«AS TRÊS ÁFRICAS
Com o pretexto falso de que o caso não tinha interesse para Angola, como se Angola fosse uma ilha, não me permitiram na ONU que se abordasse este problema, que facilmente sobrepunha as realidades africanas aos mitos das suas propagandas. Nem por isso as realidades deixam de ser o que são - e de negar todos os dias este mito absurdo.
Geograficamente, nem depois do Sara se haver tornado mais transitável, mudou o verdadeiro facies africano. Nele se distinguem perfeitamente, apesar da sua conformação maciça e original, três Áfricas, que nem os seus caracteres geográficos nem a sua evolução histórica consentem que se confundam - da mesma maneira que nunca se confundiram as três Américas, que tanto se distinguem na América total. Ao Norte, uma África mais mediterrânica do que propriamente africana, em que floresceram velhas e nobres civilizações fortemente influenciadas pelo esplendor e domínio das culturas grega e romana - e cuja população, depois de várias vicissitudes históricas, se estabilizou por ocupação definitiva do elemento árabe, invasor, em convivência com os berberes autóctones. Separada do grande corpo da África, como um verdadeiro continente, pelo oceano de areia que se chama o Sara, ignorou-a durante muitos séculos, não havendo com ela outras relações senão as do comércio de algumas matérias-primas preciosas, e dos escravos, trazidos pelos berberes nómadas para os árabes, entre os quais se encontram ainda hoje os melhores especialistas do nefando negócio. À data das primeiras independências africanas depois da Guerra, era esta a recordação mais viva que os árabes haviam deixado aos africanos do sul: a do comércio de escravos.
Abaixo do deserto, e até uma linha irregular que vai da foz do Rio Zaire ou Congo, atravessa o Congo ex-belga e vai morrer no Oceano Índico, entre Moçambique e Tanganica, situa-se a segunda África, a verdadeira África Negra ou África Central. Finalmente, ao sul desta linha, mais ou menos, diferente já da segunda por caracteres geográficos e factores históricos, fica a África do Sul, abrangendo os actuais territórios de Angola, parte do Congo, Niassalândia, Rodésia do Norte, Rodésia do Sul, Moçambique, Bechuanalândia, Suazilândia e União Sul-Africana; e com a sua contestada dependência, a antiga Dâmara ou Sudoeste Africano. Esta segunda África, cuja distinção de caracteres geográficos parece pouco importante relativamente à terceira, tem todo o relevo na consideração dos factos sociais, étnicos e políticos, que as colocaram em mundos diferentes.
Foi na África Central que, pela inospitalidade do clima e por outras razões discutíveis, menos se fixaram as populações de outras raças; estas eram em grande maioria, populações flutuantes, de grandes empresários comerciais e industriais, e os seus empregados de todas as categorias, de funcionários públicos, de exploradores da riqueza africana, que constantemente se renovavam e só muito raramente se fixavam. Iam lá por meses, outros por anos, multiplicavam-se na medida em que se multiplicavam os seus negócios, e regressavam aos seus países. E assim, nesta África, a verdadeira população africana foi quase sempre a negra, quase exclusivamente a negra; e cederam-lhe facilmente as independências, quase sem condições nem preparação, e as oportunas como as mais inoportunas, logo que viram que podiam descartar-se das despesas e responsabilidades da administração sem perder os lucros do negócio. Eram, enfim, muito poucos aqueles que amavam realmente a África e que nela se haviam volvido africanos. A maioria foi sempre estrangeira no território que ocupava e esta África podia dizer-se quase exclusivamente monorracial. Demais, desde os primeiros que a visitaram, até aos últimos que a ocuparam no decorrer de menos de um século, todos para lá foram e regressaram em confortáveis transatlânticos.
O mesmo não aconteceu na África do Sul, que conheceu, por consequência, uma evolução muito diferente. Os portugueses estão em Angola e Moçambique há quinhentos anos e lá se estabeleceram à custa de riscos de viagem e de lutas que dizimaram uma grande parte; e foram, geralmente, levando a Pátria consigo, exportando com eles Portugal e prolongando-o, para ficarem, para se fixarem. Com eles, foram não só os simples comerciantes e aventureiros ávidos de riqueza, mas também, e com o mesmo intuito de fixação, ou por devoção a que hipotecavam a vida, mestres e missionários, grandes viajantes e exploradores, cientistas dedicadíssimos e altruístas sem esperança de recompensa terrena.
Toda a África portuguesa foi regada pelo sangue de uns e outros. Pouco tempo depois, uma colónia de huguenotes franceses e holandeses estabelecia-se em terras do Cabo da Boa Esperança e, com ela, principiava a História da União Sul-Africana. Mais tarde, foram ingleses que ocupariam as Rodésias e o Niassaland. E todos eles, ao contrário do que acontecera na África Central, trouxeram consigo gente humilde e brava que ficou, que ligou os seus destinos à terra, que criou raízes e se fez, pela sua capacidade, tão africana como os próprios negros. As diferenças de número em que esses brancos sempre estiveram, eram largamente compensadas pelas diferenças de capacidade. Se muitos praticaram um racismo que ainda perdura e que a União Sul-Africana tornaria odioso, outros, como os portugueses, cruzaram-se e conviveram com as raças nativas e com as raças orientais, separados apenas, menos pela cor, do que pela diferença de classes que verdadeiramente os distinguia. Essa gente fez em África o que outros da mesma raiz fizeram nas Américas, onde criaram as nações que lá se formaram. Por alguma razão, abaixo desta linha que separa as duas Áfricas, a independência que os negros procuram impor como um direito de número, tem encontrado resistências que não encontrou na África Central - e menos pela independência, do que pelas suas condições exclusivas. Esta África não é monorracial como a outra, e só como plurirracial pode ser considerada.
ONDE A UNIDADE?
Onde está, pois, a tal Unidade Africana continental, desta África tão distinta nas suas três partes? Onde está, pois, a Unidade num continente em que o único traço comum é dado por uma cultura estranha - a ocidental?
Acontece, porém, que essa unidade nem sequer existe nas próprias Áfricas que se distinguem pela Geografia e pela História. Para que ela existisse, seria necessário não só fazer evoluir os sentimentos e instituições de tribo que ainda dominam em África, de modo a transformá-los em embriões de verdadeiras nações - o que está absolutamente fora das possibilidades imediatas da Revolução - mas também que as novas nações independentes se houvessem constituído mais racionalmente, digamos, mais "nacionalisticamente", em lugar de terem aceitado como territórios nacionais a manta de retalhos que o colonialismo lhes legou.
Contra essa unidade nacional, a que na maioria dos casos ainda faltam os fundamentos de nação, contra essa unidade da África independente, falam constantemente, com poderes reais que excedem os da propaganda, os mais evidentes factos de uma revolução irreversível, mas que ainda não encontrou o sentido das suas realidades. Na África do Norte, a Argélia foi "libertada" para a ditadura de Ben Bella em conflitos com o seu povo, a que também pertencem os berberes, e conflitos externos de fronteira com o seu vizinho marroquino; a desunião do mundo árabe todos os dias se faz e se desfaz, incapaz de resistir aos caracteres tradicionais. Na África Central foi impossível manter a unidade da Federação Mali, como se mostra impossível a constituição de outras Federações; luta-se na fronteira entre o Congo e Uganda, onde Batoro, Baamba e Bakenjo não se entendem; poucos dias depois de reconhecida a independência do Quénia, deflagravam questões armadas de fronteira entre a nova nação e a Somália; no Congo ex-belga, só a presença de tropas das Nações Unidas e o escancarado neocolonialismo de belgas, ingleses e norte-americanos, contém dificilmente as tribos desavindas, numa unidade impossível. Isto, além de conflitos menores que constantemente ensanguentam outras fronteiras, e até territórios mais interiores, e que seria impossível citar aqui em tão curto espaço.
A Unidade Africana é, pois, um mito indefensável - e eu compreendo muito bem porque não me deixaram falar sobre ela no organismo mais poderoso da sua propaganda.
Esse mito, despropositado, além de megalomanizar os mais responsáveis pela Revolução, destrói o seu sentido das proporções, desencaminha a revolução e a desacredita.
Nkrumah, o ditador do Gana, terminou o seu discurso de Adis-Abeba com as seguintes palavras: "A menos que estabeleçamos agora a unidade africana, nós, os que estamos aqui sentados, seremos amanhã as vítimas do neocolonialismo." A condição não tem o menor sentido prático, mas a conclusão é verdadeira. O neocolonialismo já lá está em cerca de vinte das nações recentemente independentes - e será muito pior e mais espoliativo do que foi o colonialismo, pois se exercerá sem responsabilidades.
Certamente, a Revolução não se perde - é irreversível. Mas terá que arrepiar caminho, com estes ou outros líderes, e convencer-se de certas realidades africanas que, claramente, se opõem aos seus frenéticos desígnios actuais.»
Henrique Galvão («Da minha luta contra o Salazarismo e o Comunismo em Portugal»).
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