A ESCOLA-CANTINA SALAZAR E O PLANO DOS CENTENÁRIOS
Durante a Primeira República (1910–1926), o Vimieiro (tal como a esmagadora maioria das aldeias do interior português) não dispunha de um edifício escolar construído de raiz pelo Estado para esse efeito.
Nesse período, o ensino primário oficial funcionava de forma precária em instalações improvisadas e arrendadas — habitualmente em casas particulares cedidas ou alugadas para o efeito na aldeia.
ESCOLA -CANTINA SALAZAR
O projeto da Escola - Cantina Salazar nasceu na década de 1930, num período em que o Estado Novo tentava remodelar profundamente a instrução primária em Portugal, combinando o ensino com a assistência social às crianças (através das cantinas escolares). O projeto do edifício foi formalmente datado de 1936, tendo a sua conclusão e inauguração ocorrido em 1940.
A Escola-Cantina Salazar foi mandada construir pelo próprio António de Oliveira Salazar ( Presidente do Conselho) na sua terra natal, o Vimieiro, em Santa Comba Dão, e foi concebida para servir de protótipo e escola -modelo para o país. É um dos exemplares mais marcantes da arquitetura escolar do Estado Novo.
A construção foi promovida e executada sob a tutela do Estado (através dos serviços de obras públicas e da Direção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais). Foi desenhada pelo arquiteto Rogério de Azevedo para romper com a miséria e a insalubridade das antigas escolas improvisadas (período da Primeira República), corporizando os ideais pedagógicos, higiénicos e assistenciais do Estado Novo da década de 1930.
Apesar de ser um dos edifícios escolares mais emblemáticos, simbólicos e mediáticos do regime devido à sua ligação direta a António de Oliveira Salazar, o Estado Novo já vinha a construir e a autorizar outras infraestruturas educativas desde os seus inícios (através da Direção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais — DGEMN), existindo exemplos anteriores — como a Escola-Cantina "José Rufino" em Alijó, projetada no início da década de 1930.
O programa arquitetónico dividia-se claramente entre as salas de aula arejadas e modernas (um avanço considerável face às condições de salubridade da Primeira República) e a zona da cantina, destinada a combater a desnutrição infantil e a garantir o controlo físico e alimentar das crianças. Para além da cantina, o edifício era constituído pela cozinha e despensa, instalações sanitárias interiores ( W.C para rapazes e W.C para raparigas), áreas de circulação e Recreio Coberto, áreas de vestíbulo e corredores amplos.
O conceito de "Escola-Cantina" surgiu na transição da década de 1920 para a de 1930 como uma tipologia inovadora que juntava a sala de aula à assistência alimentar (a cantina). No entanto, o seu número exato a nível nacional durante o Estado Novo foi muito limitado por serem edifícios de elevado custo.
Durante a década de 1930, o Estado Novo travou a construção generalizada de novos edifícios escolares por falta de verbas. Só a partir de 1941, com o massivo Plano dos Centenários, é que o regime avançou para a construção sistemática de milhares de escolas primárias por todo o país — embora essas novas centenas de escolas do Plano seguissem já tipologias normalizadas (muitas vezes de uma ou duas salas, com ou sem residência para o professor), deixando para trás o modelo sumptuoso e autónomo das antigas "escolas-cantinas" da década de 30.
Durante o governo de Salazar este tipo de edifícios (escola -cantina) integrava um grupo restrito de projetos especiais e excecionais de arquitetura escolar promovidos antes da grande vaga de construção nacional.
A massificação da construção de escolas públicas em Portugal só viria a acontecer anos mais tarde, em grande escala, a partir de 1941, com o célebre Plano dos Centenários.
PLANO DOS CENTENÁRIOS
O rumo da arquitetura escolar mudou drasticamente a partir de 1941 com o Plano dos Centenários. Em vez de escolas-cantinas isoladas e sumptuosas, o Estado Novo implementou um plano massivo de construção de milhares de escolas primárias normalizadas em todo o país. Nesses novos projetos do Plano dos Centenários, as cantinas e os refeitórios deixaram de ser edifícios autónomos de prestígio arquitetónico e passaram a ser, quando existiam, pequenos anexos utilitários integrados ou associados às centenas de novas escolas espalhadas pelas aldeias de Portugal.
O Plano dos Centenários foi um ambicioso programa de construção de escolas primárias em larga escala lançado pelo Estado Novo em 1941 (com execução prolongada ao longo das décadas seguintes).
O nome do plano deve-se à comemoração dupla dos chamados "Centenários Nacionais": o oitavo centenário da Independência de Portugal (1940) e o terceiro centenário da Restauração da Independência (1940/1943).
Principais Objetivos do Plano:
Combate ao Analfabetismo: No final da Primeira República, Portugal enfrentava taxas altíssimas de analfabetismo (especialmente no mundo rural), e grande parte das crianças não tinha acesso à escola por falta de edifícios públicos adequados.
Rede Escolar Nacional: O regime pretendia dotar todas as freguesias e aldeias do país de uma rede de infraestruturas educativas dignas, substituindo as antigas salas arrendadas e degradadas da Primeira República.
Ao contrário das excecionais e dispendiosas "escolas-cantinas" (como a do Vimieiro ou de Alijó), o Plano dos Centenários apostou na standartizacão e tipificação arquitetónica para conseguir construir milhares de escolas rapidamente e a custos controlados. Os edifícios seguiam tipologias adaptadas à arquitetura tradicional de cada zona do país utilizando materiais locais.
A Casa do Professor: A grande maioria destas escolas integrava obrigatoriamente, no mesmo edifício ou anexo, uma residência oficial para o professor (frequentemente com quarto, cozinha e sala), o que garantia a fixação de docentes qualificados nas aldeias mais isoladas.
Os projetos variavam tipicamente entre uma, duas ou mais salas de aula (muitas vezes divididas para rapazes e raparigas) e continham blocos de instalações sanitárias (W.C.) interiores ou de apoio exterior, além de um recreio descoberto ou coberto.
O Plano dos Centenários marcou profundamente a paisagem rural portuguesa. Ao longo das várias fases de construção e expansão, estima-se que tenham sido erguidas milhares de escolas primárias de norte a sul do país (algumas fontes apontam para cerca de 7.000 a 8.000 edifícios construídos ou adaptados no âmbito da rede escolar pública do Estado Novo até ao final do ciclo do plano).
Ana Mandim


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