«(...) Importa desmistificar o 25 de Abril, em relação ao que poderia ter oferecido ao Ultramar português - e não ofereceu. Importa denegar a promessa contida no primeiro comunicado do Movimento das Forças Armadas, pelo qual tudo se faria por via política, que se respeitaria a unidade territorial do Ultramar, e que, naturalmente, se encontraria uma solução para a luta, à data, branda e de quase nulos efeitos na vida normal das populações, que continuava nas terras angolanas.
Importa desmistificar um 25 de Abril que entrou em nossas casas com a alegria de uma libertação, com o engano de que encerrara um doloroso período em que até o pensar era subversivo. Um 25 de Abril florido (que mau presságio foi a cor dos cravos...) abrindo as portas da democracia aos portugueses e fechando-lhes as das perseguições, as das inimizades ideológicas, as dos compadrios. Um 25 de Abril que substituísse, para bem de todos nós, as estruturas políticas da ditadura, que impedisse a destruição do património nacional, que trilhasse a estrada larga da harmonia, que se opusesse a prisões arbitrárias, à opressão, aos favores para alguns, dando lugar à justiça para todos.
Importa desmistificar o 25 de Abril, trágico logro em que caíram os de boa-fé, vazadouro de invejas, ambições, vinganças pessoais, incompetências, crueldades, ódios e cobardias.
Importa desmistificar a revolução dos cravos (vermelhos), que sangrou o País dos seus técnicos, da sua inteligência, do seu equilíbrio emocional. Um 25 de Abril talhado à medida dos medíocres, dos falhados, dos senhores com alma de lacaios».
Pompílio da Cruz («Angola: Os Vivos e os Mortos»).
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