Houve quem tivesse morrido com um tiro no corpo.
Houve quem tivesse morrido com o silêncio dos outros.
Entre 1961 e 1974, milhares de africanos lutaram ao lado de Portugal na Guerra do Ultramar. Uns por lealdade, outros por necessidade, muitos apenas para sobreviver. Quando a guerra acabou, ficaram para trás — sem proteção, sem voz, sem nome.
Esta é a memória daqueles que a História preferiu esquecer
Escrevo porque tenho memória.
E porque esquecer seria matar duas vezes — primeiro os homens, depois a verdade.
Servi em África e, como tantos outros, aprendi cedo que a guerra não acaba quando se ouve o último tiro. Quando as comissões terminaram, milhares de portugueses regressaram à metrópole e foram colocados na disponibilidade, como peças que já não servem, guardadas num canto escuro ou simplesmente descartadas. Ao longo dos anos, quase ninguém quis saber das cicatrizes que trouxemos — algumas no corpo, outras mais fundas, escondidas na alma.
Muitos morreram lá, outros voltaram mutilados. Mas o que mais me marca são os que regressaram vivos e, no entanto, nunca voltaram verdadeiramente. E hoje não quero falar só desses. Quero falar de outros, ainda mais esquecidos: os africanos que combateram ao nosso lado.
Não se usava a palavra “colaboracionista” nas nossas fileiras, mas foi assim que passaram a ser vistos. Entre 1961 e 1974, milhares de homens locais — soldados regulares recrutados na terra ou integrados em unidades especiais como os Comandos Africanos, os Grupos Especiais Paraquedistas (GEP), os GE ou os Flechas — lutaram sob bandeira portuguesa.
As razões variavam: um soldo que punha pão na mesa, rivalidades tribais ou políticas com os movimentos de libertação, ou simplesmente a lei mais crua de todas — a de sobreviver. Naquele tempo, “ficar neutro” era um luxo que se pagava com a vida.
Mas quando chegou a independência, a história virou-se contra eles. Em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau, repetiu-se o guião cruel que tantas guerras já escreveram: aqueles que combateram ao lado da potência colonial foram marcados como traidores. Seguiram-se perseguições, prisões, execuções sumárias. Só uma pequena parte conseguiu escapar.
Portugal, atolado em crises políticas e na pressa de fechar o capítulo colonial, não os retirou todos. E, no silêncio que se instalou depois, a sua memória ficou órfã. Nas antigas colónias, eram inimigos; aqui, eram incómodos.
Não foi um caso único. Penso nos harkis argelinos deixados à própria sorte pela França, nos montagnards aliados dos americanos no Vietname, nos intérpretes afegãos abandonados após a retirada de 2021. O padrão repete-se: quem ajuda numa guerra arrisca-se a morrer no dia seguinte à paz.
A Guerra de África foi também uma guerra de corações e mentes. Mas o 25 de Abril cortou o fio de forma brusca. Negociações rápidas, independências reconhecidas, retirada das tropas — e milhares de africanos que haviam combatido connosco ficaram expostos ao acerto de contas.
Em Angola, a 11 de novembro de 1975, poucos conseguiram lugar nos últimos navios e aviões para Lisboa. Muitos ficaram e pagaram com a vida ou com anos de fuga e medo.
Em Moçambique, a 25 de junho de 1975, a FRELIMO não escondeu o rancor: antigos aliados foram enviados para campos de reeducação; outros desapareceram para sempre.
Na Guiné-Bissau, em setembro de 1974, a vingança foi rápida e pública. O PAIGC tinha listas, e as execuções serviram de aviso.
E aqui, quem chegou encontrou um país que já queria virar a página. Não houve integração digna, nem reconhecimento. Apenas silêncio e esquecimento.
Mas a história não se apaga.
Porque enquanto houver alguém para lembrar, eles não estarão totalmente perdidos. E recordar é, também, um ato de justiça — sobretudo para um país que tantas vezes se esquece dos seus melhores filhos.
Houve quem tivesse morrido com o silêncio dos outros.
Entre 1961 e 1974, milhares de africanos lutaram ao lado de Portugal na Guerra do Ultramar. Uns por lealdade, outros por necessidade, muitos apenas para sobreviver. Quando a guerra acabou, ficaram para trás — sem proteção, sem voz, sem nome.
Esta é a memória daqueles que a História preferiu esquecer
Escrevo porque tenho memória.
E porque esquecer seria matar duas vezes — primeiro os homens, depois a verdade.
Servi em África e, como tantos outros, aprendi cedo que a guerra não acaba quando se ouve o último tiro. Quando as comissões terminaram, milhares de portugueses regressaram à metrópole e foram colocados na disponibilidade, como peças que já não servem, guardadas num canto escuro ou simplesmente descartadas. Ao longo dos anos, quase ninguém quis saber das cicatrizes que trouxemos — algumas no corpo, outras mais fundas, escondidas na alma.
Muitos morreram lá, outros voltaram mutilados. Mas o que mais me marca são os que regressaram vivos e, no entanto, nunca voltaram verdadeiramente. E hoje não quero falar só desses. Quero falar de outros, ainda mais esquecidos: os africanos que combateram ao nosso lado.
Não se usava a palavra “colaboracionista” nas nossas fileiras, mas foi assim que passaram a ser vistos. Entre 1961 e 1974, milhares de homens locais — soldados regulares recrutados na terra ou integrados em unidades especiais como os Comandos Africanos, os Grupos Especiais Paraquedistas (GEP), os GE ou os Flechas — lutaram sob bandeira portuguesa.
As razões variavam: um soldo que punha pão na mesa, rivalidades tribais ou políticas com os movimentos de libertação, ou simplesmente a lei mais crua de todas — a de sobreviver. Naquele tempo, “ficar neutro” era um luxo que se pagava com a vida.
Mas quando chegou a independência, a história virou-se contra eles. Em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau, repetiu-se o guião cruel que tantas guerras já escreveram: aqueles que combateram ao lado da potência colonial foram marcados como traidores. Seguiram-se perseguições, prisões, execuções sumárias. Só uma pequena parte conseguiu escapar.
Portugal, atolado em crises políticas e na pressa de fechar o capítulo colonial, não os retirou todos. E, no silêncio que se instalou depois, a sua memória ficou órfã. Nas antigas colónias, eram inimigos; aqui, eram incómodos.
Não foi um caso único. Penso nos harkis argelinos deixados à própria sorte pela França, nos montagnards aliados dos americanos no Vietname, nos intérpretes afegãos abandonados após a retirada de 2021. O padrão repete-se: quem ajuda numa guerra arrisca-se a morrer no dia seguinte à paz.
A Guerra de África foi também uma guerra de corações e mentes. Mas o 25 de Abril cortou o fio de forma brusca. Negociações rápidas, independências reconhecidas, retirada das tropas — e milhares de africanos que haviam combatido connosco ficaram expostos ao acerto de contas.
Em Angola, a 11 de novembro de 1975, poucos conseguiram lugar nos últimos navios e aviões para Lisboa. Muitos ficaram e pagaram com a vida ou com anos de fuga e medo.
Em Moçambique, a 25 de junho de 1975, a FRELIMO não escondeu o rancor: antigos aliados foram enviados para campos de reeducação; outros desapareceram para sempre.
Na Guiné-Bissau, em setembro de 1974, a vingança foi rápida e pública. O PAIGC tinha listas, e as execuções serviram de aviso.
E aqui, quem chegou encontrou um país que já queria virar a página. Não houve integração digna, nem reconhecimento. Apenas silêncio e esquecimento.
Mas a história não se apaga.
Porque enquanto houver alguém para lembrar, eles não estarão totalmente perdidos. E recordar é, também, um ato de justiça — sobretudo para um país que tantas vezes se esquece dos seus melhores filhos.
*Texto de Joaquim Moreira. Primeiro Cabo Pára-quedista com uma comissão em Angola
*Foto: Militares dos GEP (Grupos Especiais Pára-quedistas) em Moçambique.
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