quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Um Povo de Suicidas.

 



“Portugal é um povo triste, e é-o até quando sorri. A sua literatura, incluindo a sua literatura cómica e jocosa, é uma literatura triste.
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Portugal é um povo de suicidas, talvez um povo suicida. A vida não tem para ele sentido transcendente. Desejam talvez viver, sim, mas para quê? Mais vale não viver.
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Suicidaram-se Antero e Soares dos Reis. Suicidou-se também Camilo Castelo Branco, o grande Camilo, o escritor mais popular desta terra, o dos terríveis sarcasmos, o que viveu e lutou sozinho, mantendo contra todos levantada a bandeira do ultra-romantismo. Num artigo que Camilo escreveu para ilustrar o retrato de Laura de Valclusa, depois de falar na morte dela, refere que Petrarca teve a insolência de lhe sobreviver vinte anos, acrescentando que os sonetos são um grande purgante das paixões excessivas, pois é sabido que um ou outro sonetista morreu de fome, mas de amor, nenhum. E isto que em outro que não fosse português e, sobretudo, que não fosse Camilo— mesmo em Eça de Queiroz, entre os seus patrícios, não passaria de uma “boutade”, uma habilidade, em Camilo é algo mais. Como que a dizer: este Petrarca, ao saber da morte da inspiradora dos seus sonetos, devia matar-se; não o fez? É um farsante!”
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— MIGUEL DE UNAMUNO (Bilbau, 29 de Setembro de 1864 – Salamanca, 31 de Dezembro de 1936), poeta, ensaísta, romancista, dramaturgo e filósofo basco, in “Portugal Povo de Suicidas”, tradução, apresentação e selecção dos textos por Rui Caeiro, 4.ª ed. portuguesa, Letra Livre, 2012. 

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