domingo, 2 de agosto de 2026

Subversão e Terrorismo em África.

 



«A URSS, a Checoslováquia, a Jugoslávia e Cuba são os países do bloco leste que maior dinamismo irão mostrar em África durante os anos sessenta. Nestes estados comunistas, são montados serviços e organizações e formados especialistas para "trabalhar" os africanos. África é considerada zona "intermédia" ou "centro convulso". A URSS, Cuba e China desenrolarão em África esforços propagandísticos muito superiores aos dos países ocidentais, com o fim de neutralizar politicamente o continente, em relação ao diferendo Leste-Oeste, de conseguir adeptos nos governos constituídos ou colocar no poder grupos que lhes sejam ideologicamente favoráveis, ou que, no mínimo, sejam contrários aos Estados Unidos.

A estratégia externa cubana reside em exacerbar as contradições internas em países onde existam crises económicas, para assim provocar uma reacção repressiva, a fim de paralisar a sociedade e tornar viável a ascensão das vanguardas marxistas e pró-castristas, que depois aproximarão o país do bloco soviético.

Fidel Castro sobrestima as possibilidades internacionais para o desencadear de revoluções "à cubana". O fulcro da propaganda de Castro situa-se na exaltação do modelo cubano e na tomada do poder pela violência; além disso, procura convencer por todos os meios o Terceiro Mundo de que os EUA são a causa de todos os seus problemas. Este é o suporte teórico para a experiência do "foco" guerrilheiro e para a estratégia da subversão; o Congo, em África, o Vietname na Ásia, além, claro está, da própria Cuba, na América Latina, são os exemplos práticos em que assenta toda a retórica do sistema.



(...) Na sua propaganda, Cuba adopta as causas afro-asiáticas de maior aceitação: a descolonização, o anti-apartheid, a unidade africana, o anti-sionismo (primeiro velado, depois declarado), o direito da China a ser admitida na ONU, o apoio ao Vietcong, etc... No campo diplomático, cultivam-se as relações com uma quantidade de estados "moderados", além dos países "progressistas" afro-asiáticos: Ghana, Guiné, Mali, Egipto, Iraque, Síria, Tanzânia, Congo-Brazzaville, Daomé, Ceilão (Sri Lanka), Índia, Indonésia, Cambodja (Campucheia), Birmânia, Laos, Vietname do Norte.

(...) A inclinação e o interesse inicial dos soviéticos por Sékou Touré (mais do que por Nkrumah) deve-se à tendência teórica marxista evidenciada pelo líder guineense e à ausência de uma classe comercial profissional "pró-ocidental", contrariamente ao que acontece no Ghana. Também terá influído a desvinculação do exército da Guiné em relação à França, ao contrário do ganês, que mantinha estreitos laços com a Inglaterra. Por outro lado, durante a crise congolesa, Nkrumah desempenhara um papel nem sempre coincidente com as posições de Kruschev. No fim, Moscovo fracassaria, nas suas pressões para que Modibo Keïta, do Mali, e Kwame Nkrumah, do Ghana, institucionalizassem o "socialismo científico", através de um partido comunista.

(...) Kwame Nkrumah mantém centros de treino de guerrilheiros dos "movimentos de libertação" de toda a África Ocidental.

(...) A URSS, não obstante, encontrava-se muito mais activa que a China, dentro dos movimentos anti-portugueses, a partir de lugares como Ghana, Guiné, Congo Brazzaville, Tanganica e Uganda. A URSS mantinha os seus centros de instrução militar e apoiava politicamente tais movimentos.

O primeiro intento sério da URSS, respeitante às colónias portuguesas, seria a promoção da Frente Revolucionária para a Independência Nacional das Colónias Portuguesas, criada na Guiné, em 1959, por intermédio do Embaixador soviético, Daniel Solod.

A URSS, no início dos anos sessenta, estimava que o ponto mais vulnerável da cadeia colonial de Lisboa era Angola, seguida pela Guiné Bissau. Depois dos soviéticos darem uma conferência em Moscovo, com o MPLA, em Dezembro de 1960, seria iniciada em Angola a violência dirigida pelo MPLA. A China, não obstante, não se decidia a entrar na questão com a UPA, de Holden Roberto, ou o MPLA de Mário Pinto de Andrade (velho militante do partido comunista português, com amplos vínculos dentro do partido comunista francês, tendo colaborado com o diário soviético PRAVDA). O MPLA, contava, na época, com vários militantes europeus e, sobre Agostinho Neto, um dos seus líderes, pesavam suspeitas de colaboração com os portugueses.

Decrescendo o poder militar do MPLA, em 1963, quando a OUA confirmou a UPA de Holden Roberto e Jonas Savimbi como representante da luta armada em Angola, a URSS perdeu a influência nos movimentos angolanos. O MPLA enfrentaria uma profunda divergência entre os grupos de Agostinho Neto e Lúcio Lara, apoiados na altura pelo Congo Brazzaville e o grupo de Viriato Cruz, o qual se uniria ao GRAE de Holden Roberto e receberia ajuda da China e da Argélia. Embora o MPLA continuasse a manter estreitos laços com Moscovo, ao mudar a sua sede de Brazzaville para a Zâmbia começou a ser cortejado pelo Embaixador chinês na Tanzânia, Ho Hing.



No GRAE, desenvolveu-se uma luta entre Holden Roberto e Jonas Savimbi, tendo culminado com a rotura do movimento. Em Dezembro de 1963, Holden Roberto entrevistava-se com o Marechal sino Chen Yi, em Nairobi, onde consegue a promessa chinesa de armamentos, enquanto Chou en Lai discutia com Ben Bella, nesse mesmo mês, a possibilidade de estabelecer bases de treinos na Argélia, para o MPLA, a UPA de Holden Roberto e o PAIGC de Amílcar Cabral.

O PAIGC recebeu da China a ajuda necessária para lançar as suas primeiras acções militares, nos princípios de 1963. Desde o início de 1960, membros do PAIGC eram enviados por Amílcar Cabral para receberem treino militar na China, Checoslováquia e Ghana.

O bureau político soviético, ficou inquieto, perante a campanha chinesa em África e Ásia. Mikail Suslov, alertou o resto dos dirigentes, numa notícia secreta, em 14 de Fevereiro de 1964, sobre as intenções sinas e a necessidade de se lhe prestar atenção. A partir desse momento, a URSS lançou-se numa ofensiva, com vista a ampliar as suas relações com os Estados africanos constituídos, como o Senegal, Quénia e Nigéria. Os soviéticos alargavam as pistas do aeroporto de Conakry, a fim de disporem de um ponto intermédio entre a URSS e Cuba. No final do ano (1964), a Guiné começou a reconsiderar a sua posição com respeito à URSS. Sékou Touré introduziria mudanças internas na organização do Partido Democrático da Guiné e corrigiu vários ministros demasiado "anti-soviéticos".

(...) A subversão na África, ao longo de sessenta, não pode ser considerada um elemento marginal, dentro da política externa de Havana. A pouca divulgação internacional da acção castrista em África leva a pensar (sobretudo após a sua invasão de Angola), que ao entrar nos anos sessenta Castro inaugura a sua política extra-americana independente. No continente americano, pensa-se erradamente que a exportação da revolução apenas tem como objectivo a América Latina.

Desde o seu início, a política africana é dirigida e supervisada por altas figuras da equipa castrista: "Che" Guevara, Osmany Cienfuegos, Manuel Piñeiro, Jorge (Papito) Sergera, Raul Castro e o próprio Fidel. Os meios, recursos, dinheiro, armas e homens, de forma aberta ou camuflada, canalizados para África, especialmente depois da crise dos mísseis, foram substanciais.



A presença cubana em África, anterior à invasão de Angola, explica-se como conveniente para objectivos ideológicos e políticos, mas a presença de Cuba na década dos anos sessenta foi permanente em locais como a Guiné, Argélia e Congo Brazzaville. Sem ser tão institucionalizada como nos anos setenta, a década de sessenta não deixa de ter uma estratégia coerente, de onde os actos cubanos não são resultado de improvisações ou factos conjunturais. Castro está presente no conflito argelino-marroquino, na destruição do sultanato de Zanzíbar, ajuda as guerrilhas da UPC [União dos Povos dos Camarões], no Camarão e as PAI [Partido Africano da Independência], no Senegal; treina e apoia logisticamente o PAIGC da Guiné Portuguesa; oferece "guardas pretorianas" a presidentes africanos, como Sékou Touré e Massemba-Débat; apoia o modelo de "Che" Guevara no Congo Léopoldville e treina, financia e doutrina centenas de guerrilheiros africanos de várias origens, nas escolas de subversão.

Os últimos anos da década de sessenta são um período de reconsideração política, sobretudo na Guiné e na Argélia. Restabelecem-se os laços com a Argélia, mediante um acordo secreto que convém ao chefe da DGI [Direcção-Geral de Inteligência], Manuel Piñeiro e à chefia dos serviços secretos argelinos. No campo económico, fortalece-se os laços com Marrocos, o esforço canaliza-se até ao PAIGC, através de Amílcar Cabral, ao MPLA, à FRELIMO e à facção camaronesa de Woungly-Massaga. Realiza-se um esforço para explorar novamente o corno sul-africano, enquanto se incuba a sucessão na Eritreia e se colabora com a URSS (através da DGI), à volta dos acontecimentos do Biafra, na Nigéria.

O castrismo parece mais inclinado a considerar o apoio à guerrilha nas colónias britânicas (Rodésia, Nyasa), onde pode ser favorável a internacionalização do conflito, e forçar uma decisão favorável ao campo soviético. Os serviços secretos cubanos trabalham contra o Senegal, o Camarão, o Congo e as colónias portuguesas.

(...) A penetração e subversão castrista na África do Sul, aproximam-se de Nelson Mandela, líder do Congresso Nacional Africano (ANC) que em 1962, durante a sua estada no Ghana, pediu dinheiro, armamentos e facilidades para treino de militares. Esta petição foi recebida com agrado por Havana, mas o encarceramento de Mandela impossibilita pôr-se em prática um plano de violência armada na África do Sul, somado ao pouco respeito de Castro pelos líderes do ANC, como Albert Lutuli e Oliver Tambo.



O Partido Comunista sul-africano aproxima-se de Cuba e do bloco soviético, através do jornalista marxista inglês Idris Cox. Os meios africanistas cubanos, não obstante, mostram-se cautelosos.

Em Moçambique, o bloco soviético faz eco dos comentários de Kwame Nkrumah, que acusam o presidente da FRELIMO, Eduardo Mondlane, de estar ao serviço da CIA. Mesmo assim, o embaixador cubano na Tanzânia, Pablo Rivalta, apresenta a segunda figura da FRELIMO, Marcelino dos Santos, como um elemento de toda a confiança. Rivalta informa que os acampamentos de treinos guerrilheiros da FRELIMO, na Tanzânia, estão "contaminados" pela CIA através dos "corpos da paz". A mútua pendência entre Castro e a FRELIMO mantém-se até quase à independência moçambicana.

A FRELIMO, não obstante, continua a receber a ajuda da Tanzânia, Zâmbia e China, e de um outro "assessor" cubano. Nos seus campos de treino, A FRELIMO conta com a colaboração de militares chineses e tanzanianos. (Os castristas verificam como a FRELIMO, a mais poderosa organização nas terras ultrécada de sessenta, verifica-se a presença de guerrilhas cubanas no PAIGC. Amílcar Cabral situa-se então no grupo moscovita e os serviços secretos cubanos começam a "trabalhá-lo". Camarinas portuguesas, se lhes escapa).

Castro joga a cartada do PAIGC, na Guiné-Bissau e Cabo Verde, contrabalançando com os chineses. No princípio da dentros de treino e vias de aprovisionamento são estabelecidos na Guiné. Para tal, Sékou Touré passa por cima das suas divergências com Castro, ao ponto da segurança cubana assegurar a sua guarda pessoal. Uma "ajuda técnica", na esfera agro-pecuária, é o pretexto escolhido para camuflar esta actividade.

(...) Durante todo o tempo da "desaparição" de Che Guevara, nos círculos relacionados com a problemática africana, soube-se que ele mesmo se estava a ocupar de todos os pormenores do esboço guerrilheiro do centro sul-africano: estudando materiais, estabelecendo contactos, supervisionando o treino dos guerrilheiros, organizando redes informativas, abastecimentos, incrementando a espionagem, etc.



A ideia é simples: Vietname na Ásia, o Che Guevara em África (apoiado pela Argélia, Ghana, Congo Brazzaville e Tanzânia, para derrubar os colonialismos inglês e português que ainda restavam, assim como os do regime rodesiano e sul-africano), enquanto Fidel Castro se ocupava da América Latina. Esperava-se assim, comprometer os Estados Unidos na zona sul-africana e na América Latina, além do Vietname, provocando uma grande confusão.

A ideia pretende desenvolver a primeira introdução real de guerrilha no Congo Léopoldville, com duas bases: o Congo Brazzaville e a região dos Lagos da Tanzânia. Depois de se instaurar em Léopoldville um governo do MNC [Movimento Nacional Congolês], com Gaston Sumialot e Christopher Gbenye à frente, tornar-se-ia fácil desferir golpes laterais, a partir de ambos os Congos, até Angola, e da Tanzânia sobre Moçambique. Esperava-se unir os dois Congos e constituir uma franja duma costa à outra (com ambos os Congos, Angola, Tanzânia e Moçambique), o que propiciaria o desmoronamento do sistema com um governo dos futuros guerrilheiros do Zimbabué. Depois disso, considerava-se que a África do Sul Ocidental (Namíbia) fosse uma conquista fácil.

A África do Sul e a Namíbia são os pontos chave de toda a estrutura. Especulava-se com duas alternativas: uma extensa luta guerrilheira na Namíbia e na África do Sul, ou a invasão da África do Sul com um exército africano, sob as ordens de Che Guevara, atacando a partir de diversos países fronteiriços. Desta maneira, por intermédio de Che, o castrismo esperava transformar África num elemento estável da sua política. Se, no decorrer da evolução do plano, verificasse a intervenção militar norte-americana, então implementar-se-ia a estratégia da confusão, com dois, três, vários Vietnames.

(...) O terrorismo sempre figurou na agenda de Castro, ainda que se tentem dificultar as evidências. Muitas das organizações que operaram nos anos sessenta obtiveram treino, bases e inclusive instrução cubana. O PLO, as Brigadas Vermelhas, os tupamaros, os montoneros, o comando Boudiaf e outras mais pequenas devem parte da sua existência à generosidade de Fidel Castro.

A ligação de Havana com o editor italiano Giangiacomo Feltrinelli, chefe das Brigadas Vermelhas, tornou-se pública nos finais da década. Fidel Castro tinha contribuído com largas somas de dinheiro e tinha-o ajudado a construir uma rede de contactos na Europa. Feltrinelli travou relações pessoais com Che Guevara e com Fidel Castro e a sua editora publicaria a revista "Tricontinental", a voz internacional de Fidel Castro, financiada pelos seus serviços secretos. Com a autorização de Castro, Feltrinelli publicou em várias línguas os manuais: "Guerra de Guerrilha" de Che Guevara e "Guerrilha Urbana" de Carlos Marighella.

Castro ajudou a formar o comando terrorista do grupo palestino pró-soviético, Frente Popular para a Libertação da Palestina, de George Habash e cujo braço armado é conhecido como "Comando Boudiaf", que seria dirigido por Mohamed Boudiaf, argelino, ex-benbelista e amigo pessoal de Fidel Castro. Depois da misteriosa morte de Boudiaf, a embaixada de Cuba, em Paris, seria o eixo da posterior reorganização deste grupo, que viria a ter como chefe o lendário Ilich Ramírez Sánchez (Carlos, o Chacal).

Carlos tinha participado na conferência Tri-Continental de Havana, durante a qual recebeu um curso especial de comando na província de Matanzas e que compreendia: guerrilha urbana, armas automáticas, explosivos, sabotagem, cartografia, fotografia, falsificação, etc.

Dali, a DGI recomendou-o à KGB para efectuar este curso especial na URSS, Carlos recebeu em Cuba treino de contra-informação, após o que se incorporou no comando de Mohamed Boudiaf, na Europa.



O governo inglês confirmaria a ligação da embaixada cubana em Londres com as actividades de Carlos, assunto que provocou a expulsão de um agente de serviços secretos cubanos que actuava sob cobertura diplomática. Por seu lado, André Mousset, Ministro do Interior de França, afirmara o envolvimento directo de Cuba nos planos terroristas de Carlos "o Chacal"; Mousset demonstraria as relações de pelo menos três diplomatas cubanos com Carlos em Paris.

"...após vários dias de investigação, o governo francês ordenou a expulsão de três diplomatas cubanos, sob acusação de que eram cúmplices de Carlos (o terrorista Ilich Ramírez Sánchez), e os serviços secretos cubanos não empreendem tais acções sem autorização da KGB..."

É a época em que Fidel Castro se entrega completamente à criação e fortalecimento de organizações terroristas, tais como as Brigadas Vermelhas, os tupamaros, os montoneros, o MIR chileno, os comandos palestinianos de George Habash, os grupos de comando no México, os mocheteros em Porto Rico, o movimento Weatherman, etc.

(...) A subida ao poder do coronel Khadafi, na Líbia, desperta a curiosidade e o interesse da URSS e de Cuba, que tentariam submetê-lo às suas posições. O líbio, ainda muçulmano fanático, de tendência indecifrável, concretiza o desafio petrolífero contra os países ocidentais que apoiam Israel e desencadeia uma vaga de subversão e terrorismo anti-sionista na área.

No ano de 1966, Raul Castro instalou-se em Hanói para discutir a concessão de ajuda militar. Cuba oferece treino à aviação e artilharia, assim como ajuda em trabalhos de contra-espionagem e interrogatórios. Cuba abre uma embaixada em território Vietcong, enquanto Raul Castro discute, com a Coreia do Norte, a possibilidade de oferta de treinos aos movimentos e guerrilhas de África e América Latina.

(...) Cuba não dispõe nos anos sessenta de uma política definida para o Médio Oriente, em parte pela frieza das suas relações com Nasser, e porque a URSS procedia com cautela antes da ligação de Yasser Arafat com a China. A partir do problema militar egípcio na "Guerra dos 6 Dias" com Israel, em 1967, a influência, auxílio financeiro e material, treino militar e santuários de Nasser para os "movimentos de libertação" da África entram em declínio. Mesmo assim, a Liga Árabe, move-se para posições mais moderadas.

As pressões soviéticas para que Castro rompa com Israel materializam-se com a visita de Alexei Kosygin a Havana, em 1967, mas Cuba resiste a estas pressões, ainda que, por outro lado, Castro mantenha relações ocultas com a facção palestiniana pró-soviética e George Habash. Abu Iyad, o braço-direito mais próximo de Yasser Arafat, comentara que desde 1966, a OLP enviara militares para treinos em Cuba, e que os instrutores cubanos efectuaram treinos nos campos de manobra palestinianos. O diferendo Castro-Nasser tinha contribuído para que Havana mantivesse esta posição ambivalente com a OLP e Israel; enquanto a sua propaganda oficial apresentava Tel-Aviv como instrumento norte-americano, técnicos israelitas auxiliavam os planos citrícolas de Cuba. A velha guarda estalinista era evidentemente pró-nasserista e anti-Israel, enquanto os "neo-marxistas", as forças armadas, a juventude comunista e a população evidenciavam a sua preferência pelo "David" mesoriental.



Castro e Khadafi (além da URSS, Sudão e Egipto) fazem convergir desde o início a sua ajuda à Frente de Libertação Eritreia, promovendo a criação de um Estado independente da monarquia etíope. Castro, a URSS e o egípcio Nasser reconheciam o valor deste território, pelos seus portos (Assab e Massawa), que davam acesso ao Mar Vermelho. Esta posição inicial a favor da independência da Eritreia, causara transtornos políticos a Castro quando os seus exércitos entraram em acção, em 1978, a favor do etíope Mengistu Haile Mariam, decidido a acabar com as aspirações de independência da Eritreia.

A partir de 1969, o "akid" Khadafi lança uma severa campanha contra Fidel Castro, devido às suas relações com Israel e ao seu "falso não-alinhamento". Khadafi procura entre outras coisas afastar Fidel Castro como possível centro do não-alinhamento. Castro descobre então o reencontro cubano-argelino, que se vem concretizando desde a visita que o Chanceler e chefe dos serviços secretos de Boumédiène, Abdulaziz Bouteflika, efectuara em Havana em Novembro de 1968.

(...) O período que vai desde o descalabro guerrilheiro na Bolívia, em 1967, até à invasão de Angola, não é de inactividade ou pura reconstrução doméstica quanto a África. Além das missões militares na Serra Leoa, Guiné Equatorial, Somália, Argélia, Moçambique, assim como as do Yémen do Sul, Síria e Iraque, treinam-se, armam-se, financiam-se na Zâmbia, Benin, Congo Brazzaville, Guiné, Madagáscar, Mali, Líbia e Burundi. Reforçam-se as missões diplomáticas e serviços secretos em África e no Médio Oriente, estendendo-se ao Egipto, Tanzânia, Congo Brazzaville, Guiné, Argélia, Síria, Iraque, Yémen do Sul, etc. Castro mantém cursos de treinos subversivos e ajuda militar aos "movimentos de libertação" africanos.

(...) A invasão de Angola não significa um corte estratégico ou a introdução de um novo esquema, mas a culminação de um processo que se inicia simultaneamente em Cuba e na URSS, no final dos anos sessenta, com a consolidação de Brezhnev e a subida do grupo internacionalista e do complexo militar-industrial, o fortalecimento interno dos velhos marxistas em Cuba, assim como a introdução de esquemas sócio-económicos soviéticos. Angola encontra antecedentes na forma como a URSS e Cuba se movimentam no Yémen do Sul e na Somália, assim como na sua participação conjunta na Síria, em 1973.Na ordem ideológica, Castro criou as condições para que o seu próximo "internacionalismo" militar não provoque desavenças. Tomam-se medidas de controlo dos intelectuais e militantes do extinto movimento de 16 de Julho (inimigos da velha guarda estalinista cubana). Suprime-se a revista "Pensamento Crítico", de tendência anti-soviética, assim como a publicação das chamadas Obras Polémicas. Nas Universidades e escolas pré-Universitárias introduz-se o estudo do marxismo-leninismo e eliminam-se as disciplinas de filosofia e sociologia. No terreno laboral, dita-se a "isabelina" (Lei contra vagabundos) que permite encarcerar todo aquele que não se encontre a trabalhar. Legaliza-se a detenção "preventiva" dos indivíduos supostos opositores "potenciais" (a Lei do suspeito)».

Juan F. Benemelis («Castro, subversão e terrorismo em África»).

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