Suaves
Cavaleiros
1 - O que os governos idolatram
O governo das sociedades contemporâneas é orientado segundo um princípio absolutizado e universalizado, a que tudo se deve subordinar: o princípio da economia.
O predomínio absoluto deste princípio começou por constituir a arma que conquistou para a burguesia o domínio das sociedades. Conquistado esse domínio, logo o princípio da economia se revelou instrumento da mais flagrante e dolorosa injustiça. Multiplicaram-se as suas vítimas vertiginosamente, até abrangerem a quase totalidade dos homens.
Quando essa injustiça, assim estabelecida, ficou patente e adquiriu as proporções de escândalo, procurou-se atribuir às modalidades e processos de aplicação do princípio, não ao próprio princípio, a sua origem e causa. Mantendo-se assim, no seu pedestal, esse princípio absoluto e único, reforçando-o e elevando-o até mais alto, dividiram-se em duas correntes principais os adoradores do ídolo - chamaram-se uns socialistas, chamaram-se outros capitalistas. O que os distingue é apenas a modalidade, o processo daquilo que ambos os grupos designam por «distribuição da riqueza», designação sarcástica pois do que efectivamente se trata é da «distribuição da pobreza». De qualquer modo, o ídolo é o mesmo, o princípio fica intocável e sua soberania continua a ser total.
2 - O contrário das revoluções inúteis
Ora o que nos anos mais recentes começou a ser posto em causa foi o próprio princípio. Não apenas a sua soberania, mas ele mesmo, como príncipio ordenador de classes, hierarquias e possibilidades de vida dos homens integrados nas organizações sociais.
Quem o põe em causa, sejam personalidades ou grupos que se vão manifestando aqui e além, sem propósito coordenado e prévio, logo sofre o ferrete social do réprobo, imediatamente se vê segregado. Como os cristãos refugiados nas catacumbas, como tudo o que os cristãos representaram na fase final declínio de uma civilização e início de outra. E, ao contrário das revoluções inúteis - as que se destinam a mudar «o que isto é por aquilo que isto tem sido, ou as que se destinam a convencer-nos a todos de que «é preciso que todos mudem para que tudo fique na mesma» - ao contrário dessas espalhafatosas revoluções inúteis, os que põem agora em causa o princípio soberano da ordem e da injustiça fazem-no silenciosamente. Sem ruído, sem escândalo. Suaves cavaleiros.
3 - O regresso à natureza
Uma das manifestações é o regresso à natureza. O princípio soberano da economia abomina e condena a natureza. Os próceres dele, no dealbar do seu domínio, logo o condenaram. Na origem, Lutero. Depois Kant pôde dizer: «Falam-me da beleza de um céu estrelado... A mim, um céu cheio de estrelas apenas me lembra um rosto picado de bexigas». E outro, Hegel: «Vale mais a mínima ideia que perpassa no cérebro de um homem, do que o mais deslumbrante espectáculo de natureza.» ou « Que dizer das montanhas e sua beleza? Apenas isto: que elas aí estão». E logo outro, repetitivo, o sacerdote-mor da economia, Marx: «A vida rural? O idiotismo da vida rural!».
A natureza tem ritmos e cadências que só não desesperam os economistas e esta sua sociedade e civilização porque de vez os expulsaram dela e até julgaram tê-los expulso da real existência humana. A natureza, apenas a querem para lhe extrair as matérias primas da indústria. Mais nada. Os ritmos sociais da vida humana devem ser, hão-de de ser, são os industriais. Como industrial é toda a riqueza, toda a produção, todo o trabalho. Na indústria, sim, os ritmos são iguais, certos, inalteráveis; não estão sujeitos, como a natureza e os seus modos de criação, ao capricho imprevisível e à diversidade intolerável dos climas, estações, secretos ritmos e sopros. São planeáveis e contabilizáveis, introduzem-se em estatísticas, sujeitam-se ao cálculo e à previsão seguríssima.
Além disso, a natureza não pode ser o lugar do homem. O lugar do homem não é um lugar natural. O lugar do homem é a cidade - melhor, o burgo. Porque a cidade é romana e grega, sem muralhas em volta para a defender dos inimigos ou a proteger da natureza circundante. O lugar do homem é o burgo que nasce nas casas encostadas aos castelos e se alarga em ruas estreitas e sem praças, hoje só ruas para máquinas e rotundas para as máquinas virarem. Os campos em volta cortam-se de rodovias e cobrem-se de fábricas, e dos fumos e dos esgotos dessas fábricas. Industrializam-se.
4 - Marx está errado!
O princípio económico começa, pois, a ser posto em causa. Claro que nunca ele foi reconhecido pelos que sabem: os que simplesmente sabem ou, concedamos, sabem do homem, de sua natureza e seu espírito. Agora, porém, são as vítimas que se começam a erguer.
O sinal mais ostensivo veio de um estado americano, a Califórnia, que só por si tem sido a quinta potência industrial do mundo. Foi aí que as populações, ricas e prósperas, primeiro se surpreenderam de já não possuírem a natureza de que sempre tinham usufruído; os mares poluídos, as praias transformadas em esgotos, a atmosfera saturada de fumos, os campos cobertos de casas e ruas a perder de vista. Depois, sobre o assim sensível aos olhos, o que é sensível à inteligência e à alma: a uniforme monotonia do trabalho industrial, a ausência de descanso, repouso ou remanso, a carência de valores espirituais e psíquicos. Ao lado de todo este vazio, de toda esta inutilidade humana, que vale a famosa prosperidade económica? Que representa ela? Por que preço se paga?
E em breves anos a população da Califórnia vê surgir, formar-se, ampliar-se ameaçar as estruturas institucionais e políticas da quinta potência industrial do mundo, uma nova e perturbante espécie social. E verifica, com espanto, que há vozes que se erguem e se ouvem contra a industrialização, contra a idolatria do princípio económico, contra a monotonia do trabalho fabril, contra a sua próspera e ôca produtividade. As vozes dirigem-se também aos possidentes e aos proletários, e procuram ser persuasivas. A minoria inicial alarga-se subitamente e representa quase um terço da população. Orlando Vitorino in «A Ilha» Sup.cultural nº4/1 a 14 Jan.1971 |
Sem comentários:
Enviar um comentário