior, visto que no tempo do mestrado do Infante D. Henrique apenas subiria para 100. Mas um corpo de elite, uma aristocracia da coragem, da dedicação total a uma causa e sobretudo do espírito, na continuidade do antigo pensamento templário, mas renovando-se com a influência decisiva de D. Dinis, não podendo esquecer-se que, durante os 11 anos de dormência da Ordem do Templo em Portugal (1308-1319), o Rei e a Rainha lançaram e desenvolveram o Culto e as Festas aristocráticas e populares do Esprito Santo, com a coroação simbólica de um Imperador-homem pobre ou de um Imperador-menino, de um Veltro representante do Evangelho Eterno. Ambas as iniciativas são indissociáveis e complementares, tanto assim que, como já apontámos, nas naus de descoberta e de povoação, capitaneadas por Cavaleiros ou Comendadores de Cristo, as Festas do Espírito Santo eram instauradas (in ob. cit., pp. 125-131).

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A EXTINÇÃO DA ORDEM DO TEMPLO

No tempo de Sancho II ainda as Ordens Militares portuguesas prestaram relevantes serviços à Coroa, combatendo sempre na vanguarda das sucessivas batalhas que levaram à conquista das principais praças do Alentejo. Também sob Afonso II coadjuvaram o Rei na conquista de Faro e do Algarve.

Com a ocupação total do território, contudo, houve um período de natural declínio da sua acção, visto que desaparecera um dos seus propósitos principais. Com o seu olhar de lince, D. Dinis apercebeu-se imediatamente do problema: estas Ordens dependiam da jurisdição exterior, com autoridade sobre os cavaleiros portugueses. Deviam pois obedecer a um centro de poder estranho ao Reino e dificilmente o Estado podia ter alguma autoridade sobre elas.

Urgia completar a independência portuguesa, que assim não era total, tanto mais que por diversas vezes algumas das nossas Ordens, já sem a missão específica da reconquista cristã perante o inimigo comum a todos os Estados peninsulares, tinham actuado ao serviço de interesses estrangeiros.

Era o caso da Ordem de Santiago, por exemplo, que possuindo castelos fronteiros, uma organização, uma preparação, uma força económica inclusivamente, por mais de uma vez, em lugar de servir interesses nacionais, obedecendo a directrizes alheias, chegara a combater contra Portugal e a exercer outras funções desfavoráveis, como sublinha Shaeffer (12).

Havendo praças-fortes essenciais à nossa defesa em sua posse, esta obediência a um mestre castelhano era perigosa, razão porque D. Dinis se resolveu a tudo fazer para conseguir a separação total.

Habilmente enviou uma embaixada ao Papa Nicolau IV e dele conseguiu por Bula de 16 de Setembro de 1288, que os cavaleiros portugueses de Santiago escolhessem um mestre privativo para Portugal, muito embora subordinado à inspecção do Grão-Mestre peninsular. Uma segunda Bula, de 1290, confirmou esta disposição, elegendo-se como primeiro mestre da Ordem em Portugal D. João Fernandes, entre 13 cavaleiros portugueses com direito de voto. Observe-se que D. Dinis conseguiu esta difícil regalia, no mesmo ano em que iniciou as suas diligências para fundar a Universidade. Tinha 27 anos.

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Difícil, dificílima regalia, contestada vivamente pelo Grão-Mestre castelhano, que conseguiu obter do Papa Bonifácio VIII a anulação daquelas disposições de Nicolau IV, confirmadas por Celestino V, indo ao ponto de ordenar aos nossos cavaleiros de Santiago que, sob pena de excomunhão, demitissem o seu mestre português. A partir daí, houve numerosas vicissitudes. Logo que morreu Bonifácio VIII, os cavaleiros lusos voltaram a eleger o seu mestre, o qual, a instâncias dos castelhanos, foi de novo suspenso no Pontificado de João XXII, escrevendo a D. Dinis (por um Breve de 17 de Abril de 1317), para que demitisse o mestre português eleito e obrigasse os cavaleiros da Ordem a obedecerem de novo ao Grão-Mestre de Leão e Castela.

Contudo, D. Dinis não cedeu, no que foi apoiado pelos sucessivos mestres portugueses depois de João Fernandes: Lourenço Annes e Pedro Escacho. Até que, depois de nova embaixada ao Papa, na qual se integrou o Almirante Manuel Pezagno ou Pessanha, obteve enfim o que desejava. Pedro Escacho foi confirmado pela Santa Sé como Mestre de Santiago por uma Bula de 1320.

Quanto à Ordem do Templo, a situação era diferente, até porque, de todas as nove províncias templárias, tanto as simples (Portugal, Aragão e Maiorca), como as duplas (Castela e Leão, França e Auvergne, Inglaterra e Irlanda, Alemanha e Hungria, Itália do Norte e do Sul, Puglia e Sicília) Portugal formava um grupo aparte (13), com cavaleiros obrigatoriamente portugueses. Nunca os templários portugueses, escreveu Schaeffer, se afastaram da lealdade devida ao seu Rei; e, enquanto em Castela e Leão se sublevavam contra seus soberanos, declarando-lhes guerra aberta, mostravam-se em Portugal sempre possuídos de afeição pelo imperante e pela pátria (14).

Aliás, se os Templários tiveram entre nós grandes privilégios e regalias, por outro lado, desde o início que a sua vinculação à Coroa no temporal era absoluta: sem licença do Rei não podiam enviar nada dos seus bens para fora do território, fosse para a Palestina; não podiam dispor livremente das suas propriedades, que ficavam sob a jurisdição real; a eleição do mestre tinha de ter o beneplácito do Monarca, não podendo sair do Reino sem a sua autorização; os mestres eleitos da Ordem tinham de prestar homenagem ao Rei e ao príncipe, jurando reconhecê-lo como herdeiro; só podiam ser admitidos cavaleiros portugueses na Ordem; e o Capítulo da Ordem só podia realizar-se em lugar designado pelo soberano e em presença de um delegado régio.

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Mesmo assim, D. Dinis também não descansou enquanto não se deu a separação da Ordem do Templo de todos os restos de jurisdição exterior, o que sucedeu também em 1288. A partir daqui redobrou a colaboração entre os Templários e D. Dinis, que teve ocasião de experimentar pessoalmente a força espiritual e mesmo combativa da Ordem. Foi muito provavelmente a partir do mestrado de D. Afonso Gomes, que D. Dinis realizou a importância de ter a colaboração de uma Milícia como a do Templo, com todo o seu idealismo cavaleiresco, o seu espírito de luta e de sacrifício, o seu finalismo joanino e graalista. Em seu proveito reedificou Nisa, vila templária. E os Templários, por seu turno, foram a sua principal força de choque (15) no litígio que o opôs ao seu irmão D. Afonso, pela posse das vilas de Arronches, Marvão e Portalegre, que recebera em herança de seu pai, com direito de as poder transmitir por morte; devido aos casamentos castelhanos do irmão, tais vilas arriscavam-se na verdade a passar para a jurisdição de Castela (16). O caso só foi resolvido com o auxílio dos Templários e do seu mestre, sucessor de D. Afonso Gomes, D. Lourenço Martins (17).

Entretanto, na França de Filipe o Belo, graves acusações ameaçavam os Templários franceses. Não nos esqueçamos de que, depois da queda de Acre, o último baluarte cristão na Palestina, a sede do Grão-Mestrado fora deslocada para Chipre e, em 1306, para a França. O seu tesouro e os seus arquivos foram transportados para uma fortaleza próxima de Paris, cidade onde se instalaram, a convite de Filipe o Belo, o Grão-Mestre, Jacques de Molay, e os principais comandantes templários.

A Coroa francesa atravessava a sua maior crise financeira de sempre e, para resolver o problema, Filipe IV, o Belo ou o Formoso, lançou os olhos ávidos sobre os bens dos Templários, que eram de facto imensos (18), devido à sua política bancária. Sentava-se então no trono de S. Pedro o Papa Bonifácio VIII, carácter forte e ambicioso, que afastara, enquanto Cardeal Gaetani, o joaquimita e «espiritual» Celestino V. O conflito era inevitável e, no choque de vontades entre os dois partidos, após vicissitudes várias, ultrajado, esbofeteado e preso no seu palácio de Anagni, pelos partidários de Filipe o Belo e dos seus aliados italianos, os Colonna, o então octagenário Bonifácio VIII acabou por sucumbir, cumprindo-se o anátema dos partidários de Celestino V: entrou como lobo, reinou como leão, morrerá como cão (19).

Depois do breve pontificado de Bento XI, foi eleito Papa Bertrand de Goth, Arcebispo de Bordéus, com o nome de Clemente. Esta eleição de um Papa francês, na cidade francesa de Lyon, onde foi coroado, deve-se à estratégia de Filipe o Belo, que, tendo sido tão contrariado por Bonifácio VIII, pretendia agora dominar a própria Cúria romana. E consegui-o, mediante uma série de estratagemas, numa das fases mais conturbadas da história da Igreja.

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Ao que parece, Filipe o Belo fizera um pacto secreto com o então Arcebispo de Bordéus, num encontro realizado numa floresta perto de S. João de Amely, mediante o qual se propunha assegurar-lhe a eleição como Sumo Pontífice, desde que se comprometesse a satisfazer seis condições, entre as quais as de criar Cardeais os que o Rei indicasse e de restituir os irmãos Colonna, destituídos por Bonifácio, à dignidade cardinalícia, o que daria ao Rei de França maioria influente no Sacro Colégio. Haveria também uma sexta cláusula, secreta, a cumprir só depois da eleição, e que seria a extinção da Ordem dos Templários (20).

Uma vez eleito, Clemente V satisfez todas as cinco primeiras cláusulas, mas, receando voltar a Roma, onde não tinha suficientes apoios, instalou-se sucessivamente em Poitiers, em Toulouse e por fim em Avinhão em 1309, de onde ele e os seus sucessores, durante 70 anos, governaram a Igreja. Foi o que muitos historiadores eclesiásticos chamaram o novo Cativeiro da Babilónia, pela deslocação da Cúria para fora de Roma e sobretudo por ter caído debaixo da influência dos soberanos franceses.

À luz destes acontecimentos, compreende-se como pôde Filipe o Belo, com a ajuda do seu braço direito Nogaret, criar o cenário dentro do qual lhe foi possível conseguir a extinção, em seu benefício, da Ordem dos Templários, apoderando-se dos seus bens.

A Vieira d'Areia, que estudou cuidadosamente o processo, ao qual dedicou um livro, coligindo no final um resumo das declarações, apensas, de 231 testemunhas, ouvidas de 11 de Abril de 1310 a 26 de Maio de 1311 pela comissão de inquérito nomeada por Clemente V, escreveu que os Templários eram os banqueiros do rei. Haviam-lhe concedido um grande empréstimo, fixando um prazo cujo fim se aproximava com assustadora velocidade (21).

Foi então que o Rei concertou com o Papa o golpe contra os Templários, que não só anularia a dívida, como encheria os cofres reais. Decerto a Ordem, privada da cruzada na Terra Santa, liberta a Europa dos sarracenos, parecia não já ter finalidade clara ou, pelo menos, consensual. Tinha enormes riquezas. Funcionava, no económico, como um Banco. A inactividade reforçava, em vez de atenuar, o orgulho dos cavaleiros, pelo menos em França, tornando-se, estribada nos seus privilégios, arrogância e altanaria perante os poderes real e eclesiástico. Em suma, perdia pouco a pouco a popularidade, além de que o transporte do tesouro palestino para Paris ainda mais aguçara o apetite real.

Foi neste momento que dois antigos freires-cavaleiros do Templo, que tinham sido expulsos da Ordem devido a várias infracções e delitos e que tinham sido presos e acusados de assassínio pela justiça secular, fizeram revelações extraordinárias.

Verdadeiras, exageradas, deturpadas ou forjadas por Nogaret e outros cúmplices do Rei? É esse o enigma, até hoje controverso. Segundo eles, em súmula rápida, deviam os cavaleiros, no momento da sua iniciação, cuspir na Cruz e renegar o nome de Cristo; por outro lado, adorariam um ídolo chamado Bafomet e entregar-se-iam a orgias e práticas de sodomia.

Baseado nas declarações de dois criminosos confessos, o Rei agiu rapidamente e com inteligência, enviando comissários seus com cartas de prego, fechadas, para Troyes, Bayeux, Caen, Ruão, Carcassone e todos os pontos onde havia Conventos, Comandarias ou Centros Templários. No mesmo dia e à mesma hora, para que não houvesse «fuga», os Templários deveriam ser todos presos. E assim foi. No dia 13 de Outubro de 1307, oficiais da polícia real apresentaram-se nas sedes da Ordem em nome do Rei, do Papa e com um mandato da Inquisição. Colhidos de surpresa, sem informações, não sabendo quais as acusações ou se o seu caso seria único, admitindo que tudo se deveria a um equívoco que depressa seria desfeito, os Templários franceses deixaram-se prender sem resistência. E de imediato começou a instrução do processo, um dos mais volumosos, demorados e - porque não o dizer? - também um dos mais iníquos de todos os tempos (22).

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Os inculpados deveriam responder a 127 perguntas, que implicavam acusações extremamente sérias, não só as já citadas, como muitas outras, tais as de que era ensinado aos cavaleiros que Cristo era um falso profeta, que não deviam acreditar nos sacramentos, que os padres da Ordem omitiam no cânone da Missa as palavras da consagração, que no momento da recepção dos Irmãos, estes deviam beijar os iniciados na boca, no ventre ou noutros lugares do corpo, que adoravam ídolos, etc.

Sob terríveis torturas (23) e sob as ameaças e pressões tremendas a que foram submetidos nas prisões, depois de meses inteiros a pão e a água, numerosos templários confessaram os seus «crimes» de heresia, de blasfémia ou de sodomia. No entanto, mais tarde, perante a comissão pontifical, muitos se retrataram, negando tudo o que anteriormente tinham confessado. Mas estes foram os primeiros a morrer!

Não entraremos na discussão sobre a veracidade ou inveracidade de tais acusações, para as quais foram encontradas pelos comentadores diversas explicações. Contariam algumas delas semiverdades? Tratar-se-ia nalguns casos de «praxes» ou brincadeiras como as da recepção aos caloiros nas Universidades ou na tropa? Pretendia-se testar a fé e a convicção dos iniciados? Ou, por exemplo, no caso da alegada praxe de cuspir na cruz, tratar-se-ia de uma prova de anti-idolatria, inspirada na repugnância islâmica e bizantina (durante o Iconoclasma do século VII, pelo menos) pela adoração das imagens, já que a pura fé prescinde das imagens visuais e artísticas, reducionistas da grandeza ou da infinitude divinas? Teria havido abusos da parte de alguns templários?

Não pretendemos de modo algum analisar a fundo todas estas questões, até porque tal nos levaria longe demais... Mas não é crível na verdade, como escreve Louis Charpentier, que não tenham sido verdadeiros homens de fé esses cavaleiros que durante duzentos anos - ou quase - lutaram, bateram-se, derramaram sem regatear o seu sangue pela Cristandade e que, quando eram feitos prisioneiros, antes se deixavam executar pelos Muçulmanos do que renegar a sua fé católica (24).

Isto sem esquecer que sempre comungaram regularmente segundo os preceitos e que, na prisão, suplicavam que os deixassem assistir à Missa e receber a Eucaristia (25). Aliás, o que demonstra não ter havido provas de heresia que satisfizessem a Comissão Pontifical, os Templários foram condenados, mas não excomungados (26).

Não obstante, e apesar da visível relutância de Clemente V, que acabou por ceder às chantagens e pressões do Rei, os Cavaleiros do Templo começaram rapidamente a ser sentenciados e a ser entregues à justiça secular depois de 11 de Maio de 1310, quando em Sens foram queimados na fogueira os primeiros cinquenta e quatro acusados. A partir daí a escalada sinistra só terminou a 18 de Março de 1314, quando o próprio Jacques de Molay, o Grão-Mestre, cujos depoimentos conhecidos são entre si extremamente contraditórios, foi queimado vivo no adro da Catedral de Nossa Senhora de Paris.

Ao ouvir nessa ocasião a leitura pública das acusações, o Grão-Mestre tomou a palavra para desmentir tudo quanto até aí se tinha dito, ou o tinham obrigado a dizer, ou constava das suas confissões, afirmando que assinara documentos sem os ler, que eram falsos todos os crimes atribuídos à Ordem e que estava inocente.

Jacques de Molay Painting by Boyan Yanev

Segundo a tradição, ao ser atingido pelas chamas da fogueira, Jacques de Molay teria emprazado o Papa e o Rei a comparecerem, com ele, dentro de um ano, perante o tribunal divino (27). O certo é que nesse mesmo ano, a 14 de Abril (menos de um mês depois), morreria Clemente V, e a 29 de Novembro Filipe, o Belo, apenas com 46 anos, sem que os médicos da Corte tivessem sido capazes de fazer um diagnóstico sobre as causas da morte.

Antes, porém, pela Bula Vox in excelso, submetida ao Concílio de Viena, a 3 de Abril de 1312, o Papa extinguiu a Ordem do Templo, sem contudo se pronunciar pela sua condenação canónica, decerto devido às irregularidades do processo (28). A Bula Ad providam fez conhecer a decisão a todo o mundo cristão.

Só houve execuções em França, contudo, visto que os restantes países tiveram para com eles uma outra consideração, apesar de nalguns casos os soberanos terem aproveitado para se apoderar dos seus bens. Assim, se em Inglaterra Eduardo II confiscou em proveito da Coroa todos os bens da Ordem, havendo um inquérito, mas sendo os acusados absolvidos, se na Itália houve reacções variáveis, desde Nápoles e o Piemonte onde foram perseguidos, até à Sicília, onde foram igualmente absolvidos, já na Alemanha o concílio de Mogúncia se pronunciou pela inocência dos freires, sendo os seus bens, contudo, distribuídos pelos senhores feudais e pela Ordem dos Cavaleiros Teutónicos.

O certo é que mesmo com este atributo geral de benevolência, a Ordem foi extinta. E na Península Ibérica? E em Portugal - que se passou realmente? (in ob. cit., pp. 117-124).

Os templários: quem eram, o que fizeram e como acabaram - HiperCultura

Notas:

(1) H. Schaeffer, História de Portugal, I Vol., ob. cit., p. 135. Estes elementos foram colhidos principalmente, não só na História de Shaeffer, cap. Os Templários e a Ordem de Cristo, abonando-se principalmente da Monarquia Lusitana, mas também nos mencionados livros de Vieira Guimarães e A. Vieira d'Areia, respectivamente sobre A Ordem de Christo e O Processo dos Templários.

(2) H. Shaeffer, ob. cit., p. 316.

(3) Dante, Divina Comédiaob. cit., Paraíso, 19, 124.

(4) Ibid., 130 e 136.

(5) Ibid., 139.

(6) Sampaio Bruno, D. Dinis e os TempláriosA Águia, n.º 40, Abril de 1915, in Os Cavaleiros do Amor, Guimarães Ed., Lisboa, 1960. p. 169.

(7) Vieira Guimarães, A Ordem de Christoob. cit., p. 58.

(8) Ibid.

(9) Ibid., p. 59.

(10) H. Shaeffer, História de Portugalob. cit., p. 318.

(11) Da Bula Ad ea exquibus, cit. por Vieira Guimarães, A Ordem de Christo, ob. cit., p. 559.

(12) H. Shaeffer, História de Portugalob. cit., pp. 300 a 305.

(13) Louis Charpentier, Les Mystères Templiers, Ed. Robert Laffont, Paris, 1967, p. 128.

(14) Ibid., p. 310.

(15) Vieira Guimarães, A Ordem de Christo, ob. cit., p. 51.

(16) Veríssimo Serrão, História de Portugal, I Vol., ob. cit., p. 249.

(17) A Ordem de Christoob. cit., p. 51.

(18) Calcula-se que o rendimento do Templo atingia a soma, espantosa para a época, de dois milhões de libras, contrastando por exemplo com o da Casa Real francesa, que não ultrapassava as oitenta e quatro mil libras. Vieira D'Areia O Processo dos Templários, Livr. Civilização, Ed., Lisboa, 1949, p. 86.

(19) Ibid., pp. 25 a 29.

(20) Ibid., p. 35.

(21) Ibid., p. 39.

(22) Ibid., p. 43.

(23) Só em Paris, escreve Vieira d'Areia, os tormentos mataram trinta e seis freires da Ordem, enquanto em Troyes vinte e cinco morreram nos interrogatórios, ibid., pp. 50 e 51.

(24) Les Mystères Templiersob. cit., p. 212.

(25) Ibid.

(26) Ibid., p. 61.

(27) O Processo dos Templáriosob. cit., p. 65.

(28) Quando o Concílio de Viena marcava passo, pois os delegados não se resolviam a tomar uma decisão clara à manutenção ou extinção da Ordem do Templo, Filipe o Belo marchou sobre esta cidade, acompanhado do seu irmão Carlos, dos seus filhos e de tropa fortemente armada. Assustado, Clemente V convocou a comissão principal deste Concílio e pôs à votação saber-se se a Ordem deveria ser extinta imediatamente, mesmo sem ouvir a defesa dos Templários. Todos os delegados, excepto, honra lhes seja prestada, os delegados da Catalunha e de Aragão, pronunciaram-se pela dissolução sem defesa, o que sucedeu a 22 de Março de 1312, confirmado a 3 de Abril. Foi o sufrágio do medo, Les Mystères Templiersob. cit., p. 66.


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