25 de Abril, revolução, ou ascensão ao poder de gente pouco recomendável???
CORRUPÇÃO - DESVIOS - ESCÂNDALOS
Neste capítulo deveria ser possível arrolar uma imensidade de casos. Mas muitos continuam por desvendar e outros, embora denunciados, nunca mereceram qualquer diligência no sentido de serem esclarecidos. É fácil compreender porquê, se se atentar na natureza de certos desvios. Aí vão alguns a título de exemplo.
Em poucos meses, só em dois organismos - o da Reforma Agrária e o IARN - os desvios ultrapassaram larguissimamente todos os registados em quase cinquenta anos do regime anterior. A Luta e o Tempo referiram-se com insistência ao assunto, mas os desvios são em tal número e neles estavam implicados tantos activistas da extrema-esquerda que ninguém se atreveu a tocar no caso.
Releia-se A Luta de 11/4/76:
«O relatório final sobre o inquérito aos desvios feitos com os fundos da famosa subscrição nacional "Um dia de salário para a Nação" está pronto e deverá ser tornado público em breve - ao que fomos informados por fonte próxima do Ministério do Trabalho.
Sabemos, por outro lado, que alguns dos desvios de fundos para fins estranhos aos da subscrição, que chegou a cerca de 80 000 contos, foram já repostos ou regularizados. Não é, no entanto, esse o caso de alguns "levantamentos" não justificados, como o do ex-ministro Costa Martins, aquando da sua viagem à União Soviética (um "vale" de 70 000 escudos), em que foi acompanhado por outros oficiais da Força Aérea, não se sabe bem a que título, e em nome dos quais foi igualmente levantado dinheiro do Fundo para a viagem.
O Estado-Maior da Força Aérea, entidade a quem foi solicitada recentemente a reposição deste segundo "vale", respondeu, ao que fomos informados, que não tinha conhecimento, não promovera tal viagem e não tinha em seu poder quaisquer documentos que permitissem a liquidação da respectiva importância».
Segundo O Diabo de 17/1/78, no Mensageiro de Leiria veio a notícia de que o Governo Português teria pago ao Governo de Argel qualquer coisa como um milhão de contos pelas despesas ocasionadas pela estadia do «Grupo de Argel» durante a «noite fascista». Como não vimos nenhum desmentido a esta notícia, gostaríamos de saber se se confirma ou não e, caso afirmativo, quem autorizou esse pagamento. De qualquer maneira, a ser verdade, o famoso «grupo» tratava-se bem.
Outros casos a relembrar:
- o de Palma Inácio, assaltante confesso, e condenado, a um banco, veio a ocupar alto cargo no Ministério do Trabalho;
- o de Edmundo Pedro; nunca foi esclarecido o enigma das armas que foram encontradas na sua posse;
- O de António Macedo; terá estado a habitar de graça uma sua antiga casa, depois de expropriada pela Câmara Municipal do Porto?
- o dos 7 000 contos colocados na Suíça por um ex-ministro do pós-25 de Abril (assunto levantado pelo Expresso, e nunca esclarecido);
- o de Melancia que nomeou de uma só vez 27 novos directores e subdirectores gerais;
- o de António Campos (MAP) que utilizou dinheiros para subsidiar organismos do Partido Socialista (Uniões Distritais de Agricultores), assunto referido pelo Jornal Novo de 29/9/78.
No sector das Forças Armadas também não faltaram casos enigmáticos e escandalosos. Um dos mais gritantes foi o de ter passado a haver, na Marinha, mais almirantes do que navios - e no Exército mais oficiais generais do que regimentos!
Vale a pena lembrar a revelação do semanário Edição Especial de 17/7/74, segundo o qual a Manutenção Militar comprou por 14 000 contos uma pousada em Lagos, que logo «ocupou» não respeitando o contrato com o seu empresário, e obrigando os turistas estrangeiros a sair, impedindo a entrada dos que haviam feito contrato. Essa pousada foi para ser junta a outra, a fim de ambas proporcionarem férias no Algarve aos oficiais das Forças Armadas e suas famílias a preços incrivelmente baixos.
E as armas que foram roubadas do Exército? Assunto da maior gravidade - mas mais grave é que os superiores responsáveis não tenham actuado prontamente. Os seus autores foram punidos? Não. O Povo foi informado do que na realidade se passou? Não. Alguém sabe onde foram parar as armas da Legião? E as da PIDE? O Povo sabe apenas que tudo isso se passou na Região Militar de Lisboa e que o seu comandante, o «general» Otelo, declarou que estavam «em boas mãos». E nelas continuam, para o que der e vier.
Rememore-se ainda que o semanário Expresso de 20/5/78 narrou:
«Aconteceu numa das ruas da cidade de Lisboa que um condutor descuidado não conseguiu evitar um automóvel que seguia na sua frente.
Depois de uma amena troca de palavras, o condutor do carro de trás verificou que o seu interlocutor era nem mais nem menos do que o conselheiro Vítor Crespo. Foi então que se tornou necessário saber qual a documentação do carro que era conduzido pelo referido conselheiro, para efeitos de declaração do sinistro a fazer à companhia de seguros.
Nessa altura, o outro sinistrado verificou que, estranhamente, o carro conduzido pelo conselheiro Vítor Crespo era propriedade do sr. Jorge de Brito. À surpresa do condutor acima referido, respondeu Vítor Crespo que se tratava apenas da viatura que lhe houvera sido destinada e que os bens de Jorge de Brito se encontravam congelados, o que levou o interlocutor a perguntar-lhe se a utilização do veículo não é uma estranha forma de proceder aos descongelamentos dos mesmos».
O Expresso poderia ter aproveitado a ocasião para perguntar ao conselheiro Vítor Crespo se também teria sido distribuída aos conselheiros da revolução a garrafeira de Jorge de Brito.
Quanto ao Fundo Militar do Ultramar, terão sido aplicadas verbas para fins não esclarecidos ao público, nem depois do ataque de Sá Carneiro.
Depois de todo este estendal de vilezas dá vontade de gritar:
Viva a seriedade do velho Estado Novo!
Sem comentários:
Enviar um comentário