Passo os olhos pelas notícias da semana com a mesma sensação de inevitabilidade com que os homens do século V olhariam para o fumo que subia das fronteiras do Reno. Há um cansaço histórico que se respira hoje nas capitais europeias, um pressentimento de fim de época que já não pertence apenas ao território da intuição literária ou do misticismo teológico, mas que se tornou a própria matéria da nossa realidade quotidiana. Aquilo a que assistimos — e que alguns escritores de lucidez profética foram anunciando ao longo do último século, e que o próprio livro de Daniel ou o do Apocalipse desenham nas suas visões de colapso e inversão de valores — não é uma crise conjuntural ou um mero solavanco geopolítico. É uma demolição planeada, conduzida de cima para baixo, com a paciência burocrática de quem sabe que para destruir um edifício milenar é preciso primeiro minar os seus alicerces morais.
A Europa que conhecemos nasceu da desintegração do Império Romano, erguendo-se sobre duas colunas colossais que moldaram a nossa arquitetura mental: o Direito Romano, com a sua obsessão pela justiça e pela ordem civil, e o Cristianismo, que infundiu uma dimensão transcendente e uma sacralidade à dignidade humana que o paganismo desconhecia. Foi dessa fusão improvável que emergiu um continente capaz de pensar, de criar e de limitar o poder absoluto dos reis através da lei. Hoje, porém, assistimos a uma inversão grotesca. O direito foi anulado e transformado num instrumento de engenharia social, onde as leis já não servem para proteger o cidadão, mas para o vigiar e subjugar. Os sistemas políticos sofreram uma corrupção absoluta, esvaziados de qualquer debate ideológico real e reduzidos a uma encenação de tecnocratas submissos a interesses que não prestam contas a nenhum eleitorado.
O sintoma mais alarmante desta agonia é a eliminação deliberada do pensamento e da filosofia. Numa sociedade anestesiada pelo ruído digital e pela urgência do consumo efémero, a capacidade de questionar foi banida. Já não se formam cidadãos; programam-se consumidores obedientes. As universidades, que outrora foram o berço da disputa intelectual e da busca pela verdade, transformaram-se em centros de doutrinação e conformismo, onde qualquer dissidência é punida com o silêncio ou com o linchamento moral. Há um medo generalizado de pensar fora da cartilha oficial, como se a inteligência fosse agora um crime de lesa-pátria.
Neste processo de reconfiguração forçada, as elites que nos governam parecem empenhadas em cortar os laços com a herança histórica do continente. Há algum tempo, numa declaração que passou quase despercebida pelo filtro cúmplice dos mass media, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou que «a Europa está baseada no Talmud». Esta substituição semântica e conceptual da matriz greco-romana e cristã por uma tradição jurídica e teológica distinta não é um mero lapso de retórica. É o reflexo de uma agenda que visa redefinir a identidade europeia a partir do topo, desconectando-a da sua memória histórica e das suas raízes populares para a alinhar com uma nova ordem legal e moral que a maioria dos europeus não escolheu.
Encontramo-nos, assim, a habitar as ruínas de uma civilização que abdica de si mesma. E quando as ruas das nossas cidades rompem no clamor de manifestações violentas, como temos visto nas últimas semanas, o observador atento não encontra ali o verdadeiro protesto do cidadão comum. Pelo contrário, assiste-se a mais uma engrenagem da própria farsa: tumultos que parecem friamente coreografados, protagonizados por grupos organizados e obscuros cuja única missão é alimentar o caos e justificar a subsequente mão de ferro do Estado. É a encenação perfeita de uma revolta teatralizada que serve apenas para que o cidadão normal se recolha, assustado, na sua impotência. Caminhamos na penumbra deste outono civilizacional, assistindo ao espetáculo desta destruição planeada onde os bárbaros já não precisam de invadir as nossas fronteiras: eles ocupam os gabinetes onde se assinam as diretivas do nosso crepúsculo e desenham as revoltas que nos devem paralisar.
Teresa Silva

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