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quinta-feira, 22 de outubro de 2026

O Analfabetismo em Portugal

 


O ANALFABETISMO EM PORTUGAL

1) ANALFABETISMO INFANTIL E JUVENIL (10-14 ANOS)

*O grupo etário padrão internacional e estatisticamente adotado em Portugal para avaliar esta matéria era quase sempre o dos 10 aos 14 anos.
*Europa (foram considerados apenas os principais países da Europa Ocidental e do Norte como Alemanha, Reino Unido, França, Países Baixos e os Países Nórdicos)

Os censos oficiais permitem traçar o retrato exacto de década para década, desde a transição da Primeira República até ao final do Estado Novo:

​1.1 ) FINAL DA PRIMEIRA REPÚBLICA/ INÍCIO DA DÉCADA DE 1930

TAXA DE ANALFABETISMO INFANTIL/ JUVENIL ( PORTUGAL) = 58%

No final da Primeira República , mais de metade das crianças portuguesas em idade escolar crescia sem saber ler nem escrever. A escassez de edifícios escolares, a dispersão rural e a necessidade de as crianças trabalharem no campo desde cedo faziam com que a frequência escolar fosse muito baixa e a interrupção precoce a regra.

​TAXA DE ANALFABETISMO INFANTIL/ JUVENIL ( EUROPA)= INFERIOR a 1% a 2%

1.2) DÉCADA DE 1940

TAXA DE ANALFABETISMO INFANTIL/JUVENIL ( PORTUGAL)= 35% a 40%.

É nesta década que o Plano dos Centenários (1941) começa a ser implementado no terreno. A construção progressiva de milhares de escolas primárias em aldeias e freguesias isoladas aproximou o ensino das populações rurais, invertendo de forma visível a curva do analfabetismo entre os mais jovens.



​1.3) DÉCADA DE 1950

TAXA DE ANALFABETISMO INFANTIL/JUVENIL ( PORTUGAL)= 24%

O esforço construtivo da década anterior e a consolidação da rede de escolas primárias (muitas com regentes escolares e professores primários a abranger as aldeias mais remotas) produziram efeitos claros: a geração que cresceu nos anos 40 e 50 já frequentou a escola de forma muito mais regular, reduzindo o analfabetismo infantil para menos de metade do valor verificado em 1930.

TAXA DE ANALFABETISMO INFANTIL/JUVENIL ( EUROPA) = 0%.

1.4) DÉCADA DE 1960

TAXA DE ANALFABETISMO INFANTIL/JUVENIL ( PORTUGAL):= 3%

A rede escolar estava praticamente universalizada no continente. Para a faixa etária estritamente em idade escolar obrigatória, o analfabetismo deixou de ser um problema estrutural massivo, ficando cingido a situações muito específicas de isolamento extremo, abandono escolar precoce ou deficiências na assistência
A taxa sofreu uma quebra drástica, descendo para cerca de 3% (conforme registado pelos Censos de 1960). O impacto da rede de escolas primárias construída nas décadas anteriores começou finalmente a refletir-se de forma muito clara nas novas gerações.

1.5) INÍCIO DA DÉCADA DE 1970 ATÉ 1974 ( PORTUGAL/ FIM DO ESTADO NOVO)

TAXA DE ANALFABETISMO INFANTIL/JUVENIL ( PORTUGAL) = 1%.

À data do final do regime em 1974, a escolaridade elementar estava assegurada para a esmagadora maioria das crianças em idade escolar.

O problema do analfabetismo em Portugal já não estava nas crianças ou nos jovens, mas apenas na população adulta e idosa (cerca de 20 % a 25% , sobretudo mulheres nas zonas rurais do interior), que acumulava o atraso educacional herdado do início do século (muito anterior ao Estado Novo) e que nunca tinha tido acesso regular à escola na sua infância.

Enquanto a Europa Ocidental já tinha resolvido o problema do analfabetismo infantil e juvenil antes mesmo do século XX começar (ou, o mais tardar, no período entre-guerras), Portugal só atingiu esse patamar de quase erradicação nas crianças exatamente nos anos 60 e inícios dos anos 70 do século XX — graças ao esforço continuado de construção escolar que o Estado Novo empreendeu, sobretudo através do Plano dos Centenários e da expansão da rede primária.

​O fosso histórico de Portugal não estava no Estado Novo, mas sim no ponto de partida extremamente atrasado com que o país entrou no século XX em comparação com o resto da Europa desenvolvida.




ANALFABETISMO EM ADULTOS E IDOSOS

ESTADO NOVO

Combater o analfabetismo numa população adulta e idosa, sobretudo espalhada pelas aldeias mais isoladas do interior rural, era um desafio gigantesco.

Para tentar dar resposta a este problema, o Estado Novo e várias entidades recorreram a diferentes estratégias ao longo das décadas:

​1. As Campanhas Nacionais de Alfabetização de Adultos

​O Estado criou em várias fases, com maior destaque a partir das décadas de 1950 e 1960 (e em articulação com organismos como a Junta de Acção Social e a Acção Católica), campanhas de alfabetização de adultos.
Eram criados cursos noturnos, muitas vezes utilizando as próprias salas das escolas primárias (as mesmas do Plano dos Centenários) logo que as crianças terminavam as aulas.
Os professores primários acumulavam frequentemente essas funções noturnas, sendo pagos extra para ensinar os adultos da aldeia a ler, escrever e fazer contas básicas.

2. O Papel da Mocidade Portuguesa e do Serviço Cívico

​Em várias épocas, foram mobilizados professores estagiários, jovens do ensino secundário e superior ou membros de organizações do regime para campanhas de choque nas aldeias, tentando ensinar a ler e escrever a homens e mulheres já feitos.

​3. Os Desafios e os Limites

​Apesar destes esforços, o combate ao analfabetismo adulto esbarrou sempre em barreiras muito difíceis de ultrapassar:

A Prioridade das Crianças: Os recursos financeiros e logísticos do Estado foram, compreensivelmente, canalizados em primeiro lugar para travar o analfabetismo infantil (garantindo que as novas gerações já não cresciam analfabetas).

​A Sobrevivência Económica: Para os mais velhos, o cansaço físico do trabalho agrícola diário, afastava-os dos bancos da escola à noite.

​A Realidade Cultural: Em muitas comunidades, havia também o peso de uma mentalidade tradicional que julgava que saber ler e escrever não trazia utilidade prática imediata para quem vivia exclusivamente da terra.

É por isso que, quando o Estado Novo terminou em 1974, embora o problema nas crianças estivesse praticamente resolvido (com o analfabetismo infantil reduzido a cerca de 1%), a franja dos adultos mais velhos — sobretudo mulheres no norte e centro interior — continuava a carregar esse pesado défice educacional acumulado ao longo de todo o século XIX e inícios do século XX.

APÓS O 25 ABRIL DE 1974
A substituição demográfica natural — ou seja, o falecimento das gerações mais idosas que tinham nascido no final do século XIX ou início do século XX e nunca tinham tido acesso à escola — foi o principal motor estatístico para a redução do analfabetismo nas décadas seguintes a 1974.
​No entanto, o período democrático também implementou iniciativas específicas para tentar combater o problema diretamente entre os adultos que ainda restavam. Eis como o processo se desenhou:
1. Campanhas de Alfabetização e Educação de Adultos no Pós-25 de Abril
​Logo a seguir a 1974, e sobretudo nos anos 80 e 90, houve um forte impulso institucional para a educação de adultos:
Campanhas Nacionais: Foram lançados programas públicos de alfabetização e de "Educação de Base de Adultos", muitas vezes dinamizados por associações locais, autarquias, movimentos cooperativos e sindicatos.
​O Movimento Associativo e as Autarquias: Em muitas localidades, centros culturais, coletividades e juntas de freguesia organizaram aulas noturnas para ensinar os adultos mais velhos a desenhar as primeiras letras e a assinar o nome.
2. Mais tarde, surgiram programas estruturados para permitir que os adultos completassem equivalências escolares, ou seja, ATALHOS DE CERTIFICAÇÃO EM MASSA, QUE PRIORIZARAM A CONTAGEM ESTATÍSTICA DE DIPLOMAS PARA CUMPRIR METAS POLÍTICAS E EUROPEIAS EM DETRIMENTO DO RIGOR PEDAGÓGICO.
Quando se criam vias em que a validação de percursos profissionais ou modulares abre portas a equivalências de nível secundário sem a exigência do estudo regular correspondente, gera-se inevitavelmente uma perceção de grande injustiça para com todos aqueles que cumpriram escrupulosamente o percurso escolar normal, enfrentando exames, testes e avaliações rigorosas.
Essa discrepância alimenta a ideia de que, por vezes, se prefere mascarar a realidade com números e estatísticas bonitas nos relatórios oficiais do que garantir que a qualificação formal corresponde efetivamente a saberes reais e consolidados.
Apesar destas campanhas, os especialistas em educação reconhecem que ensinar a ler e a escrever a um adulto já com idade avançada continuou a ser uma tarefa hercúlea, pelas mesmas razões do passado: o cansaço, a vergonha de voltar a sentar-se numa carteira de escola e a falta de utilidade prática imediata no dia a dia de quem já estava reformado.
​Por isso, a quebra dramática do analfabetismo em Portugal nas últimas décadas do século XX e inícios do século XXI deveu-se, sobretudo, à morte natural das gerações mais velhas não escolarizadas combinada com a entrada em idade adulta de gerações que já tinham cumprido a escolaridade obrigatória integralmente nas escolas construídas no pós-guerra e durante o regime democrático.

Ana Mandim

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