quinta-feira, 25 de março de 2021

A Hipocrisia do Amor ao Povo

 


Estes amam o povo, mas não desejariam, por interesse do próprio amor, que saísse do passo em que se encontra; deleitam-se com a ingenuidade da arte popular, com o imperfeito pensamento, as superstições e as lendas; vêem-se generosos e sensíveis quando se debruçam sobre a classe inferior e traduzem, na linguagem adamada, o que dela julgam perceber; é muito interessante o animal que examinam, mas que não tente o animal libertar-se da sua condição; estragaria todo o quadro, toda a equilibrada posição; em nome da estética e de tudo o resto convém que se mantenha.
Há também os que adoram o povo e combatem por ele mas pouco mais o julgam do que um meio; a meta a atingir é o domínio do mesmo povo por que parecem sacrificar-se; bate-lhes no peito um coração de altos senhores; se vieram parar a este lado da batalha foi porque os acidentes os repeliram das trincheiras opostas ou aqui viram maneira mais segura de satisfazer o vão desejo de mandar; nestes não encontraremos a frase preciosa, a afectada sensibilidade, o retoque literário; preferem o estilo de barricada; mas, como nos outros, é o som do oco tambor retórico o último que se ouve.
Só um grupo reduzido defende o povo e o deseja elevar sem ter por ele nenhuma espécie de paixão; em primeiro lugar, porque logo reprimiriam dentro em si todo o movimento que percebessem nascido de impulsos sentimentais; em segundo lugar, porque tal atitude os impediria de ver as soluções claras e justas que acima de tudo procuram alcançar; e, finalmente, porque lhes é impossível permanecer em êxtase diante do que é culturalmente pobre, artisticamente grosseiro, eivado dos muitos defeitos que trazem consigo a dependência e a miséria em que sempre o têm colocado os que mais o cantam, o admiram e o protegem.
Interessa-nos o povo porque nele se apresenta um feixe de problemas que solicitam a inteligência e a vontade; um problema de justiça económica, um problema de justiça política, um problema de equilíbrio social, um problema de ascensão à cultura, e de ascensão o mais rápida possível da massa enorme até hoje tão abandonada e desprezada; logo que eles se resolvam terminarão cuidados e interesses; como se apaga o cálculo que serviu para revelar um valor; temos por ideal construir e firmar o reino do bem; se houve benefício para o povo, só veio por acréscimo; não é essa, de modo algum, a nossa última tenção.

Agostinho da Silva, in 'Considerações' 

4 comentários:

  1. Um texto que faz sintese do drama classico e eterno, pela forma como os que governam o Planeta. Mexer na "Consciencia" dos que nos governam, seria um "Milagre! O "Virus" é cronico e apanha todos os que entram nela com "boas ideias" ficam contaminados! O Ser Humano é fraco quando entra na "Bolha" dos que governam....

    ResponderEliminar
  2. Deturpar as palavras deste grande homem, um homem de esquerda, Anarquista mesmo, segundo quem o conheceu, para avançar a vossa agenda excludente e assassina, devia dar-vos vergonha de cobrirem a cara de trampa.
    BILTRES!
    MORTE AO FASCISMO!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Ó Zézito, quiçá Sócrates, explica lá essa coisa do fascismo, consegues?
      Ainda vais ter o atrevimento de dizer que o Agostinho da Silva era marxista, aliás, na mente de um imbecil, com as palas do politicamente correcto e com a cassete do partido encafiada nos cornos, tudo é possível!!!

      Eliminar
    2. E, já agora essa tal de agenda excludente e assassina, porquê, que eu saiba, não faço a apologia a regimes ou ideologias esquerdinas, marxistas ou libertárias tão queridas dos idiotizados de esquerda...

      Eliminar

Nos 100 anos da Revolução de 28 de Maio de 1926.

  CEM ANOS DA REVOLUÇÃO DE 28 DE MAIO DE 1926 O QUE TERIA SIDO DA REVOLUÇÃO SEM SALAZAR???!!! ANTÓNIO DE OLIVEIRA SALAZAR assumiu a pasta d...