sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Mulheres Portuguesas

 




Mulheres portuguesas que envergonhariam Rambos, Schwarzeneggers & Lagerthas.

Florbela Espanca em tempos escreveu, “dum português bendito, sem igual eu sigo o mesmo trilho: por cada pedra deste Portugal eu arriscava um filho!” Espírito de antanho não estranho a outras lusas como Isabel d’Avelar, mãe que perdeu cinco filhos nas guerras de Portugal no norte de África e na Índia. Quando a Rainha Regente, Dona Catarina, lhe encaminhou um representante oferecendo condolências pelo último, nominado Jorge Nunes de Leão, respondeu Isabel d’Avelar:

«Já perdi quatro filhos em Benefício da Coroa nas guerras da Índia, assim ainda muito mais senti a perda deste agora aqui em Mazagão [Marrocos]. Porém, ainda tenho outro & estou a educá-lo para que também possa honradamente acabar neste cerco!»

Em muito me desagrada falar no imperativo, por bem recordemos Dona Filipa de Vilhena, mãe que entregou uma espada a cada um de seus filhos, «dizendo-lhes que não voltassem senão honrados com os louros da vitória.»

Choremos Ana Fernandes, na ocasião de pessoalmente defender um baluarte em Diu, vendo cair morto o seu filho ela continuou pelejando, só após a vitória lhe ofertando lágrimas e sepultura.

Cantemos Catarina Moreira, inobstante de atingida por uma bala de mosquete à queima-roupa, entrando pelo ombro e saindo pelas costas, nem assim virou o flanco, afirmando que «ainda estava boa para matar um par de turcos.»

Celebremos Dona Izabel da Veiga, defronte as companheiras enjoadas de não mais que tão unicamente tratar dos feridos, pediu aos homens armaduras com que vestidas baterem o inimigo.

Espantemo-nos com Dona Inês Pessoa de Almeida Castelo Branco, sozinha liderou um exército privado com cerca de seis mil escravos guerreiros.

Respeitemos Dona Beatriz de Albuquerque, Governadora da América Portuguesa pelo «dobro do tempo que por costume se dava para a ocupação deste posto»; «assumiu a chefia de zonas tão vastas & de difícil acesso que ainda hoje nos deslumbram.»

Honremos as «muitas [...] que morreram em combate, outras que se suicidaram antes da moirama lhes cair em cima.»

Ergamos lado a lado com o Condestável:

– Dona Mariana de Lencastre, de como em quando «os espanhóis atacavam Monção na ausência do seu governador & da maioria da sua guarnição, resolveu Dona Mariana, mulher do governador, [...] por ter visto das muralhas de Monção que a peleja estava desfavorável aos portugueses, entrar pessoalmente em combate. [...], baixou ao rio, fazendo-se acompanhar por duas peças de artilharia que causaram tanto destroço aos invasores que estes fugiram espavoridos.»

– Helena Peres, cabeça dum grupo de trinta mulheres armadas com «espadas velhas, chuços, dardos, partasanas & alfaias agrícolas, transformadas em armas de combate. [...], espetando castelhanos [...], animando com palavras & exemplos os soldados, retirando os feridos & os mortos, sem que a chuva de balas & metralha fosse capaz de lhes extinguir os brios. Algumas delas carregavam à cabeça enormes pedregulhos, que precipitavam do alto das muralhas, fazendo no inimigo terrível destroço. Entre estas amazonas portuguesas, se distinguia, pela sua bravura, uma alcunhada a Turca. Uma bala de artilharia lhe despedaçou o ventre; mas ela, com as tripas na mão, pediu que a levassem à igreja, & que lhe mandassem dizer missa, com o dinheiro que levava na algibeira; & até ao seu último momento conservou uma estóica serenidade, & um perfeito juízo.»

Acarinhemos a longa lista de ‘enfiteutas’ (foreiras empregadoras) que se aventuraram no interior do hostil Reino de Monomotapa em África, dentre algumas encontramos:

— Antónia Rodrigues Ângela.
— Dona Catarina Gomes Nobre.
— Catarina Rodrigues de Azevedo.
— Catarina Rosa Caldeira.
— Constância Rodrigues Ângela.
— Francisca Lopes Nisa.
— Isabel Pereira.
— Isabel Pires Castelo Branco.
— Jacinta de Matos.
— Joana da Fonseca França.
— Joana de Matos.
— Joana Machado.
— Luísa de Sousa.
— Marcelina Rodrigues da Costa.
— Maria Cardosa.
— Maria da Silva.
— Maria Pinheira.
— Natária da Costa.
— Rosa Pinheira.
— Sebastiana Rodrigues Areilla.
— Victória Francisca.
— Vivência Pereira.
& continua.

Tantas e outras tantas semelhantes histórias poderiam e deveriam de ser mencionadas, chega a parecer mal fazer referência de poucas quantas, como as de Dona Maria Úrsula, que serviu como soldado nas conquistas de Amboíno, de Corjuém e de Panelém, ou as de Antónia Rodrigues, a cavaleira cantada por toda a Europa nos fins do século XVI pelos seus feitos militares em Marrocos, recebendo condecorações reais.

Assim o condensou a escritora anglo-francesa Elaine Sanceau, “se o português fez figura de epopeia, a portuguesa nunca lhe ficou atrás”.

Mulheres, metam ordem na casa, depressa verão erguer parelhos filhos e filhas.

Texto de Ricardo da Silva


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