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quinta-feira, 2 de abril de 2026

Era um país onde todos eram ladrões.

 






"À noite, cada um dos habitantes saía com uma gazua e uma lanterna surda, para ir saquear a casa de um vizinho. Ao voltar, ao amanhecer, carregado, encontrava sua casa invadida.

E todos viviam em concórdia e sem danos, porque um roubava o outro, e assim por diante, até chegar ao último que roubava o primeiro. Naquele país, o comércio só era praticado sob a forma de confusão, tanto do vendedor como do comprador. O governo era uma associação criada para o crime em detrimento dos súbditos e, por seu lado, os súbditos só pensavam em defraudar o governo. A vida passava sem tropeços, e não havia ricos nem pobres.

Mas eis que, não se sabe como, apareceu no país um homem honesto. À noite, em vez de sair com o saco e a lanterna, ficava em casa fumando e lendo romances.

Os ladrões chegaram, viam a luz acesa e não subiam.

Isso durou um tempo; depois teve que lhe dar a entender que se ele queria viver sem fazer nada, não era uma boa razão para não deixar os outros fazerem. Cada noite que eu passava em casa era uma família que não comia no dia seguinte.

Perante estas razões, o homem honesto não podia se opor. Ele também começou a sair à noite para voltar ao amanhecer, mas não ia roubar. Era honesto, não havia nada a fazer. Ia até a ponte e ficava olhando a água passar. Ia para casa e encontrava-a saqueada.

Em menos de uma semana o homem honesto se encontrou sem um centavo, sem ter o que comer, com a casa vazia. Mas até aí não havia nada a dizer, porque a culpa era dele; o mau era que desse modo de proceder nascia uma grande desordem. Porque ele se deixava roubar tudo e, entretanto, não roubava ninguém; de modo que havia sempre alguém que ao voltar ao amanhecer encontrava a sua casa intacta: a casa que ele deveria ter roubado. O fato é que depois de um tempo os que não eram roubados ficaram mais ricos que os outros e não quiseram continuar roubando. E por outro lado, aqueles que iam roubar a casa do homem honesto encontravam-na sempre vazia; de modo que se tornavam pobres.

Entretanto, os que tinham ficado ricos se acostumaram a ir também à ponte à noite, ver a água correr. Isso aumentou a confusão, porque houve muitos outros que ficaram ricos e muitos outros que ficaram pobres.

Mas os ricos viram que indo de noite para a ponte, depois de um tempo eles ficariam pobres. E eles pensaram: "Paguemos aos pobres para que eles possam roubar sozinhos". Formaram-se contratos, definiram-se os salários, as percentagens: naturalmente eram sempre ladrões e tentavam enganar-se uns aos outros. Mas, como normalmente acontece, os ricos ficaram cada vez mais ricos e os pobres ficaram mais pobres.

Havia ricos tão ricos que não precisavam mais roubar ou fazer roubar para continuar ricos. Mas se eles parassem de roubar, ficavam pobres porque os pobres lhes roubavam. Então eles pagaram aos mais pobres dos pobres para defenderem dos outros pobres suas próprias casas, e assim instituíram a polícia e construíram as prisões.

Dessa forma, poucos anos após o advento do homem honesto, já não se falava de roubar ou de ser roubado, mas apenas de ricos ou de pobres; e no entanto todos continuavam sendo ladrões.

Honrado, só havia aquele cara, e não demorou a morrer de fome. "

Ítalo Calvino | A ovelha negra

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