quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Os Pormenores Ocultados da Guerra Colonial

 


«(...) Muitos dos temas tratados versavam questões de estratégia internacional de um mundo cada vez mais global, outros eram o reflexo da alma do seu autor [Apoim Calvão] e, envoltos numa roupagem eivada de saudade e romantismo, não deixavam de retratar fielmente a realidade que se via no Ultramar português:

"Se colocarmos frente-a-frente um maconde e um muchope, representantes de dois grupos étnicos dos muitos contidos na nossa província de Moçambique, não se compreenderão se falarem os respectivos dialectos. Para comunicarem um com o outro fazem-no em português, língua com a qual contactaram nos fins do século XV e que é de facto um elemento aglutinador das populações moçambicanas. Aliás, os próprios terroristas o reconhecem, pois tanto na Guiné como em Moçambique, todos os documentos rebeldes são escritos em português, a língua que se ensina nas escolas é a portuguesa e não me sai da lembrança um caderno de problemas de aritmética elementar, dos muitos apreendidos numa base inimiga, e que começava assim: - 'Um ciclista vai de Lisboa a Santarém em seis horas...'. Pena que estas coisas não cheguem à ONU onde, caso as paixões e interesses políticos não levassem a melhor sobre os argumentos mais lógicos e serenos, não deixariam de falar à inteligência e ao coração dos homens de boa vontade.

A firmeza dos nossos objectivos políticos e a consequente linha estratégica, ditam-nos a palavra de ordem: saber durar, com calma, perseverança e inabalável fé no futuro".

(...) "... A visita do senhor Presidente da República [Américo Tomás a Cabo Verde e Guiné, em 1968] foi - no dizer de Alpoim Calvão - uma prova insofismável da nossa razão de ser no mundo. Há dias que a população se preparava ansiosamente para o desejado encontro. Grupos numerosos afluíam constantemente à cidade, com letreiros indicativos dos locais de origem, desenhando na paisagem de Bissau estranhos e raros quadros com as danças e cantares nativos e as belas roupagens de múltiplas cores. Eram os balantas de Prábis, os saracolés, os bijagós das ilhas com a característica dança do tubarão, mandingas, manjacos, fulas, mancanhas, enfim, um mundo de etnias diferentes, amalgamadas num todo pela presença da administração portuguesa e da língua, que as arrancou duma Babel de tribos para a homogeneidade duma Nação e Estado. Isto, nem os piores detractores da obra lusa em África o podem negar, tal a evidência dos factos..."

(...) "Seminário de Quadros" do PAIGC

Realizado em Conakry, de 19 a 24 de Novembro de 1969.

"Havia um homem grande, que aliás ainda está na luta, que há três anos me dizia: - Cabral, eu rezo todos os dias para Salazar não morrer. - E porquê, homem grande - Para a luta continuar um bocado ainda, para ele continuar a teimar, para nós continuarmos, para nos conhecermos melhor uns aos outros. Esta é uma grande verdade, hoje já nos conhecemos muito, hoje sabemos quem tem valor e quem não tem valor. (...)

(...) Temos que ter um sentido real da nossa cultura. O português (língua) é uma das melhores coisas que os tugas nos deixaram, porque a língua, não é a prova de nada mais, senão um instrumento para os homens se relacionarem uns com os outros... É preciso falar muito para o dizer, é possível dizê-lo mas é preciso falar muito. Enquanto que, em português basta uma palavra. Falando assim qualquer povo do mundo entende. E a matemática, nós queremos aprender matemática, não é assim? Por exemplo, raiz quadrada de 36. Como é que se diz quadrada em balanta? É preciso dizer a verdade para entendermos bem. Eu digo por exemplo: a intensidade de uma força é igual à massa vezes a aceleração da gravidade? Em crioulo não há, temos que dizer em português. (...)"

(...) Atento a tudo quanto se passava à sua volta, o comandante Calvão era muito crítico em relação ao posicionamento dos outros povos sobre o "colonialismo" português, não se coibindo de inevitáveis comparações nas suas crónicas para o Jornal de Notícias:

"Os ingleses saíram há vinte anos da Índia. O seu império tinha de ser forçosamente efémero, pois os princípios que os animavam não eram concordantes com a moral actual. Com efeito, vejamos a opinião emitida por Sir William Hicks, secretário do interior do gabinete de Baldwin: 'Nós não conquistámos a Índia por amor aos hindus e somente um missionário seria capaz de afirmar que o fizemos com o objectivo principal de elevar o nível cultural desses povos. Seria porém pura hipocrisia. Conquistámos na verdade a Índia levados pelo fito de assegurar um escoamento para os nossos produtos de exportação. Conquistámo-la pela espada e pela espada temos que conservá-la. Dizei o que quiserdes, eu porém, ocupo-me com os factos positivos. Não me é possível afirmar de mão no peito que a Inglaterra mantém o senhorio da Índia para o bem dos seus habitantes. Nós queremos conservar a posse deste país porque ele constitui o melhor mercado para os produtos britânicos em geral e para os tecidos de algodão do Lancashire em particular'.

Quão diferentes as cuidadas instruções que os antigos reis de Portugal davam aos seus navegadores no respeitante às relações a ter com os povos que se iam contactando durante as descobertas!

Não podemos pois aceitar que povos reconhecidamente colonialistas nos venham dar a nós, que nunca o fomos, lições de moral sobre o assunto das nossas Províncias Ultramarinas.

Nas lutas do Gungunhana contra a legítima soberania portuguesa, lá vemos a mão estrangeira armar abundantemente o sanguinário régulo vátua, na esperança de alargar os mercados para o algodão de Lancashire!

Actualmente não se trata só de algodão. As indústrias multiplicaram-se; os produtos cresceram desmesuradamente e é necessário colocá-los custe o que custar! O capitalismo infrene, sem a salutar intervenção do Estado, aproxima-se sinistramente da ideia de domínio universal pregada pelo comunismo.

Mas os portugueses, com a experiência de oito séculos, sabem que nada há de mais errado que a célebre frase de Salústio: 'Omne imperium iis solum artibus renitur quibus ab initio partum est' - os impérios só podem ser conservados pelos meios que serviram para estabelecê-los.

Com as nossas armas apenas defendemos a nossa liberdade".

(...) A população em geral tinha grande confiança nos portugueses e no seu governador-geral. Em Bissau, cidade aberta onde era comum os guerrilheiros virem descansar e recrear-se, misturados com a população civil, moravam e viviam em paz muitas das famílias dos dirigentes guineenses, com o conhecimento e o beneplácito das autoridades portuguesas. Era ali que residiam diversos familiares de Amílcar Cabral e aí vivia também a mãe do conhecido chefe de guerrilha, 'Nino' Vieira. Anos mais tarde, este confidenciara que certo dia de visita à casa materna, perguntara preocupado à mãe se não tinha sido incomodada pelo governador ou pelos seus homens, afinal ela tinha como filho um conhecido e activo resistente. D. Florença mostrou-se surpreendida com a pergunta e respondeu que, pelo contrário, sempre havia sido tratada pelo governador com grande respeito e consideração. 'Nino' Vieira, estupefacto com esta resposta, pediu então à mãe que, por favor, não contasse a ninguém, porque isso prejudicaria a sua reputação de líder da guerrilha.

(...) A doutrina com que, entretanto, Amílcar Cabral incentivava os quadros do PAIGC assentava apregoar os malefícios do colonialismo e as virtudes da luta de libertação, bem expressas nas "Palavras de Ordem Gerais", um opúsculo que o Secretariado-Geral do PAIGC editara e difundira em Novembro de 1965.

O pensamento de Cabral aí exposto, com a apregoada concepção humanista do seu autor a ser desmentida a cada parágrafo, fazia a apologia da violência e do ódio, incitando à destruição de tudo aquilo que os portugueses haviam construído, mesmo que fossem os frutos de uma acção benéfica para o povo guineense:

"(...) A definição do Povo depende do momento que se vive, na terra.

População é toda a gente, mas o povo já tem que ser considerado com relação à própria história. Mas é preciso definir bem o que é o povo, em cada momento da vida de uma população. Hoje na Guiné e em Cabo Verde, povo da Guiné ou povo de Cabo Verde, para nós, é aquela gente que quer correr com os colonialistas portugueses da nossa terra. Isso é que é povo, o resto não é da nossa terra nem que tenha nascido nela. Não é povo da nossa terra, é população da nossa terra, mas não é povo. Hoje é isso que define povo da nossa terra. Povo da nossa terra é todo aquele que nasceu na nossa terra, ou na Guiné ou em Cabo Verde, que quer aquela coisa que corresponde à necessidade fundamental da história da nossa terra, que é o seguinte: acabar com a dominação estrangeira da nossa terra. Aqueles que estão prontos a trabalhar duro nisso, a pegar teso, são todos do nosso Partido. Portanto, a maior parte do nosso povo é nosso Partido...".



(...) Ainda durante o mês de Janeiro de 1973, um acontecimento de certo modo inesperado altera e condiciona o rumo da guerra na Guiné. No dia 20, Amílcar Cabral é assassinado pelos seus correligionários à porta da casa onde vivia em Conacry. O incidente é reportado detalhadamente por uma informação datada de 29 de Janeiro, transmitida pelo agente Édouard Fernandez que actuava na fronteira de Koundara, e da qual o comandante Calvão dá conhecimento ao Governo:

"Em meados de Novembro de 1972, a dissidência guineense do PAIGC, chefiada por elementos mandingas, advertiu Sékou Touré do desacordo existente com Almícar Cabral e informou-o da intenção deliberada de criar um outro partido, caucionado pela maioria dos mandingas.

Trata-se da Frente Unida de Libertação da Guiné Bissau (FULGB). Os esforços de Sékou Touré para evitar a cisão foram infrutíferos, até porque a força militar da Rep. Guiné é inferior à do PAIGC.

Assim, S.T. de acordo com Cabral, fez executar no dia 18.1.73 dois dirigentes do FULGB, S. Torena, antigo responsável militar da Frente Leste da Guiné Bissau, e Aissatou Gassama, responsável das organizações femininas do PAIGC.

Em represália, o FULGB organizou um comando que no sábado, 20.1.73, pelas 22.30, irrompeu pela vila de Cabral onde este se encontrava com alguns outros cabo-verdianos e onde os matou à facada.

No dia seguinte o massacre foi comunicado a S.T. pelos responsáveis do FULGB. Sékou Touré encenou toda uma representação pois é convicção do informador que os assassinos serão apenas entregues ao FULGB.

O agente de ligação que forneceu os elementos encontrava-se em Conakry no dia do massacre.

Confirmam-se as graves dissensões de origem racial no PAIGC".

Também de Paris o capitão Soumah num documento manuscrito, originalmente em francês, descreve a sequência dos incidentes que levaram ao assassinato de Amílcar Cabral:

"1. Formação de um novo Front no interior do PAIGC denominado FULGB (Frente Unida de Libertação da Guiné Bissau) constituída exclusivamente por dissidentes da Guiné Bissau hostis a Amílcar Cabral e ao seu Estado-Maior cabo-verdiano.

2. Em 15.11.1972, este partido revela a sua existência a Cabral e a Sékou Touré e reafirma a sua determinação de não reconhecer mais a liderança de Cabral.

3. Dois membros influentes da FULGB são condenados à morte por Cabral e Sékou Touré e executados quinta-feira 19-01-1973 em Conakry. Trata-se de Sir Torena, antigo responsável militar da Frente Leste da Guiné Bissau, e a senhora Aissatou Gassama responsável das organizações feministas do PAIGC.

4. Sékou Touré tenta desarmar o FULGB sem sucesso.

5. Em 20-01-73 Cabral organiza na sua residência uma recepção em honra do seu Estado-maior.

6. Todos os convidados são misteriosamente drogados.

7. Vinte e cinco (25) membros do Estado-maior do PAIGC além de Cabral são então degolados pelas 22h30 por um comando da FULG.

8. Em 21-01-1973 às 10 horas da manhã o comando FULG apresenta-se às autoridades de Conakry comunicando-lhes a notícia.

9. À tarde de 21-01-73 Sékou Touré anuncia nas antenas da Rádio Conakry a notícia do assassinato de Cabral, acusando Portugal. (...)

Mais vale prevenir que remediar. A situação na República da Guiné é grave e carregada de ameaças para o Ocidente, para a nossa liberdade e para todos os valores que nós temos por mais elevados.

O irreparável, é certo, ainda não chegou, mas por quanto tempo ainda? Uma acção rápida e eficaz deve ser interposta e mantida por aqueles que têm os meios.

O vosso País tem tudo a ganhar em confiar em nós e em se decidir depressa pelas propostas que o meu Movimento lhe faz. Se se perderem em conjecturas e em indecisões diante dum grave perigo comum, amanhã pode ser tarde, teremos nós guineenses perdido definitivamente o nosso País e as nossas liberdades, mas o vosso País terá perdido diante da História uma ocasião de salvar o destino do Ocidente em África.

Paris, 31-1-1973
SOUMAH".

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

A morte anunciada de Portugal

 


«Profundo e ambicioso no saber, clássico e claríssimo na exposição, deixa-nos um livro excelente – As Crises e os Homens – e um legado único, a biografia de Salazar, que retrata a personalidade ímpar do estadista e toda a História de uma época.

Com a morte de Salazar abandona as lides do Estado. Eram outros os seus desígnios e por mais respeito que lhe merecesse Marcello Caetano, não esconde a sua preocupação no evoluir da política seguida quanto ao Ultramar, e sintetiza a dado momento: “Com a revolução de Abril de 1974 praticou-se um corte com o passado. Muitas forças procuraram, e acaso algumas procuram, que esse corte, além de drástico, seja absoluto: uma rotura com o passado e não apenas com um certo passado. Foi assim posto em causa o próprio facto nacional, e tentou-se a destruição do homem português na sua dimensão psicológica, sociológica, cultural, histórica, em suma, como homem diferenciado com alicerces próprios, autónomos”.

Durante o curto período de 1970 a 1974 entregou-se afincadamente ao estudo da História orientado pelos valores que constituem o nosso património cultural, espiritual, artístico, e pela defesa intransigente da nossa individualidade política. Como tal foi convidado a participar em congressos, colóquios, reuniões ou simples encontros, ou foi colunista na nossa imprensa, quer a nível nacional quer no plano internacional, dando testemunho do que mais tarde viria a denominar “crepúsculo nacional”, que bem pode preludiar uma noite definitiva, como escreveu em Um Político Confessa-se.

O facto é que o seu vaticínio se torna realidade, e, em 1974, Portugal, “a Nação Peregrina em Terra Alheia”, atinge o seu termo. O resto é do domínio público.

Franco Nogueira, como muitos outros, é então preso por malfeitor, fica incomunicável durante meses, e quando o visito no Hospital de Santa Maria, vítima de um enfarte do miocárdio, rodeado pela mais severa segurança, encontro-o resignado e com bonomia a conversar com os médicos que o escutavam atentamente. Regressa a Caxias e, meses após, inexplicavelmente, é liberto em 13 de Maio de 1976, data que ele nunca esqueceu, principalmente por coincidir com o aniversário da primeira aparição em Fátima.

Pouco depois parte para o exílio, em Londres, onde habita um apartamento em St. James. Como diplomata, ministro e homem público, conquistara verdadeiros admiradores que o acolhem na sua permanência em Londres, embora convidado por outros países, como os Estados Unidos da América. O Clube dos Conservadores abre-lhe as portas, com a particularidade de ser o único estrangeiro que o podia frequentar e convidar pessoas das suas relações. Em Londres deixa amizades. No exílio, sempre com Portugal como preocupação prioritária, estuda e lê, prossegue a biografia de Salazar. Cultiva o humanismo no sentido mais amplo do termo, como me escreve por essa ocasião.

No regresso de Londres, talvez por 1981, dado o seu permanente e constante fervor patriótico, Franco Nogueira vive intensamente o desenrolar dos acontecimentos políticos. Fala-se da nossa adesão à C.E.E., na unidade económica e política da Europa. As elites ou classes bem-pensantes achavam-se no poder, e o povo, a nação, completamente à deriva. Desde 1974, encontrava-se uma sociedade doente, anárquica, negativa, derrotista, sem querer, sem ideal, arrastada por valores fugazes e falsos; os responsáveis, pautados por princípios tendentes a abandonar património material e espiritual, confundem Portugal com tudo o que é alheio a Portugal.»

António Maria M. Pinheiro Torres («Franco Nogueira e a Unidade Nacional»).

domingo, 27 de setembro de 2026

O fazedor de vazios

 




António Costa deixa uma economia que se alimenta de duas coisas: turismo e impostos; uma, volátil; a outra, canibal. Sai na semana em que o Presidente do STJ declarou que a corrupção está crescer.

Um dia, quando olharmos para trás, será estranho perceber qual foi o legado de António Costa.

António Costa foi o segundo primeiro-ministro que mais tempo governou no Portugal democrático. Mais tempo do que Sócrates, mais tempo do que Passos, muito mais tempo do que Soares. Durante oito anos, não fez uma reforma. Gabou-se de sentir “calafrios” de cada vez que ouvia a expressão “reformas estruturais”. Conduziu o governo mais rico dos últimos 50 anos em Portugal, consequência do reforço das verbas europeias e do contínuo somar de recordes no arrecadamento fiscal, e não fez nada com o dinheiro. Aumentou o salário mínimo, mas deixou enterrar o médio; distribuiu esmolas, mas só aumentou o número de pobres. Cavaco tinha o CCB e as estradas; Guterres a Expo lançada por Cavaco; Durão os estádios lançados por Guterres; Sócrates as estradas duplicadas e as eólicas; Costa deixa um buraco aqui e um pasto ali, para o aeroporto que nem sequer conseguiu decidir onde fazer.

Durante oito anos, somaram-se os desastres. Na Administração Interna, quando Pedrógão ardeu e o Estado colapsou. Quando nada daquilo alguma vez voltaria a acontecer e, afinal, aconteceu logo em Outubro. Quando agentes do SEF mataram à paulada um cidadão estrangeiro e, a seguir, simplesmente, se desmantelou o SEF. Quando o ministro andou a vender golas anti-fogo que, afinal, eram inflamáveis, e acabou a atropelar um homem na autoestrada e nem saiu do carro. Quando Costa segurou esse ministro contra tudo e todos – até alguém lhe dizer que ia perder as eleições se não o deixasse cair. Porque, durante oito anos, a única coisa que pareceu importar a António Costa foi isto: o poder. Para fazer o quê? Ninguém sabe. Ninguém viu.

Na Defesa, foi o pior ataque. Do embaraçoso roubo das armas de Tancos ao escândalo do secretário de Estado envolvido num caso de corrupção, passando pelos Leopards oferecidos à Ucrânia de que, afinal, só se aproveitavam três e pelo navio da Marinha em que os próprios militares se recusaram a embarcar e que acabaria a avariar em plena missão, meia dúzia de dias depois. Nas infraestruturas, tivemos ministros e adjuntos à pancada. Na economia, um ministro inútil, desmentido pelos seus próprios secretários de Estado.

Durante oito anos, António Costa criou os maiores governos de sempre, entre pastas que não existiram – Economia, Ciência, Cultura, Planeamento, Coesão Territorial (o que quer que isso seja), e outras cujos titulares chegam ao fim envoltos nas maiores suspeitas – Finanças, Infraestruturas, Negócios Estrangeiros. Oito anos em que a única coisa que cresceu foi o PS e os seus tentáculos, estendendo-se ainda mais pelas empresas públicas, pelos órgãos reguladores, por tudo o que mexe, e onde tudo, cada vez mais, em Portugal, depende de uma só coisa: a fidelidade a quem seja, circunstancialmente, líder do Partido Socialista.

Durante oito anos, António Costa tentou, acima de tudo, ser ambíguo. Que as suas palavras pudessem querer dizer o máximo de coisas possíveis, de maneira a nunca se comprometer com nada. Nas vezes em que arriscou não o fazer, foi o fracasso absoluto: nos médicos de família que todos os portugueses iam ter e cada vez menos têm; nos milhares de casas que se ia construir e que nunca saíram da imaginação sabe-se lá de quem. A TAP foi o símbolo do seu reinado: comprou-a de volta para a voltar a vender e nem isso conseguiu levar até ao fim. Pelo caminho, fez o país gastar milhares de milhões de euros e, o que ainda é pior, anos de vida. Para absolutamente nada.

Mas o mais estranho, o mais inexplicável, foi a bazófia. Durante oito anos, António Costa deixou acumular o que tentou desvalorizar como “casos e casinhos”. Incompetências, mentiras, acusações de corrupção dentro do seu governo, entre pessoas cada vez mais próximas do seu círculo. Se, a princípio, ainda tentou manter a uma distância de segurança a tralha socrática, a dado momento chamou-a, como agora se vê, para dentro do seu próprio gabinete. E apesar de tudo, de todos os avisos, de todo o histórico, continuou a cantar de galo, cada vez mais alto, cada vez mais arrogante, de forma cada vez mais gratuita, por pura e simples exibição da mesma coisa: o poder.

Na semana passada, tentou achincalhar o Presidente, a oposição, o regime, colocando o ministro cuja cabeça há tanto tempo Marcelo pedira a encerrar o debate do Orçamento – e a dar-se ao cinismo supremo de citar essa mesma “sua excelência” Marcelo. Parecia ter tudo sob controlo – mais sob controlo do que nunca. Para cair, afinal, descontroladamente e sem aviso, uma semana depois. Fica, ao menos, uma declaração digna na demissão, e uma das poucas sem ambiguidades que alguma vez logrou fazer.

Oito anos volvidos, deixa Portugal ainda mais dependente dos fundos europeus e os portugueses ainda mais dependentes do Estado. Um Estado que fez engordar de novo para números-recorde e que, no entanto, está mais incapaz do que nunca de cumprir sequer as suas funções essenciais: na Saúde, na Educação, na Defesa, na Justiça. Não conseguiu vender a TAP, não fez o novo aeroporto, não lançou a alta velocidade, não estancou a emigração, afastou investimento, agravou, drasticamente, os problemas no SNS e na habitação.

Nas escolas, os alunos não têm professores e os professores não têm habilitações. Nos hospitais, falta tudo, dos instrumentos mais básicos aos próprios médicos. Na habitação, chegámos ao triste ponto em que um ordenado médio no país não chega sequer para pagar a renda de um apartamento exíguo na capital. António Costa deixa uma economia que se alimenta de duas coisas: turismo e impostos; uma, volátil; a outra, canibal. Sai na semana em que o Presidente do Supremo Tribunal declarou que a corrupção está instalada no país e a crescer, e no mês que o responsável máximo pelo SNS anunciou como “o pior da História”. Não são exageros da imprensa nem da oposição; são os factos.

Para isto, derrubou o líder do seu partido em pleno mandato. Não por questões ideológicas, não por uma divergência de visão para o país, mas porque ganhava por poucos, por “poucochinho”. Para isto, provocou um terramoto na política portuguesa, impedindo, pela primeira vez, que fossem os partidos mais votados pelo povo a formar governo. E com isso deixou aquele que se arrisca a ser o seu verdadeiro legado: a fragmentação da direita e o quase desaparecimento da esquerda. Em suma, o vazio. O desfecho inevitável para um homem cujo grande desígnio para o país, resta agora evidente, era deixá-lo absolutamente na mesma.

E o pior, caro leitor? O pior, receio, é o que vem a seguir. 

Alexandre Borges
(Escritor e argumentista)

O Fim Anunciado de Portugal.

 








Lembram-se, foi uma festa, agora paguem a energia ao preço que o mercado internacional ditar!!!
O mesmo aconteceu com as barragens, que hoje estão na mão dos chineses, e como não podia deixar de ser também fecharam as refinarias.
Mas será que virámos um povo de atrasados mentais?
Acham inteligente termos entregado os sectores estratégicos a estrangeiros ou abandonado a produção nacional?
Estamos na mão de quem, vamos para onde e de quem dependemos?
E eu pergunto, se o Estado Português não tiver reservas financeiras, acontece o quê aos portugueses?
Continuem a votar neste regime e vão preparando a trouxa para irem todos viver para debaixo da ponte, isso o comum cidadão, pois o político, o autarca ou o gestor público vai continuar a viver como um nababo, tudo à tua custa meu atrasado mental, vota neles, o sistema agradece!!!

Alexandre Sarmento 

A Penumbra Planeada

 


Não há nada mais próprio do nosso tempo do que a insolência de nos tratarem como crianças assustadas, fechadas num quarto escuro onde os adultos projetam sombras terríveis na parede. Vivemos sob o jugo de uma pedagogia incessante e uniformizada, uma espécie de catequese laica que repete, com a insistência monocórdica dos antigos pregoeiros, verdades que não admitem réplica. Dizem-nos, com uma gravidade dominical, que os combustíveis fósseis são a própria encarnação do mal, que o dióxido de carbono — esse gás invisível que alimenta as plantas e que nós próprios expiramos em cada segundo de hesitação — é um veneno absoluto, e que a energia nuclear é uma roleta russa permanente que devia ser banida da memória dos homens.


Toda esta narrativa oficial, difundida com o zelo de quem possui o monopólio da virtude, assenta numa premissa ainda mais perversa: a da escassez. Há anos que nos preparam psicologicamente para a ruptura, que nos ameaçam com o espectro dos apagões e do racionamento, obrigando-nos a olhar para o interruptor da luz com a culpa de quem comete um pecado venial. É uma farsa magistral. Qualquer observador minimamente atento, livre do contágio do pânico consensual, percebe que o mundo não padece de uma falta de energia, mas sim de uma saturação. O que há é um excesso de produção e, acima de tudo, uma obsessão pelo controlo dos canais de distribuição. Ameaça-se com a escuridão não porque falte a matéria-prima, mas porque o medo é o método mais eficaz para ditar o preço da dependência.


Neste grande teatro de sombras, a história oficial gosta de esquecer as suas próprias ramificações incómodas. Quase ninguém se atreve a pronunciar hoje o nome de Nikola Tesla sem o remeter para a excentricidade dos manuais de curiosidades ou para a marca de automóveis que se apropriou do seu apelido. No entanto, foi ele quem vislumbrou a possibilidade de uma energia livre, captada diretamente do magnetismo e da atmosfera terrestre, transmitida sem fios e sem portagens. Aquela ideia — a de uma energia abundante, gratuita e inacessível ao fisco — era o pior pesadelo dos barões do petróleo e dos oligopólios que começavam a desenhar o século XX. Por isso, a promessa da energia livre foi diligentemente apagada do mapa, soterrada sob patentes compradas e silêncios cirúrgicos.


O que nos resta, portanto, é esta programação quotidiana. Aceitamos a tese da nossa própria debilidade e pagamos faturas cada vez mais altas por uma energia que, na verdade, nos rodeia em abundância. Rimo-nos dos teóricos da conspiração para não termos de admitir que a maior de todas as conspirações é a própria realidade que aceitamos sem protesto: a de que o progresso humano deve ser sempre vigiado, racionado e, acima de tudo, faturado.



Teresa Silva

sábado, 26 de setembro de 2026

O Fim do Trabalho e a Ascenção do Homem Dispensável

 


Quando Jeremy Rifkin publicou The End of Work em 1995, o mundo vivia a euforia da globalização e a infância da internet. A sua tese foi recebida com o cepticismo paternalista reservado aos profetas da desgraça: a promessa da tecnologia, diziam as elites, seria sempre a de libertar o homem do esforço mecânico para o elevar a funções mais nobres. Três décadas depois, a poeira do optimismo assentou, e o que encontramos não é a alvorada de uma era de emancipação, mas sim a confirmação fria do diagnóstico de Rifkin. A automação galopante, a inteligência artificial e a eficiência algorítmica corporativa inauguraram a era da destruição líquida de postos de trabalho, onde a tecnologia já não substitui apenas a força muscular, mas também a própria capacidade cognitiva humana.

O grande drama que Rifkin antecipou, e que hoje se tornou a realidade incontornável da economia global, é que o capitalismo moderno atingiu um ponto de viragem histórico: já não precisa de pleno emprego para produzir riqueza. Pela primeira vez na história da humanidade, caminhamos para uma sociedade altamente produtiva que dispensa quase por completo o factor trabalho. A questão que assombra os corredores do poder político e financeiro já não é como integrar os seres humanos no tecido produtivo, ma sim como gerir uma massa populacional que se tornou, para todos os efeitos económicos, absolutamente redundante.

O esvaziamento do trabalho não é apenas uma crise económica; é uma amputação espiritual. Durante séculos, o trabalho foi a âncora que conferia dignidade, propósito e estrutura à vida humana e à organização das comunidades. Retirada essa âncora o que resta à população? Para evitar o colapso social e as revoltas que a escassez e o vazio existencial provocariam, as agendas tecnocráticas desenharam um novo modelo de contenção. A solução já não passa por reabilitar ou educar as massas para uma economia que não tem espaço para elas, mas sim implementar uma ração de subsistência - sob a forma de subsídios estatais permanentes - acoplada a uma oferta de ócio barato, anestesia digital e o "Soma" (*) das substâncias recreativas que inundam as esquinas. O entretenimento fútil, o fluxo infinito de imagens nos ecrãs e a névoa química quotidiana operam como o calmante perfeito para um rebanho humano que aceita a sua irrelevância em troca de uma sobrevivência minimamente confortável.

O drama específico de Portugal é que, perante esta agenda global de submissão financeira e social, os cidadãos encontram-se totalmente indefesos devido à própria arquitetura da Constituição de 1976. Sem círculos uninominais e sem órgãos independentes que travem o centralismo estatal, o regime português transforma-se numa autêntica ditadura dos medíocres, permeável a qualquer agenda transnacional. Quando Bruxelas ou os bancos centrais decidirem acelerar o Euro Digital, a transição forçada da farsa verde ou a distribuição da Renda Básica de Controlo, não haverá em Portugal um tribunal independente ou um Parlamento soberano com força constitucional para resistir. A blindagem partidária da nossa Constituição garante que os peões no poder assinem, sem pestanejar, a certidão de óbito da nossa soberania nacional e individual.

Teresa Silva

(*) Aldous Huxley in "Admirável Mundo Novo"

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Olha-se, Mas Não se Vê





Os sinais continuam a manifestar-se. Todos os dias, a todos os instantes. E, embora sejam tão notórios, tão flagrantes, as massas continuam cegas, ou em negação, e mergulhadas na mais patética ignorância.

O preço dos combustíveis a subir em flecha (para o qual o governo aconselha as pessoas a poupar!), o custo de vida cada vez mais insuportável para uma grande percentagem da população (a quem o governo atira, em cínicos gestos filantrópicos e natalícios, uma esmola!), o serviço nacional de saúde a afundar-se (que o governo constantemente promete melhorar!), os mosquitos largados na capital (com todas as justificações sonantes, menos a verdadeira!). Estes são apenas alguns dos exemplos incontestáveis de que a agenda globalista/elitista/sionista continua a avançar impávida, serena e implacavelmente.

Portugal já não engana ninguém. A destruição paulatina do país é notória. A (in)acção do governo demonstra, sem qualquer equívoco, que o país obedece e implementa a agenda segundo as instruções da elite globalista/sionista. Perdeu, não só a soberania, como também a identidade nacional e cultural, e mergulhou na mais humilhante vassalagem a todos os execráveis do planeta. E as massas, essas, na sua esmagadora maioria mentalmente mutiladas e reprogramadas, ainda acreditam que governos e partidos são a solução, ainda acreditam que a Rússia é o inimigo, que os muçulmanos são todos terroristas, que a Covid existe e que as injecções letais contra o pretenso vírus são vacinas seguras e eficazes, ainda acredita que buzinões e marchas lentas são formas de luta eficientes.

A cada fechar de olhos à iniquidade, a cada desculpar da perversidade, a cada fortalecimento de dogmas e crenças, a cada acto de acreditar na mentira e descartar a verdade, a cada assentimento e seguimento das narrativas e das propagandas, a cada encolher de ombros perante a perfídia, o crime e a corrupção, mais se consolida o ambiente propício para o desenrolar de um sinistro Armagedão orquestrado.

Isabel Conde 

Comunismo? Claro, Por Que Não?






Li O Manifesto Comunista de Marx e Engels quando tinha 17 anos e fiquei de castigo por causa disso. Na realidade, tive o castigo por tê-lo lido na aula e depois recebi um sermão por estar interessado no seu conteúdo subversivo e anti-americano, dado pelo director-adjunto enquanto estava de castigo. Os pormenores são irrelevantes. Não o li por ser um fã de Marx, li-o apenas porque sabia que era subversivo. Li Mein Kampf uns anos mais tarde pela mesma razão. Não me tornei fã de Hitler, mas aprendi muito a cerca dele e do nacional-socialismo e, no liceu, depois de ler o Manifesto, aprendi um pouco acerca do comunismo.

Lembro-me de ter ficado impressionado com a famosa frase "De cada um segundo as suas capacidades, para cada um segundo as suas necessidades" (uma citação de Marx, mas de um texto diferente). Na altura, não compreendi as suas implicações. Parecia-me bem, sem ir muito fundo. Parece que somos enganados por esta ideia de "soar bem" quando ouvimos falar pela primeira vez de algo, como CBDCs, UBIs [NdT – Rendimento Básico Universal] ou IDs digitais, "soa muito bem, não é?" Ninguém parece olhar para as implicações – nós olhamos, claro, mas a maioria das ovelhas não.

Sim, que bom, roubar aos ricos e dar aos pobres. Toda a gente adorava o Robin dos Bosques... ele era um dos bons da fita. Toda a gente pensa que quem tem dinheiro o conseguiu roubando aos pobres! Claro que há quem o faça, mas provavelmente não é tão comum num simples país capitalista do velho mundo (pelo menos não directamente), e provavelmente é muito mais comum num país comunista (roubar aos pobres, roubar a toda a gente), e certamente o nome do jogo na próxima economia GloboCap (para usar o termo de C.J. Hopkins). "Um dia não terás nada e serás feliz." Tenho a certeza acerca da primeira parte desta frase, mas não tenho tanta certeza acerca da segunda parte.

Não só o conceito "de cada um de acordo com a sua capacidade, para cada um de acordo com as suas necessidades" simplesmente não funciona, como qualquer sistema baseado em tais coisas está aberto à corrupção. Não vou entrar em pormenores sobre a razão pela qual o comunismo, tal como Marx o propôs, é um sistema derrotado, há muitos livros sobre esse assunto. O que eu quero comentar é por que é que tanta gente não acredita que é um sistema derrotado. Mostrem a um liberal a frase de Marx e aposto que ele dirá: "Claro, por que não?" Pois, claro que gostam da ideia, até o Estado aparecer e começar a cortar a sua opulência e a distribuí-la por aqueles que eles acham que a deviam receber em vez deles, "de acordo com as suas necessidades".

Em primeiro lugar, ninguém (pelo menos aqui na América do Norte) está ainda a sofrer profundamente com a transição para o totalitarismo de tendência comunista. As pessoas pensam que a perda de liberdades é análoga à eliminação das leis de trânsito. Não é. As pessoas dizem: "Bem, eu não tenho problemas em ser um cidadão cumpridor da lei, não preciso de ter o direito de 'fazer o que quiser'". Essa é uma afirmação ingénua. Os direitos que as pessoas perdem num sistema de tipo comunista são um pouco mais severos do que isso.

É importante notar que aquilo para que estamos a ser conduzidos não é o comunismo de Marx, Lenine ou Mao. Trata-se de um novo tipo. Não sei exactamente qual, mas é diferente. Um novo sistema de "colectivização" pode não ter, pelo menos de início, nenhuma das opressões estereotipadas do "comunismo" em que todos pensam quando pensam em comunismo. E sim, muitas pessoas podem ser tolerantes com ele, mais uma vez, pelo menos durante algum tempo. Pensem no 1984 de Orwell e depois comparem esse estado sombrio com o Admirável Mundo Novo de Huxley, ou até com o Fahrenheit 451 de Bradbury. 1984 é um exemplo da condição de "fim de linha" de uma cultura oprimida.

Em 1984, a doença estava profundamente instalada e o parasita do comunismo/totalitarismo está prestes a destruir o seu hospedeiro. Admirável Mundo Novo e Fahrenheit 451 são exemplos de culturas ainda na fase inicial de uma estrutura que está a sugar a alma das pessoas, mas o hospedeiro (as pessoas) ainda não morreu. O que todos têm em comum, contudo, assim como o que há em comum com a distopia actual, é o controlo central das massas. Isto é agora conseguido de forma diferente – a obsessão pelo telemóvel, o controlo dos meios de comunicação, as redes sociais, o rótulo de desinformação sobre tudo o que é contrário à narrativa. É claro que os velhos pilares da propaganda e da censura do discurso ainda fazem parte de tudo isto, mas, mais uma vez, tudo tem um toque ligeiramente diferente.

O objectivo do parasita é manter o hospedeiro vivo o máximo de tempo possível para poder beneficiar dele. Certamente, no nosso caso, as massas podem ser eliminadas e mantidas suficientemente doentes para serem complacentes e facilmente manipuláveis, mas, como diz Schwab, a intenção é manter feliz o que resta de nós ... ou assim esperam, pelo menos até que estejam muito bem instalados na "nova" cultura.

O estilo de comunismo que se abateu sobre nós (e temos de arranjar uma palavra melhor, agora que já tem a intenção de criar comunidade) foi concebido para nos sugar apenas o suficiente para que não saibamos que estamos a ser privados de vida. Os perpetradores não sabem nada sobre a alma; por conseguinte, não se importam com ela. Perderemos a nossa alma mais depressa do que perderemos o nosso corpo em consequência desta drenagem lenta.

Ficaremos deprimidos, desanimados, pouco enérgicos, pouco afectuosos, ansiosos, bem como uma litania de outras doenças mentais. Embora a intenção dos nossos donos seja manter o nosso corpo no limite do funcionamento (a menos que sejamos um dos infelizes (ou afortunados?) a ser eliminados) para lhes devolver o que eles querem, mais cedo ou mais tarde colapsaremos internamente. A alma morrerá de fome. Já estamos a ver isso, pelo menos NÓS estamos, as pessoas mais afectadas por este estilo de matança dos Skeksis não estão conscientes da causa do seu desespero – e esta percepção só agora está a chegar a elas.

Vai demorar muito tempo até que as pessoas se apercebam do que está a acontecer. O que é que vai ser preciso? Vai ser preciso ser impedido de viajar internacionalmente? Ou ser impedido de viajar de cidade em cidade, ou mesmo dentro da própria cidade? Ou serão essas restrições envoltas no pretexto comum de que "é para o vosso próprio bem"? Será que as pessoas se aperceberão desta opressão quando já não puderem usar o dinheiro à sua vontade? Ou quando forem impedidas de comprar certos artigos que querem porque ultrapassaram a sua quota? Ou será que se aperceberão quando o aquecimento ou o ar condicionado da sua casa for ajustado para além da sua vontade? Ou será que também vão ver isso como "para benefício de todos, devido aos perigos das alterações climáticas"? Será que vão finalmente reparar quando forem presas por terem mencionado, na fila do supermercado, que não estavam satisfeitos com a subida do preço das alfaces e que culpavam o actual governo pela inflação?

É difícil dizer quando é que vão reparar, se é que alguma vez vão reparar, que algo não está bem na forma como o mundo está a ser gerido. Neste momento, é tudo "para o bem da humanidade e do planeta". Culparão pela sua depressão, ansiedade e pela profunda sensação de impotência que sentem, quase tudo o que não seja a verdadeira razão – que a sua alma está a ser corroída pelo próprio sistema que prometeu cuidar deles.

Todd Hayen, PhD, RP

29/11/2023

Via, Isabel Conde.

A SOCIEDADE DO ESPECTÁCULO



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“Onde o mundo real se converte em simples imagens, essas simples imagens tornam-se seres reais e motivações eficientes de um comportamento hipnótico. O espectáculo, como tendência para “fazer ver” por diferentes mediações especializadas o mundo que já não é directamente apreensível, encontra normalmente na vista o sentido humano privilegiado que noutras épocas foi o tacto; o sentido mais abstracto, e o mais mistificável, corresponde à abstracção generalizada da sociedade actual. Mas o espectáculo não é identificável com o simples olhar, mesmo combinado com o ouvido. Ele é o que escapa à actividade dos homens, à reconsideração e à correcção da sua obra. É o contrário do diálogo. Onde quer que haja “representação” independente, o espectáculo reconstitui-se.
(...)
A alienação do espectador em proveito do objecto contemplado (que é o resultado da sua própria actividade inconsciente) exprime-se assim: quanto mais ele contempla, menos vive; quanto mais aceita reconhecer-se nas imagens dominantes da necessidade, menos ele compreende a sua própria existência e o seu próprio desejo. A exterioridade do espectáculo em relação ao homem activo revela-se no facto de os seus próprios gestos já não serem seus, mas de um outro que lhos representa. Eis porque o espectador não se sente em casa em nenhum lugar, porque o espectáculo está em toda a parte.”
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— GUY DEBORD (28 de Dezembro de 1931 – 30 de Novembro de 1994), escritor, cineasta, pensador e teórico libertário francês, in “A Sociedade do Espectáculo”, Antígona, 2012.

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Portugueses Vivem em Permanente Representação

 



Os Portugueses vivem em permanente representação, tão obsessivo é neles o sentimento de fragilidade íntima inconsciente e a correspondente vontade de a compensar com o desejo de fazer boa figura, a título pessoal ou colectivo. A reserva e a modéstia que parecem constituir a nossa segunda natureza escondem na maioria de nós uma vontade de exibição que toca as raias da paranóia, exibição trágica, não aquela desinibida, que é característica de sociedades em que o abismo entre o que se é e o que se deve parecer não atinge o grau patológico que existe entre nós.

Os Portugueses não convivem entre si, como uma lenda tenaz o proclama, espiam-se, controlam-se uns aos outros; não dialogam, disputam-se, e a convivência é uma osmose do mesmo ao mesmo, sem enriquecimento mútuo, que nunca um português confessará que aprendeu alguma coisa de um outro, a menos que seja pai ou mãe...

Eduardo Lourenço, in 'Labirinto da Saudade - Repensar Portugal (1978)'
Foto de Alfredo Cunha

Ainda sobre a Mitra.

 




Errado, o Estado Novo de Salazar não fechava os indesejáveis, muito menos na Mitra.

O Estado Novo com as suas políticas verdadeiramente sociais e de protecção aos mais desfavorecidos, dava-lhes um tecto, cuidados de saúde, alimentação e um tratamento condigno, humano e em muitos casos, especialmente dos mais jovens preparava-os para a vida, dava-lhes ferramentas e conhecimentos que lhes permitissem ser reintegrados na sociedade. 

Deixo-vos o texto de uma amiga sobre o assunto, texto esse que subscrevo na íntegra, escusam de tentar denegrir o excelente trabalho prestado à nação pelos competentes e sérios membros que arduamente trabalharam com o Doutor Salazar. Estes pobres incompetentes e corruptos do novo regime deveriam ter aprendido alguma coisa com os políticos e governantes do passado, mas a falta de valores é de tal forma notória que só lhes podemos imputar a morte de um Portugal que outrora foi grande e onde os portugueses eram tratados com a dignidade que merecem!!!


"Ainda sobre a Mitra.
Mandaram-me ir ao Google para saber como era viver em Portugal durante o Estado Novo. Vou ser curta e grossa. Aquilo de que menos preciso é de que uns palermas ignorantes me tentem dar lições sobre como era viver sob a batuta de Salazar. Se há paleio que não tolero é a de que o 25 de abril foi feito para devolver a liberdade aos portugueses. Idiotas! O 25 de abril aconteceu porque os militares não queriam continuar a ir para o ultramar, não queriam continuar sem progredir nas carreiras e sem ganhar o que na época consideravam o justo. Esse foi o mote para a revolução de abril, não foi o vosso bem estar e a vossa liberdade! Tudo o que aconteceu depois foi uma conjugação de fatores alinhados com interesses políticos. A Esquerda viu ali a oportunidade para substituir o regime. Dali ao PREC foi um " danoninho". Também sobre a Mitra, não preciso de ir ao Google nem de procurar mais informaçao do que aquela que já tenho. Fui jornalista por muitos anos e uma das reportagens que fiz em 2003 foi precisamente " Como era a vida dos portugueses durante o Estado Novo".
Conheci pessoas que estiveram lá e que ficaram agradecidas por terem sido tiradas das ruas e levadas para um lugar onde tinham comida, uma cama e um propósito. Acontecia o mesmo às prostitutas que se recusavam a trabalhar apenas nos locais reservados para o efeito. A prostituição, caso não se lembrem, era regulamentada. As prostitutas não exerciam a sua actividade a soldo no meio das ruas e os xulos não eram permitidos, embora os houvesse até serem apanhados. Estas regras permitiam o acompanhamento médico obrigatório para evitar o contágio de doenças venéreas. Onde é que isto era mau? Estas pessoas não estavam ao Deus dará nas ruas e já não se sentiam inúteis. Tinham a possibilidade de recomeçar a acreditar que a vida podia ser diferente. Eram numerados sim, porque como não estavam presas e iam à rua não podiam ser apanhadas a mendigar e a numeração também indicava à polícia que estas pessoas já estavam institucionalizadas. Está é a verdade. Que desde o 25 de abril se faça de tudo para denegrir a imagem e a memória de Salazar, não é novidade para ninguém! Que tanta gente tenha perdido a noção, ou porque não viveu a época ou porque a viveu, mas contaminada pelo comunismo, isso já é outra história. Na minha família também houve comunistas e mesmo aqueles que, apesar da ideologia, são sérios, desmentem muita da narrativa actual sobre o Estado Novo. E depois há aqueles, que também os conheço que foram parar a Peniche e a Caxias e até ao Tarrafal.
Viver no Estado Novo não era um mar de rosas nem para os comunistas, nem para os acólitos ( Camisas Azuis) do Rolão Preto que abriam caminho para a Alemanha Nazi chegar a Portugal. Quantas pessoas sabem disto? " Ah... vá ao Google!" Idiotas! Passei anos da minha vida a estudar o Estado Novo e a falar com gente que o viveu. Mas não se preocupem que eu não vos mando para o Google. Não vão encontrar nada lá. A internet está cheia de propaganda pós- 25 de Abril. Mas leiam a historiadora Irene Pimentel, por exemplo. Apesar de comunista e de, por isso, não esconder o seu desagrado com o que foi o regime de Salazar, eu diria que não se deixou cegar pela ideologia e é impressionantemente justa com a ditabranda de Salazar. Sim, ditabranda, porque se querem ditadura, vão a Espanha naquela mesma época. É lá que a encontrarão, não aqui."



Os Pormenores Ocultados da Guerra Colonial

  «(...) Muitos dos temas tratados versavam questões de estratégia internacional de um mundo cada vez mais global, outros eram o reflexo da ...