«Profundo e ambicioso no saber, clássico e claríssimo na exposição, deixa-nos um livro excelente – As Crises e os Homens – e um legado único, a biografia de Salazar, que retrata a personalidade ímpar do estadista e toda a História de uma época.
Com a morte de Salazar abandona as lides do Estado. Eram outros os seus desígnios e por mais respeito que lhe merecesse Marcello Caetano, não esconde a sua preocupação no evoluir da política seguida quanto ao Ultramar, e sintetiza a dado momento: “Com a revolução de Abril de 1974 praticou-se um corte com o passado. Muitas forças procuraram, e acaso algumas procuram, que esse corte, além de drástico, seja absoluto: uma rotura com o passado e não apenas com um certo passado. Foi assim posto em causa o próprio facto nacional, e tentou-se a destruição do homem português na sua dimensão psicológica, sociológica, cultural, histórica, em suma, como homem diferenciado com alicerces próprios, autónomos”.
Durante o curto período de 1970 a 1974 entregou-se afincadamente ao estudo da História orientado pelos valores que constituem o nosso património cultural, espiritual, artístico, e pela defesa intransigente da nossa individualidade política. Como tal foi convidado a participar em congressos, colóquios, reuniões ou simples encontros, ou foi colunista na nossa imprensa, quer a nível nacional quer no plano internacional, dando testemunho do que mais tarde viria a denominar “crepúsculo nacional”, que bem pode preludiar uma noite definitiva, como escreveu em Um Político Confessa-se.
O facto é que o seu vaticínio se torna realidade, e, em 1974, Portugal, “a Nação Peregrina em Terra Alheia”, atinge o seu termo. O resto é do domínio público.
Franco Nogueira, como muitos outros, é então preso por malfeitor, fica incomunicável durante meses, e quando o visito no Hospital de Santa Maria, vítima de um enfarte do miocárdio, rodeado pela mais severa segurança, encontro-o resignado e com bonomia a conversar com os médicos que o escutavam atentamente. Regressa a Caxias e, meses após, inexplicavelmente, é liberto em 13 de Maio de 1976, data que ele nunca esqueceu, principalmente por coincidir com o aniversário da primeira aparição em Fátima.
Pouco depois parte para o exílio, em Londres, onde habita um apartamento em St. James. Como diplomata, ministro e homem público, conquistara verdadeiros admiradores que o acolhem na sua permanência em Londres, embora convidado por outros países, como os Estados Unidos da América. O Clube dos Conservadores abre-lhe as portas, com a particularidade de ser o único estrangeiro que o podia frequentar e convidar pessoas das suas relações. Em Londres deixa amizades. No exílio, sempre com Portugal como preocupação prioritária, estuda e lê, prossegue a biografia de Salazar. Cultiva o humanismo no sentido mais amplo do termo, como me escreve por essa ocasião.
No regresso de Londres, talvez por 1981, dado o seu permanente e constante fervor patriótico, Franco Nogueira vive intensamente o desenrolar dos acontecimentos políticos. Fala-se da nossa adesão à C.E.E., na unidade económica e política da Europa. As elites ou classes bem-pensantes achavam-se no poder, e o povo, a nação, completamente à deriva. Desde 1974, encontrava-se uma sociedade doente, anárquica, negativa, derrotista, sem querer, sem ideal, arrastada por valores fugazes e falsos; os responsáveis, pautados por princípios tendentes a abandonar património material e espiritual, confundem Portugal com tudo o que é alheio a Portugal.»
António Maria M. Pinheiro Torres («Franco Nogueira e a Unidade Nacional»).
Sem comentários:
Enviar um comentário