«Numa conferência em São Paulo, em Junho de 1962, o capitão [Henrique Galvão] defende que há três formas de derrubar o governo português: uma sublevação popular; uma invasão de forças formadas no estrangeiro; ou a morte de Salazar, através da violência. Nesta fase a relação com os outros adversários do regime que estão no Brasil torna-se cada vez menos próxima. Mas ainda são feitas várias tentativas para uma reconciliação com Humberto Delgado, que também regressa ao Brasil depois do assalto ao quartel de Beja, em 1962. Realiza-se uma reunião num templo maçónico no Rio de Janeiro, onde se sugere a constituição de uma comissão de conciliação para voltar a juntar o capitão (que não é maçon) e o general (que é grão-mestre do Grande Oriente Português no Exílio).
Mas a reaproximação é impossível. Humberto Delgado chega a promover um abaixo assinado entre os oposicionistas portugueses para pedir a expulsão do seu ex-amigo do Brasil. Nas cartas para os mais próximos, o general passa a referir-se ao capitão como "fiteiro", "traidor" e "gangster". E publica uma carta nos jornais onde, a pretexto de denunciar a falta de seriedade de Galvão, o acusa de ter roubado um móvel de madeira de pau-santo, quando era um jovem militar. É um boato que persegue o capitão desde o início do Estado Novo. Galvão não perdoa e interpõe um processo contra o general, mas o caso não chega a julgamento e acaba por ser arquivado pela justiça brasileira. Não espanta por isso a forma como o capitão se refere ao seu rival da oposição, numa carta a Maria de Lurdes, em Dezembro de 1963:
"O Delgado saiu para sempre do Brasil. Ainda bem. Foi ter com os comunistas e portou-se por cá como um macaco num armário de louça. Esse está liquidado de vez e receio que venha a acabar muito mal. Deixa atrás de si o espectáculo de um estado patológico de indignidade política e moral que só se explica com casos de loucura.
R. I. P."
Catorze meses depois, quando os corpos de Humberto Delgado e da amante Arajaryr Campos são encontrados em Badajoz, Henrique Galvão limita-se a fazer uma dedução dos factos para publicar n'O Estado de São Paulo uma violenta acusação: "Foram homens do Partido Comunista Português, companheiros ou ex-companheiros do general Delgado, quem planeou e fez executar o assassínio. (…) Para bons comunistas, o facto de o fazerem desaparecer seria, como para qualquer totalitário, a menor das coisas."»
Pedro Jorge Castro («O Inimigo N.º 1 de Salazar. Henrique Galvão, o líder do assalto ao Santa Maria e do sequestro de um avião da TAP»).
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