quarta-feira, 9 de setembro de 2026

A dramática descolonização

 



Os Que Vieram de África: uma história de regresso, ruptura e recomeço.

A descolonização portuguesa, iniciada na sequência do 25 de Abril de 1974 e concretizada com as independências dos antigos territórios africanos, provocou uma das maiores deslocações populacionais da história contemporânea de Portugal. Entre 1974 e os anos seguintes, centenas de milhares de pessoas deixaram Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe, dirigindo-se sobretudo para Portugal.

É neste contexto histórico que se insere o livro “Os Que Vieram de África”, da jornalista e escritora Rita Garcia, publicado em 2012. A obra recupera histórias de famílias que, perante a instabilidade política, a guerra e o processo de descolonização, foram obrigadas a abandonar em pouco tempo as vidas que tinham construído em África.

O regresso não significou, para muitos, voltar a uma terra verdadeiramente conhecida. Apesar de uma parte significativa ter nascido em Portugal, muitos dos que chegaram tinham nascido em África ou vivido ali durante grande parte da vida. Por isso, a palavra “retornado”, que rapidamente entrou no vocabulário português, nem sempre traduzia a realidade dessas pessoas.

Uma chegada marcada pela incerteza

Os números ajudam a compreender a dimensão do fenómeno. Dados dos Censos de 1981 apontam para 471 427 pessoas provenientes das ex-colónias africanas, sendo cerca de 290 mil de Angola e 159 mil de Moçambique. Outras estimativas académicas colocam o número global de pessoas que abandonaram as suas residências em África entre 1974 e 1979 entre 500 mil e 800 mil.

Angola assumiu uma posição central neste movimento. Com o agravamento da situação política e militar em 1975, milhares de pessoas procuraram sair do território. A chamada ponte aérea entre Angola e Portugal tornou-se uma das imagens mais marcantes daquele período. Entre Agosto e Outubro de 1975, foram transportados por essa operação mais de 228 mil passageiros.

Em Portugal, porém, o desembarque representava apenas o início de outra viagem: a da adaptação. Muitas famílias chegaram sem casa, emprego ou meios suficientes para reconstruir imediatamente a sua existência. O Estado criou, em Março de 1975, o Instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais (IARN), destinado a apoiar o alojamento, a alimentação, a instalação e a integração dos recém-chegados.

Hotéis, pensões, residenciais e outras instalações foram utilizados para acolher milhares de pessoas. Segundo documentação histórica divulgada pela RTP, em determinado momento mais de 71 mil desalojados encontravam-se alojados através de estruturas apoiadas pelo IARN.

Entre a memória e a integração

A chegada dos retornados também revelou tensões numa sociedade portuguesa que atravessava uma profunda transformação política, económica e social. Houve dificuldades de habitação e emprego e, em determinados sectores, os recém-chegados foram recebidos com desconfiança e associados injustamente a privilégios coloniais.

A investigação da socióloga Elsa Peralta demonstra que a experiência dos retornados não pode ser reduzida a uma história única. As memórias, identidades e formas de integração foram diversas e, em muitos casos, marcadas pela necessidade de esconder ou reformular a própria condição de “retornado”.

É precisamente essa dimensão humana que torna “Os Que Vieram de África” uma obra relevante para compreender um dos capítulos mais complexos da história portuguesa recente. Mais do que números, estatísticas ou operações de transporte, existe uma sucessão de vidas interrompidas: casas deixadas para trás, fotografias, amizades, negócios, escolas, bairros e paisagens africanas que permaneceram na memória de quem partiu.

A história dos que vieram de África é, assim, também uma história sobre identidade. Para muitos, Portugal era simultaneamente o país de origem e um lugar desconhecido. África, por seu lado, deixara de ser apenas um território onde tinham vivido: transformara-se numa memória, numa referência afectiva e, em muitos casos, numa parte inseparável da sua identidade.

Décadas depois, o tema continua a suscitar debate e investigação. Instituições como o Museu do Aljube têm procurado preservar a memória do colonialismo, das lutas de libertação, da descolonização e das experiências humanas que acompanharam a transformação política de Portugal e dos países africanos.

“Os Que Vieram de África” recorda, por isso, que a descolonização não terminou no momento em que foram proclamadas as independências. Para centenas de milhares de pessoas, começava então uma outra história: a de perder uma vida, chegar a uma sociedade diferente e tentar reconstruir, em Portugal, aquilo que o tempo e a história tinham interrompido.

Fontes consultadas: RTP – Descolonização Portuguesa e Memórias da Revolução; Elsa Peralta, A integração dos “retornados” na sociedade portuguesa, revista Análise Social; Museu do Aljube – Resistência e Liberdade; Portal Português de Arquivos; Rita Garcia, Os Que Vieram de África.

REAT, Rádio Estudantil Angolana de Transmissões

Sem comentários:

Enviar um comentário

A verdadeira razão da guerra Rússia/Ucrânia.

  Muitos falam daquilo de que não fazem a menor ideia. Para que se possa opinar de forma imparcial e verdadeira é necessário conhecer os fac...