«Diz Thomaz Ribeiro Colaço, numa síntese perfeita: "É portuguesa, como se sabe e não sofre contestação, a mais velha fronteira a demarcar no mundo da área cristã, uma unidade-nacional. Essa fronteira política e não natural, não é nem nunca foi daquelas que laboriosamente se ajustam em chancelarias inteligentes. Nenhuma chancelaria a ajustou e, adentro dela, Portugal entrou no seu oitavo século com 80% de analfabetos - o que exclui, para o desenho dessa fronteira, qualquer intelectualismo persistente na acção de elites numerosas. Isto quer dizer que a simples permanência de Portugal na Europa o torna documento de fenómeno único: génio político exercido pela massa. Depois, como capitalista inseguro que transfere bens para o exterior, essa massa, insegura na Península, transferiu para o exterior substância sua. Esse seu capital era Pátria, era Nação, era Liberdade comum. Digamos, Portugal depositou Portugal no exterior - e assim criou no mundo, como caso singular, como caso unicamente seu - a autenticidade de uma nação pluricontinental. Note-se: seria inconcebível que Shakespeare escrevesse em Singapura ou Cervantes nas Filipinas; mas foi muito natural que, antes, Camões escrevesse a sua obra em Macau"...».
Henrique Galvão («Da minha luta contra o Salazarismo e o Comunismo em Portugal»).
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