Instabilidade governativa.
Esta foi a tónica dominante durante os 16 anos da Primeira República, nesta época, sucederam-se:
7 Parlamentos,
8 Presidentes da República,
46 governos,
2 períodos de ditadura (1915 e 1917-1918),
Diferentes mudanças de ministros:
68 Ministros da Fazenda/ Finanças (1910-1926),
19 Ministros do Fomento (1910-1917),
41 Ministros de Trabalho (1916-1925),
22 Ministros do Comércio (1917-1921),
47 Ministros da Agricultura (1918- 1926),
6 Ministros de Abastecimento (1918-1919),
3 Ministros de Subsistência e Transporte (1918),
22 Ministros do Comércio e Comunicações (1921-1926),
Este período foi caracterizado por um anticlericalismo radical, cujos símbolos maiores foram a abolição do ensino religioso nas escolas, em 1910, e a lei que instaurava a separação da Igreja e do Estado português.
Vamos agora sintetizar ponto por ponto as repercussões deste regime na população em geral e de que forma toda esta instabilidade levou ao caos e à miséria um país que já trazia de trás graves problemas estruturais.
A pobreza e a fome.
A instabilidade política originou uma gestão extremamente deficiente, dilatou a dívida externa de Portugal, e fez aumentar o custo de vida cerca de trinta vezes entre os anos de 1914 a 1925.
Enquanto os consecutivos governos lutavam pelo poder, instala-se uma profunda crise económica que afecta a população e origina lutas do operariado português, que demora em ver chegar as tão proclamadas reformas sociais e económicas. O povo passa fome, porque não possui dinheiro para adquirir os bens essenciais (quando os há!), pois, e de acordo com o Anuário Estatístico de Portugal, o custo de vida sobe 192,7%, entre 1914 e 1918, com o início da Primeira Guerra Mundial, a moeda desvalorizou-se, a inflação galopante subverteu as pequenas economias.
As receitas públicas não foram actualizadas na medida da desvalorização, o que criou enormes dificuldades de tesouraria e o empobrecimento das remunerações.
Os operários, enquadrados por organizações sindicais usaram a greve como instrumento de luta pela melhoria do salário e contra o aumento do custo de vida, vivendo-se assim, um clima de tensão social motivado por este movimento do operariado.
Durante a primeira República existiram duas grandes greves gerais, uma em 1912 e a outra em 1918. A primeira teve início com a paralisação dos trabalhadores rurais, no Alentejo, e alastrou-se e contagiou todo o país. Em 1918 começou com os trabalhadores ferroviários, mas, o governo com receio que alastrasse ao resto do país, foi travada pelo Exército que ocupou as estações de caminho de ferro.
O motivo principal destas greves era a reivindicação de melhores condições de vida, especialmente a redução do número de horas de trabalho, as circunstâncias em que trabalhavam, por exemplo, nas fábricas e oficinas, e o aumento dos salários. Os orçamentos das famílias eram tão baixos que não conseguiam fazer face à carestia de vida, havia fome e o povo padecia de graves carências.
É verdadeiramente aflitiva a situação da classe operária, e tal é a carência de trabalho e de meios o que traduz de um modo muito resignado o desespero e fome de muitas famílias.
No “Verão Quente” de 1917, os trabalhadores, desesperados com fome, assaltam os armazéns onde os açambarcadores faziam os géneros esperar uma nova alta de preços, com as restantes classes desapossadas e desesperadas da a viverem em comum o flagelo da subsistência, conduziram-nos a uma greve geral contra a carestia de vida, que foi o movimento mais alargado levado a cabo por uma central sindical, e possivelmente o momento de maior agitação social a que a Primeira República Portuguesa assistiu, era este o triste paradigma em que se encontrava o povo português, a fome alastrava.
Neste contexto que surgiram os novos-ricos, os que fizeram as suas fortunas assentes em negócios pouco claros, especulando os preços, nomeadamente, dos géneros alimentícios.
A revolta das populações era de tal forma violenta que a repressão era desmesurada e, em diversas ocasiões, o estado de sítio foi declarado, com recolher obrigatório. Ao longo da década, iniciada em 1910, muitas centenas de pessoas foram presas e, é neste ambiente de guerrilha e repressão que a população portuguesa vive o seu dia-a-dia, de tal forma que em Maio de 1917, adveio a Revolução da Batata, que consistiu num assalto generalizado, por todo o país, a mercearias, armazéns e outros estabelecimentos de artigos de primeira necessidade, acompanhado de motins e tumultos, e de acções de retaliação por parte da burguesia e dos proprietários.
A população, a guerra e a imigração.
Segundo os dados que dispomos podemos afirmar que só em 1912 saíram de Portugal quase 90 mil pessoas,em 1913 cerca de 80 mil e já em 1911 a fuga quase atingira sessenta mil. Em três anos, o país perdera em proveito sobretudo do Brasil 226 mil almas, uns 3,7% da sua população total.
Os Estados Unidos constituíram o segundo destino preferencial dos portugueses e, logo a seguir à Guerra, sucederam-se a Argentina e a Venezuela. Não há dúvida que, desde o termo da Primeira Guerra Mundial, Portugal se lançou em nova debandada migratória, só comparável à do derradeiro quartel do século XIX.
A participação de Portugal, na Primeira Grande Guerra, ao lado dos aliados, agravou os conflitos sociais (eram frequentes os assaltos a armazéns e lojas, onde existiam produtos de primeira necessidade), a carestia de vida, a carência alimentar e também situações de fome. Além do agravamento das condições de vida da população, a sua situação sanitária, também se deteriorou. As epidemias ou surtos epidémicos, como a varíola febre tifóide, tifo e disenteria, foram um outro factor causador de muitas mortes, e, como se verificou, as taxas de Mortalidade da População eram muito elevadas. E, especialmente, em 1918, as Taxas de Mortalidade (40,18) e Mortalidade Infantil (46,5) foram das mais elevadas deste período histórico, com mais de 60 mil mortos causados pela epidemia da pneumónica e às muitas outras dezenas de milhares provocados pela geral degradação das condições de saúde.
Tais factos deveram-se às más condições de vida da população, com uma alimentação paupérrima (o pão era caro, e, o peixe, carne, manteiga, entre outros, detinham preços elevados devido aos impostos e taxas alfandegárias), com uma má qualidade do alojamento, sobretudo nos grandes centros urbanos. Para termos a noção do preço dos alimentos, podemos mencionar que um litro de leite correspondia a 18% do salário de um operário e, uma dúzia de ovos era o equivalente a 60%. O salário médio, diário, em 1917, era de 60 réis e, em 1924, era de 8$50.
Lisboa era o maior centro urbano, com um crescimento de cerca de 200 000 pessoas entre 1900 e 1930. Era uma população analfabeta, proveniente das zonas rurais, que procurava emprego nas grandes cidades, mas que aqui vivia em condições infra humanas, em casas insalubres, sobrelotadas, que necessitavam de apoio social para poderem sobreviver na grande cidade, uma miséria social, um estigma que era transversal a todos os grandes centros urbanos na época.

O analfabetismo.
A Taxa de Analfabetismo, em Portugal, no início do século era muito elevada, cerca de 80%, quantidade que se concentra, sobretudo, nas áreas rurais, pois nas cidades os números de analfabetos são inferiores. Se pretendêssemos construir o Índice de Desenvolvimento Humano, do nosso País, não seria brilhante, pois o desenvolvimento humano é também caracterizado pelo nível de instrução de um povo.
No entanto, os sucessivos governos republicanos promoveram políticas de educação importantes, com o objectivo de elevarem o nível de instrução do povo português, de 5 500 escolas primárias que existiam, em Portugal, em 1910, nos restantes anos de vigência da Primeira Republica subiram para cerca de 7000 o numero de escolas, um crescimento miserável tendo em conta o atraso e os objectivos aos quais os governos de então se propuseram.
Com estas políticas, a Primeira República apenas reduziu marginalmente a taxa de analfabetismo, de 1910 a 1926, uma redução bastante inferior a 10%.
Conclusão.
A título de exemplo posso afirmar segundo os dados que disponho, que uma família operária residente num grande centro, em 1910, despendia 80% do seu salário em alimentação, 10% na renda da casa e igual percentagem (5%) para vestuário e outras despesas do agregado familiar.
Estes números são reveladores da grossa fatia que as famílias tinham que desembolsar na compra dos géneros alimentícios, pois como já foi referido, além da escassez eram muito caros. É por esta razão, entre outras, que a população tinha que recorrer a respostas de carácter assistencialista, para proverem à maior das necessidades básicas, a alimentação, como é o exemplo das Cozinhas Económicas e da Sopa dos Pobres.
Os dezasseis anos (1910 – 1926) que duraram a Primeira República foram particularmente cruéis para a população mais fragilizada: o atraso estrutural do desenvolvimento económico português, a Primeira Guerra Mundial e as suas consequências, a sucessão de epidemias (tifo, pneumonia, gripe, varíola), as deficientes condições habitacionais, constituíram outros tantos motivos para agravar um quadro de vida já de si muito dramático.
As medidas e as leis de natureza social, representaram iniciativas de carácter nobre mas que, em muitos casos (leis sociais do trabalho), não tiveram aplicação universal. Pensamos, no entanto, ser importante afirmar que a leitura que se pode e deve fazer do esforço desenvolvido pelos Republicanos, no domínio social, durante o período compreendido entre 1910 e 1926 terá, sempre, que ser contextualizado em função de, pelo menos, cinco questões chave que se colocavam ao país no princípio do Século XX:
A) O atraso económico do País face a outras nações europeias;
B) Uma ruralidade profunda
C) Uma situação dramática de iliteracia generalizada
D) Condições de alimentação muito deficientes
E) Um quadro global de vida carregado de elevadas dificuldades e restrições, deste modo, os limites do progresso social por parte da Primeira República terão, sempre, de ser contextualizado em função da pesada herança recebida no final da primeira década do Século XX.

Podemos concluir que o Portugal da Primeira República era um país rural, analfabeto, subdesenvolvido ao qual não houve uma resposta efectiva por parte dos sucessivos governos, arrisco mesmo dizer que, no final deste período o país se encontrava em pior situação do que no princípio deste novo regime carbonário-maçónico em 1910.
Do que podemos concluir que alguém teve como fardo a pesada herança de 16 anos de governo e um atraso estrutural de dois séculos, foi toda esta envolvência de miséria, repressão e subdesenvolvimento que levaram a que uma revolta levasse os militares com o apoio da generalidade da população a instaurarem uma ditadura militar que durou até se criarem condições de governabilidade e de alavancagem que tendessem a colocar este país ao nível dos mais desenvolvidos, definindo desta forma um novo rumo para Portugal e para os portugueses.
Infelizmente, depois de um período de 48 anos em que realmente avançámos como país e como nação, mais uma vez teimamos em não aprender com os erros do passado...triste sina a nossa!!!
Alexandre Sarmento





















