domingo, 15 de fevereiro de 2026

À Beira do abismo.

 



«No Admirável Mundo Novo da minha profética fábula, a tecnologia avançou muito para além do ponto a que chegara no tempo de Hitler; consequentemente, os que recebem ordens eram muito menos críticos do que os seus semelhantes nazis, muito mais obedientes à "elite" dirigente. Além disso, foram estandardizados geneticamente e condicionados após o nascimento, de forma a realizarem as suas funções subalternas, e portanto a comportarem-se de forma tão previsível como máquinas. [...] este condicionamento dos "escalões inferiores" já é praticado nas ditaduras comunistas. Os Chineses e os Russos não se atêm meramente aos efeitos indirectos da tecnologia que cada vez progride mais; trabalham directamente nos organismos psicofísicos dos subordinados mais inferiores, sujeitando corpos e espíritos a um sistema de condicionamento inflexível e, sob todos os aspectos, altamente eficaz. "Quantos homens", disse Speer, "têm sido obsediados pelo pesadelo de que as nações pudessem ser um dia dominadas por meios técnicos. Esse pesadelo foi quase realizado pelo sistema totalitário de Hitler". Quase, mas não inteiramente. Os Nazis não tiveram tempo - e talvez não tivessem inteligência e os necessários conhecimentos - para fazerem lavagens de cérebros e condicionar os seus escalões inferiores. Talvez seja esta uma das razões do seu fracasso.

Desde o tempo de Hitler, o arsenal de dispositivos à disposição do aspirante a ditador tem sido consideravelmente aumentado. Além da rádio, do alto-falante, da câmara de cinema e das grandes rotativas, o propagandista contemporâneo pode fazer uso da televisão para transmitir a imagem, assim como a voz, do seu cliente, e pode registar tanto a voz como a imagem nos carreteis das bandas magnéticas. Graças ao progresso técnico, o Grande Irmão pode ser agora quase tão omnipresente como Deus. E não é apenas no domínio da técnica que a mão do aspirante a ditador recebeu novas forças. Desde o tempo de Hitler, têm-se feito trabalhos consideráveis nos campos da psicologia e da neurologia aplicadas, que são o sector especial do propagandista, do doutrinador e do lavador-de-cérebros. No passado, estes especialistas na arte de modificar os espíritos dos homens eram empiristas. Por um método de aproximações sucessivas, tinham apurado um certo número de técnicas e processos, que usavam com grande eficácia sem, todavia, conhecerem precisamente por que eram eficazes. Hoje, a arte de controlar os espíritos está em vias de tornar-se uma ciência. Os praticantes desta ciência sabem o que estão fazendo e porquê. São guiados na sua obra por teorias e hipóteses solidamente estabelecidas sobre uma grande massa de factos experimentalmente averiguados. Graças a novos pontos de vista, e a novas técnicas tornadas possíveis por esses novos pontos de vista, o pesadelo que foi "quase realizado no sistema totalitário de Hitler" não tardará a ser completamente realizável».

Aldous Huxley («Regresso ao Admirável Mundo Novo»).

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