quarta-feira, 8 de julho de 2026

Artur Agostinho - Um testemunho.

 




«Foi no dia 1 de Agosto de 1975 que cheguei ao Brasil para iniciar uma nova fase da minha vida. Nova e, além do mais, verdadeiramente imprevisível. 

De facto, emigrar aos cinquenta e cinco anos, nas circunstâncias em que o fiz, não me permitia pensar em grandes facilidades e, muito menos, em qualquer tipo de sucesso, a curto ou a médio prazo. Como é evidente, o "longo prazo" estava, à partida, fora de todas as conjecturas, por mais optimistas que elas fossem. De qualquer modo, as perspectivas não poderiam ser piores do que aquelas que, na altura, se me apresentaram em Portugal. 

Depois de três meses de detenção em Caxias - e apesar de terem caído por terra todas as miseráveis invenções construídas com o propósito evidente de denegrir a minha imagem -, ninguém parecia disposto a permitir que eu continuasse a exercer qualquer das actividades profissionais a que me dedicava. 

Os jornais, a rádio e a TV tinham-me fechado as portas. Ainda alimentei, durante alguns meses, a esperança de que o país regressasse à normalidade, mas a verdade é que não se vislumbravam quaisquer sinais de que isso viesse a suceder, pelo menos, a curto prazo. Havia, pois, que tomar providências urgentes, antes que o telhado me caísse em cima. E foi assim que, em Julho de 75, tomei a decisão de procurar reconstruir a minha vida noutras paragens. Onde? Era um caso a pensar com ponderação, sem precipitações. 

Enquanto não me decidia pelo rumo definitivo, escolhi Paris como uma espécie de escala para meditação, até porque tinha aí a facilidade de dispor do apartamento de um amigo que o colocara simpaticamente à minha disposição. Era pouco o dinheiro de que dispunha e tinha que pensar na minha mulher e nas minhas duas filhas que, pelo menos tão rapidamente, não estavam em condições de poderem sair do País. 

Permaneci dez dias em Paris e acabei por me decidir pelo Brasil. Tinha recebido notícias de um outro amigo, que já se encontrava no Rio de Janeiro e me dava conta das diligências que estava a desenvolver, no sentido de levar por diante um projecto relacionado com a actividade bancária. Eu não possuía a mínima formação profissional nessa área, mas o meu amigo esclareceu-me que pensara em mim para o departamento de Relações Públicas e Marketing, integrado no plano em que estava a tentar interessar um banco brasileiro. 

«Nada está certo - avisou-me - mas, se a minha proposta for aceite, seria bom que cá estivesses nessa altura". 

O Brasil era uma das prioridades que eu já havia considerado e, ainda que o tal projecto não passasse disso mesmo, decidi avançar para o Rio. 

O meu amigo Manuel Barbosa - hoje, um dos mais conhecidos e activos empresários de futebol mas, na altura, apenas um profissional da área de viagens e turismo -, sabendo das minhas limitadas disponibilidades financeiras, ofereceu-me uma viagem Paris-Rio. 

Comigo, viajou o António Horta e Costa, que fora funcionário da Casa de Portugal, em Paris, e daí transitara para a delegação do Banco Pinto & Sotto Mayor, onde passou a trabalhar sob a direcção de Alfredo Jardim. Era este o amigo comum que, no Rio de Janeiro, estava a trabalhar no já referido projecto. 

De facto, de acordo com a informação que chegara até mim, nada estava ainda concretizado em relação ao plano que visava criar um departamento especialmente destinado, não apenas a captar clientes portugueses mas, sobretudo, a dinamizar os seus negócios e outros investimentos. 

Fora o facto de eu ser uma figura muito conhecida da colónia lusa, especialmente através de uma presença constante nos relatos desportivos da Emissora Nacional, com grande audiência no Brasil, que levou Alfredo Jardim a integrar-me na sua equipa, de que também fazia parte Alberto Costa, outro homem que trabalhava na dependência parisiense do Banco Pinto & Sotto Mayor, desmantelada na sequência da nacionalização da banca. 

Por compreensíveis razões de ordem económica, eu e o Horta e Costa, logo no dia seguinte à nossa chegada, tratámos de procurar um pequeno apartamento mobilado que pudéssemos partilhar. Conseguimos encontrá-lo, suficientemente confortável e em condições razoáveis de arrendamento, na rua Almirante Gonçalves, em Copacabana, com janelas voltadas para a Avenida Atlântica, a dois passos do Hotel Miramar, em cuja esplanada se reuniam, todas as noites, muitos dos portugueses que, como nós, procuravam reconstruir as suas vidas. (...) 

Nos finais de 1977, a minha actividade era já intensa e diversificada, como, aliás, sempre foi do meu agrado. 

Assim, além de ter escrito, a solicitação do Baptista Rosa, o meu segundo livro - Português sem Portugal -, que, pela boa aceitação que teve, me proporcionou alguns proventos sempre bem-vindos, acabei por me lançar em mais uma aliciante aventura: fundar um jornal desportivo destinado especialmente aos portugueses residentes no Brasil. Foi das experiências mais interessantes da minha vida, que tive de interromper quando decidi regressar a Portugal.

(...) Depois de uma permanência de seis anos no Rio, regressei a Lisboa em Janeiro de 1981. 

Pisar de novo terra portuguesa foi, sem dúvida, uma sensação estranha e profundamente emotiva para quem chegou a emitir a hipótese de não voltar a Portugal. O país voltara praticamente à normalidade, depois de um longo período de quase permanente agitação e instabilidade. Eram evidentes algumas marcas de um passado ainda próximo, que só o tempo poderia apagar. Havia feridas por cicatrizar e muitas desconfianças e incertezas. Mas havia, em contrapartida, uma grande esperança num futuro melhor, alicerçado numa democracia que parecia, finalmente, em vias de consolidação. Toda (ou quase toda) a gente tinha uma perfeita noção da crise em que o país mergulhara e ninguém duvidava do alto preço que os portugueses teriam que pagar pela factura de muitas loucuras e erros cometidos. 

Seja como for, o Portugal que vim encontrar seis anos depois de ter partido, com tristeza e amargura, para uma aventura de desfecho imprevisível, era já um país consciente da necessidade de muitos e pesados sacrifícios. Na verdade, só assim seria possível alcançar a recuperação desejada, indispensável para definir um novo rumo, capaz de nos conduzir a um futuro melhor». 

Artur Agostinho («Ficheiros Indiscretos»). 


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