quinta-feira, 16 de julho de 2026

No socialismo, a culpa morre sempre solteira!!!

 




Principal característica do nosso tempo

«Uma das principais, se não a principal característica do nosso tempo, é a abolição da culpa pessoal. Os actos dos indivíduos são atribuídos a razões e motivos não pessoais: as condições da sociedade, o conflito entre ricos e pobres, a educação, a família, o ensino, traumatismos, recalques e complexos psíquicos. Esta abolição da culpa pessoal projecta-se no Direito e na política. O socialismo é uma das consequências: abolida a culpa pessoal, os indivíduos deixam de ser responsáveis pelos seus actos e acabam por ser absorvidos no grande corpo social de que o Estado é a representação. É o Estado que se torna, então, o responsável, o único responsável, e, nessa qualidade, torna-se seu dever intervir em todas as formas de existência, públicas e privadas.

Esta situação tem a origem mais profunda na abolição do pecado. Onde não há culpa, não há pecado. O diabo e o inferno não são reais. O pecado deixa de ser inerente à natureza do homem e do mundo. Ou seja: a humanidade e o mundo, não começam no pecado original. Como o pecado original teve por castigo e consequência o trabalho – “ganharás o pão com o suor do teu rosto” –, desaparecido o pecado original, o trabalho deixa de ser uma maldição bíblica e é, antes, exaltado, até divinizado.

Dentro de si, cada homem continua, decerto, a sentir que o trabalho é o que há de negativo na existência, o que lhe rouba o tempo que gostaria de dedicar aos seus interesses mais próprios, à nobre, produtiva e feliz ociosidade. Cada homem continua a ter por finalidade permanente libertar-se do trabalho, da obrigação do trabalho, e para isso recorre a todos os meios ao seu alcance, desde os mais vulgares e baixos, os que podem trazer a riqueza argentária: atraiçoar parentes, atropelar amigos, comprar lotaria, jogar no totobola e, frustradas todas as tentativas, invejar e odiar o rico. Mas na sua existência exterior, social, política, todos aplaudem a divinização do trabalho, que passou a constituir a substância e a finalidade da política, antiga arte de governar os povos. Os cidadãos deixam de ser cidadãos para serem trabalhadores. Todas as revoluções se fazem com esse fim. Com esse fim, todos os governos governam e todas as sociedades se organizam. E se admitirmos – como cada um de nós na nossa tácita intimidade reconhece – que o trabalho não deixou de ser o que há de negativo na existência e constitui realmente, ou nela é simbolizado, a condenação bíblica de um pecado do género humano, então a política está tendo por conteúdo e finalidade a exaltação do que há de maldito no mundo e na condição do homem, contradição trágica. E se assim é, então a humanidade jamais se poderá libertar do trabalho. A civilização interrompe a sua marcha, pois ela resulta da ciência e da técnica que são a substituição do trabalho pela máquina, da arte e do pensamento que resultam da ociosidade criadora, “único fragmento da nossa semelhança com Deus que nos resta do paraíso.

Claro que nada disto significa que não se atenda ao mundo do trabalho, aos dramas, sofrimentos e direitos dos trabalhadores. Pelo contrário. O que seguramente afirmo é que não se satisfazem esses direitos nem se resolvem esses dramas nem se põe termo a esses sofrimentos, exaltando, divinizando, sobrepondo a todos os valores a causa que lhes dá origem, o trabalho, enquanto se qualificarem todos os homens só como trabalhadores e só para eles se organizar a sociedade e a política. A finalidade da política é criar as condições para que os homens possam ser o que de melhor se destinam a ser. E os homens nasceram para ser felizes, ociosos e vários. O socialismo não permite que os homens sejam vários, porque os massifica na uniformidade colectiva: não permite que sejam ociosos, porque só os reconhece como trabalhadores. Não permite que sejam felizes, porque não pode haver felicidade na condição permanente de trabalhador e na banalidade vazia da uniformidade colectiva».

Orlando Vitorino 





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