«Na noite de 27/28 de Setembro de 1974 e dias seguintes, foram presas centenas de pessoas, civis e militares, a maior parte das quais surpreendidas a dormir em suas casas. Entre os presos militares, encontrava-me eu. O pretexto foi a "Manifestação da Maioria Silenciosa" que se preparava para o dia 28, em apoio ingénuo ao Presidente da República, General António Spínola. Inventou-se ter a Manifestação propósitos sediciosos contra Costa Gomes, Vasco Gonçalves e Otelo Saraiva de Carvalho, o que, embora muitos o desejassem, não correspondia em absoluto a qualquer realidade.
Os mandatos de captura, bastantes dos quais assinados em branco, referiam o crime de "associação de malfeitores", parece que criação notável do Dr. Salgado Zenha. A maioria dos detidos foi conduzida para o Forte de Caxias, tendo quase todos os militares sido, após alguns dias, transferidos para a Prisão Militar da Trafaria. Na generalidade dos casos, não houve culpa formada, nem interrogatórios formais e válidos.
(...) O documento [ESTADO PORTUGUÊS RÉU CONDENADO PELA PRISÃO DE KAÚLZA DE ARRIAGA] (....), resume o facto da minha prisão, alguns acontecimentos com ela relacionados, nos quais se distingue a acção judicial, em consequência por mim movida contra o Estado Português, e, muito especialmente, a Sentença do Tribunal da Auditoria Administrativa de Lisboa e o Acordão do Supremo Tribunal Administrativo, dando-me razão plena e condenando o Estado Português.
Alguns têm estranhado o valor reduzido da indemnização - 100.001$00 - em que o Estado foi condenado. Devo esclarecer que fui eu próprio que não quis maior indemnização, dado entender tratar-se de uma reparação essencialmente moral e não de um processo de auferir lucros materiais. Lucros que, de resto e em última análise, apenas sobrecarregariam os contribuintes. Por outro lado, eu não me podia sentir atingido ou sequer tocado, no meu foro íntimo, com a miserabilidade dos agentes do Estado responsáveis pela prisão de que fui objecto, pela sua duração e pelo que durante ela ocorreu. Os grandes atingidos, os violados maiores, foram, sim, não só a Legitimidade e a Legalidade como a Moral, a Verdade, a Liberdade, a Justiça e os Direitos Basilares do Homem. Cem mil e um escudos era, na época, a indemnização mínima que podia exigir-se, sem prejuízo de eventuais recursos para instâncias superiores.
(...) Ainda hoje é, para mim, evidente que, se após o "25 de Abril" me mantivesse General do activo e até se na situação de reserva não tivesse sido preso, me sentiria na obrigação nacional de procurar evitar, a todo o custo, a descolonização e a marxização do País. E, ou conseguiria o sucesso tudo salvando, ou, admito, em face do logro em que viviam os portugueses, mais provavelmente teria perdido e seria pessoalmente destruído.
Assim e com a mesma probabilidade, os então novos dominadores de Portugal, sem o desejarem, bem pelo contrário, acabaram por me prestar, no plano pessoal, "saneando-me" e prendendo-me, grande serviço.
Por outro lado, também involuntariamente, acabaram do mesmo modo por me conferir, mantendo-me preso até se consumarem aquelas descolonização e marxização, o privilégio de, com verdade, poder proclamar ser eu uma das poucas pessoas e dos pouquíssimos militares que, nem por acção, nem por passividade ou omissão, tiveram quaisquer responsabilidades, directas ou indirectas, na execução do desastre nacional.
Tudo isto sem prejuízo, não só da iniquidade, arbitrariedade e prepotência praticadas, como da ilegitimidade, ilegalidade e dolo havidos, como ainda da violação verificada dos mais basilares Direitos do Homem».
Kaúlza de Arriaga («Guerra e Política. Em Nome da Verdade. Os Anos Decisivos»).
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