segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

O Instituto Tavistock

 




«Um importante neofreudiano que se converteu num aberto simpatizante dos nazis foi o psicanalista suíço Carl Jung, cuja amizade com Freud acabou quando este se negou a encontrar qualquer valor no misticismo gnóstico. Freud, que se opunha a incluir ideias místicas na psicanálise, associava a palavra misticismo a sessões de espiritismo, vozes de outros mundos, ruídos, aparições, levitações, transes e profecias.

"Jung viu em Hitler a apoteose do esforço que tinha realizado na busca de uma comunhão pagã com o Mais Além, uma busca que começou em 1915, ao sofrer uma colossal crise nervosa".

No seu ensaio de 1997 sobre Hitler e Jung, Wolf sustém que entre Hitler e as teorias psicanalíticas de Jung, hoje uma das bases conceptuais da ideologia da "Nova Era", existe uma enorme relação, dado o fascínio de Jung por Hitler. "Porque Jung estava obcecado com a ideia de que a realidade mais profunda, a maior verdade, jaz debaixo dos aspectos inconscientes, místicos e psicóticos da mente do homem, em contraposição com a visão judaico-cristã do mundo, mais racional, externa e científica". Esta foi a base do seu estudo de si mesmo, durante largas décadas, no seu afã de encontrar um mito ou um sistema mítico prévio capaz de ilustrar as ideias que tinha da psicologia da religião. Começou pelo gnosticismo, continuou pelo estudo da astrologia e, mais tarde, pela alquimia especulativa como sistema simbólico.

Segundo Jung, existe um profundo substrato da consciência, sob as capas dos instintos mecânicos e os fenómenos mensuráveis da psicologia clínica, que tinha o nome de "inconsciente colectivo". Estas imagens tornam-se visíveis em determinadas circunstâncias, como os comícios políticos ou os rituais religiosos, as telas de cinema ou a publicidade e a propaganda; imagens que aceitamos como algo normal, sem estarmos conscientes do poder que representam nem de até que ponto estão a manipular a nossa consciência. E por sua vez, essas imagens, essa trama ou matriz que está por baixo do universo observado, uma espécie de rede de ligações que unem eventos segundo um sistema que apenas podemos vislumbrar, são manipuladas pela mão invisível dos lavadores de cérebros do Instituto Tavistock e da Escola de Frankfurt.

O Instituto Tavistock de Relações Humanas é o braço da guerra psicológica da família real britânica, nos arredores de Londres. É a instituição mais importante do mundo destinada à manipulação da população. Segundo a história oficial da Clínica Tavistock: "Em 1920, sob a direcção do seu fundador, o Dr. Hugh Crichton-Miller, a clínica ajudou de maneira significativa nos esforços para entender os efeitos traumáticos da 'neurose de guerra'". Nos anos 30, o Instituto Tavistock desenvolveu uma relação simbiótica com o Instituto de Frankfurt de Investigação Social. A colaboração mútua levou-os a analisar a cultura de uma população a partir de um ponto de vista freudiano. O nazismo foi simplesmente um dos seus "pacientes estendidos no divã do psiquiatra".

[...] Jung estava impressionado com a ascensão meteórica de Hitler ao poder, e reconhecia que o ditador "devia ter captado uma energia extraordinária no inconsciente teutão". Em Março de 1934, por exemplo, Jung refere-se ao "formidável fenómeno do nacional-socialismo, que todo o mundo contempla com assombro". Jung sugere mais adiante que o inconsciente ariano possui "maior potencial" que o dos judeus. Hitler, disse Jung, "tinha literalmente posto toda a Alemanha de pé". Num ensaio, escrito em 1932, celebra o "dom de líder" do Führer por oposição às "massas indolentes e sempre secundárias, que não são capazes de fazer um só movimento na ausência de um demagogo". Em 1936, Jung apercebeu-se de que Hitler era um dos elementos wotânicos (em referência a um antigo deus germânico) que se tinha reprimido anteriormente: "O impressionante do fenómeno alemão é que um único homem, que está obviamente possuído, contagiou uma nação inteira, ao ponto de tudo se pôr em marcha e avançar para a perdição".

Era possível que Jung não se desse conta de qual era a verdadeira natureza do nazismo? Dificilmente. Em 1938, cinco anos depois da ascensão de Hitler ao poder, Jung qualificou-o de "visionário" e "xamã ou feiticeiro realmente inspirado" cujo poder era "mágico, mais que político", um "veículo espiritual", o "primeiro homem a dizer a todos os alemães o que tem estado a pensar e a sentir no seu inconsciente sobre o destino da Alemanha". E acrescentou: "O poder de Hitler não é político, é mágico".

Quando, em Junho de 1940, a França se rendeu à Alemanha - data que coincide com o solstício de Verão e não passou despercebida a Jung nem a outros místicos nazis -, Jung exclamou com entusiasmo: "É o amanhecer da Era de Aquário!" Ironia insignificante, pois fora precisamente Carl Jung quem cunhara a frase que mais adiante ia ser tão corrente, quando chegasse a "Nova Era".

Nem se pode dizer que os nazis representavam uma minoria da população da Alemanha, mesmo quando estavam no poder. Que aconteceu aos denominados "bons alemães" que cooperaram com o terror de Hitler? Como se conseguiu tal coisa? Pois bem, da mesma forma que hoje, e todos os dias, acontece connosco, mediante a difusão de informação através dos meios de comunicação em massa.

[...] No caso da Alemanha nazi, em milhões de lares ouvia-se pela rádio a voz de um só homem, Adolfo Hitler. O facto de toda a Alemanha ter estado a ouvir ao mesmo tempo dava mais força à mensagem. Ao fazer parte de uma experiência colectiva, o ouvinte absorvia tudo literalmente como um conjunto de pontos de referência emocionais e não racionais. Os discursos de Hitler encontram-se entre os primeiros acontecimentos em massa da história, e eram orquestrados com tanto cuidado como qualquer evento da história moderna.

Tanto Tavistock como a Escola de Frankfurt prestaram muita atenção às técnicas de propaganda nazi e incorporaram-nas de boa vontade nas suas investigações. O objectivo deste projecto, tal como se afirma em Dissonâncias: Introdução à Sociologia da Música, de Adorno, consistia em "programar uma cultura de massas como forma de controlo social extensivo, que fosse degradando pouco a pouco os seus consumidores". A aplicação das suas investigações sobre o comportamento humano ia desembocar, uma década mais tarde, numa importante e irreversível revolução cultural nos EUA.

"Os lavadores de cérebros chegaram à conclusão de que os factos divulgados pelos meios de comunicação em massa tinham conseguido fazer com que as pessoas desejassem acreditar na realidade e estivessem dispostas a aceitar sem espírito crítico o que se dissera, informação que, se tivesse sido ouvida noutro contexto, teriam muito provavelmente rejeitado"».

Daniel Estulin («O Instituto Tavistock»). 

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