«Antes do "25 de Abril" um livro incómodo era silenciado por um organismo de repressão chamado "Comissão de Censura". Era a censura de cúpula. De cima para baixo.
Durante o "Gonçalvismo" um livro incómodo era silenciado por um "organismo" fantasma a que chamei na altura, por oposição ao primeiro, "censura de base"; eram as células do PCP actuando nas tipografias, nas distribuidoras e nas próprias editoras.
No actual equívoco governativo a censura chama-se chantagem. Demissões em jornais estatizados, ameaças de não pagamento de salários, promessas de proteccionismo, "ordens" à Polícia Judiciária para apreender os livros, tudo isto aconteceu nos primeiros dias após a edição de o "Acuso!", de Henrique Cerqueira. Os próprios - os que sofreram as ameaças e ouviram as promessas - que denunciem esta nova forma de censura se quiserem ajudar a salvar a Democracia. Tanto quanto sei, a Polícia Judiciária deu uma lição de dignidade democrática: recusou proceder à apreensão do livro porque isso era - e é - ilegal.
Nada acontece por acaso.
Quando o secretário de Estado da Informação, Manuel Alegre, declara à Imprensa que a edição do livro "Acuso!" é um "caso de polícia" para, logo a seguir, afirmar que ainda não tinha lido o livro, não está apenas a ser irresponsável: está a ser fascista.
(...) Quando, porém, o público anónimo (o povo) assalta as livrarias e esgota 54.000 livros em 12 dias - apesar de toda a campanha desenvolvida contra o "Acuso!" - não está a ser fascista: está a demonstrar a sua fome de Democracia, de Justiça e de Dignidade.
(…) O editor não é, obviamente, o autor do livro. Mas, dada a natureza das acusações nele contidas e face à memória causada na Opinião Pública, pareceu-me elementar que - íntima e pessoalmente - eu próprio acreditasse na razão de ser desta obra. Decidi, assim, fazer algumas investigações por conta própria: as suficientes para perceber que algo de tenebroso impede o Inquérito público à morte do general Humberto Delgado, e as necessárias para poder afirmá-lo tranquilamente. Cabe aqui, portanto, fazer algumas revelações ao leitor:
(…) Outras investigações - mais complexas mas que envolveram pessoas perfeitamente identificadas e identificáveis num inquérito público - levaram-me a concluir que dentro da PIDE funcionava uma célula do PCP. Este ponto é, aliás, o mais importante e nele pode estar a chave de tudo… Igualmente fui levado a deduzir que a brigada da PIDE que foi a Badajoz continha pelos menos um agente que era suspeito de ser militante do PCP.
Provavelmente Henrique Cerqueira não conseguirá provar, matematicamente, todo o crime. Raramente um crime político, organizado por especialistas, deixa provas insofismáveis, materiais e visíveis. Mas prova, em absoluto, que a inexistência e a não realização de um inquérito público só aproveita aos homens que ele acusa, com a agravante de estes homens constituírem hoje o Poder Político detentor da capacidade de desencadear, ou não, um inquérito. Não aproveita a ele Autor: aproveita unicamente - e só - aos homens que são acusados neste livro.»
Paradela de Abreu (Nota do Editor, in Henrique Cerqueira, «ACUSO!" O CRIME», Intervenção, 1977, Vol. II).
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