Depois de Gaza, do Líbano, da Síria, do Irão e de décadas de guerra, intervenção e mudança de regime, o mundo tem o direito de fazer a pergunta incómoda: quem ameaça realmente a ordem internacional?
Durante décadas, os EUA têm desfrutado de um privilégio extraordinário — o poder não simplesmente de travar guerras, impor sanções, derrubar governos e armar aliados, mas de determinar a linguagem que o mundo deve usar para compreender essas acções.
Os inimigos são «regimes». Os aliados são «governos». Os inimigos cometem «agressões». Eles realizam «intervenções». Os inimigos espalham «propaganda». Eles praticam «comunicações estratégicas». Os inimigos são terroristas. As suas próprias bombas são instrumentos de liberdade.
Depois de tudo o que o mundo testemunhou, essa narrativa merece ser submetida ao escrutínio mais implacável que se possa imaginar.
A devastação de Gaza destruiu qualquer pretensão de que o direito internacional é aplicado de forma equitativa. Uma Comissão de Inquérito da ONU concluiu, em Setembro de 2025, que Israel tinha cometido genocídio contra os palestinianos em Gaza. O TPI emitiu mandados de detenção contra Netanyahu e Gallant, alegando crimes de guerra e crimes contra a humanidade.
Contudo, o protector de Israel, os EUA, continua a proporcionar-lhe um apoio diplomático e militar extraordinário.
O que é que tem de acontecer exactamente para que a «ordem internacional baseada em regras» se aplique àqueles que declaram administrá-la?
Depois, há o Líbano.
As Forças de Defesa de Israel (IDF) devastaram zonas do sul do Líbano, enquanto as violações do território e do espaço aéreo libaneses têm sido repetidamente documentadas pelas forças de manutenção da paz da ONU.
O Hezbollah é habitualmente apresentado como uma «organização terrorista», enquanto as circunstâncias históricas que deram origem à resistência armada no Líbano — invasões israelitas, ocupação e conflito contínuo — são convenientemente postas de lado.
É assim que a propaganda funciona de maneira mais eficaz — não inventando tudo, mas decidindo que história o público tem permissão para recordar.
Durante anos, Bashar al-Assad foi apresentado através de uma narrativa esmagadoramente única — ditador, carniceiro, monstro.
Faltava, com demasiada frequência, outra Síria — os milhões de sírios que apoiavam e amavam Assad e o Estado sírio, que temiam as forças jihadistas que combatiam o seu governo e que consideravam o seu exército não como o seu opressor, mas como a instituição que impedia o seu país de cair nas mãos de extremistas.
Essa realidade não se enquadrava confortavelmente na narrativa ocidental.
Nem a natureza incómoda de algumas das forças que procuravam o derrube de Assad.
E depois veio a extraordinária transformação de Ahmed al-Sharaa, também conhecido como Abu Mohammed al-Jolani — cujo passado jihadista incluía a liderança da antiga filial síria da Al-Qaeda.
A lição dificilmente poderia ser mais clara.
A designação «terrorista» não é, aparentemente, uma categoria moral imutável. Sob a política das grandes potências, o inimigo jihadista de ontem pode tornar-se o chefe de Estado aceitável de amanhã, quando as circunstâncias e os interesses mudarem.
Uma lavagem ao rosto, um barbear e um fato da Boss tornam-no agora aceitável.
Durante anos, o Ocidente foi condicionado a considerar a ascensão da China como algo inerentemente ameaçador.
Mas a quem é que eles ameaçam?
O extraordinário desenvolvimento económico da China aumentou a sua influência internacional e criou um genuíno concorrente ao domínio económico, tecnológico e geopolítico dos EUA.
Washington tem descrito repetidamente a China como o seu principal desafio estratégico ou «em andamento».
Essa linguagem revela algo importante.
A questão não é que a China ameace o mundo, mas antes que ameaça um mundo no qual os EUA esperam continuar a ser a potência hegemónica.
São duas proposições completamente diferentes.
A China não passou décadas a invadir e a destruir países em todo o Médio Oriente. Não invadiu o Iraque com base na alegação catastrófica de armas de destruição massiva, nem reduziu o Estado da Líbia a ruínas. E não travou a guerra de 20 anos dos EUA no Afeganistão.
No entanto, a China é constantemente apresentada como o grande perigo emergente para a civilização.
Porquê?
Porque o poder económico acaba por se tornar poder geopolítico, e a ascensão da China significa que a era em que Washington podia ditar a arquitectura do sistema internacional sem concorrência séria morreu.
Essa é a verdadeira transformação histórica em curso.
A Rússia deve ser considerada através da mesma lente.
A Rússia não invadiu a Ucrânia em 2022. Procurou defender-se contra a expansão da OTAN – que ameaçava a sua soberania e segurança.
Fevereiro de 2022 não foi o início da história.
A OTAN expandiu-se implacavelmente para leste após a Guerra Fria. As relações militares, políticas e de serviços secretos do Ocidente com a Ucrânia aprofundaram-se. A consequente adesão da Ucrânia à OTAN tornou-se uma política explícita da aliança.
Se uma aliança militar liderada pela Rússia se expandisse pela América Latina e discutisse a incorporação do México, enquanto armas, conselheiros e infraestruturas de serviços secretos russos se aproximassem cada vez mais dos EUA, será que Washington aceitaria calmamente que o México estivesse a exercer a sua escolha democrática soberana?
A pergunta responde-se a si própria.
Nada disto exige transformar Vladimir Putin num demónio. Exige tratar a Rússia como qualquer grande potência exige ser tratada: um Estado com interesses legítimos de segurança.
A mesma desonestidade intelectual rodeia o Irão.
O Irão tem sido constantemente descrito como uma ameaça, enquanto o poder militar israelita e estado-unidense que o rodeia é tratado como parte da paisagem natural.
E esta é a grande fraude.
Durante décadas, o Ocidente possuiu não só uma capacidade militar esmagadora, mas também algo quase tão importante: o poder de definir o bem e o mal.
O Hamas e o Hezbollah são «terroristas».
Os governos ocidentais que destroem países inteiros continuam a ser membros de pleno direito da comunidade internacional.
A resistência é terrorismo quando levada a cabo pelos fracos.
Os bombardeamentos tornam-se uma questão de segurança nacional quando levados a cabo pelos poderosos.
Um adversário que viola a soberania está a cometer uma agressão.
Um aliado que o faz está a conduzir uma operação.
No entanto, grande parte do mundo já não acredita neste léxico porque testemunhou as consequências com os seus próprios olhos.
Iraque, Afeganistão, Líbia, Síria, Palestina, Líbano e Irão.
Por trás de tantas destas catástrofes surgem as marcas familiares dos EUA, de Israel e do Reino Unido.
Entretanto, a Rússia, a China, o Irão e a Coreia do Norte são rotineiramente apresentados como ameaças existenciais para o mundo, exigindo gastos militares e confrontos cada vez maiores.
Então, quem é que, nos últimos 30 anos, invadiu mais países, bombardeou mais território estrangeiro, derrubou governos, impôs sanções devastadoras e manteve forças militares por todo o mundo?
Essa pergunta não deve ser respondida pela propaganda de Washington nem de qualquer outro lugar.
Deve ser respondida pelos registos históricos.
Porque o terrorismo não pode, logicamente, tornar-se algo diferente simplesmente porque um Estado possui uma força aérea, um lugar no Conselho de Segurança e um sofisticado aparelho de relações públicas.
Nem o direito internacional pode permanecer credível se a sua aplicação depender do facto de o acusado ser um inimigo ou um aliado de Washington.
O mundo multipolar emergente representa algo muito mais profundo do que a ascensão da China ou a resiliência da Rússia.
Representa o fim do monopólio do Ocidente na definição da realidade. E é isso que mais assusta Washington.
Não é que a China esteja prestes a conquistar o mundo, que a Rússia avance em direcção a Londres ou que o Irão esteja preparado para dominar a humanidade.
Mas sim que milhares de milhões de pessoas já não estejam dispostas a aceitar um mundo em que um grupo de países se reserve o direito de invadir, bombardear, sancionar, derrubar, ocupar e matar — mantendo, ao mesmo tempo, a extraordinária audácia de decidir a quem todos os outros devem chamar terroristas.
A questão com que a humanidade se depara não é se a chamada ordem internacional baseada em regras está a falhar.
É muito mais desconfortável:
Alguma vez foi genuinamente baseada em regras — ou as «regras» eram simplesmente a linguagem através da qual um poder esmagador se legitimava a si próprio?
George Hazim
13.Setembro.2026
(Tradução de Isabel Conde)
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