quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Kaulza de Arriaga - Operação Nó Górdio.

 



«A Operação "Nó Górdio" e as Operações que a Precederam e Seguiram



(...) Na realidade, quando assumi o Comando-Chefe das Forças Armadas de Moçambique, em fins de Março de 1970, a situação em Cabo Delgado, e apenas em Cabo Delgado, tinha acentuada gravidade. O inimigo mostrava-se em plena força, bem enraizado no terreno, considerando as suas "bases" inexpugnáveis, com grande domínio sobre as comunicações terrestres. Acabava de lançar a sua grande ofensiva - a operação "Estrada" - que tinha por objectivos o isolamento das nossas unidades, através do lançamento maciço de minas, e uma profunda progressão para Sul. Visava, seguidamente, formar ou consolidar um "exército de libertação" com base na etnia maconde, e, com ele, atingir o coração de Moçambique, separando a Província em três partes - Tete, o norte e o Sul. De início não poucas das nossas unidades foram efectivamente isoladas e a Frelimo progrediu realmente para Sul, bordejando os aldeamentos do rio Messalo.

Em consequência, desde logo tive de determinar disposições e acções urgentes e de mandar preparar um plano de fundo que neutralizasse e destruísse as intenções do inimigo e trouxesse a iniciativa para o lado português.

Assim, depressa foi executada uma grande operação de reabastecimento aéreo das unidades isoladas e foi reforçada a faixa de aldeamentos do rio Messalo. Seguidamente foi realizada uma também grande operação de levantamento de minas e foi lançada a primeira operação heli-móvel ao longo do rio Rovuma da qual resultou a destruição e ocupação das bases fronteiriças da Frelimo. Outras operações de menor vulto, mas de acentuado interesse, tiveram ainda lugar.

Mais tarde, na sequência do plano de fundo acima referido, lançou-se a maior operação que talvez tenha tido lugar no Ultramar Português - a operação "Nó Górdio". A operação, na qual se utilizaram novas tácticas com fundamento, por um lado, em tropas mecanizadas de engenharia e em tropas especiais de assalto e, por outro lado, no heli-assalto, foi um sucesso. Destruíram-se e ocuparam-se todas as bases significativas do inimigo e este foi completamente desarticulado e posto em fuga. As suas baixas, se bem que infligidas no menor número possível, foram muito volumosas. Não mais alguém pensou no "exército maconde" nem na sua progressão para sul. Restabeleceu-se o domínio português sobre as comunicações terrestres e as nossas forças passaram a ter inteira liberdade de acção e plena iniciativa. Na exploração do sucesso, levada a efeito sobretudo por forças aeromóveis, o inimigo restante em Cabo Delgado quase desapareceu, refugiando-se na Tanzânia. Por outro lado, a operação foi extremamente rendosa pois aqueles, diria espectaculares, resultados custaram às nossas tropas, não os cento e tal mortos e inúmeros feridos imaginados por Costa Gomes, mas sim 26 mortos e 27 feridos graves.

O conjunto de todas estas operações, iniciadas com o reabastecimento aéreo e terminadas com a exploração do sucesso da operação "Nó Górdio", venceu drasticamente a Frelimo em Cabo Delgado [a Frelimo foi, nesta ocasião, salva de destruição total pela proximidade imediata do "Santuário" da Tanzânia] - o que foi confirmado após o "25 de Abril", por elementos qualificados desta Frelimo, como consta do livro "País Sem Rumo" do General Spínola. E os seus dirigentes em Dar-es-Salaam entraram em estado de choque e desvario. Começaram, em tentativa de justificação da sua derrota, por afirmar ser eu, Kaúlza de Arriaga, o segundo melhor perito do Mundo em guerra subversiva, logo a seguir a Giap - célebre chefe militar nas guerras da Indochina e do Vietname. Depois, puseram-me a cabeça a prémio, considerando que, enquanto eu vivesse, a Frelimo não tinha qualquer "chance", facto confirmado, já depois do que se chama a independência de Moçambique, também por elementos qualificados da Frelimo, na presença de oficiais portugueses. Finalmente levaram todo o seu problema à Organização da Unidade Africana.



E foi nesta Organização, distante dos acontecimentos, mais calma, mas menos realista, que, em face da situação em Cabo Delgado e do início da construção da barragem de Cabora-Bassa, se decidiu uma mudança de manobra da Frelimo no sentido de transferir o esforço principal, até aí feito, com base na Tanzânia, directamente em Cabo Delgado, para, igualmente com base na Tanzânia, mas agora através da Zâmbia, o fazer, como última hipótese de sucesso, em Tete ou mais precisamente sobre aquela barragem e acessos, tentando impedir a sua construção. A manobra, dadas as grandes distâncias entre as bases tanzanianas da Frelimo, através da Zâmbia e parte de Tete, até aos objectivos, teria só por si forçosamente de esgotar a já enfraquecida Frelimo, o que realmente estava sucedendo [A Frelimo foi, agora, salva pela 2.ª vez da destruição, pelo "25 de Abril"]. Esta situação foi, também, confirmada depois do "25 de Abril", igualmente por elementos qualificados da Frelimo, como é referido no mesmo livro "País em Rumo".


A Estratégia de Costa Gomes


No respeitante à estratégia de Costa Gomes, e os seus contagiados, desejavam que eu seguisse em Moçambique, repudiei-a imediatamente. Contudo, ouvi com isenção o Estado-Maior do Comando-Chefe, e pus a questão no Conselho de Defesa, presidido pelo Governador-Geral, em Lourenço Marques, tendo todos emitido espontaneamente pareceres concordantes com o meu. Houve mesmo quem considerasse a estratégia que nos queriam impor uma estratégia de inépcia ou de traição.

Naturalmente que, conhecida a nova manobra da Frelimo, quase no momento da sua decisão e, assim, antecipadamente em relação à sua execução, graças à eficácia da DGS em informações externas, foram transferidas numerosas forças para Tete e garantida a segurança de Cabora-Bassa. Mas tudo sem que se abandonasse território algum a Norte do rio Messalo ou em qualquer outro ponto, dado nada a tal obrigar nem sequer vagamente aconselhar, e dado, pelo contrário, a criação por aquele abandono, se tivesse tido lugar, de áreas "libertadas" e nelas a natural formação, para nós com gravidade evidente, de um governo frelimista no Norte de Cabo Delgado.


O Sucesso em Moçambique


O facto é que no Rovuma, isto é, na fronteira com a Tanzânia, continuaram a nossa acção e trabalhos, agora muito mais dirigidos a convencer a inteligência das populações e a conquistar os seus corações, do que ao ataque de terroristas quase inexistentes. Foram os casos da interessante e promissora operação "Fronteira" e de tantas outras. Era a continuação do sucesso em Cabo Delgado.

E o facto é que uma Delegação da Comissão dos 24 da ONU, querendo convencer-se da existência de áreas "libertadas" em Tete, acompanhada e supostamente protegida por numerosos elementos da Frelimo, vinda da Zâmbia, tentou atravessar a fronteira e, através daquelas inexistentes áreas, penetrar no interior de Tete. Durante perto de um mês e em mais de doze pontos diferentes, tentou aqueles atravessamento e penetração, tendo sido sempre em absoluto impedida de o fazer pelas tropas portuguesas e acabando por retirar, derrotada, para Nova Iorque. Também a construção de Cabora-Bassa prosseguiu sem um segundo de atraso, em relação ao calendário de começo previsto. Era o sucesso em Tete.

A verificação de algumas infiltrações, em Cabo Delgado e, torneando Cabora-Bassa, a Sul e Sudeste desta, que afinal deram apenas lugar a actos terroristas esporádicos, não tinha nem teve importância real, dado em terrorismo esses actos serem sempre possíveis e em nada afectarem a situação geral. Acresce que o esgotamento da Frelimo, atrás referido, impossibilitava a sua continuação e, por maioria de razão, qualquer sua intensificação.

Tudo evidenciou o êxito das operações que precederam e seguiram a operação "Nó Górdio", e desta própria, e o acerto na não-aceitação de alterações estratégicas.


A Operação "Fronteira"


Contudo, cabe aqui um comentário à operação "Fronteira". Esta operação de construção, em termos racionais e modernos, de vilas de populações fiéis ao longo da fronteira com a Tanzânia, decorria por vezes e sem que isso se devesse a qualquer acção inimiga, com lentidão excessiva, circunstância que em mais de uma ocasião me ocupou. Hoje sou levado a admitir ter sido talvez, em Moçambique e em meados de 1973, o único caso em que se verificaria já, além da má vontade do Ministério do Ultramar, oriunda, quero crer, em Costa Gomes, influência sabotadora de alguns futuros capitães do "25 de Abril"».

Kaúlza de Arriaga («Guerra e Política. Em Nome da Verdade. Os Anos Decisivos»).

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Agostinho da Silva, uma outra faceta...

 



Um Agostinho da Silva muito diverso daquilo que os intelectuais de esquerda e os idiotas úteis arvorados em gente da cultura pretendem fabricar. Um homem notável e fiel a si mesmo. 

Um verdadeiro português e um verdadeiro embaixador da cultura portuguesa, aquém e além mar.


«(...) o Governo português interessou-se pelo Centro [Brasileiro de Estudos Portugueses] e um dia fui convidado a ir ao Rio para falar com o embaixador. Já não era o mesmo com quem eu tivera um conflito aquando do começo da guerra colonial e que pretendera que eu fosse demitido da Universidade da Bahia. Era outro, um homem completamente diferente, que me transmitia um convite do Governo português para eu ir a Lisboa falar com as autoridades, com o próprio presidente da República.

Vim, como já lhe disse, e fui preso no aeroporto, porque se tinham esquecido de avisar a polícia, pois tudo fora tratado pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros. Mas, soltaram-me logo e falei com Franco Nogueira, o ministro dos Estrangeiros, que se pôs imediatamente à disposição para fazer o necessário em Brasília, sem qualquer objecção política e só no final da cerimónia oficial é que me fez uma pergunta de carácter político. Nós já nos conhecíamos e tínhamos amigos comuns do tempo em que Franco Nogueira era da esquerda – nos seus tempos de juventude. Perguntou-me se eu achava que o Brasil aceitaria um plano dele a propor uma comunidade luso-brasileira.

– Não se meta nisso porque o Brasil vai negar – disse-lhe eu . – O Brasil perante Portugal mantém uma atitude de desconfiança e, quando pode, de ataque, porque é muito mais fácil para eles explicarem coisas que ainda não puderam resolver – entende-se muito bem que ainda não tivessem podido resolver, pois, o Brasil é uma tarefa difícil desde 1822 – e que esses males são provocados por eles não terem sido colonizados pelos holandeses ou pelos franceses.

Ora, por exemplo, no caso dos holandeses, foram regimentos de portugueses, pretos e índios que os vieram combater; era já gente brasileira que não estava nada contente com a maneira como o holandês se comportava. Curiosamente, há um livro de Mário Neme – meu amigo já falecido – sobre o domínio do holandês no Brasil. Olhe, sob o ponto de vista social e político de um brasileiro extremamente patriota – falava mesmo à moda de Piracicaba donde era natural, com um sotaque muito cerrado – chega à conclusão de que o regime português, sob todos os pontos de vista humanos, era para os brasileiros, e não se fala dos escravos, um regime muito mais tolerante e aberto do que o dos holandeses. E até talvez para os escravos, pois havia aquela convivência e domesticidade de portugueses e escravos no Brasil que Gilberto Freyre refere e insiste, embora não conte que os negros dos quilombos se tenham revoltado contra o domínio português. Mas os holandeses foram muito mais importantes para o conhecimento científico do Brasil do que os portugueses, pois trouxeram artistas e sábios que fizeram um levantamento do Brasil e das coisas brasileiras como os portugueses não sabiam ainda fazer. Entre esses artistas realce-se um excelente paisagista, Franz Post, cuja documentação pintada sobre o Brasil é muito instrutiva e que está hoje na Holanda, creio que em Haia, onde há um museu com muitas das suas telas sobre motivos brasileiros.

Eu aconselhei Franco Nogueira que, devido à guerra colonial já ter começado naquela altura, não era conveniente que ele fizesse uma proposta daquelas, mas já que estávamos ali como dois amigos e se ele achasse bem dar-lhe-ia uma ideia que os brasileiros deveriam aceitar e que seria muito útil para Portugal, exactamente por causa do conflito de África. Ou seja, uma comunidade luso-afro-brasileira, com o centro de coordenação em África, de maneira que não fosse uma renovação do imperialismo português, nem um começo do imperialismo brasileiro. O foco central poderia ser em Angola, no planalto, deixando Luanda à borda do mar e subir, tal como se fizera no Brasil em que se deixou a terra baixa e se foi estabelecer a nova capital num planalto com mil metros de altitude. Fizessem a mesma coisa em Angola, e essa nova cidade entraria em correspondência com o Brasil e com Lisboa para se começar a formar uma comunidade luso-afro-brasileira. Franco Nogueira declarou não poder fazer isso, que seria dividir Portugal, pois Angola era uma parte do país. Em face disto não havia mais nada a dizer, agradeci o que se tinha feito e saí.

Com quem conversei ainda um pouco mais foi com Adriano Moreira, dei-me muito bem com ele, tratámos de tudo o que se referia a Brasília e ele fez sempre o possível por ajudar.

Voltei para o trabalho do Centro e devido ao papel especial das cartas, aquela gente da Universidade começou logo a levantar o boato de que eu fora mandado para lá pelo Salazar para tentar uma recolonização do Brasil. Isto era coisa daquela esquerda – eu e muita gente no Brasil chamava-lhe a “esquerda festiva” – que era uma esquerda meio burlesca e sobretudo mal-intencionada, o que não quer dizer que a direita não fosse tão ruim ou até talvez pior em muitas coisas. Apesar desta acusação, isto não teve problema nenhum, pois eu dei-me sempre muito bem com os alunos, com o pessoal administrativo e com o pessoal menor da Universidade, de maneira que estava ali perfeitamente seguro, aquilo não entrava em cabeça nenhuma, a não ser na deles para os seus fins políticos.

Um dia, Adriano Moreira foi ao Brasil chefiando uma delegação portuguesa que ia visitar Brasília. Nessa altura já eu morava mesmo em Brasília, tendo até feito um barracão no mato do cerrado, para ter comigo os rapazes que trouxera da Bahia para fazerem o curso universitário, pois eles não tinham recursos. Eu ganhava o suficiente para eles e para mim e quando era preciso fazer uma despesa extra para comida, os professores meus amigos da Universidade faziam uma subscrição, ajudavam a comprar arroz e feijão, e aquilo lá foi andando e todos se formaram... Eram, hoje já não sei bem, um pouco mais de meia dúzia. Agora, já todos formados, em medicina, biblioteconomia, antropologia, filologia clássica, estão empregados e trabalham nas coisas boas do Brasil. Dei-me sempre muito bem com aquilo, levava uma vida muito simples que Adriano Moreira admirou quando ele levou lá, para uma festa à noite, no mato, os amigos que tinham ido com ele de Lisboa.

– Nenhum estudante português aceitaria morar numa coisa destas – disse-me ele.

– Estes aceitam, mora também aqui um professor, de maneira que eles não têm problema nenhum. Talvez os estudantes portugueses aceitassem se na barraca morassem também os professores. É uma experiência a fazer um dia, quem sabe?

Nessa altura é que Adriano Moreira me levou, sem dizer nada, o colar da Academia Internacional da Cultura Portuguesa, por ele fundada. Foi uma das suas grandes ideias, posta de parte depois da Revolução de 25 de Abril, absurdamente, pois poderia ter um papel muito interessante no mundo, porque era uma associação de gente de todos os países, interessada em cultura portuguesa. De repente, tornei-me sócio de uma Academia; foi uma coisa pitoresca porque nem da Academia de Platão eu gosto. Acho que ele traiu Sócrates. Pois é. A filosofia é uma provocação. A filosofia deve ser um rosário de dúvidas e não deve ser transformada em certeza e em ensino. Ora, quem começou com a moda foi, realmente, o nosso amigo Platão na Academia, que foi bem castigado no mundo com todas as outras criadas à imagem da dele e que talvez tivesse sido muito melhor que a maior parte das Academias de agora. Em todo o caso, levou a filosofia para o terreno das certezas e do ensino, começando ele assim, com as ideias de aprendiz de tirano, a fazer a República e as Leis. Quando Platão foi a Siracusa, pensava talvez que convenceria Dionísio de Siracusa a executar os seus pensamentos, mas, provavelmente, Dionísio achou que ele no fundo era um ingénuo que lhe atrapalharia a ditadura e tratou-o de tal maneira que Platão teve de voltar depressa para as árvores da Academia e de se deixar de convencer políticos a fazer isto ou aquilo.


Bem, houve uma sessão no Centro. Adriano Moreira levava tudo: o colar, as vestes académicas e eu tive de fazer um agradecimento e pôr o colar em frente de toda a delegação portuguesa que tinha ido com ele. Contei-lhes qual a minha posição da altura, e que no Brasil já tinha estado noutras, porque o Governo português me tinha tornado impossível a vida em Portugal. Mas nesse caso eu tinha tido mais um sinal de que, como acreditava já, de um mal pode vir sempre algum bem. Talvez isso possa ser aplicável, de uma maneira geral, à História, sendo porém muito difícil ficarmos agradecidos ao mal pelo bem que recebemos. A nossa atitude costuma ser a contrária: é reconhecer pouco o bem e ficar sempre a falar do mal que por acaso nos sucedeu. Por isso, agradecia agora a Portugal estar doutra maneira, com outras atitudes, que esperava continuasse e que um dia pudesse realmente haver um reconhecimento de tudo o que era bom na cultura portuguesa em todos os países, quer nos que falavam português, quer nos outros. Ao mesmo tempo, que se eliminasse completamente na cultura portuguesa tudo aquilo que ajudara a fazer tantas vítimas em Portugal desde os séculos XIV ou XV até àquele momento em que falávamos ali.

A vida no Centro continuou durante alguns meses com relativa tranquilidade. Mas houve um incidente que complicou muito as coisas. Os funcionários da Universidade de Brasília ganhavam mais ou menos o mesmo que os das outras Universidades. Mas, no entanto, havia uma diferença enorme entre o que eles recebiam e os professores. Então, eles acharam que deviam reclamar um equilíbrio nos vencimentos, que deviam ter um melhoramento, porque no fim de contas o seu vencimento não era próprio para Brasília. Fizeram várias diligências junto da Universidade, mas esta continuou sempre como havia feito no caso dos assistentes: protestando, dando desculpas, baralhando tudo. Até que um dia, os funcionários perderam a paciência e resolveram declarar greve. No Centro, os meus funcionários não aderiram. Eu não tinha nada que fazer greve, era professor; os assistentes que lá estavam também não. Mantive as portas abertas e os funcionários, que se davam muito bem comigo, acharam que não tinham nada que se solidarizar com os outros, porque para eles, que tratavam directamente comigo, não havia atrapalhação nenhuma de vencimentos, quando viessem, vinham. E a situação manteve-se tranquila, com a Universidade toda em greve, excepto o Centro Brasileiro de Estudos Portugueses, que continuava a funcionar normalmente. Mas as coisas pioraram e um dia, do gabinete do reitor, surgiu algo de muito complicado e complicante. Apareceu uma circular, para que os funcionários a favor da reitoria se declarassem não em greve e os outros que a continuassem. Isto é, a reitoria exigia uma lista daqueles que aderiam, colocando os outros numa situação de diferença perante os colegas. Bem, como quase toda a Universidade estava fechada, para os outros funcionários não havia complicação, o que não acontecia com os meus que vieram ter comigo aflitos:

– Se nós não vamos para a greve, como é?

É muito simples – disse eu – considero que a greve é uma maneira de  apreciar os actos do superior, o que, dentro do estatuto é um acto de indisciplina. As pessoas ou ganham ou perdem, isso é lá com elas, mas a apreciação de um superior só pode ser: ou contra ou a favor. Se eu digo que sou contra o meu superior é um acto de indisciplina; se digo que sou a favor, também, porque não tenho nada que apreciar os actos dele. Assim, apreciar funciona para os dois lados. De maneira que eu proíbo que alguém dê a menor importância a essa coisa que veio da reitoria. Devolvam já esse papel.

E para que não houvesse dúvidas fiz um edital em que proibia e pu-lo na parede. Os outros professores, cujos funcionários não estavam em greve, não se tinham lembrado daquela situação. Aliás, eles quase todos contra mim, raríssimas vezes estavam a meu favor. Mas quando era preciso dizer alguma coisa que pudesse desagradar, sobretudo depois da Ditadura, da Revolução de 64, os professores vinham sempre pedir-me que fosse eu o orador, para me colocarem em situação difícil.

Por exemplo, lembro-me quando a esquadra russa avançava em direcção a Cuba com armas e a esquadra americana foi ao seu encontro, que me pediram para falar num comício na Universidade contra tal acto. Eu fui e disse que aquilo era um conflito resultante de um outro muito mais vasto entre duas ideias sobre a economia e a política. Mas nós também poderíamos dizer que resultava de uma mania existente em muitas pessoas de, quando estão em qualquer trabalho, se considerarem superiores e os outros inferiores. Ter uma consideração económica, pessoal, de espécie nenhuma, isso era algo existente em tudo e até naquela Universidade.

Com efeito, nos dias anteriores, os professores que comiam no restaurante da Universidade, como todos os alunos e empregados, tinham planeado que todos negassem a ir com uma travessa de metal buscar comida para levarem para a mesa e comerem. Eu, que não gosto daquele sistema, nem de comer em travessas, fazia exactamente como os outros. Então, os professores reclamaram que para eles não queriam travessas, mas sim pratos e talheres como devia ser. Para os empregados e estudantes podia continuar tudo na mesma. Nesse mesmo dia, eu deixei de ir ao restaurante da Universidade. Passei a alimentar-me de sanduíches. Comia qualquer coisa, não tinha problema nenhum.

Assim, eu disse que isso era uma situação geral que se dava também na Universidade. Já que os professores tinham resolvido uns dias antes comer só em pratos, sem se importarem nada com os outros. Sobre esse assunto das esquadras eu não tinha nada a dizer, pois acho que quando algo está errado no mundo, a gente começa por duas coisas muito importantes: não cometermos nós mesmos o erro e verificar se não estamos num serviço que o cometa.

E foi só isso que eu tive a dizer de fundamental quanto ao encontro entre as esquadras americana e russa.

Bem, com a greve dos funcionários... a certa altura vi publicada no jornal uma nota da Universidade em que o reitor em virtude da continuação da greve fechava a Universidade, até ver como é que o assunto se resolvia. Convoquei imediatamente os funcionários para uma reunião, porque eu já havia estado numa reunião deles para lhes dar o meu apoio. Disse-lhes que pela minha parte a Universidade não fechava e que o fecho ou não dependia inteiramente deles. Mantínhamos a Universidade aberta, os professores que quisessem dar aulas davam-nas e eles com esses professores quebravam a greve e seria eu a começar isso. E se o reitor mandasse fechar a porta eu daria aulas na rua, no jardim ou em qualquer parte. Fui então imediatamente dar aula, os alunos foram ouvir e os funcionários estiveram presentes. Nessa altura a reitoria percebeu que a coisa estava a ir de outra maneira e chamou Niemeyer. O arquitecto era do Partido Comunista ou simpatizante e, portanto, próximo deles, e toda a gente lhe tinha muito respeito dado ele ter sido o grande obreiro de Brasília e por ser também professor na Universidade. Chamaram-no exactamente para ver se ele convocava uma reunião com os empregados e solucionava o conflito. E conseguiram-no. Niemeyer estava encarregado de ceder o mais possível às exigências e a greve acabou. Foi assim o fim da greve na Universidade com, como calcula, muita hostilidade para comigo, é claro.»

Agostinho da Silva, in Vida conversável.

Angola - Os Vivos e os Mortos.

 


«Em toda a minha vida no Ultramar Português sempre verifiquei fora de qualquer dúvida, que podia haver compreensão e amor entre as raças. O pensar negro - o fanatismo pró-negro e anti-branco - de alguns extremistas antes do 25 de Abril de 1974, tornou-se muito diferente nos demagogos do pensamento negro, dos coléricos extremistas, dos nacionalistas do "pé descalço", das massas ululantes e cruéis do "poder popular", açuladas pelos slogans importados, bombásticos, mas vazios de conteúdo e calor humano. Relembro os dizeres de um negro americano: "Se há uma dívida com o negro do passado, ele também tem uma dívida. Essa dívida é para com os homens que viveram antes dele, para com aqueles que o ajudaram pessoalmente e para com os muitos que o ajudaram tomando posições quando era preciso e não se negando a comprometer-se. Deve-se-lhes não ceder à violência e à cólera, deve-se isso a uma porção de homens que ainda não nasceram. Deve-se a si mesmo ser um homem, um ser humano, em primeiro e último lugar, senão sempre". E tudo isto derruiu ante a invasão dos interesses "imperialistas". Foram eles - e não o esqueçamos - os responsáveis pela violência e pela guerra psicológica de desmoralização dos "brancos". E tudo serviu para que tantos fossem acusados de tudo, amesquinhados, ridicularizados, para colocá-los em condições de não poderem defender os supremos bens da vida, a começar pelo maior de todos eles, que é o da Liberdade.

Angola era para nós uma catedral de Devoção e Amor. Era uma floração de Portugal. Era a nave sagrada onde reboavam os cânticos do Trabalho e do Progresso. E os partidários dessa teoria que massacrava e escravizava o homem tudo derruíram. Só deixaram ruínas e o ferfilhar do ódio.

Não queria que este "livro" fosse um lamento. Antes se convertesse em hino! O herói ou o pusilânime, o réprobo ou o santo, o missionário ou o agitador, a virgem até ao sacrifício ou a mulher que se vende ao que lhe paga, o homem sem ideias ou o pensador, o patriota ou o cidadão do mundo, ninguém é grande e pequeno neste "novo e mísero mundo que nos criaram. Rasgaram a História, o presente e o futuro, com o gesto de Lutero quando rasga a Bula pontifícia na Catedral de Mittenberg! Não, a "revolução" não será julgada, mas sim, os homens que a adulteraram. E o traído Povo Português?

Creio que bem podemos parafrasear um filósofo de Paraíba: "Português não bate palmas no meio do Governo. Português só bate palmas no começo e no fim. No começo, de esperança. No fim, de pena".

Por mim, com este "livro", bato palmas, não só de pena, mas de nojo! E os portugueses do verdadeiro Portugal de sempre? Todavia, os portugueses renegados, os que se riem das desgraças que criaram, continuam por aí impantes de vaidade, orgulhosos da sua obra e, certamente, agarrados à ideia de que "Deus estava com a mania das grandezas quando os criou". Não Deus, mas o Diabo!».

Pompílio da Cruz («Angola: Os Vivos e os Mortos»).

Porquê tanto ódio aos retornados?

 



Já se perguntaram o porquê da cambada de esquerda ter tanto ódio aos retornados do ultramar?
(Refugiados e espoliados do ultramar para sermos correctos.)
Alexandre Sarmento

sexta-feira, 7 de novembro de 2025

Terceiro Mundo-Franco Nogueira.

 



«Por ocasião do estabelecimento da Federação da Malásia, em 1963, o então Primeiro-Ministro da Grã-Bretanha, Harold MacMillan, enviou ao Governo daquele país uma mensagem de felicitações, e nesse documento salientava que a Federação constituía um Estado "multirracial". Discursando naquele ano perante a ONU, o antigo Presidente dos Estados Unidos, John Kennedy, afirmou que o seu país constituía uma "sociedade multirracial". Dirigindo-se à imprensa, em Copenhague, o Presidente Jules Nyerere, da Tanzânia, defendeu a manutenção de "comunidades multirraciais em África". Alguns orgãos de grande imprensa mundial têm, nos últimos anos, invocado o multirracialismo como ideal supremo que deve ser prosseguido. Estamos assim perante uma série de afirmações responsáveis, e que têm por traço comum a defesa e o elogio do multirracialismo como objectivo a atingir pelas sociedades humanas.

Afigura-se que Portugal apenas se poderá regozijar com o facto. Mas não poderá nem deverá Portugal eximir-se a sublinhar que é o autor da noção de multirracialismo, que reivindica com firmeza e algum legítimo orgulho, e que foi Portugal o país que há séculos lançou aquele conceito e aquela expressão. Muito mais importante do que a simples criação da palavra ou do conceito teórico do multirracialismo, no entanto, é a criação da própria realidade viva a que se aplica o vocábulo. E esse mérito cabe aos portugueses, e isso desde há séculos. Porque foram os portugueses que levaram à África e ali pela primeira vez implantaram a noção de direitos humanos e a noção de igualdade de raças. Por estes dois conceitos se tem guiado através dos séculos, e neles tem insistido e teimado, afrontando a hostilidade de alguns, o desdém de outros, a incompreensão de quase todos. Não vai longe o tempo em que os portugueses metropolitanos eram olhados por algumas potências como europeus de segunda classe, e isso porque através do mundo se misturavam, e conviviam, e se identificavam com os povos da África ou da Ásia. Mas agora parece que se vão alterando os ângulos de visão, e que muitos começam a encarar a realidade por um prisma igual ao dos portugueses. Por isso caberá fazer duas observações. E a primeira é esta: quando no mundo se exalta o multirracialismo seria nobre e mostrar-se-ia respeito pela história se se dissesse com simplicidade que Portugal é o autor do conceito e da realidade que está por detrás do conceito. E depois parece justo que os defensores do multirracialismo nos seus respectivos países, para serem lógicos e objectivos, defendessem também ou aceitassem que Portugal o defendesse no quadro da nação portuguesa, porque foi esta que lhe deu estrutura e vida. Quer isto dizer que o multirracialismo português, além de ter procedência histórica e doutrinal, tem pelo menos tanta legitimidade como o de outros povos e nações.

Não estão em causa ideologias mas interesses, e o terceiro mundo prefere esquecer os princípios doutrinários portugueses porque admiti-los seria aceitá-los. Além do mais, Portugal fornece um tema de ataque, e constitui um dos poucos denominadores comuns à artifical unidade do terceiro mundo africano. Portugal tem procurado manter uma atitude conciliatória e de colaboração. Parece fora de dúvida que a posição assumida pelo terceiro mundo não é a mais consentânea com os interesses reais da África. Do que se trata efectivamente é de alimentar as populações; de prover à sua educação e cultura; de criar condições de progresso económico, social e político; de cooperar internacionalmente no comércio, nos transportes, nas comunicações; e em nenhum destes domínios se dá um passo com atitudes irresponsáveis e emocionais, ou com debates virulentos, ou com apelos a mitos mais ou menos heróicos. Por isso Portugal tem proposto um diálogo franco e prático com os países africanos, e muito particularmente com os que sejam seus vizinhos em África. É da tradição portuguesa, na Europa como na África ou na Ásia, dar a coooperação dos serviços e auxílios que for possível prestar. Àquele diálogo não se sabe que hajam sido postas, pelo lado de Portugal, quaisquer condições prévias; mas, não obstante, tem sido negativa e desprovida de espírito construtivo e realista a atitude da maioria dos Estados africanos.

Como resultado do movimento anticolonialista, tem-se verificado, entre outros fenómenos, uma verdadeira obsessão na conquista da amizade dos povos asiáticos e africanos. Da parte de muitas potências, grandes e médias, multiplicam-se e prodigalizam-se os gestos nesse sentido, e toda uma política se estruturou com o intuito de obter a adesão do terceiro mundo. Trata-se de um leilão político ou concurso de popularidade. Abrange toda uma vasta gama de variantes: desde as meras declarações verbais às consideráveis ajudas económicas, financeiras e militares. Dir-se-ia não terem limites a generosidade, o altruísmo, o desinteresse daquelas nações em face do terceiro mundo, asiático ou africano. E a essa política tudo aquelas nações parecem dispostas a sacrificar: os princípios, a lei, a moral, os seus aliados, até o que se afigura serem os próprios interesses a longo prazo. Ter-se-á de admitir, sem relutância, que Portugal não tem o monopólio do idealismo e da generosidade, nem o exclusivo da sabedoria e da experiência; e por isso não haverá dificuldade em reconhecer que outros podem determinar-se por iguais valores; mas também não lhes pertence qualquer monopólio de ideal ou de saber. Mas as grandes e médias potências deveriam também confessar - porque isso nada tem de pejorativo - que prosseguem interesses nacionais, e que os seus objectivos não são desinteressados na maior parte das vezes. Por isso se deve acentuar, porque se trata de um facto, que por detrás daquela política de captação e amizade estão também, e sobretudo, os objectivos estratégicos, os desígnios políticos, os interesses dos grandes monopólios do capitalismo internacional, o desejo de abrir novos mercados, a sofreguidão na corrida às matérias-primas, a ânsia do domínio ideológico.

Mas a política de descolonização e de aliciamento do terceiro mundo, além daquelas razões, funda-se também numa visão especial que a Europa e a América do Norte têm hoje de si próprias e do terceiro mundo. Sociedades altamente evoluídas, intensamente industrializadas, caracterizadas por uma crescente afluência ou opulência de que participam as grandes massas, materialmente refeitas da segunda guerra mundial, encontram-se distantes, todavia, do equilíbrio social e psicológico, e sobretudo muito longe de haver atingido a estabilidade política no plano internacional. Não há já guerra, pelo menos no sentido clássico, mas não se firmou ainda a paz; e a descolonização apareceu como mais um instrumento da revolução mundial que é um dos mais perturbadores rescaldos da última guerra. Para aqueles países, o colonialismo no quadro do século XIX e dentro do regime do pacto colonial foi um instrumento de expansão e de poderio na luta entre impérios. A descolonização, que é uma forma reconvertida do colonialismo, opera de forma idêntica; e as sociedades afluentes e pletóricas do hemisfério norte utilizam friamente o terceiro mundo na sua luta pelo poder. Comunidades industrializadas, de apurado nível técnico e cultural, olham para as sociedades agrárias e subdesenvolvidas do terceiro mundo como campos onde, sob novas formas, se pode expandir a actividade das primeiras. Não há, entre umas e outras e salvo algum caso inusitado, qualquer elo afectivo ou emocional, e as opiniões públicas afluentes, tendo posto de parte as gerações que construíram e conservaram os velhos impérios, mostram-se indiferentes aos aspectos morais e emocionais de um passado recente, medindo o abandono e a abdicação em termos de contabilidade imediata. Não terão os Governos aceite de boa-mente este ponto de vista utilitário e de curto alcance; mas ficaram dependentes de um sufrágio popular expresso em números e foram escravos de apoios partidários; e como na lógica das instituições estava uma demagogia que conduz cada partido a sobrepor-se aos demais em ousadia política e extremismo para assim minar o terreno eleitoral da facção adversária, depressa tudo foi subordinado à política do mais oportuno, do mais fácil e do mais imediatamente económico e rendoso. Com simplismo se ergueu a teoria de que a descolonização trazia a prosperidade na metrópole - porque eliminava as despesas de soberania, diminuía os investimentos, poupava a técnica e a mão-de-obra especializada, e evitava atritos políticos e problemas de consciência. Num breve período logo após a descolonização os factos pareciam confirmar aquelas presunções. Foi um mito. Mas durou pouco a ilusão. Aquelas presunções teriam sido exactas se, após a descolonização e quebrados os vínculos políticos, se houvesse mantido o mesmo exclusivismo de relações entre a antiga metrópole e as antigas possessões. Mas como a descolonização foi provocada, e apressada, e forçada por novos impérios, ávidos e codiciosos, para estes se transferiram as antigas relações metrópole-possessão. E hoje têm de considerar-se findos todos os transitórios benefícios da descolonização. Esta é a realidade descarnada, em termos puramente práticos, e por tudo isto pareceria que o terceiro mundo procederia avisadamente se encarasse com alguma reserva as amizades que de súbito se multiplicam e cuja finalidade é o domínio directo, ou pela subversão, ou através de instrumentos internacionais. E também terá de se confessar que, à parte uma ou outra excepção, a descolonização traiu os descolonizados, na medida em que não lhes trouxe paz, nem progresso, nem estabilidade, e em que os colocou, enfraquecidos e desorientados, à mercê da luta internacional pelo poder. Foi outro mito. Por isso muitos começam a perguntar-se o que haverá para além das declarações de amizade, e outros interrogam-se sobre se a cortina de subversão que desceu sobre a Ásia e a África não será alheia aos interesses daqueles continentes. Isto é particularmente verdadeiro quanto à África. Mas neste ponto parece lícito a Portugal dizer que, além de pioneiro do multirracialismo, foi também dos primeiros amigos da África, e decerto não se estranhará que cinco séculos de íntima convivência hajam emprestado a essa amizade um cunho de desinteresse e de sinceridade insusceptíveis de suspeita. Por isso tem Portugal insistido em manter o seu diálogo com a África num quadro puramente africano, e a essa orientação só tem sido obstáculo a interferência dos poderes alheios ao continente. Por outro lado, a relação metrópole-ultramar não foi constituída, na estrutura da nação portuguesa, em obediência e na linha da política europeia do século XIX e em termos de pacto colonial; e não temos do ultramar a visão que, por motivos diferentes, se elaboraram na América e na Europa do após-guerra quanto à África. A partir destas premissas, que são resultantes da história comum, não é viável contabilizar o ultramar.

Dirige o terceiro mundo a Portugal algumas acusações, ou directamente ou através das Nações Unidas. Seriam deploráveis as condições existentes nas províncias do Ultramar; constituiria a política portuguesa uma ameaça à paz e à segurança da África e até do Mundo; e o bloco africano, na impossibilidade de uma crítica válida, classifica o nosso idearium ultramarino de retrógrado, de obscuro, ou de anacrónico. Estes três capítulos cobrem toda a matéria de acusação. Mas temos de excluir os dois primeiros. Porque o bloco africano, embora indirectamente e com relutância, admite que Angola e Moçambique estão na vanguarda do desenvolvimento da África negra; e reconhece, muito em surdina e embora proclame o contrário no Conselho de Segurança, que na realidade das coisas Portugal não ameaça nem a paz nem a segurança da África. Preferem, todavia, não investigar estes aspectos do problema, e isso porque as conclusões a que seriam forçados, se fizessem o exame que lhes é oferecido, não lhes permitiriam continuar a lançar contra Portugal as mesmas alegações. Por isso o bloco africano concentra-se no exame do problema puramente político levantado em torno do idearium português, e insiste em conhecer o conceito português de autodeterminação. Este foi claramente definido, e encontra-se de resto reflectido em documentos públicos e oficiais das Nações Unidas: para Portugal, a autodeterminação significa o consentimento ou a adesão da população, expressos através de actos administrativos e políticos praticados ao longo do tempo, a uma determinada estrutura do Estado e forma do Governo. A pureza e a procedência deste conceito não podem ser validamente contestadas por ninguém porque, mesmo no critério extremo da maioria da Assembleia da ONU, reside nos desejos manifestados pelas populações a origem de toda e qualquer legitimidade das estruturas políticas. Corresponde este conceito, na essência, à velha fórmula de Jefferson que legitimava o Governo pelo consentimento dos governados. Mas tem-se verificado que, para o extremismo africano (coacto aliás pelos poderes alheios à África), o conceito só é válido desde que rodeado de condições e executado em circunstâncias que necessariamente, inevitavelmente, conduzam aos resultados predeterminados que se pretendem, e só a esses. Entre essas condições, e para que fosse aceite como válido um acto de autodeterminação, figura a retirada de todas as forças militares e de segurança; a autorização para livre funcionamento nos territórios dos partidos políticos existentes no estrangeiro; amnistia; reconhecimento dos chefes políticos indicados pela Organização da Unidade Africana; e supervisão pelas Nações Unidas de qualquer acto ou processo de autodeterminação. Como é óbvio, este condicionalismo assegura por antecipação os objectivos que as Nações Unidas pretendem. Para o grupo africano, ou para as forças que o comandam, apenas tem sido válida a autodeterminação que fatalmente imponha o desmembramento da estrutura da Nação portuguesa, e isso nos termos e pela forma a estabelecer pelo grupo africano. Posto o problema nesta base, não é susceptível de discussão, até porque nenhuma nação soberana pode partilhar com outras ou com quaisquer organismos internacionais problemas políticos que só a essa nação respeitem. Daqui o choque de posições políticas. Mas seria simplista reduzir esse choque a um conflito de noções ideológicas ou políticas, ou ver naquele somente uma luta entre a nação portuguesa e os países africanos. É muito mais profundo e amplo o problema, e estão envolvidos factores que ultrapassam em muito aquele quadro restrito. Porque, por detrás dos mitos que se alegam, estão as realidades materiais: e são estas que se buscam».

Franco Nogueira («Terceiro Mundo»).

Entrevista com Kaulza de Arriaga.

 



Entrevista conduzida por Batista-Bastos -  "Público" (1994)

Kaulza de Arriaga, o último centurião

"Quem Diz Que Sou Fascista É Um Idiota" 

Recebe-me com a cortesia de um cavalheiro antigo, e os modos delicadamente afáveis de um homem marcado por esmerada educação. O registo da voz é claro, metálico, bem timbrado. Move-se com extrema presteza para quem tem 84 anos. O raciocínio é límpido, rápido. A frase é imperativa, por vezes cortante, sempre sólida, bem construída na locução. Um homem de outro tempo, penso agora. E também penso: fazia-o mais alto, sei lá porquê?, fazia-o arrogante, fazia-o intempestivo, fazia-o insolente. A insolência e a arrogância intempestivas de quem se habituou a mandar e a gerir destinos. Surge-me uma pessoa de meã estatura, jovial, sorridente, olhar de corte biselado, uma espécie de felino com um instinto subtil e seguro. E um gosto acentuado pela ironia, pelo sarcasmo. Recusa a cultura tecnocrática. Detesta o liberalismo. Não acredita na redenção de um pusilânime. Defende que Portugal estava incumbido de um papel histórico, que tanto os Estados Unidos quanto a União Soviética impediram de realizar.
Kaulza de Arriaga fez da sua vida um friso, no qual se acentua uma pessoal visão do mundo. Não desvia opiniões, não vacila quando qualifica aqueles que entende falhos de carácter e de coragem. Diz: "O Spínola não era grande coisa, mas o Costa Gomes é pior!" No balanço dos factos e no varejo dos homens, aprendeu que a condição humana está cativada de ritos, de convenções e de preconceitos. E, também, que a História não é apenas escrita pelos vencedores: os vencidos têm sempre uma palavra a dizer. Exactamente porque são as grandes sombras de todas as grandes tragédias.
P. - Onde estava no 25 de Abril?
R. - Em casa, a dormir.
P. - Percebeu que havia um golpe militar em preparação?
R. - Já tinha percebido; mais do que isso: já tinha preparado o contragolpe, com forças mais do que suficientes para dominar qualquer golpe. Isto por intermédio de dois generais - desculpe, mas não lhe direi os nomes - , um da Força Aérea, outro do Exército. E tínhamos quatro planos, de seus nomes A, B, C, D. Como disse, estava a dormir e, por volta das três, quatro da manhã, telefonam-me a avisar de que estava a ocorrer um golpe. Sabíamos que ia ocorrer um golpe, mas não sabíamos a data exacta. Estive sempre em contacto telefónico até às oito da manhã, para saber o que se passava, e telefonei para os dois generais, para dar a seguinte ordem: executem o plano B. Fiquei bastante satisfeito, porque o contragolpe ia entrar em acção, e iria acabar com o 25 de Abril. Por volta das dez e meia da manhã do dia 25 de Abril, telefonam-me os dois generais, dizendo-me: "Meu general, está tudo perdido, porque as suas tropas - as suas tropas! - aderiram ao golpe." E eu cometi um dos maiores disparates da minha vida: acreditei naquilo que me diziam! Porque era mentira, quem aderiu ao golpe foram os generais, as tropas estiveram até às sete da tarde à espera das minhas instruções!
P. - O que era o plano B?
R. - Já não me recordo! Eram tantos planos. Isto que estou a dizer é a verdade, não me recordo.
P. - Afinal de contas, de que tropas dispunha?
R. - Não digo! Revelar-lhe seria certamente uma complicação para muitas pessoas. Porque parte delas estão aí...
P. - Como é que o senhor sabia que estava um golpe militar em preparação, se os serviços de inteligência estrangeiros, e a PIDE, não sabiam nada disso?
R. - Já tinha havido o 16 de Março. As coisas denunciaram-se nessa altura. Se o poder de então fosse mais clarividente, tinha mandado prender todos os oficiais implicados nesse golpe. Não só os deixaram em liberdade, como os espalharam por todo o país. E esses oficiais contaminaram todo o país.
P. - Admitindo a hipótese de que o contragolpe do senhor general saísse vitorioso, o que aconteceria ao Governo de Marcello Caetano?
R. - O Governo era imediatamente demitido. No entanto, o Presidente da República, almirante Américo Tomás, não seria demitido. Aliás, dava-me muito bem com ele, e ele até sabia um pouco daquilo que se passava. Eu faria outro Governo. E tinha uma decisão a tomar: ficaria eu como presidente do Conselho, ou arranjaria outra pessoa? Quer ficasse eu, quer ficasse outra pessoa na presidência do Conselho, o Governo seria sempre escolhido por mim.
P. - E esse Governo seria constituído por militares?
R. - Não. Só haveria militares em certas pastas, como a do Exército, mas o Governo seria civil.
P. - Havia civis que sabiam dessa sua intenção de fazer um contragolpe?
R. - Sim. O [antigo ministro dos Negócios Estrangeiros de Salazar] dr. Franco Nogueira sabia. O [antigo ministro da Economia de Salazar] José Gonçalo Correia de Oliveira também sabia. Estes dois nomes eram duas pedras minhas, qualquer um deles dava um bom presidente do Conselho. E havia outros nomes, mas estes eram os mais importantes.
P. - Havia pessoas dos grandes interesses económicos que estivessem ligadas a essa sua intenção?
R. - Ninguém. Vou-lhe contar uma coisa a respeito disso: em 1965, houve eleições presidenciais, e o Santos Costa indicou ao Salazar o meu nome, dizendo que eu dava um bom Presidente da República, e a minha mulher uma boa primeira dama. O Salazar concordou, e disse à União Nacional para tomar as medidas necessárias para que eu fosse o próximo candidato a Presidente da República. Até houve pessoas do capital que me ofereceram banquetes, porque era o futuro Presidente da República. Banquetes a que eu e a minha mulher presidimos, como se já fôssemos Presidente da República. De repente, silêncio! Nunca mais se avançou com o meu nome para a candidatura! Após o 25 de Abril, o Manuel Queirós Pereira, que já morreu, disse-me: "A culpa do 25 de Abril, e de tudo o que sucedeu, é nossa, dos capitalistas." "Porquê?", perguntei-lhe. "Porque, quando você foi secretário de Estado, disse, num discurso, que em Portugal há fortunas grandes de mais, face ao nível médio financeiro da população - o que, de resto, era verdade - e nós, capitalistas, ficámos aflitos. Pensámos que você era um socialista. E fomos dizer ao Salazar para que desistisse do seu nome. E Salazar desistiu." Por isso nunca fui Presidente da República.
[Numa das paredes, um rectângulo espelhado com a imagem de Franco em alto contraste. Lá está, também, o apelo à virilidade, à coragem e à grandeza de Espanha, na reprodução de um discurso do ditador. E uma data funesta para os franquistas: 20 de Novembro de 1975. A efeméride da sua morte. Nas estantes, lembranças de África, retratos de família, livros. O general manifesta grande admiração por outro general: De Gaulle, cuja glória entende corresponder à imponência de um destino singular. E lá estão os volumes de memórias do militar que resgatou a honra da França. Volumes que costuma ler e reler, detidamente, com mão cuidada e diuturna atenção. Diz: "Foi um homem do tamanho do século, num século de titãs." Conto-lhe: "O Claude Roy escreveu, uma vez, sobre De Gaulle: 'A pátria está-lhe grata, a literatura é-lhe devedora, a República tem de se acautelar.?" Ri com gosto: "Excelente definição. Mas não se me aplica." Mora, há quarenta anos, na avenida João XXI, casa alugada, bela, ampla, mobilada com gosto e discrição. Oferece-me chá, oferece-me um álcool. Tudo isto sem resultar nada de enfático ou de pretensioso. Dirá: "Sou contra os extremismos. Os extremismos, aos quais são inerentes processos coercivos e agressivos, conduzindo, geralmente, à violência e ao crime, são, do ponto de vista moral e humano, ilegítimos e, em absoluto, condenáveis e inaceitáveis." E eu: "Considera-se um democrata?" Ele: "A democracia pluralista é o melhor sistema que a imaginação dos homens produziu e pôs em vigor."]
P. - Quando dizem que o senhor é um general fascista, como reage?
R. - Nessas coisas mantenho-me num plano de superioridade. Quem diz isso é idiota, não sabe o que diz. Além disso, são canalhas, porque dizem isso com má intenção. Não tenho nada de fascista! Sou um homem, desde a universidade, da direita democrática social. Mas social não é socialista, mas sim de uma ideia de fraternidade.
P. - Porque aderiu ao chamado Estado Novo?
R. - Primeiro, porque o Estado Novo não era fascista, nem nazista, nem comunista. Os três grandes regimes totalitários não tinham expressão no Estado Novo. O Estado Novo tinha um certo autoritarismo, embora não fosse totalitário, nem fosse, também, um estado democrático. Aderi ao Estado Novo quando fui convidado para colaborar com o gabinete do ministro da Defesa. E fiz uma análise ao Estado Novo em si, antes de aceitar, para saber se merecia ou não colaborar com ele. E concluí positivamente pelo Estado Novo. Salazar pôs em ordem a vida política, económica e social portuguesa, na sequência do golpe de 28 de Maio. Esse golpe pretendia ordenar este país, que estava num estado caótico, graças à I República. O 28 de Maio foi, no entanto, uma ditadura. O Estado Novo, que acaba com essa ditadura, aprovando a Constituição de 1933, herdou certos traços autoritários da ditadura militar do 28 de Maio...
P. - No entanto, historiadores insuspeitos dizem que essa Constituição foi aprovada até com os votos de mortos, e as abstenções tinham um carácter favorável para a aprovação da Constituição...
R. - Se houve algum vício, durante a aprovação dessa Constituição, não foi maior do que os vícios que existem agora. Eu aceito o autoritarismo do Estado Novo, mesmo sem que houvesse uma democracia, porque os sistemas políticos têm de se adaptar às conjunturas do momento. Ora, em 1933, pensa-se logo na transição para a democracia, mas em 1936 começa a guerra de Espanha. Essa guerra era de comunistas espanhóis, contra não comunistas espanhóis. Já viu o que era termos aqui, em 1936, uma democracia com os comunistas? Teríamos uma guerra civil em Portugal. E é isso que impede a transição para a democracia, já em 1936.
P. - Mas o Salazar não era um democrata.
R. - Não sei, nunca falámos disso.
P. - E como eram as suas relações com Salazar?
R. - Deixe-me só concluir isto. O Salazar teve uma importância enorme para a derrota dos comunistas na guerra de Espanha. Se assim não fosse, teríamos os comunistas por toda a Península Ibérica, era uma tragédia. Imediatamente a seguir a isto, dá-se a Segunda Guerra Mundial. E, aqui, há um pormenor curioso: o Salazar impede a comunização de Espanha, e durante a Segunda Guerra Mundial impede a nazificação de Espanha. O Teotónio Pereira conseguiu impedir que a Península Ibérica fosse aberta às tropas nazis, porque o Hitler tinha uma ideia persistente: dizia que era uma vergonha que Gibraltar fosse inglesa. E queria invadir a Península para libertar Gibraltar! E o Teotónio Pereira consegue convencer o Franco a não ir nessa conversa do Hitler. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, começam os problemas das colónias ultramarinas. Foi preciso segurar o Ultramar. E foi isso que me levou a colaborar com o Estado Novo. Ficou claro?
P. - Muito claro. O senhor general é daqueles que chama aos capitães de Abril traidores à pátria?
R. - Não. Chamo-lhes outra coisa: presumíveis delinquentes de crime de alta traição. A eles e a outros. O poeta Alegre quis pôr-me em tribunal porque, quando disse isso, encaixou como se fosse dirigido a ele e ao Soares, sendo o Soares, à época, Presidente da República.
P. - E a pátria, para si, estendia-se do Minho a Timor, como se dizia?
R. - Aí entramos numa coisa muito importante: qual era o conceito ultramarino português? Variou com o tempo. Falei com Salazar, a esse respeito, duas vezes: quando entrei para o Governo e quando, sendo ainda membro do Governo, fui, pela primeira vez, a Moçambique. Na primeira vez, perguntei a Salazar se Portugal ia do Minho a Timor para sempre. E ele respondeu-me: "Além de sermos uma pátria, somos uma nação fazedora de nações. É possível que amanhã façamos nações em Angola e Moçambique, mas, para isso, há duas condições: que se desenvolvam de forma a poderem autogovernar-se, senão é o caos. A segunda é que a URSS deixe de existir, para não se aproveitar da autonomia para as absorver." Salazar falava disto connosco. E concordei com isto totalmente.
P. - Mantém relações com antigos governantes de Salazar?
R. - Sim. Mantenho relações com o Adriano Moreira, embora não seja um seu adepto especial. Falo com o Veiga Simão. Não tenho visto o Silva Pinto, embora me tenha encontrado com o Dias Rosas. Também falo com o Baltazar Rebelo de Sousa, embora tenha tido uns atritos com ele e com o Adriano Moreira, no tempo do prof. Marcello Caetano, de modo que não tenho relações íntimas com os dois.
P. - E com os políticos do novo poder?
R. - Com nenhum deles. É óbvio que, para mim, o dr. Mário Soares não existe. Para mim, ele é inexistente. Não posso falar sobre uma coisa que não existe. No outro dia, o filho dele, o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, mandou-me um presente, quando fiz anos! Agradeci, mas não abri o presente.
P. - Que lhe dizem os nomes de Álvaro Cunhal, Mário Soares, Sá Carneiro, Francisco Balsemão?
R. - Álvaro Cunhal é dos menos maus de todos, porque, embora laborando toda a vida num erro, foi sempre fiel a esse erro. Mário Soares é um salta-pocinhas. Sobre Sá Carneiro, vou-lhe contar uma história: estava no comando-chefe, em Moçambique, e o meu ajudante-de-campo era o Francisco Pinto Balsemão. E o Balsemão aparece-me, um dia, com um recado do Sá Carneiro. Esse recado dizia que ele, Sá Carneiro, era preponderante na ala liberal da Assembleia Nacional, e queria que eu fosse candidato à Presidência da República pela ala liberal. A minha resposta foi esta: era amigo do almirante Américo Tomás, e nunca aceitaria ser candidato sem falar com ele primeiro. Depois, a palavra liberal dá para tudo, e eu não sabia qual era a política da ala liberal. Só depois de a saber é que poderia dar uma resposta. Passados uns tempos, voltei a Lisboa. O Balsemão e o Sá Carneiro souberam disso, e o Balsemão veio até minha casa repetir o convite. E a minha resposta foi: "Mantenho o que lhe disse antes. Mais uma coisa: não conheço o Sá Carneiro, e o tio dele, o Lumbralles, não me dá umas referências muito brilhantes. É melhor conhecer o Sá Carneiro para lhe dar uma resposta." Combinou-se um almoço em Vila do Conde, e lá fui. Estavam lá umas quarenta pessoas. No fim do almoço, fomos tomar café, eu, o Sá Carneiro e o filho do Manuel Fino. O Sá Carneiro diz-me assim, de caras: "O senhor general não se esqueça de que eu o considero como comandante de tropas de ocupação de um território estrangeiro, que é Moçambique." Dizer isto a um comandante-chefe é uma coisa espantosa. E disse-lhe: "Você tem imensa sorte, porque se me dissesse isso em Moçambique, já estava na cadeia!" De modo que esse almoço não correu nada bem.
P. - Mantém relações com o Francisco Pinto Balsemão?
R. - Nenhumas! Mantinha óptimas relações com o Francisco Balsemão e com a Belicha, a primeira mulher dele, com os seus pais, até eu ser preso. Desde esse dia que não há relações. Ele vê-me, a mim e à minha mulher, cara a cara, e não me conhece. Não sei porquê, mas enfim...
P. - Conheceu certamente de perto alguns oficiais que seriam, posteriormente, os capitães de Abril. De qual deles conserva mais fortes recordações?
R. - Conheci um, que trabalhou na Operação Fronteira. O Mário Tomé foi meu major-de-campo, por ser o melhor capitão operacional em Moçambique. A mulher dele puxava um bocadinho para o socialismo. Ela era formada em Direito, era mais inteligente do que ele, de modo que lhe deve ter dado a volta. Ele era muito rígido, chamavam-lhe "o capitão nazi", mas foi sempre lealíssimo e um óptimo oficial.
P. - Na sua opinião, a guerra de África poderia ter tido outra solução que não a das independências?
R. - Devíamos ter continuado com a guerra. De resto, quem fazia a guerra não éramos nós, eram os russos e os chineses que faziam a guerra contra nós. Devíamos continuar com a acção defensiva da guerra, até que os povos africanos estivessem desenvolvidos. Nós fizemos um esforço enorme na educação desses povos. Fez-se mais em dez anos do que em todo o século anterior. Todo o sistema escolar progrediu imenso. Só faltava que a URSS acabasse para que lhes déssemos a independência.
P. - E o papel dos americanos, no meio disso?
R. - Já vai ver. Numa conferência que fiz no SNI, em 1966, previ o fim da URSS, lá para o fim dos anos 90. Deveríamos continuar com o nosso trabalho em Moçambique até aos anos 90, data em que a URSS acabaria, e nós dávamos-lhes, não a independência, mas a autodeterminação. E eles escolheriam o seu destino.
 [Cinco filhos, oito netos. Mostra-me retratos da família. As frases que diz agora apoiam-se mais em calor do que em ideias, mais em efusão do que em doutrina. "Mas a família pertence aos fundamentos daquilo que sempre defendi." Discreteia sobre África. Fala do tempo quase imóvel, da doçura dos poentes, da beleza estonteante das paisagens. "Agora, leio, escrevo, reflicto." Amigos e inimigos são unânimes: "O Kaulza é um obstinado, é um teimoso; mas é um homem de carácter e inteligentíssimo." Costa Gomes é um dos que sublinham estes traços da índole do seu antigo companheiro de armas e de amizades. Ergue-se do sofá onde se sentara para este diálogo em público. Diz: "Nós podíamos, em África, ter dado outra feição à História."]
P. - A chacina de Wiriamu.
R. - Quando sucede Wiriamu, estava em Lisboa. Passei todo o mês de Dezembro de 1972, até ao dia 21 ou 22, e depois fui para Moçambique, para passar o Natal com as tropas, como fazia sempre. Quando cheguei a Nampula, o brigadeiro Videira, que era o comandante da zona operacional de Tete, disse-me, mal cheguei ao aeroporto: "Há rumores de que as tropas fizeram abusos, num local chamado Wiriamu." "Onde era Wiriamu?", perguntei. "Não sei. Ninguém sabia onde ficava esse local. Até há quem pense que isso foi inventado." Fiz o que fazia sempre, porque, desde que chegara a Moçambique pela primeira vez, já tinha havido dezoito rumores de abuso das tropas. Ordenei, em todos os casos, que os serviços competentes investigassem esses rumores. E, desses dezoito rumores de abuso das tropas, três foram provados. E os prevaricadores foram a tribunal, e foram condenados. Também neste caso, ordenei ao serviço de justiça que abrisse um inquérito. Após um mês de investigações, concluiu-se que não havia nenhuma matéria que justificasse a existência desse rumor, logo, que houvesse algum crime. Mandei arquivar o inquérito, até que houvesse melhor prova.
P. - Bom. Mas a verdade é que, a partir de certa altura, deixou de ser um rumor, como diz o senhor general...
R. - Durante sete meses, após o arquivamento do inquérito, não se falou mais deste assunto. Mas, quando o Marcello Caetano foi a Londres, em visita oficial, na véspera, saiu no "The Times" uma coisa terrível sobre Wiriamu. Foi nessa ocasião que se deu o célebre incidente, em que dizem que, numa manifestação contra o Marcello Caetano, o Mário Soares pisou a bandeira nacional. Não sei se isso é verdade, mas o Mário Soares estava nessa manifestação, isso é um facto. Essa notícia, enviada para Londres pelo padre Hastings, fora mandada pelos padres espanhóis de Burgos, que eram nossos inimigos. Esses padres apoiavam os terroristas, guardavam o seu armamento, socorriam-nos. Tive de fechar quatro missões dos padres de Burgos, o que os deixou furiosos, e dois padres foram julgados em tribunal. Esses mesmos padres afirmaram em tribunal que eram inimigos de Portugal. Esses padres afirmaram que não queriam a nossa presença em Moçambique, que não queriam "perder o comboio", expressão deles. Foram os padres de Burgos que organizaram o escândalo de Wiriamu. O Marcello Caetano ficou arreliadíssimo, porque esperava fazer uma viagem triunfal, e não teve triunfo nenhum.
P. - E como é que o senhor reagiu?
R. - Voltei a Lisboa no dia 3 de Agosto de 1973. No fim de Agosto veio cá o Jorge Jardim, e disse ao Marcello Caetano, ao ministro da Defesa, Sá Viana, ao ministro do Ultramar, Silva Cunha, que houve uma coisa em Wiriamu mais grave do que aquilo que se pensava. O Sá Viana afirmou, depois, para os jornais, que parecia ter havido qualquer coisa grave em Wiriamu. O Marcello Caetano mandou fazer um inquérito, mas com gente daqui, o brigadeiro Nunes da Silva, com a sua equipa, que fizeram o terceiro inquérito de Wiriamu. E esse inquérito teve a mesma conclusão que os outros: não ocorreu nada em Wiriamu. Não houve nenhum crime em Wiriamu.
P. - O marechal Costa Gomes diz de si o seguinte: "Acho que o Kaulza de Arriaga se enganou quando foi para as Forças Armadas. Era uma pessoa muito inteligente, com grande capacidade de trabalho, foi aluno distintíssimo na Faculdade de Ciências (...), mas, quanto a mim, nunca foi, no entanto, um bom oficial."
R. - Isso que ele diz, na segunda parte, é completamente mentira. Já na primeira parte, é capaz de ser verdade o que diz. De resto, o marechal, ele até é marechal!, mente, e mente muito. Pensa-se que, neste livro que escreveu, descobriram-se, pelo menos, duzentas mentiras. Esse livro tem quatrocentas páginas, portanto, há mentiras página sim, página não, fora aquelas que não foram detectadas. Ele diz muito mal das minhas operações militares, que foram um desastre. Isso é tudo mentira. Essas operações, de que ele fala tão mal, foram óptimas, das melhores que fiz. Essas mentiras foram todas respondidas nos meus livros, e posso dar-lhe documentação sobre isso.
P. - O golpe de Botelho Moniz, ou a Abrilada de 1961, destinado a depor Salazar, e a colocá-lo na Suíça, com uma considerável fortuna, e grande conforto, foi abortado pelo senhor. Aquele não seria um caminho possível para a democratização do regime?
R. - Não. Como lhe disse, nunca poderia haver uma democratização, enquanto o problema do Ultramar não estivesse resolvido. A história do conforto do Salazar, só agora é que se fala nisso. Não tenho ideia nenhuma de que o Salazar fosse para a Suíça, com todo o conforto e bem tratadinho. Mais, o nome do golpe do Botelho Moniz é "13 de Abril". Isto é muito interessante: o golpe não foi impulsionado pelo Botelho Moniz. Ele estava doente da cabeça. Fui com ele a Paris, numa viagem oficial, e aquilo foi um desastre. Quem está atrás desse golpe é o Costa Gomes. Ele é que foi o cérebro desse golpe. E os Estados Unidos também estavam metidos nisso, lembre-se de que a Abrilada é feita no tempo do John Kennedy. O adido naval da embaixada americana em Lisboa, comandante Fitzpatrick, era da CIA, e dava-se imenso com o Costa Gomes. Soube disto tudo pelo próprio Botelho Moniz! Mais tarde, encontrei o próprio Fitzpatrick, que me corroborou a história.
P. - Como é que o senhor se opôs à tentativa do golpe?
R. - Percebi que ia haver um golpe militar. O Botelho Moniz queria reunir, no dia 13 de Abril às cinco da tarde, todos os generais. Se aderissem ao golpe, muito bem. A base das operações seria a Escola Prática de Infantaria, em Mafra. Pus a Força Aérea e os pára-quedistas, que era a melhor tropa da altura, de prevenção. Isto perturbou imenso o Botelho Moniz. Fui a essa reunião, o que foi um risco, e ele disse-me: "Porque pôs esta tropa de prevenção?" "Porque mandei! Tenho os pára-quedistas em Lisboa de prevenção." "Ninguém lhe deu ordens para isso." Respondi-lhe: "É a sua opinião. A minha é outra." Ainda julguei que o Botelho Moniz me prendesse, no final da reunião. E a coisa acabou da seguinte maneira, em que eu próprio me espantei com o modo como o fiz: a reunião de todos os generais, às cinco da tarde, era na Cova da Moura. Tinha o meu posto de comando no Aeródromo Militar. Às onze da manhã, chamei o Lumbralles e o Solari Allegro, que era uma espécie de chefe de gabinete do Salazar, e o chefe da casa militar do Presidente da República. Disse-lhes: "Às três da tarde, quero ouvir na Emissora Nacional a notícia de que foram demitidas certas pessoas e nomeadas outras. Se isso não acontecer, às cinco da tarde estamos em guerra civil, ou estamos todos presos." Isto era uma espécie de ultimato ao Salazar e ao Presidente da República! E, durante todo este processo, nunca falei com o Salazar! Não sei se ele, alguma vez, me perdoou isso. Eles saíram, chega o general Gomes de Araújo, e disse-lhe: "Arrisquei tudo. O senhor vai ser nomeado chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, e tem de impedir que os generais do Exército venham à reunião das cinco horas. Já impedi outros generais e almirantes. Só lá mandei ir o Albuquerque de Freitas." Ainda me perguntaram se achava que o Salazar devia ser ministro da Defesa interino. Achei mal, mas disse que os substitutos deviam estar ao encargo dos senhores. Não quis nomear ninguém. E, às três da tarde, lá apareceu a emissão, conforme eu pedi. Espantoso, não foi?
P. - Quer dizer, o Salazar seguiu as suas ordens!
R. - Sim, praticamente, seguiu-as. Às sete da tarde, o Salazar telefonou-me, e diz-me para me encontrar com ele. E disse-lhe: "Vou já aí, mas gostava que fizesse uma declaração pública." O que, para ele, era uma coisa terrível, mas diz-me o seguinte: "Uma declaração, por causa de uma remodelação ministerial de rotina?" E disse-lhe, espantado: "De rotina?" Tem piada, não tem? E, quando me dirigi, cometi um dos meus grandes erros. Cometi três ou quatro grandes erros, mas todos pela pátria, confesso. O problema do Salazar era que o general Albuquerque de Freitas queria passar à reserva. Disse que sim senhor, para deferir isso, mas também quis uma série de outros nomes. Só não dei o nome do Costa Gomes.
P. - Porquê?
R. - Olhe, por estupidez. Fiz a universidade, todo o percurso da minha vida, com o Costa Gomes, e pensei que ele poderia ser recuperado. Não era. Este país, sem o Costa Gomes, era outro. Quando entro no carro, o Salazar estava a fazer a declaração na rádio sobre a remodelação, que disse que não fazia! Chego a casa e está cá o Adriano Moreira, que tinha sido nomeado ministro do Ultramar. Estava eufórico com a nomeação, e porque, com a queda do Botelho Moniz, já não se entregava Angola aos americanos. A América queria Angola para o seu controlo. No fim, diz-me: "Meu caro Kaulza, a sua vida política vai acabar, porque o Salazar não lhe pode perdoar o serviço grande de mais que lhe prestou."
P. - Tem saudades do Salazar?
R. - Sim. Tive-as, sobretudo, com o Marcello Caetano. Porque como sei muito bem as relações que o Marcello teve com o Salazar, e as teve, depois, comigo, deve ter suposto que eu tinha saudades do Salazar. E tive-as, porque o Salazar era muito bom no contacto. Era um homem que não mandava em tudo, ao contrário do que se pensa. Por exemplo: fiz a minha tropa na Força Aérea, e o Salazar pouco intervinha nela. Só lá ia quando assinava decretos-leis. Só discordei dele por causa das enfermeiras pára-quedistas. "O senhor quer pôr mulheres na tropa? E logo nos pára-quedistas? O que será das rapariguinhas, no meio desses galfarros que são os pára-quedistas?", disse-me. Respondi-lhe: "A solução é simples. O senhor não sabe, mas as enfermeiras são todas de escolas religiosas, do mais sólido que há. Até as madres delas aprovam a entrada nos pára-quedistas. E os pára-quedistas não são galfarros, são a nossa melhor tropa."
P. - Qual é o seu conceito de liberdade?
R. - A liberdade é óptima, desde que não prejudique a liberdade dos outros, e não prejudique Deus, a pátria e a família.
P. - Como ocupa os seus tempos livres?
R. - Escrevo imenso. Leio, mas escrevo mais do que leio.
[No ano de 1955 estava em lua-de-mel. Salazar telefona-lhe: "De avião, já, para Lisboa!" Diz a Salazar que acabou de casar-se, que está em viagem de núpcias. Mas a pátria não admite intervalos, e a História é uma deusa exigente. "Apanhei o avião: tinha sido nomeado para o Governo, e no Governo servi, durante sete anos." Kaulza de Arriaga entende que a obrigação moral não pressupõe outra vontade além da que é determinada pela educação, pelo conhecimento do bem e do mal, e pela acumulação de experiências. Como um centurião, ele sabe muito bem que o poder de comando, de que dispôs, transformou-o numa personagem política, intimamente ligada a uma, por vezes dramática, dimensão histórica. Acompanha-me ao elevador. Sorri. "Podia ter sido. Mas não quis. Exactamente porque a coacção é exterior ao direito. E o valor supremo, a pátria."]

Os Pormenores Ocultados da Guerra Colonial

  «(...) Muitos dos temas tratados versavam questões de estratégia internacional de um mundo cada vez mais global, outros eram o reflexo da ...