sábado, 1 de agosto de 2026

O dia de S. Traidor - António José de Brito

 




«(...) E veio o dia de São Traidor…!
- Como é próprio de uma época em que a traição, a vileza, a covardia e a abjecção são os traços dominantes, o que se censura hoje a Salazar é o que ele teve verdadeiramente de grande e elevado.
- Classifica-se de atitude suicida a sua oposição férrea e persistente a todos os oportunismos e a todas as diversas soluções políticas que traduziam apenas a vontade de não lutar pela integridade das fronteiras seculares de Portugal quando foi esse, ao invés, um dos seus mais belos títulos de nobreza: ter reconhecido lucidamente que a única solução política digna era combater à outrance pela grandeza da Nação que só existia esse meio de conservar o que era nosso há centenas de anos e de assegurar um futuro de prosperidade e ordem e que, assim, no caso de se perder tudo o resto, se salvava, ainda, o bem mais precioso de um povo que é a sua honra. Porque sobrevive-se enquanto Pátria a uma derrota gloriosa, mas não a um abandono ao inimigo por comodismo, medo, indiferença pelo interesse comum.(…)
- Ainda não tinha fechado os olhos e já se entrava no caminho das autonomias crescentes para as províncias ultramarinas (que – admitia-se sem rebuço – viriam acaso a produzir a independência futura das mesmas) como se a missão do Estado fosse andar a semear Brasis pelo mundo, em vez de velar pela intangibilidade do património histórico e espiritual herdado dos antepassados.
Depois, os ventos semeados deram as tempestades previsíveis. Veio o dia de São Traidor e iniciou-se, oficialmente, a construção de um país novo – ou antes de uma horda movida pelos instintos de prazer e egotismo – para o que procedeu, desapiedadamente, à destruição do que era um autêntico país – o nosso país. Em nome da edificação de um Portugal maior, reduziram-no a um inviável e anárquico rectângulo peninsular.
- Em nome da liberdade, impôs-se a ideologia obrigatória do antifascismo. Em nome dos direitos do homem, espancou-se, torturou-se, elaboraram-se leis penais com efeitos retroactivos, agravadas a seguir por uma triste assembleia que se chama da República. Em nome da paz, centenas de milhares de brancos, pretos e mestiços tombaram vítimas da descolonização exemplar, ao passo que milhões de outros, sem serem ouvidos e achados, foram entregues ao jugo soviético. Em nome do bem-estar dos desfavorecidos e desprotegidos, arrasou-se a economia, estabelecendo-se o princípio, que conduz à miséria geral, de que o importante é diminuir o trabalho e aumentar o ganho. Em nome da independência nacional, mendigam-se empréstimos aos capitalismos lá de fora, empenhando-se o que nos resta. (…)
- Mas enquanto os coveiros da nação se arrastam no seu carnaval, aqueles para quem a fidelidade não é uma palavra vã, para além dos vermes e pigmeus actuais, volvem as suas mentes e corações para a figura cimeira de Salazar, o derradeiro estadista nascido nesta terra para quem se pode erguer o pensamento sem se ter de corar de pejo e tristeza.»
Retirado de “A Rua” do Professor Doutor António José de Brito.

Em nome da verdade - o PREC.

 



«Na noite de 27/28 de Setembro de 1974 e dias seguintes, foram presas centenas de pessoas, civis e militares, a maior parte das quais surpreendidas a dormir em suas casas. Entre os presos militares, encontrava-me eu. O pretexto foi a "Manifestação da Maioria Silenciosa" que se preparava para o dia 28, em apoio ingénuo ao Presidente da República, General António Spínola. Inventou-se ter a Manifestação propósitos sediciosos contra Costa Gomes, Vasco Gonçalves e Otelo Saraiva de Carvalho, o que, embora muitos o desejassem, não correspondia em absoluto a qualquer realidade.

Os mandatos de captura, bastantes dos quais assinados em branco, referiam o crime de "associação de malfeitores", parece que criação notável do Dr. Salgado Zenha. A maioria dos detidos foi conduzida para o Forte de Caxias, tendo quase todos os militares sido, após alguns dias, transferidos para a Prisão Militar da Trafaria. Na generalidade dos casos, não houve culpa formada, nem interrogatórios formais e válidos.

(...) O documento [ESTADO PORTUGUÊS RÉU CONDENADO PELA PRISÃO DE KAÚLZA DE ARRIAGA] (....), resume o facto da minha prisão, alguns acontecimentos com ela relacionados, nos quais se distingue a acção judicial, em consequência por mim movida contra o Estado Português, e, muito especialmente, a Sentença do Tribunal da Auditoria Administrativa de Lisboa e o Acordão do Supremo Tribunal Administrativo, dando-me razão plena e condenando o Estado Português.

Alguns têm estranhado o valor reduzido da indemnização - 100.001$00 - em que o Estado foi condenado. Devo esclarecer que fui eu próprio que não quis maior indemnização, dado entender tratar-se de uma reparação essencialmente moral e não de um processo de auferir lucros materiais. Lucros que, de resto e em última análise, apenas sobrecarregariam os contribuintes. Por outro lado, eu não me podia sentir atingido ou sequer tocado, no meu foro íntimo, com a miserabilidade dos agentes do Estado responsáveis pela prisão de que fui objecto, pela sua duração e pelo que durante ela ocorreu. Os grandes atingidos, os violados maiores, foram, sim, não só a Legitimidade e a Legalidade como a Moral, a Verdade, a Liberdade, a Justiça e os Direitos Basilares do Homem. Cem mil e um escudos era, na época, a indemnização mínima que podia exigir-se, sem prejuízo de eventuais recursos para instâncias superiores.

(...) Ainda hoje é, para mim, evidente que, se após o "25 de Abril" me mantivesse General do activo e até se na situação de reserva não tivesse sido preso, me sentiria na obrigação nacional de procurar evitar, a todo o custo, a descolonização e a marxização do País. E, ou conseguiria o sucesso tudo salvando, ou, admito, em face do logro em que viviam os portugueses, mais provavelmente teria perdido e seria pessoalmente destruído.

Assim e com a mesma probabilidade, os então novos dominadores de Portugal, sem o desejarem, bem pelo contrário, acabaram por me prestar, no plano pessoal, "saneando-me" e prendendo-me, grande serviço.

Por outro lado, também involuntariamente, acabaram do mesmo modo por me conferir, mantendo-me preso até se consumarem aquelas descolonização e marxização, o privilégio de, com verdade, poder proclamar ser eu uma das poucas pessoas e dos pouquíssimos militares que, nem por acção, nem por passividade ou omissão, tiveram quaisquer responsabilidades, directas ou indirectas, na execução do desastre nacional.

Tudo isto sem prejuízo, não só da iniquidade, arbitrariedade e prepotência praticadas, como da ilegitimidade, ilegalidade e dolo havidos, como ainda da violação verificada dos mais basilares Direitos do Homem».

Kaúlza de Arriaga («Guerra e Política. Em Nome da Verdade. Os Anos Decisivos»).

O dia de S. Traidor - António José de Brito

  «(...) E veio o dia de São Traidor…! - Como é próprio de uma época em que a traição, a vileza, a covardia e a abjecção são os traços domin...